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Van Morrison – “Van Morrison Em Portugal, Com Datas A Confirmar – Sem Guru, Sem Método, Sem Mestre”

cultura >> sábado, 16.01.1993


Van Morrison Em Portugal, Com Datas A Confirmar
Sem Guru, Sem Método, Sem Mestre


Desta vez é a sério. Van Morrison, cantor irlandês de voz como a dos negros – diz-se sempre isto quando se ecreve sobre ele -, tem concertos agendados para Lisboa e Porto, respectivamente a 19 e 20 de Fevereiro, datas prováveis em salas a designar. Noites de “Gloria” anunciada.



Muitos chamam “génio” a este cantor-autor veterano a quem se deve a invenção da “celtic soul” – música de raiz celta interpretada com a mesma paixão com que os negros se entregam a todas as notas que nascem dos “blues”. É oq eu se poderá verificar nos concertos portugueses que a R & B organiza, gorados que foram os espectáculos do cantor anunciados há dois anos na capital.
Comparam Van Morrison a Dylan, pela importância que sempre concedeu às palavras, pelo peso de uma obra marcada por um cunho pessoalíssimo iniciada nos primórdios dos anos 60 com os Them. Dylan escreveu “Blowin’ in the wind”, em 63, Morrison assinou “Blowin’ your mind”, quatro anos mais tarde. É uma diferença importante, que se expressa nestas duas maneiras de soprar. Enquanto o americano se fez porta-voz dos ideais de toda uma geração (o que não deixa de ser curioso em alguém cuja voz tendia e tende a desafinar…), o irlandês preferiu o caminho da introspecção, da luta e da descoberta interior, como formas de dizer aos outros a utopia. Um anarquista.
Nos Them, o grupo que projectou o seu nome na cena pop internacional, Van Morrison foi responsável por um dos hinos psicadélicos dos anos 60, “Gloria”, que viria a ser recuperado ao longo das décadas seguintes em várias versões, das quais se destaca a de Patti Smith incluída no álbum estreia de 1976, “Horses”. A insatisfação com a editora, a par da necessidade de controlo absoluto sobre o seu trabalho, levaram-no a pôr fim a este projecto, em 1966, para se dedicar a uma carreira a solo.

Entre Dois Mundos

Só consigo mesmo desenvolveu um estilo, no qual procurou juntar tradições distintas – os “blues”, que aprendeu a sentir com Leadbelly, e a música irlandesa. Equilíbrio difícil de manter, entre a negritude que lhe escorria pela voz e o verde esmeraldino da ilha encantada. Entre estes dois mundos nasceram as canções. Entre a urgência de pregar ao mundo a mensagem evangélica (sim, Van Morrison desde cedo evidenciou uma costela religiosa, patente na maior parte dos seus álbuns) e o recolhimento.
“Astral Weeks”, de 1968, é considerada a sua primeira obra-prima. Semanas de viagem pelo plano astral que demoraram em estúdio somente dois dias a gravar. Álbum de assombramentos místicos, de enigmas e contradições que o tempo tem vindo a desvelar.
Depois, já no plano material, seguiram-se os passos, que não os do calvário, que o conduziram à fama. Quer dizer, À colaboração com Georgie Fame, outro cantor negro por dentro e branco por fora. Entre os pecados deste irlandês natural de Belfast (convém aqui notar o facto de os irlandeses conseguirem conciliar o cristianismo com um lado mais belicoso, chamemos-lhe assim. Em que outro país, senão na Irlanda, TODA a Irlanda, se pode ser ao mesmo tempo anarquista e cristão, e ver padres de metralhadora em punho?) contam-se um duo com Cliff Richard (em “Whenever God shines his light”) e ter deixado Tom Jones ruminar quatro canções suas num disco em que também este canastrão deixou vir ao de cima a transcendência.

O Diálogo Com Deus

Os álbuns imensos, resgataram-no. Uns mais do que outros, é verdade. Sobretudo “Moondance”, “St. Dominic’s Preview”, onde bebe na mesma fonte de “Astral Weeks” e se aproxima ainda mais do céu, “Beautiful Vision”, “No Guru, No Method, No Teacher” e “Irish Heartbeat” – este último na companhia dos Chieftains, banda emblemática da música tradicional da Irlanda – aqueles em que explorou mais fundo o filão celta.
Consumada a consagração pública na actuação ao vivo, no estádio de Wembley, em 1984, ao lado de Dylan, Van Morrison passou a preocupar-se quase em exclusivo com o diálogo com Deus. Não espanta, deste modo, a sua inflexão nas sonoridades “gospel” que ocupam lugar privilegiado no álbum de 91, “Hymns to the Silence”. Van Morrison decidiu subir. “Sem guru, nem método, nem professores”, como ele próprio disse. Quem quiser e puder que o acompanhe.

The Chieftains – “Another Country”

pop rock >> quarta-feira, 13.01.1993


The Chieftains
Another Country
CD RCA Victor, import. VGM



Em “The Concerts in China”, foi o diálogo entre as músicas tradicionais irlandesa e chinesa. “Celtic Wedding” era inteiramente dedicado à música da Bretanha. “Celebration” incluía temas da Galiza e a presença dos Milladoiro. Os Chieftains, o grupo mais internacional da vaga “folk” irlandesa são hoje uma instituição que tudo se pode permitir. Paddy Moloney e os seus companheiros passeiam-se pelo mundo e no mundo descobrem semelhanças e parentescos com outras tradições. Desta feita as atyenções incidiram na “country Music” da América do Norte, concretizadas num projecto há muito acalentado pelo tocador de “uillean pipes” da banda (mais precisamente há 30 anos, altura em que Paddy Moloney apresentou um programa radiofónico que procurava aproximar estes dois géneros musicais que o oceano separa).
Gravado em Nashville, santuário da “country music”, “Another Country” é uma saudação efusiva ao “amigo americano”, expressa ora na marcação de distâncias e das diferenças existentes entre duas tradições que desde o início mantêm uma relação de parentesco, ora na interpenetração festiva das duas linguagens postas em confronto, como acontece no imparável “medley” de doze minutos que encerra em ambiente de festa aquele que é talvez o mais extrovertido álbum em toda a carreira dos Chieftains. No meio das sumidades convidadas – Chet Atkins, Emmylou Harris, Willie Nelson, Ricky Scaggs, Colin James e vários membros da Nitty Gritty Dirt Band -, os violinos de Martin Fay e Séan Keane movimentam-se como peixe na água. E sabe bem saborear a música dos “cowboys” além dos banjos, harmónicas e “dobros”, tornada mais verde e húmida por uma gaita-de-foles e uma harpa. Um país a (re)descobrir. (8)

Four Men & A Dog – “Barking Mad”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


FOUR MEN & A DOG
Barking Mad
CD, Cross Border Media, import. Mundo da Canção

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Virtuosismo em quinta velocidade e humor em contramão é com estes quatro homens e um cão, alucinados e com a irreverência de um foguete fora de controlo. “Barking Mad”, álbum de estreia, retoma o lado mais lúdico da tradição irlandesa e abraça de passagem os sons que estavam mais à mão: o “rockabilly”, o “funky” céltico e, numa das faixas, até um “whiskey rap”, ou seja, um “wrap”, de boa feituradenotória, além disso, uma certa aproximação aos ritmos country em grande parte devido ao tom imprimido por Mick Daly (The Lee Valley String Band, Any Old Time) e ao predomínio instrumental dos banjos, aqui manuseados nada menos que por três músicos – Mick Daly, Cathal Hayden (fabuloso no violino; investigue-se o seu álbum a solo “Handed Down”) e Brian McGrath.
Gino Lupari, gordo de não caber na fotografia, é o mestre das percussões (inexcedível nos “bonés” e no “bodhran”) e piadista de serviço. Temas como “Wrap itu p” (o tal “wrap”) e “Short fat family” não parecem ter muito a ver com folk mas não é por isso que deixamos de os dançar. Richard Thompson e Peter Case contribuem com a assinatura de dois temas, “Waltzing’s for dreamers” e “Hidden love”. O resto é a loucura das jigas, “reels” e polkas, e seja o que Deus quiser. (7)