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Paulo Bragança, no CCB: “Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar” – Entrevista –

24.10.1997
Paulo Bragança, no CCB
“Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar”
O rosto lívido. Um espectro. A capa de Coimbra, levantada sobre o pescoço, sugere o vampiro, o sugador de sangue. O ambiente é gótico, arrepiante. O novo fado de Paulo Bragança, que amanhã se apresentará no Grande Auditório do CCB, atrai pelo lado obscuro. O “Fado falado”, de Villaret, fala agora do problema da heroína. No final, o fadista sai de si mesmo, numa busca ávida de luz.

FM – Como vai ser a estrutura do espectáculo?
Paulo Bragança – É quase uma peça de teatro. Há um personagem que está em conflito consigo próprio e que vai, à medida de cada tema, pensando se fica nas raízes do fado ou se as subverte. O começo vai ser com fado puro, embora com algumas dissidências em termos verbais e musicais. Depois surgem momentos de conflito. No “Fado do Herói” já há, quase, um aviso à nação. A seguir é o “Adeus”. “Adeus pátria linda, adeus querido lar, adeus Tejo amado até eu voltar…”, aí o personagem já está numa galera, seguindo-se um processo interior, com nova quebra e dois temas intimistas, “Pecado I” e “Pecado II”, até se chegar a uma transnacionalidade, uma “transfusogressão” (fui eu que inventei a palavra), onde surgem temas que não são portugueses nem sequer são cantados em língua portuguesa. Dois temas na língua “roman”, dos romenos, uma língua cigana. É a procura do singular no universal, sem perder as raízes. Até se chegar ao último tema que se chama “Névoa”, onde se diz que “há sempre entre mim e o mundo uma névoa que às vezes me ataca e me faz refém de uma solidão tão fria que não me dá trégua, guardador de um cofre onde não há vintém”. As palavras são do Carlos Maria Trindade com música minha. É já um novo ser, que não opina, não julga, é só um “voyeur” que observa tudo de cima. O corpo não existe, só existe um ser pensante. Quas euma diáspora kafkiana.
FM – Falou há pouco de uma “viagem” à Roménia. É impossível não pensar na célebre personagem do Conde Drácula que assombra a sua apresentação…
Paulo Bragança – Na origem, não foi propositado. Essa ligação fez-se recentemente. É a ligação ao sangue. Depois, a música cigana é tão fado como o nosso Fado. Desde miúdo, quando era “teenager”, que comecei a estudar romeno sozinho, de modo a conhecer melhor alguns dos poetas deles. Mas não é o terror que me assusta, vejo o terror apenas como um aspecto fantástico, como a ficção científica.
FM – O seu espectáculo centra-se no lado mais sombrio do fado…
Paulo Bragança – Se reparar, a capa de Coimbra tem a ver com isso. Por acaso a capa que uso agora é mais vampiresca… Uma capa, quando existe, é para guardar qualquer coisa escondida, é um mistério. O estudante de Coimbra também transporta em si algum desse vampirismo. Ou devia…
FM – Que tipo de envolvimento com o público procura criar?
Paulo Bragança – De um modo geral as pessoas ficam desconcertadas. Pela positiva. Não se sentem assustadas mas, talvez, intimidadas. Embora houvesse quem sentisse realmente medo e se agarrasse à cadeira… Porque o medo também suscita fascínio.
FM – Eo Paulo Bragança, não se auto-sugestiona com a personagem que criou?
Paulo Bragança – Quando vejo o abismo sou o primeiro a saltar. Não tenho medo. Mas tenho respeito pelo medo.
FM – Prseumo que, cada vez mais, a sua relação com os puristas do fado é conflituosa?
Paulo Bragança – Eles, à minha frente, nunca me negam. Dão uma no cravo e outra na ferradura. Eu até percebo a posição deles. Mas isto não é nada contra eles, mas sim contra a estagnação do fado. Enquanto que eles, por vezes, me atingem directamente, eu não os procuro atingir a eles. O que procuro atingir é a consciência colectiva nacional.
FM – Que tipo de som se poderá escutar amanhã no CCB?
Paulo Bragança – Um som estranho. Com um compromisso entre a ciência e um lado acústico. Guitarras portuguesas lada a lado com “samplers” e tecnologia MIDI.
FM – De que modo é explorada a tal teatralidade que há pouco referiu?
Paulo Bragança – Por exemplo, abro com o “Fado Falado”, onde reverti o texto, pegando nele como símbolo do teatro e transformando-o num monólogo, com uma nova interpretação sonora e textual, bastante dissidente. Por isso lhe chamei “Fado Falado Mudado”. Aproveito para falar do problema da heroína. É um texto bastante duro, em que chamo as cosias pelos nomes, numa história que de facto se passou na Meia-Laranja. Em termos formais, ouvi uitas vezes o original do Villaret. A minha versão é codificada ao milímetro, sílaba por sílaba, metricamente igual.
FM – Qual é a sua atitude perante o problema da toxicodependência?
Paulo Bragança – Não estou a julgar ninguém mas a constatar uma realidade. Algo de grave que se está a passar no país. Ninguém diz que o rei vai nu. Não hánenhuma família portuguesa, hoje em dia, que não tenha essa mácula, seja por um filho ou por um primo. E também verifico que a polícia só apanha cocaína e haxixe. Heroína nunca se apanha. Chega-se a uma ladeia, como eu já cheguei – e isto é o que me dizem porque eu não preciso nada dessas merdas – a uma ladeia de Trás-Os -Montes, seja onde fôr, no local mais recôndito, queres um charro, não há. Ou se houver, custa dez contos a grama. Cocaína pode custar 25 contos uma grama. E a heroína custa mil escudos e há a toda a hora. 24 horas por dia, nas barbas da polícia, em todo o lado. O Casal Ventoso é uma imagem pálida do que se está a passar no resto do país. E o mais grave é que a heroína é gerida por questões de Estado, por alguém… Por isso é que eu canto uma parte que diz “mãos de sangue na seringa que rasgada a veia pinga, mãos de Estado maquilhado, mãos de serra e queima a terra, mãos bem vendidas, muito finas, mãos vendadas a arrecadar, não há paixão, crime ou morte onde há um filão a correr forte”… É uma situação que me incomoda. Repito: é preciso dizer que o rei vai nu.
FM – Uma forma velada de manter os jovens sob controle?
Paulo Bragança – É uma forma de adormecer as pessoas. E não sõa só os mais novos. As velhas, neste país, andam todas drunfadas, porque o que se vende mais no país são drunfes e é o que tem desconto da Assistência Social. Não há uma velhinha que não tenha um drunfe em cas, um Xanax, um Valium, um ansiolítico qualquer. Depois, os putos têm heroína. Putos de 16 anos, que eu conhecço, que picam, nem sequer fumam, picam! Interessa a alguém, de facto, que o povo ande acalmado. Dêem heroína ao pessoal, para se tornarem nuns energúmenos que não chateiam!…

Anamar: Entrevista – O Despertar Da Alquimista

26.09.1997
O Despertar Da Alquimista
Anamar, mais que uma cantora, é uma viajante da alma. As imagens do seu filme interior mudaram nos últimos dez anos. Aprendeu a serenidade e a luz que se esconde nos gestos e nas palavras. “M”, o seu novo álbum, é pura vibração. “M” de “mais”, “M” de “morte”, “M” de “mudança”, “M” de “mundo”, “M” de “mar”.

A linguagem é a da alquimia. Casamento de elementos, dissociação e harmonização interior são termos empregues por Anamar para falar de “M”, o seu novo disco, gravado numa igreja. Um banho de luz.

FM – “M” é um título estranho, não acha? “M”, “Matou”, de Fritz Lang. “M”, o grupo que fez o tema chamado “Pop Music”…
Anamar – Não queríamos limitar o que se pudesse percepcionar do disco com uma palavra. A ideia de ter só uma letra é de as pessoas associarem o que quiserem a essa letra. Deixar uma porta aberta.
FM – Depois há uma canção chamada “NSN”…
Anamar – Aí é por causa do “N”, que se diz com os lábios fechados, mas é audível cá fora. Uma relação exterior que nos interessa. Além disso, são as iniciais de “Nossa Senhora da Neves”, a quem foi erigida uma capela do séc. XII onde foi gravado o CD, no alto da Serra de Montejunto.
FM – Estás sempre a falar em “nós”… Nós quem?
Anamar – Este trabalho não foi feito por mim exclusivamente, mas por um núcleo criativo de quatro pessoas: eu, o André Louro de Almeida, ao nível musical e do conceito de arranjos, e o Tiago Torres da Silva e a Ana Calhau, também criadoreas do conceito de origem.
FM – Que conceito?
Anamar – Cantar a luz através do fado, sendo que, de uma maneira muito comum, o fado está associado a outro tipo de emoções: ciúme, posse, vingança, escuridão, saudade, desilusão, revolta… Mas esse conceito não me entusiasmou especialmente, não estava muito virada para pegar no código do fado, já muito usado e trabalhado anteriormente. Não é fado que costumo ouvir em casa, mas coisas com outra espacialidade, indicadoras de outros estados de espírito – Dead Can Dance, Rachmaninov, Brian Eno, David Sylvian… No entanto, o pacote de letras que o Tiago me apresentou era extraordinário.
FM – Falou em espacialidade. E religiosidade?
Anamar – Absolutamente. É uma característica, para mim, básica. No entanto, não é assim tão óbvio que a arte entre em linha de conta com ela.
FM – Essa religiosidade não está a transformar-se, nos dias que correm, um mero amontoado de ícones e imagens, esvaziadas do seu verdadeiro significado?
Anamar – Todo o fenómeno de profetas com pés de barro, ou aproveitamentos comercialóides do fenómeno “new age”, mais as seitas, tudo isso e a “astrologite”. Se religião significar religar, e é daí que vem a palavra, aí sim, sou uma pessoa profundamente religiosa. Religar à vida, sendo que esta, em si, é a transcendência.
FM – É engraçado estar a falar sobre estas questões. As pessoas estavam habituadas a ter de si outra imagem…
Anamar – Eu sei. Deixei de cantar e de aparecer há muitos anos, nove anos. É curioso verificar como uma imagem pode ficar cristalizada no tempo. Há dez anos, vestia de preto, pintava os lábios de vermelho e usava os cabelos muito compridos. Uma imagem que ficou ligada a uma noção de estilo e à sedução, ao risco e à ousadia. Hoje, nem a minha cara é igual. Nem o meu ser interior.
FM – O que aprendeu nestes últimos des anos?
Anamar – Fui crescendo. A opção, neste período de tempo, de não cantar e de não manter uma actividade pública deriva da minha necessidade de ouvir primeiro o que estava cá dentro e ver se tinha alguma coisa para dizer. Uma das coisas que aprendi nestes dez anos foi o valor do silêncio. O valor do quietar. Do respirar, do fruir de tudo o que a vida tem para nos dar, em vez de querermos que as coisas correspondam aos nossos desejos.
FM – Essa filosofia de vida, transferiu-a para a feitura do seu disco?
Anamar – este disco não é fruto de um trabalho pessoal meu, mas de um trabalho de equipa. O que pediu uma abertura e uma aprendizagem do que é “criar com” outras pessoas, algo que eu não conhecia assim tão bem. Nos outros discos trabalhei com muita gente, mas o conceito e o ponto de partida eram definidos por mim. Neste caso, não, fui obrigada a uma disciplina.
FM – Quer dizer que o seu ego se suavizou?
Anamar – Tendo um ego, como toda a gente, há partes desconhecidas de mim própria em relação às quais faço questão de estar especialmente atenta, de maneira a estar em sintonia com elas. Quanto mais fundo se vai dentro de nós, menos se faz questão de ter ou não ego, de ser isto ou aquilo.
FM – Como é que se processaram as gravações?
Anamar – O disco foi gravado quase como um disco ao vivo, em tempo real, o que quer dizer que houve muitas repetições, que aproveitei para fazer apuramentos, ao nível de questões técnicas. Foi exigida uma concentração muito grande, havendo necessidade de se estar tranquilo para que as coisas fluíssem. Ao todo foram três semanas ao longo das quais gravámos 21 canções e… uma brincadeira.
FM – Que brincadeira?
Anamar – Numa ocasião o Joaquin d’Azurém estava a tocar guitarra portuguesa num teste de som e eu comecei a cantar por cima. Ou a leitura de um texto sobre uma banda-sonora composta pelo André Louro de Almeida.
FM – Falou, há pouco, do fado, que também corre o risco de se desvirtuar. De que forma é que sente este tipo de música?
Anamar – O fado é um código e uma porta de acesso directo à alma, como os “blues” ou o “gospel”. Do ponto de vista cultural, cristalizou no tempo. Lembro-me de quando era miúda e cantar “A canção do mar”, da Amália, ser um escândalo. Mas a própria Amália gostou muito do tema.
FM – A maneira de se exprimir sugere elegância, mesmo quando se trata de espiritualidade…
Anamar – Entendo que uma das qualidades da espiritualidade é precisamente a elegência. Não há espírito sem beleza. Há uma tentativa da minha parte de tratar a vida com elegância. Não há harmonia sem ela, todos os pontos de vista radicais ou separatistas, que só tendem para um lado da realidade, não me satisfazem. A vida não é separada, tal como a visão das coisas não deverá ser separada. A elegância é uma característica da verdadeira complementaridade de elementos.
FM – Quais são os seus elementos?
Anamar – Água e fogo. Embora talvez o mais importante seja o éter, o quinto elemento… A água identifica-se com os sentimentos e as emoções, com o fundo da alma e o poder de aplicar o coração na vida. O fogo equivale a uma verticalidade, a um amor pela verdade, a uma expansão, a uma inspiração, à criatividade em si, aquilo que faz com que um átomo e outro se juntem dando origem a uma coisa. Por isso tento articular a expressão, própria do fogo, com a interiorização, própria da água. Um casamento que é um dos trabalhos aos quais me tenho dedicado. É como uma cafeteira com água a ferver. É bom que a água fervente esteja em total correspondência com a intensidade da chama. Se ferve demais, apaga a chama. Se a chama estiver demasiado alta, evapora a água.
FM – Está a falar como uma alquimista…
Anamar – A alquimia é um código de profundidade… mas na verdade é a própria simplicidade da vida. A harmonia é a forma mais simples, mas também a que requer mais trabalho.
FM – Assusta-a o envelhecimento, a decadência da beleza física?
Anamar – Assusta-me o envelhecimento, por estagnação. O envelhecimento interior. Assusta-me a morte interior, não em mim, e digo não em mim, porque não há receio que em mim, por dentro, morra aquilo que me anima, senão não estava viva. Sou a típica sobrevivente. Acredito que existe uma relação entre o envelhecimento da matéria e a sabedoria interior. Através do tempo, o homem tem acesso a ser, cada vez mais, ele próprio, a ser sábio. O envelhecimento físico acaba por ser o preço a pagar pela experiÊncia vivida. Mas também acredito que o corpo físico é condicionado pela energia interior, nomeadamente a psíquica. Daí não saber se as pessoas forem cada vez mais psiquicamente saudáveis se não serão também cada vez mais fisicamente vitais.
Já agora, também me assusta a paranóia de que todoa a gente queira ser como a Claudia Schiffer até aos 80 anso!… É a prioridade dada à plástica, ditada pela moda, uma ditadura de formatação de mentalidades, responsável pela morte interior de muitas pessoas.
FM – Vivemos uma época de morte e de apodrecimento. O Apocalipse?
Anamar – Talvez uma época de altos preços a pagar por tantas cristalizações. Há uma coisa que me faz muita impressão. Habitualmente, a informação que chega às pessoas é sempre sobreo lado negro dos sinais, nos telejornais e nos jornais. Parece qu ehá uma publicação num país, não sei bem qual, que se dedica só a divulgar aquilo que de bom acontece no mundo e que tem tido um público tremendo. Estamos numa fase crítica e, por isso, privilegiada. Considerando que o preço é alto, porque a tal formatação da cabeça e do “modus vivendi” das pessoas chegou a um limite de dissenção com o seu próprio interior, por outro lado existe a oportunidade de ver de caras, a um nível extremo, o que não dá, o que não funciona, que não traz felicidade. Nesse sentido, quanto mais claro se vê o inimigo, mais fácil é o entendimento do que poderá ser mais criativo.
FM – Quem ou o que é o inimigo?
Anamar – O medo.
FM – Como é que se pode vencê-lo?
Através da emergência da tomada de consciência de quem se é e do que se está a fazer. É a única saída. O homem meteu-se numa camisa de forças e, de alguma maneira, está a ser encostada à parede na pressão máxima. Ou descobre como é que sai lá de dentro ou então morre. Acabou o problema, estoira tudo. Acredito, ou melhor, sei internamente que o futuro das coisas é sempre e tendencialmente luz.

Camané Lança Segundo Álbum “Na Linha Do Fado” – Entrevista –

20.02.1998
Camané Lança Segundo Álbum
Na Linha Do Fado
“O Fado retrata a vida como ela é, de uma forma muito profunda”. Por isso, “Na Linha da Vida”, segundo álbum do fadista, é o mesmo que dizer “na linha do fado”.

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“Na Linha da Vida” sucede a “Uma Noite de Fado” na carreira de
Camané, um jovem fadista que faz do fado profissão de fé. Fados tradicionais, composições de José Mário Branco, José Luis Gordo, João Fereira-Rosa e textos de Fernando Pessoa, Antero de Quental e Manuela de Freitas contribuem para a renovação de um género, com “espírito” e “sabor” próprios que vivem da “comunicação” e da “interpretação”.

FM – O que fez no intervalo de dois anos entre o disco novo e o antigo?

CAMANÉ – Canto no Senhor Vinho. Entretanto, tenho feito espectáculos, no país e no estrangeiro, em festivais de música como o de Granada, na Holanda, em França, em Vigo…

FM – Prefere cantar numa casa de fado ou num desses espectáculos de maiores dimensões?

CAMANÉ – É muito importante cantar-se o fado numa casa de fados. Há coisas que aprendo nos espectáculos, mas continuo a preferir as casas de fado. No fado não há escola; então, nas casas de fado, como tenho oportunidade de cantar lá quase todos os dias, vou descobrindo aspectos novos na forma de cantar.

FM – À semelhança do que aconteceu com o anterior “Uma Noite de Fado”, a produção volta a estar a cargo de José Mário Branco.

CAMANÉ – Ele é uma pessoa muito musical que sabe separar muito bem as coisas. E sabe também que o fado é uma música espiritual. Uma maneira diferente de estar na música.

FM – Um dos temas, “Sopram Ventos Adversos”, da autoria de José Mário Branco e Manuela de Freitas, tem uma sonoridade diferente do todos os outros. É quase new age…

CAMANÉ – Aí gostei muito da letra, como já tinha gostado de ouvir o tema no disco do José Mário, o “Ser Solidário”. Para o meu disco o José Mário fez um arranjo diferente para guitarra, viola e contrabaixo. Não é fado mas canto como se fosse, com a inha maneira normal de entoar.

FM – E o que é ser fadista?

CAMANÉ – É uma maneira diferente de cantar a vida, a vida portuguesa. Não é uma coisa racional. Nunca me consegui sentir bem noutro tipo de música. O fado é a música que interiorizei desde miúdo, desde o s dez anos. Conheço todos os fados tradicionais que existem, às vezes não me lembro dos nomes, mas basta dizerem-me a primeira frase para me vir a música. Estão cá dentro. Não me reconheço em mais lugar nenhum a não ser no fado.

FM – Quis dizer alguma coisa quando escolheu para título do disco “Na Linha da Vida”?

CAMANÉ – Este título surge na sequência de uma série de espectáculos que tinha feito no Inatel. “Na Linha da Vida” é “nalinha do fado”.

FM – Linha da vida é também, na quiromancia, a linha do destino… Acredita na fatalidade?

CAMANÉ – Acho que o destino somos nós que o fazemos diariamente, a forma como a gente vive no dia-a-dia, que se pode reflectir no futuro.

FM – É uma pessoa triste?

CAMANÉ – Sou uma pessoa normal, nem muito triste nem muito alegre. Aliás, ou sou muito triste, ou sou muito alegre! O fado é falarmos da tristeza de uma forma que nos emociona. Aprendemos com isso: falar das coisas tristes é uma maneira de as deitar cá para fora, de exorcizá-las. É uma maneira de as pessoas crescerem.

FM – Nos tempos que correm, acha que o fado é uma música que toca nas gerações mais novas?

CAMANÉ – Nas casas de fado onde canto vai muita gente nova. Muitas vezes só para curtir… Mas são as pessoas que há. Não tenho muitas ilusões quanto a isso. É o sítio onde é necessário haver gente nova a cantar, é mesmo o único sítio onde as pessoas novas podem começar a cantar fado. Mas sinto muitas vezes é que o fado deixou de fazer parte da vida das pessoas, as pessoas já nõ crescem com essa vontade, têm outras energias e se calhar querem ouvir outro tipo de música.

FM – Acha que um fadista como o Paulo Bragança segue pelo caminho certo, no sentido de levar o fado às gerações mais novas?

CAMANÉ – O fado tem um espírito, um sabor que não se pode perder. Toda a emoção do fado é de dentro para for a. A maneira de cantar do Paulo para mim é fado. Tem a voz e a alma de um fadista.

FM – Fala-se na crise do fado. Não será melhor falar de uma crise de fadistas?

CAMANÉ – Sim, não há fado sem fadistas. O fado vive da comunicação, da interpretação, da capacidade criativa das pessoas que o cantam. Há várias opções musicais quando se quer meter um texto numa melodia de fado; interessa é escolher o melhor caminho com coerência e com alma.

FM – Qual é o seu caminho?

CAMANÉ – Escolher a partir da musicalidade das palavras, que são mais importantes do que tudo, mais importantes do que eu a cantar. É um processo que às vezes demora muito tempo. Os poemas da Manuela de Freitas, neste disco, são uma coisa complicada, dexcobrir o que é que liga e o que não liga. Interessa é que seja um processo natural. Não vou forçar as palavras numa música. Todo este disco já tinha sido cantado várias vezes nas casas de fado, embora talvez não tantas como eu gostaria, porque estive afastado delas durante algum tempo. Os fados que estão aqui gravados hoje já não os canto da mesma maneira.