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Camané Lança Segundo Álbum “Na Linha Do Fado” – Entrevista –

20.02.1998
Camané Lança Segundo Álbum
Na Linha Do Fado
“O Fado retrata a vida como ela é, de uma forma muito profunda”. Por isso, “Na Linha da Vida”, segundo álbum do fadista, é o mesmo que dizer “na linha do fado”.

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“Na Linha da Vida” sucede a “Uma Noite de Fado” na carreira de
Camané, um jovem fadista que faz do fado profissão de fé. Fados tradicionais, composições de José Mário Branco, José Luis Gordo, João Fereira-Rosa e textos de Fernando Pessoa, Antero de Quental e Manuela de Freitas contribuem para a renovação de um género, com “espírito” e “sabor” próprios que vivem da “comunicação” e da “interpretação”.

FM – O que fez no intervalo de dois anos entre o disco novo e o antigo?

CAMANÉ – Canto no Senhor Vinho. Entretanto, tenho feito espectáculos, no país e no estrangeiro, em festivais de música como o de Granada, na Holanda, em França, em Vigo…

FM – Prefere cantar numa casa de fado ou num desses espectáculos de maiores dimensões?

CAMANÉ – É muito importante cantar-se o fado numa casa de fados. Há coisas que aprendo nos espectáculos, mas continuo a preferir as casas de fado. No fado não há escola; então, nas casas de fado, como tenho oportunidade de cantar lá quase todos os dias, vou descobrindo aspectos novos na forma de cantar.

FM – À semelhança do que aconteceu com o anterior “Uma Noite de Fado”, a produção volta a estar a cargo de José Mário Branco.

CAMANÉ – Ele é uma pessoa muito musical que sabe separar muito bem as coisas. E sabe também que o fado é uma música espiritual. Uma maneira diferente de estar na música.

FM – Um dos temas, “Sopram Ventos Adversos”, da autoria de José Mário Branco e Manuela de Freitas, tem uma sonoridade diferente do todos os outros. É quase new age…

CAMANÉ – Aí gostei muito da letra, como já tinha gostado de ouvir o tema no disco do José Mário, o “Ser Solidário”. Para o meu disco o José Mário fez um arranjo diferente para guitarra, viola e contrabaixo. Não é fado mas canto como se fosse, com a inha maneira normal de entoar.

FM – E o que é ser fadista?

CAMANÉ – É uma maneira diferente de cantar a vida, a vida portuguesa. Não é uma coisa racional. Nunca me consegui sentir bem noutro tipo de música. O fado é a música que interiorizei desde miúdo, desde o s dez anos. Conheço todos os fados tradicionais que existem, às vezes não me lembro dos nomes, mas basta dizerem-me a primeira frase para me vir a música. Estão cá dentro. Não me reconheço em mais lugar nenhum a não ser no fado.

FM – Quis dizer alguma coisa quando escolheu para título do disco “Na Linha da Vida”?

CAMANÉ – Este título surge na sequência de uma série de espectáculos que tinha feito no Inatel. “Na Linha da Vida” é “nalinha do fado”.

FM – Linha da vida é também, na quiromancia, a linha do destino… Acredita na fatalidade?

CAMANÉ – Acho que o destino somos nós que o fazemos diariamente, a forma como a gente vive no dia-a-dia, que se pode reflectir no futuro.

FM – É uma pessoa triste?

CAMANÉ – Sou uma pessoa normal, nem muito triste nem muito alegre. Aliás, ou sou muito triste, ou sou muito alegre! O fado é falarmos da tristeza de uma forma que nos emociona. Aprendemos com isso: falar das coisas tristes é uma maneira de as deitar cá para fora, de exorcizá-las. É uma maneira de as pessoas crescerem.

FM – Nos tempos que correm, acha que o fado é uma música que toca nas gerações mais novas?

CAMANÉ – Nas casas de fado onde canto vai muita gente nova. Muitas vezes só para curtir… Mas são as pessoas que há. Não tenho muitas ilusões quanto a isso. É o sítio onde é necessário haver gente nova a cantar, é mesmo o único sítio onde as pessoas novas podem começar a cantar fado. Mas sinto muitas vezes é que o fado deixou de fazer parte da vida das pessoas, as pessoas já nõ crescem com essa vontade, têm outras energias e se calhar querem ouvir outro tipo de música.

FM – Acha que um fadista como o Paulo Bragança segue pelo caminho certo, no sentido de levar o fado às gerações mais novas?

CAMANÉ – O fado tem um espírito, um sabor que não se pode perder. Toda a emoção do fado é de dentro para for a. A maneira de cantar do Paulo para mim é fado. Tem a voz e a alma de um fadista.

FM – Fala-se na crise do fado. Não será melhor falar de uma crise de fadistas?

CAMANÉ – Sim, não há fado sem fadistas. O fado vive da comunicação, da interpretação, da capacidade criativa das pessoas que o cantam. Há várias opções musicais quando se quer meter um texto numa melodia de fado; interessa é escolher o melhor caminho com coerência e com alma.

FM – Qual é o seu caminho?

CAMANÉ – Escolher a partir da musicalidade das palavras, que são mais importantes do que tudo, mais importantes do que eu a cantar. É um processo que às vezes demora muito tempo. Os poemas da Manuela de Freitas, neste disco, são uma coisa complicada, dexcobrir o que é que liga e o que não liga. Interessa é que seja um processo natural. Não vou forçar as palavras numa música. Todo este disco já tinha sido cantado várias vezes nas casas de fado, embora talvez não tantas como eu gostaria, porque estive afastado delas durante algum tempo. Os fados que estão aqui gravados hoje já não os canto da mesma maneira.

Salgueiro Entre Ciprestes

18.07.1997
Cantora dos Madredeus e mestre da guitarra, lado a lado
Salgueiro Entre Ciprestes
Uma pequena vila da Toscânia, na Itália, rendeu-se ao fado, à guitarra portuguesa e à voz de Teresa Salgueiro. Foi em Montecastello di Pontedera, na Villa Malaspina, a convite de uma marquesa, que o trio Teresa Salgueiro, António Chainho e Fernado Alvim encheu a noite toscana de saudade.

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O concerto, integrado na programação italiana do Festival Sete Sóis Sete Luas, teve lugar na noite do passado sábado, constituindo, sob todos os aspectos, um êxito. A experiência não era nova. Já antes a vocalista dos Madredeus cantara com o mestre da guitarra portuguesa, António Chainho. Mas esta foi uma ocasião especial. Um encontro com a noite, de nostalgias e alegria partilhadas.
António Chainho, acompanhado à viola por Fernando Alvim, fez de anfitrião. Teresa Salgueiro, enquanto voz convidada, fez figura de jóia da coroa, jogando-se muito do sucesso e da viabilidade (em termos de afluência de público) desta colaboração no facto de Teresa pertencer aos Madredeus, grupo que, sobretudo a partir da aceitação internacional obtida com a banda sonora de “Lisbon Story”, de Wim Wenders, no álbum “Ainda” tem neste momento um cartel bastante forte em Itália, sendo este concerto, aliás, precedido por uma minidigressão de sies concertos do grupo, neste país.
A noite, enquadrada pelos ciprestes que acentuam a nobreza da paisagem toscana, convidava ao intimismo. O recinto, na ocasião o páteo de uma daquelas “villas” italianas que imaginamos dos filmes, transformado em auditório, encheu-se de italianos vindos não só das pricipais cidades mais próximas, como Florença e Pisa, como também de outras mais distantes, como Milão. Todos atraídos pela combinação de uma voz onde o fado baila disfarçado com a mestria das guitarras antigas, tangidas por quem sabe. A expectativa fora criada previamente, tendo o concerto sido anunciado com bastante antecedência, em diversas publicações italianas.
Chainho e Alvim jogaram declaradamente no virtuosismo, com a preocupação de prender a assistência desde o início. Sobretudo o primeiro, solou em constantes acelerações, descendo no braço da guitarra às tonalidades mais latas, passe o paradoxo, em exercícios de estilo que deixaram o público italiano boquiaberto. Com um disco gravado recentemente com a Orquestra Sinfónica de Londres, António Chainho tem, neste momento, “uma aposta”, como ele próprio nos confidenciou, durante a ceia oferecida pelosproprietários da Villa Malaspina a todos os convidados, após o concerto: “Fazer com que a guitarra portuguesa seja mais conhecida.” A publicidade, pelo que se viu, foi boa.
O primeiro encontro entre ele Chainho e Teresa Salgueiro tivera lugar na celebração dos 30 anos de carreira do guitarrista, com a presença dos Madredeus. Nessa ocasião, Chainho, José Peixoto, Pedro Ayrtes de Magalhães e Teresa Salgueiro improvisaram juntos. Em Itália, ficou assinalado o sexto encontro entre o guitarrista e a cantora.Só que a responsabilidade desta era maior.
Consumada a afirmação orgulhosa – e portentosa – da guitarra, aumentava a excitação entre os italianos, ansiosos por ouvirem a voz dos Madredeus neste seu novo contexto. teresa surgiu, como habitualmente, de negro, pose recolhida, a voz aquecida entrando numa nota de lirismo, com “Cantiga de Amigo”, de Oulman e Meninho. Estavam previstos cinco temas. Teresa Salgueiro cantou o dobro, incluindo dois “encores”. Ao todo, ouviram-se, além daquele, ainda os seguintes fados: “Nome de Rua”, “Fado Malhoa”, “Rua do Capelão”, “Dá-me o braço anda daí”, uma série, cantada pela primeira vez por Teresa, constituída por “Solidão”, “Havemos de ir a Viana” e “Fadinho da Tia Maria Benta”, masi “Maria Lisboa” e “Espelho Quebrado”.
Nesta progressão, a voz foi ganhando força e conquistando o público. O fado, que Teresa Salgueiro aprendeu a amar e a cantar desde muito nova, ganhou nela uma luz menos velada, transformando-se o luto em claridade. Teresa não é fadista. Ou, pelo menos, não o é da mesma maneira a que estamos habituados. Chainho reconhece isso. “É como transportarmos uma canção e dar-lhe um cunho de fado”, disse, referindo-se a experiências semelhantes de outros cantores na área do fado. Ou será melhor chamar-lhe “neofado”? A própria Teresa Salgueiro admite que os Madredeus “podem ter uma influência do fado”. Ainda que, para ela, o mais importante, para lá de todas as formas e estilos, seja a “vivência”. O modo como se entrega. A alma com que se afirma.
O público adorou, não regateando aplausos ao trio. António Chainho conseguiu o pretendido, chamar a atenção para a sua música e para a música e musicalidade da guitarra portuguesa. Teresa Slagueiro, por seu lado, pôs em prática, uma vez mais, o que considera ser a sua “paixão”, só possível nos intervalos das digressões e do trabalho dos Madredeus, um grupo em plena fase de transição, cujo próximo álbum – “hélas” – será gravado em solo italiano, mais concretamente em Veneza, havendo a possibilidade de, pela primeira vez, ter lançamento mundial. As gravações estarão, em princípio, concluídas em 17 de Agosto. Depois, os Madredeus partirão para nova digressão, no México, onde nunca actuaram antes, nos Estados Unidos e Canadá.
No dia seguinte, na Villa Comunale de Pontedera, foi a vez de o cineasta Manoel de Oliveira, apresentar e comentar a sua última longa-metragem “Viagem ao Princípio do Mundo”. No debate realizado no final, entre interrogações do porquê de alguns fundos parecerem desfocados (“Não é uma deficiência técnica mas uma opção estética”, teve de explicar o realizador português…) e uma verdadeira sessão de hermenêutica, disparada por uma entusiasmada italiana, aluna de uma escola de cinema, houve o genuíno interesse do público e um Manoel de Oliveira em noite de interessantíssimas divagações filosóficas em torno do seu cinema.
Riccardo Tesi, toscano de geam, e a sua Banditaliana actauram na segunda-feira numa minúscula aldeia das redondezas. Concerto inesquecível. No meio dos anciãos da aldeia, de crianças barulhentas e até da intrusão do ruído de alarme de automóvel de Ettore Bonafé (extraordinário vibrafonista!), estacionado mesmo lai, Riccardo Tesi e a sua banda deram uma lição de profissonalismo, mostrando que a arte de viver não está desligada da arte de tocar.

Quadros De Uma Disposição
O ambiente não podia ser mais poético. Sob o céu estrelado da Toscânia, em frente aos muros de uma típica “villa” italiana, o cenário parecia tirado de um filme dos irmãos Taviani. Moldura, humana e paisagística, a condizer. Uma aura de mistério no ar. Ciprestes acentuanod as sombras. Pquenas velas dispostas em volta, iluminando os fantasmas que a música convocava. A Villa Malaspina, onde se realizou o concerto de António Chainho com Fernando Alvim e Teresa Salgueiro, é propriedade de um casal de nobres italianos. Soava mais fundo, a música, como que inebriada nos corredores do tempo.
Após o concerto, foi servida uma ceia no interior da velha habitação. Mudança de cenário. A maqrquesa, envergando uma “T-shirt” com marca de estilista célebre, com o nome de Placido Domingo nas costas, quis falar pessoalmente com os músicos. Instalou-se a comitiva. Palavras de ocasião. O cerimonial, de início, de quem quer atravessar a ponte, mantendo-se as distâncias. Perguntas da praxe. Qual o próximo disco, o fado, sempre o fado. De Fernando Alvim, a discrição em pessoa, nem uma palavra. Depois, o gelo a quebrar-se com um copo de tinto. Teresa Salgueiro e a marquesa à conversa. Mais animada. Os salões, amplos e quase sem mobília, a colorirem-se de quadros inexistentes. A Toscânia lança um feitiço. Três músicos portugueses, a música portuguesa, trespassaram com a sua tradição uma outra tradição. Ficaram os quadros. De um estado de espírito. Em verde e vermelho. Cores de duas bandeiras com as mesma cores.

Novas Fadas – Kátia | Ana Sofia | Cristina | Mafalda | Joana

20.07.2001
Novas Fadas
Kátia | Ana Sofia | Cristina | Mafalda | Joana
Cinco vozes fabulosas, cinco herdeiras de Amália que dela assimilaram a força interior e para além dela apresentam originalidade, e nuances de um brilho que é também mistério.

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A história começa há muitos anos atrás, perdendo-se na noite dos tempos. Mas veio Amália e ficou a perceber-se melhor o que era o fado – um astro de duas faces, noite e dia, que nela se confundiam num só rosto. Esfinge. O século XX foi o século de Amália. Havia Amália, a sua voz, os seus discos, os seus espectáculos, a sua presença ofuscante. Sobrava pouco para os restantes.
Com o desaparecimento físico de Amália Rodrigues, por coincidência ou por ditame do destino (o que vai dar ao mesmo), outras vozes femininas despontaram. Vozes fabulosas. Tão orgulhosas de si e da sua diferença como humildes no reconhecimento do que Amália representou na escolha que também elas fizeram, de seguir essa “estranha forma de vida”, bem como na sua afirmação como fadistas.
Escolhemos, para ilustrar o presente radioso do fado cantado no feminino, cinco nomes: Mafalda Arnauth, Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira. Outras há: Mariza, Teresa Tapadas, Maria Ana Bobone. Mas aquelas cinco possuem um toque e um brilho especiais. O toque na essência do fado e a versatilidade da alma que se incendeia a este toque.
Dez anos separam a mais velha, Cristina Branco (28 anos), da mais nova, Joana Amendoeira (18 anos). Mafalda Arnauth tem 26, Kátia Guerreiro, 25, Ana Sofia Varela, 24. Encontram-se em fases distintas. Cristina Branco, cuja carreira tem vindo a ser construída na Holanda, já leva cinco álbuns gravados, o último dos quais, “Corpo Iluminado”, é o primeiro com distribuição nacional, pela Universal. Custódio Castelo, guitarrista de notáveis recursos, tem sido o seu tutor artístico. José Fontes Rocha, Jorge Fernando, Joel Pina e Miguel Carvalhinho, guitarristas e violistas históricos, participam como convidados.
Mafalda Arnauth, uma das novas vozes apadrinhadas por João Braga, depois de um álbum de estreia, “Mafalda Arnauth”, há dois anos, com produção de João Gil, projecta-se a grande altura no novo “Esta Voz que me Atravessa”, ainda no selo EMI, com a produção da dupla Amélia Muge e José Martins. Kátia Guerreiro, em quem chegámos a ver uma sósia de Amália, no espectáculo de homenagem à diva que a deu a conhecer ao grande público, publicou o seu disco de estreia, “Fado Maior”, na Ocarina. Com Paulo Parreira, na guitarra portuguesa. Embora mais nova, Joana Amendoeira já tem dois discos na Espacial, “olhos Garotos”, de 1998, e “(Aquela Rua)”, do ano passado. Custódio Castelo toca guitarra no último. A produção pertence a Jorge Fernando. Ana Sofia Varela só lançará o seu álbum de estreia em Setembro, pela Popular. Para já, o CD-single de apresentação conta com a participação de músicos como Mário Pacheco, José Moz Carrapa e Zé Nabo.
Qualquer destes discos tem outra particularidade – uma apresentação notável, evidenciando o cuidado na apresentação de um modelo estético que enobreça o objecto musical. São rostos e corpos “iluminados”, parafraseando o título do álbum de Cristina Branco. Tão iluminados como as vozes a que pertencem.
Grandes vozes, belas imagens, compositores, poetas e músicos de nomeada.
Vão lançadas. Mas Amália continua a ser o lampião, na rua escura, que as ilumina.

Sem Fantasmas
Depois de Mara Abrantes (que cantou aos três anos), José Barata Moura, “as músicas dos desenhos animados”, Rui Veloso, Trovante e músicas tradicionais, do Norte, do Minho e da Beira, de onde os seus pais são naturais, Mafalda Arnauth cantou fado pela primeira vez antes de entrar para a faculdade. Não pela voz de Amália mas pela de Teresa Salgueiro, dos Madredeus, onde sentiu “aqueles requebros” do fado. Depois o “Cheira bem, cheira a Lisboa”, que cantava nas “festinhas”. Nunca pensou em abraçar o fado como carreira. Mesmo quando a sua interpretação de “Foi Deus”, no seu primeiro espectáculo “oficial”, no Teatro São Luiz, em Lisboa, juntamente com outras novas vozes que então despontavam sob o patrocínio de João Braga, se destacou como um dos momentos mais arrebatadores da noite. Mudou entretanto de atitude. Hoje interiorizou essa tal estranha forma de vida, “sem fantasmas”, mas também “sem ter tempo para férias, nem para jantares, nem para encontros com amigos”, porque o fado é uma prioridade.
Cantou, de Amália, “Fadista Louco”, “triste Sina”, tudo fados “que não eram muito comuns e que Amália tivesse privilegiado”. Mas também “Maria Lisboa” e, claro, “Foi Deus”. Nos espectáculos continua a cantar “Sabe-se Lá”. Reconhece: “Nenhuma de nós, aos vinte e poucos anos, pode pensar competir com um percurso de vida como o de Amália.”. Amália já cá não está. “As pessoas já não dizem: lá vem mais uma pessoa para a substituir”. “É preciso ter humildade e a noção das coisas”, diz Mafalda, para quem não há “testemunhos a passar”.
Além de Amália, Mafalda gosta de João Ferreira Rosa, Beatriz da Conceição, Maria da Nazaré, Mariana Alcoentro. Dos novos destaca Camané – “preenche o tal arrepio que é fundamental no fado”. Poetas: Manuel Alegre, David Mourão-Ferreira, Sophia de Mello Breyner…
E ela, Mafalda, que fadista sente ser? “Sanguínea”. “Quero transmitir às pessoas primeiro aquilo que sinto, depois aquilo que componho, e já aqui se perde algo, e a seguir aquilo que chega ao público, o que ele está a ouvir. Neste processo o que me dá mais agonia é tentar saber como vou fazer a minha alma chegar
às pessoas”. Mais agonia ou menos agonia, Mafalda Arnauth pode estar tranquila – a sua alma chega às pessoas.

Iluminações
Cristina Branco tem o “Corpo Iluminado”, título do seu mais recente álbum, depois de “Cristina Branco in Holland” (1997), “Murmúrios2 (1998), “Post-Scriptum” (1999) e “Cristina Branco Canta Slauerhoff”. Natural de Almeirim, foi na Holanda que a sua música começou por encontrar maior aceitação. Situação que o novo disco parece querer alterar.
Cantou fado pela primeira vez aos 22 anos, em Benfica do Ribatejo, numa festa de amigos. O “Ai Mouraria”, de Amália, que conhecera quatro anos antes, através do álbum “Rara e Inédita”. Estreou-se como profissional um ano depois, na Holanda, numa sala de Amsterdão “onde já tinham estado José Afonso, a Amélia Muge…”. Não canta em nenhuma casa de fados. “Nunca cantei”. De Amália, que “inventou tudo”, canta “quase todos os do Alain Oulman, sobretudo aqueles que são menos fado”. Existe uma explicação para este “menos fado”. É que Cristina Branco define-se como uma cantora “revolucionária”, e não como uma fadista, na acepção mais tipificada do termo. Resposta irónica a alguns Velhos do Restelo. “Há alguns anos, por altura do ‘Murmúrios’, acharam um crime dizer-se que eu era fadista. Se fadista é a pessoa que está na casa de fados, as toalhas aos quadradinhos, não tenho esse percurso… Houve quem dissesse que para se ser fadista era necessário ter-se nascido em Lisboa e cantar-se numa casa de fados…”
Dos novos aprecia Mariza, Amélia Muge, Kátia Guerreiro e Camané. Poetas: Pedro Homem de Melo e David Mourão-Ferreira. E as vozes de Sarah Vaughan e Billie Holiday.
Ainda Amália: “Já na fase da sua decadência, quando corria o boato de que ela não gostava de ouvir cantar mulheres, a sensação que isso me deixou foi de que se eu estivesse a começar nessa altura nem sei se conseguiria prosseguir. Quando se venera um ídolo, e ouvindo essas coisas, pensava que deveria haver alguma restrição…”.
Mas considera-se parte de um legado da grande fadista, com quem aprendeu “a contar histórias, que é o mais importante”. O traço fundamental do seu carácter como cantora é o romantismo.

Nada Foi Encenado
No hospital de Évora, onde exerce medicina, cura os males do corpo. Com a voz cura os males do espírito. Kátia Guerreiro, médica de profissão, canta o fado. Antes cantou num rancho folclórico dos Açores, onde interpretou pela primeira vez “Amar, amar”, com poema de Florbela Espanca, “que a Teresa Silva Carvalho cantava”, e no grupo “Os Charruas”, passando ainda pela Tuna Médica de Lisboa. Em Outubro do ano passado esteve no Coliseu dos Recreios, no espectáculo “uma Vela por Amália”.
Deu voz a dois fados, de Amália: “Amor de mel, amor de fel” e “Barco Negro”. Teresa Silva Carvalho, Maria Teresa de Noronha e Camané, e os poetas Camões, Sophia de Melo Breyner, Fernando Pessoa e “uma grande amiga”, Maria Luísa Baptista incluem-se na lista das suas preferências.
Nessa ocasião, no Coliseu, estarreceu pela voz e pela extraordinária semelhança física com a diva. Aceita as comparações, mas esclarece que “nada foi encenado”: “Em relação às minhas expressões, à minha forma de franzir as sobrancelhas, é a minha maneira de estar no palco, de cantar, quando sinto não estou a pensar no que estou a fazer, naquilo que as pessoas poderão estar a ver. Canto com o corpo inteiro, se há coincidências ou não… nunca andei a observar a Amália… sempre cantei assim… a única coisa que posso dizer é que sinto muito em mim a Amália quando estou a cantar…”
Define-se como “tradicionalista”: “No fado, não se pode mudar nada. O que é, é. Depois há variações…”. “Fado Maior”, o seu disco de estreia, mostra uma cantora “apaixonada” que canta “os amores ardentes e os desamores, as paixões e as desavenças, o desânimo, a luta, a solidão, a alegria”.

Um Mistério
Das cinco, apenas Ana Sofia Varela, natural de Santarém, ainda não lançou nenhum álbum. Mas não vai ser necessário esperar muito. “Ana Sofia Varela” sairá em Setembro. Para já a sua voz magnífica pode ser apreciada num single com dois temas, um deles, “Quem canta na minha voz”, com letra de João Monge e música de Rui Veloso. Presença regular no Clube do Fado, participou no espectáculo “Uma Vela Por Amália”. Canta desde criança. Começou por Amália e Nuno da Câmara Pereira, aprendendo cedo a “dobrar a voz”. A participação, há três anos, no espectáculo “De Sol a Lua” abriu-lhe as portas da profissionalização, depois de uma série de presenças no concurso Grandes Noites do Fado. É uma das vozes convidadas do álbum “A Guitarra e Outras Mulheres”, de António Chainho. Participou ainda numa das edições do Festival das Músicas e dos Portos. Gosta de Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Teresa Silva Carvalho e, da nova geração, Kátia Guerreira, Camané, Joana Amendoeira. E de Amália, “demasiado grande” e aquela que lhe “abriu as portas”. “Gaivota”, “Barco Negro”, “Amor de Mel…” são alguns dos fados que continua a cantar, apesar de, recentemente, ter arriscado a escrita das suas próprias composições. O disco é a realização de “um dos seus sonhos mais fortes”. Embora considere que o fado não possa mudar muito – “o que muda são as interpretações” – na disputa teórica que se vai travando entre tradicionalistas e revolucionários, Ana Sofia Varela refugia-se, declarando-se “centrista”. “Tristeza”, “melancolia2 e “alegria” são os principais estados de alma que a levam a cantar. Não arrisca procurar mais fundo uma explicação para a música que a arrebata: “O fado é um mistério”.
Joana Amendoeira é a mais nova. Mas aos 18 anos, já gravou dois álbuns, “Olhos Garotos” e “(Aquela Rua)”. Começou a cantar aos 8, fados do Nuno da Câmara Pereira. Em casa ouvia Amália, João Braga, Carlos do Carmo… Cantou na Grande Noite do Fado e em “uma Vela por Amália”. A partir daí nunca mais parou. Amália alimenta-a de “emoções”. Dela canta de preferência “fados pouco conhecidos”. Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Hermínia Silva e Camané “alimentam-na” igualmente. David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Mello voltam a ser citados como poetas predilectos. Nos seus discos Joana Amendoeira espera que as pessoas vejam que “não está a imitar ninguém” e “uma fadista que canta vários sentimentos, além da tristeza”. Aos 18 anos pode ser-se triste? Joana abre um sorriso largo, luminoso. Estava dada a resposta.