Bill Laswell
Baselines
CELLULOID, DISTRI. MEGAMÚSICA
Bill Laswell, o maior faz-tudo da música actual, no sentido em que faz realmente tudo, desde produzir, editar e tocar com toda a gente até investigar nas mais recônditas áreas musicais, assina aqui um dos seus projectos mais conseguidos, num território – o da “funky” urbano-tribal – que ele ajudou a desbravar com os Material e os Massacre. Neste disco, Laswell procede como que à dissecação das possibilidades do baixo eléctrico (utiliza cinco variedades deste instrumento), enquanto catalisador e aglutinador de núcleos rítmicos que, partindo das raízes africanas, foram rapidamente assimilados pela cultura de rua norte-americana e, em paralelo, transformados pelas novas tecnologias de reprodução e samplagem. Em “Baselines” não está ainda patente o lado “etno” que viria a tornar-se obsessivo, na procura de linhas de dança hipnóticas que seriam levadas ao extremo da música cósmica electrónica, na parceria de Laswell com o sintetista Pete Namlook, para o selo Fax. Era ainda o tempo da liberdade e da manipulação do jazz, por um “combo” de privilegiados em que figuravam Michael Beinhorn, Ronald Shannon Jackson, George Lewis, Ralph Carney, Fred Frith, Martin Bisi e David Moss, a nata de uma certa vanguarda que soube dotar a experimentação com a energia e o “punch” rítmico característicos do rock. (8)
QUINCY JONES/VÁRIOS
Listen up – The Lives of Quincy Jones
LP / CD, Quest, distri. Warner port.
Um “poster” com as dimensões aproximadas de 100 por 80 cm a anunciar em letras garrafais o título do filme e do disco. Cento e noventa e duas páginas no formato de livro, profusamente ilustradas, que incluem declarações de toda a gente e do próprio sobre essa figura monumental que dá pelo nome de Quincy Jones. Um CD com mais de uma hora de, não diremos música, mas um punhado de amostras da dita. Sentimo-nos atordoados com tanta informação, tanto luxo, tantas letras impressas em cores garridas, tantos nomes importantes. Pasmamos como foi possível enfiar (é o termo) tantas e tão belas canções em, mesmo assim, tão pouco tempo de… música… Calamo-nos, comovidos, perante o sublime das intenções: a obra é dedicada àqueles que “têm a coragem de concretizar as suas visões, ultrapassaram os obstáculos e iluminaram o caminho de outros”. Quincy Jones, músico e produtor, sobretudo produtor, é uma espécie de rei Midas da indústria discográfica norte-americana. Tudo em que toca vende. Não espanta pois que, passados anos e anos de bons e dedicados serviços, essa mesma indústria lhe esteja mais que reconhecida e tenha resolvido homenagear em vida um dos seus maiores beneméritos. Quincy não se poupa a esforços, se bem que solte alguns desabafos do tipo “às vezes penso que gostaria de ter um emprego mais estável”. Filme, livro e disco servem como objectos promocionais de uma figura que se pretende elevar a um estatuto mítico. Sabendo-se como na América os mitos vendem e se exportam melhor, torna-se fácil descortinar qual é de facto o maior objectivo da presente edição. Junta-se o útil ao agradável e fica toda a gente feliz, já que muita cor, muitas páginas e um CD e “poster” a condizer sempre operaram maravilhas nos corações palpitantes e mentes habilmente programadas do consumidor e mais ainda nos bolsos dos felizes autores da ideia. Em relação ao CD torna-se penoso falar de música. Na faixa número quinze (4’ 28’’), comprimem-se nove temas, amostras de pouco mais que alguns segundos cada, onde cabem a introdução instrumental de “We Are the World”, George Benson, os Brother Johnson, Lesley Gore (em mais alguns segundos de “It’s My Party”), Nick Ashford, Valerie Simpson e Chaka Kahn, numa (entre outras) molhadas aqui eufemisticamente designadas por “medleys”. All Star Choir, Ray Charles, Chaka Khan, Ella Fitzgerald, Siedah Garrett, Al Jarreau, Bobby Mcferrin, Take 6, Sarah Vaughan (estes seis últimos juntos durante breves instantes, em “Wee B. dooinit”), Tevin Campbell e os “rappers” Ice-T, Big Daddy Kane, Kool Moe Dee lutam por um pouco de espaço nas oito peças acopladas que constituem “Back on the Block Album”, “medley” de 5’ 36’’. Frequentemente os temas são introduzidos (e parasitados) pela voz de Quincy, em histórias de si próprio e da obra, deste modo obstando a que se possa ouvir a música pela música. Nos dois minutos e picos que dura “Fly Me to the Moon”, as palavras com que Frank Sinatra se anuncia – “Hello, my name is Frank Sinatra” – soam quase pornográficas. Tudo se reduz a uma gigantesca estratégia de “marketing” visando a obtenção de não menos gigantescos lucros. Fica-se a odiar o capitalismo e a livre iniciativa, ao mesmo tempo que se lamenta a morte precoce do comunismo. Apetece agitar bandeiras vermelhas, fazer ocupações selvagens e aderir a um partido de extrema-esquerda. O próprio leitor de CD aparece como um objecto suspeito ao serviço do imperialismo americano (mesmo se a marca for japonesa). Nomes que fizeram história na música, como as orquestras de Count Basie e Lionel Hampton ou os cantores Sarah Vaughan, Aretha Franklin e Ray Charles aparecem aqui reduzidos a meros enfeites, instrumentos promocionais, perdidos entre a normalização vigente. Como lutar então contra tal situação? Contra a falta de vergonha generalizada, numa operação concertada, destinada a acabar de vez com a música? Boicotando o filme, o livro, o “poster” e o disco! Tapar ou ouvidos e fechar os olhos. Bater com os pés no chão e cantar a plenos pulmões, um fado, o cochicho ou um cântico devocional tibetano, se alguém lá em casa insistir em não desligar a rádio. A alternativa é desistir, gostar do disco e agradecer ao “grande irmão”. *