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Ricardo Rocha – “Combate Com A guitarra” (entrevista)

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06 Junho 2003

Junta-se ao grupo dos mestres da guitarra portuguesa. O disco aproxima-nos de algo que não se diz em palavras mas se sente como nostalgia do paraíso perdido.


combate com a guitarra



Com “Voluptuária”, Ricardo Rocha, 28 anos, expõe uma nova conceção musical para a guitarra portuguesa que vai do minimalismo à música de câmara, passando pelo ambientalismo e por uma perspetiva original sobre Carlos Paredes.
O neto de Fontes Rocha refuta o virtuosismo, impossível de obter num instrumento que considera “limitado”, mas a verdade é que este duplo álbum com que agora se estreia a solo, “Voluptuária”, materializa essa noção de “benfeitoria” que consiste em tornar o Belo amável. Ou, como se pode ler no texto que acompanha esta edição, “há diletantismo do benfeitor, com o objetivo de deleitar-se ou recrear-se, haja vista que o bem principal a que se junta uma benfeitoria a dispensa, pelo aspeto utilitário ou funcional, mas fica mais formoso ou recreador”.
Além de Carlos Paredes, “Voluptuária” inclui temas de Pedro Caldeira Cabral e composições próprias, fazendo sobressair uma originalidade que é, afinal, e segundo o seu autor, o que de verdadeiramente “genial” pode existir nesta luta mais do que contra com a guitarra portuguesa. Volúpia ou pesadelo?

Na capa do disco pode ler-se: “Voluptuária” “não se explica, não se descreve, não se define”. Mesmo assim, tente lá uma explicação…
A primeira parte do disco é menos acessível. O segundo disco, sem ser totalmente a solo, é mais leve e colorido. Ou menos escuro. Mais para o azul-escuro… As peças para cravo e violino têm a mesma tonalidade.
O seu nome já era conhecido a partir de participações em discos de Carlos do Carmo, Janita Salomé, Sérgio Godinho, Vitorino ou Mafalda Arnauth. Agora estreia-se a solo com um duplo. Que circunstâncias propiciaram que fosse assim?
Em parte foi pelo local de gravação, o Convento dos Capuchos, um sítio magnífico. Depois, não houve aquele compromisso burocrático com as editoras, contratos, essas coisas horríveis… E já tinha bastantes peças feitas. Ia para lá uma vez por semana, ao fim da tarde, e ficava até à meia-noite, duas da manhã… Ao fim de 20 dias o disco ficou pronto.
Quer explicar a razão de ser do título?
“Voluptuária” é o título de uma peça que faz uma aproximação, até obsessiva, entre a palavra e o conteúdo musical. Acho absurdo dar um título ao calha a uma música. Normalmente até demoro mais tempo a encontrar um título do que a compor a peça (risos). Ridículo mas verdadeiro (risos). Mas… no caso de “Voluptuária” tem a ver com “voluptuoso”, “lúbrico”, “prazer”, “deleite”, sem chegar à “luxúria” e ao “lascivo” (risos)…
No disco há uma “Rotina enfadonha” e um “Estaticismo”, por sinal os dois temas mais longos…
“Rotina enfadonha” é uma peça repetitiva, no sentido rítmico, quase hipnótico. Com um lado irónico. Esta rotina pode ser a do dia-a-dia de cada um, embora neste caso fale por mim. Mas é também essa rotina rítmica que, a dado momento, desaparece para dar lugar a outro ambiente, embora, no fim, regresse de novo… O “Estaticismo” é uma peça parada, direcionando-se de uma forma “extática”.
… Já para não falar de uma “Teoria falhada”…
Essa tem a ver com o facto de, quando a estava a fazer, me ter enganado do princípio ao fim. Nesta peça, não foi seguida a regra das 12 notas. Fiz 12 notas quando me apercebi de que a 12ª só aparecia já na série seguinte de notas. Das duas uma, ou fazia tudo do princípio, ou continuava. Ironicamente, apercebi-me de que era mais fácil construir segundo esta nova maneira. Não exigia tanto esforço mental, ou esforço auditivo. É difícil encontrar uma série de 12 notas em que todos os intervalos soem bem.
Faz também uma homenagem tripla ao compositor clássico Alexander Scriabin (1872-1915).
Porque o estilo dessas três peças está de acordo com o de uma determinada fase da música dele. É o meu compositor preferido.
O primeiro CD conclui-se com composições de Pedro Caldeira Cabral. De que forma abordou a música deste compositor?
São peças extraordinariamente bem construídas para a guitarra e todas elas possuem uma inspiração magnífica, ao nível melódico e harmónico.
Sente mais prazer em tocar a música de Caldeira Cabral ou a de Carlos Paredes?
São dois mundos distintos. Ao tocar Paredes, a sensação que se tem é a de uma grande fisicalidade.
É uma música indissociável do seu autor e de uma forma muito particular de a executar?
Mesmo quando outra pessoa toca Paredes, tem de o fazer de forma física. Agora, o tempo, as “nuances”, a dinâmica, é fundamental que seja alterada, sob pena de se cair no ridículo da imitação. É preciso banir a cópia da interpretação e entrar num processo, que não é fácil, de esquecer isso tudo e olhar para a peça como se fosse a primeira vez.
É difícil interiorizar a música de Paredes?
É difícil de interpretar. E o mais difícil é a pessoa abstrair-se da forma de ele tocar. Quando falava de uma forma física, queria dizer de forma enérgica. Sem energia, a música não soa a nada.
O lado trágico na música do Paredes: “apropriou-se” dele?
Sim. E do seu lado misterioso, sobretudo em “A noite”, curiosamente um tema que usa uma linguagem nada habitual nele. É uma peça escura.
Carlos Paredes está para a guitarra portuguesa como Amália para o fado? Uma referência que pode tornar-se “maldição”?
Pode ser perigoso… Mas não sinto isso. A música que faço na guitarra portuguesa não tem nada a ver com ele. Rapidamente percebi que seria inútil continuar um caminho que ele construiu, iniciado e acabado por ele. Ele fez questão de fazer tudo. É quase obrigatório tocar a música dele. Depois, das duas uma, ou se fica preso a ele ou direciona-se a guitarra para outro sítio. Na peça do álbum em que lhe presto homenagem, curiosamente, não estava nada à espera de conseguir compor no estilo do Paredes. Mas, coisa extraordinária, o estilo rítmico, as “nuances” e o carater melódico têm muito a ver com as formas que ele utilizava. Foi a única vez que fiz isso.
Qual o seu álbum preferido de Paredes?
“Movimento Perpétuo”.
Que relação a sua guitarra mantém com o fado?
Uma boa relação. Gosto imenso de tocar fados quando o grupo funciona perfeitamente, como na música de câmara. Mas é raríssimo conseguir estar ao lado de mais duas ou três pessoas que toquem bem ou, melhor ainda, que se entendam, se ouçam uns aos outros. A relação entre a guitarra portuguesa, a guitarra clássica e a guitarra baixo é a que mais se aproxima da minha visão tímbrica. É uma combinação extraordinária.
E com o jazz e a música improvisada?
Há anos entrei para o Hot Clube onde tive umas aulas de piano mas acabei por nunca tocar jazz. A guitarra portuguesa não se enquadra nessa área, nos “standards”. Toquei música improvisada mas nada desse género. Foi engraçado.
A guitarra portuguesa já atingiu os seus limites?
É um instrumento limitado. Não pode tocar um concerto com uma orquestra, por exemplo… Poder pode, o problema é que essa suposta peça teria de ser construída de forma idiomática, para guitarra. Não é como um violino ou um violoncelo que tocam quase tudo. A guitarra, não, é uma coisa limitada, menor, que traz problemas atrás de problemas.
Então que gozo tem em tocá-la?
Não existe gozo nenhum. O confronto e os obstáculos são uns atrás dos outros. Existe, sim, uma sonoridade característica e uma potência, uma projeção de volume que raros instrumentos de corda com trastes têm. Consegue passar por cima de um cravo, por exemplo.
Trata-se, então, de um mundo autónomo?
Um mundo à parte, sim… É limitado em relação a um violino ou a um piano, instrumentos melódicos com uma capacidade extraordinária para executar qualquer tipo de melodia virtuosística. Na guitarra… acabou! (risos). É um instrumento híbrido que acaba por não ser nem melódico nem harmónico. É a única definição real que se pode dar da guitarra portuguesa. Não é clara, nem assumida, nem transparente… A própria guitarra clássica é muito mais completa que a guitarra portuguesa.
Não será um caso de personalidade demasiado vincada?
Digamos que se afoga na sua personalidade (risos).
E, na sua “luta” contra esse “monstro”, já atingiu os limites?
Não me preocupo com isso. Em cada coisa que toco deparo-me sempre com dificuldades. O objetivo principal é ouvir aquilo que quero ouvir e construir as notas que quero construir. Mas por vezes deparo-me com problemas difíceis de ultrapassar. Tento ultrapassá-los, mas sem nunca perder a noção de que não o consigo fazer (risos). Os problemas surgem porque as coisas que quero ouvir, as notas e a sua sequência, são difíceis de executar na prática. Às vezes o que pretendo ouvir não se propicia. Tudo isto terá a ver com o facto de eu também tocar piano e o piano abrir um leque sonoro vastíssimo que depois não pode ser transposto para a guitarra. É uma tragédia! (risos).
Subentende-se que tocar guitarra portuguesa é uma luta sem quartel?
Uma luta permanente. Angustiante e frustrante. É um desafio mórbido. Chega-se ao fim de 50 ou 60 anos a tocar o instrumento e continua-se com os mesmos problemas. É uma aberração! (risos).
O que é então ser-se um virtuoso neste instrumento?
Não conheço ninguém virtuoso na guitarra portuguesa. Virtuosos são Liszt, Glen Gould, Keith Jarrett. Esse virtuosismo não existe na guitarra portuguesa. Porque não apareceu nenhuma pessoa que o demonstrasse e porque o próprio instrumento impossibilita-o. Não está preparado nem musical nem fisicamente para entrar nesse alto jogo.
Por vezes dá a ideia de que a guitarra portuguesa é como que um instrumento “mecânico”, como um realejo, em que determinadas sequências de notas parecem impor-se naturalmente…
Sim, há essa imposição, não dá hipóteses de escolha. Se não for assim, não pode ser de outra maneira.
Já se sujeitou, já está convencido, a guitarra venceu-o?
Teoricamente sei isso. Mas na prática não o faço. E como não faço isso, sujeito-me a esse confronto constante com o instrumento, com dissabores técnicos e problemas dramáticos. É um pesadelo!
Tem mestres da guitarra portuguesa?
Carlos Paredes, o meu avô [Fontes Rocha], José Nunes. Todos geniais.
Voltando à carga: o que é ser-se genial na guitarra portuguesa?
Essencialmente, ter uma abordagem e um estilo pessoais, que é das coisas mais difíceis de conseguir. Ter um som impossível de imitar.
Nunca pensou, como forma de ultrapassar esses problemas técnicos que aponta, em efetuar no estúdio gravações em multipistas?
Como transformar uma guitarra em várias? Não, nunca! Isso é uma coisa não muito honesta. Cheguei à conclusão de que o que interessa é poder executar, em qualquer circunstância, o resultado final. Apesar dos problemas serem quase intermináveis…



Mafalda Arnauth + Cristina Branco – “Ser Fadista É Entregar-se À Vida” (artigo de opinião)

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23 Maio 2003


ser fadista é entregar-se à vida

São duas vozes capitais do novo fado. No mais recente álbum de Mafalda Arnauth, Encantamento, escutamos uma voz mais serena, alada e “cantabile” do que nos discos anteriores. Com Sensus, Cristina Branco avança mais um passo para fora do fado tradicional. Disco onde a poesia e a voz rivalizam em erotismo, tem a ousadia das coisas belas.



Depois de “Mafalda Arnauth”, produzido por João Gil, e “Esta Voz que me Atravessa”, produzido por Amélia Muge, “Encantamento” tem auto-produção da fadista. O resultado é o seu melhor álbum de sempre. Pelos temas e pela voz. A fadista tomou quase tudo em mãos. “não quis deixar nada em mãos alheias, decido assumir toda a responsabilidade. A parceria maior que tenho neste disco é o Luís Oliveira, que se encarregou da direção musical e dos arranjos. Neste disco as letras voltam a ser minhas… E a responsabilidade de algo que esteja menos bem é também minha. Digamos que a minha personalidade se tornou mais vincada. O disco resulta de um crescimento e de uma auto-descoberta tão grande que não seria justo pôr outras pessoas a assumirem a responsabilidade pelas minhas decisões”.
Responsabilidade que Arnauth assume como fruto de uma segurança que antes não se manifestara: “uma segurança que adveio do prazer que me deu. Sou uma mistura de racional e emocional, e o racional consegue fazer uma avaliação do trabalho. O emocional voltou a ter espaço para se expressar, coisa que no segundo disco não aconteceu, por cansaço e por estar a trabalhar com pessoas com muito mais experiência do que eu, o que gerou em mim um certo respeito”.
Algo mudou entretanto, como resultado desse processo de auto-descoberta. Mafalda centrou as atenções no corpo, forçou-o a disciplinar-se. Três fatores contribuíram para essa mudança: “O primeiro fator vital foi a saúde. O templo onde tudo isto acontece, o meu corpo. Precisava de uma paragem no final de 2001, todo o trabalho de estrada tinha sido desgastante. O segundo fator foi ter deixado de fumar. De repente pude reencontrar a minha voz e redescobrir novas possibilidades em termos de interpretação. Quando tomamos conta do nosso corpo ficamos com muito mais força para tudo o que vem a seguir. Um terceiro fator foi ter voltado a compor”.

o fado é sereno. Desprende-se da audição de “Encantamento” uma sensação de serenidade. Sem rodeios: dos três álbuns já gravados pela fadista, “Encantamento” é aquele em que Mafalda canta melhor. Algo que nasce “da respiração, da tal história de ter acabado com o tabaco”. A fadista também teve aulas de canto, “de colocação de voz”, que a ajudaram, sobretudo a tranquilizar-se. “Não me formataram a voz mas deram-me saúde ao instrumento. Sinto que está muito bem. O sopro, a respiração é tão importante a falar como a cantar, o facto de eu conseguir fazer essa gestão do ar, põe naturalmente tudo no sítio, deixando outra margem para a inspiração. Antes era uma das minhas dificuldades. Só a insegurança, a ansiedade, só isso já aperta o ar. Quando não temos que nos preocupar com isso, a atenção passa imediatamente para outro lado”.
O trabalho de estúdio teve a sua quota-parte nestes resultados. Mafalda teve o estúdio totalmente à sua disposição. “O Luís Oliveira e o José António Pedro, que faz o som do disco, formam uma sociedade e têm os dois um estúdio que, além de ser muito caseiro, é topo de gama ao nível técnico. Os músicos tiveram dois meses para gravar, mais um para as misturas”. Sobrou tempo. Não houve pressões. “A editora teve alguma dificuldade em perceber como é que está tanto tempo a fazer um disco. Para a maior parte das pessoas é uma loucura, ter um estúdio só para nós”.
Preocupações que não são vulgares nos fadistas vulgares mas que Mafalda Arnauth considera essenciais. Funcionou uma filosofia de vida que passa pela aprendizagem constante. “Enquanto estudei Veterinária tive uma cadeira, de Toxicologia, que me abriu os olhos para o ser humano hoje e como era há 30 anos atrás. Em 30 anos, os nossos corpos deixaram de ser as forças da natureza que eram. Não digo que toda a gente seja assim, mas eu pago mais caro do que as outras pessoas. Apesar de ter um corpo forte, com personalidade, sinto que sou frágil. O ritmo da vida é hoje superior, o stress que apanhamos, a comida, tudo nos fragiliza. Tive que encontrar uma disciplina. É claro que há outras pessoas que continuam a ser forças da Natureza, por mais que façam as maiores desgraças”.
Há quem diga que quanto maiores são os excessos melhor se canta o fado. Para Mafalda, não. “Até há quem diga que eu, neste momento, tenho voz a mais…”, diz a sorrir. Como é isso? “Voz a mais, por se sentir menos esforço a cantar, sem aquela necessidade de sofrimento que ainda está um bocadinho inerente ao canto”. Em “encantamento” sente-se o prazer. Incluindo “o prazer que se pode tirar das próprias dificuldades”. “porque o percurso deste disco é extremamente doloroso, fruto do tal crescimento”, diz a fadista. “Tentei fazer algo feliz de um processo que foi doloroso”. Ser fadista é, então, uma “filosofia de vida”, uma “entrega à vida”. Filosofia que pratica, “embora não os mesmos núcleos nem nos mesmos ambientes” que fizeram o fado no passado. “Ser fadista é isso, é a pessoa que vive, que absorve uma quantidade de experiências e que as transporta para o canto. O que eu absorvo é que é diferente do que absorve a maior parte das pessoas. Continuo a sentir um canto melancólico. Hoje já consigo ver nas fadistas da minha geração as suas diferenças”. E vê-las assim: Cristina Branco, “cada vez mais uma fadista que se alimenta da poesia”, Mariza, a “fadista de faísca, de garra”, Mísia, “uma fadista cosmopolita”. Cada uma delas “a absorver várias áreas do mundo”.

matar saudades. Mafalda Arnauth continua a frequentar as casas de fado. Para “matar saudades”. Dá razão a Argentina Santos que ainda há pouco tempo dizia ao Público que é impossível aos novos fazer carreira sem passar pelas casas de fado. “Passei por lá e continuo a sentir a necessidade de ir, mas não no mesmo formato. Se já não vou com a mesma frequência é porque foi lá que aprendi, nem tudo coisas boas. Mas a minha natureza não se enquadra numa casa fechada. Argentina Santos tem o seu trono, o seu lugar de culto. Se um dia tiver a minha casa de fados, naturalmente que também terei que estar lá. Mas hoje prefiro ir cantar a uma casa de fado e sentir gozo do que estar lá uma noite inteira. Até porque nós, da nova geração, tornámo-nos umas “pequenas estrelas”. Numa casa de fado onde está alguém a cantar diariamente, com uma entrega total, não tenho coragem de chegar lá, e por ter algum estatuto, chegar, cantar cinco ou seis fados e ir para casa. Estaria a obrigar alguém, provavelmente muito mais cansado do que eu, a ter que cantar outra vez. É um respeito que continuo a ter”.

o problema dos títulos. “Encantamento” termina com um “Fado Arnauth”. A própria não receia ser acusada de pretensiosismo e explica a razão de ser do título: “esse título existe porque estive dois ou três meses a tentar dar títulos às músicas o que, com a SPA [Sociedade Portuguesa de Autores], é impossível. Têm sempre registado um título igual! Por exemplo, tinha ‘Na palma da minha mão’, mas não dava, tentei cinco ou seis títulos, acabou por ter que ser ‘Da palma da minha mão’. O ‘Fado Arnauth’ foi “Feitiço’, o ‘Sem limite’ não pôde ser ‘Sem limites’, ‘Bendito fado’ teve que ficar ‘Bendito fado, bendita gente’, ‘É sempre cedo’ chamava-se ‘Acorda coração’… Impressionante. O “Fado Arnauth” foi um relâmpago, nascido da frustração.”
E “Encantamento”, foi também assim? “Esse foi um encantamento total. Um cantamento, encantamento que vem do canto. Um encantamento com a vida que passa. Porque é que, de repente, me sinto uma pessoa saudável? Há quem diga que o desapego à vida, um instinto anti-vida, é necessário. Eu penso precisamente o contrário, acho que este encantamento vem de cantar à vida, da superação do dia-a-dia. A minha vida será tanto mais rica quanto mais gostar até das coisas menos boas. Embora hoje este amor pela vida esteja algo ‘démodé’… Já esteve mais na moda ser-se feliz.”
Também a síndrome ‘Nova Amália’ esteve mais na moda. Hoje “as novas fadistas que estão a aparecer têm o cuidado de ter particularidades próprias, uma personalidade marcada”. Mafalda Arnauth até exagera um pouco, a ponto de continuar sem gravar um único fado de Amália. Lá virá o dia. “Hei-de fazer isso! Mas quando o fizer, não serão só fados dela. Será como uma prenda que darei a mim própria”.

“Encantamento” é composto por 14 temas, com música de Luís Oliveira e poemas de Mafalda Arnauth, à exceção de “As Fontes”, de Sophia de Mello Breyner, “Cavalo à Solta”, com letra de Fernando Tordo, e “No teu poema”, com versos de José Luís Tinoco. Acompanham a fadista José Elmiro Nunes (guitarra portuguesa), Luís Oliveira (guitarra clássica) e João Penedo (contrabaixo). Os convidados são João Ferreira Rosa, em “Da palma da minha mão”, e a cantora de jazz Mónica Ferraz, em “Ó voz da minha alma”.

eros é branco

“Sensus” é um disco de poesia erótica de autores luso-brasileiros como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, David Mourão-Ferreira, Pedro-Homem de Melo, Camões, Vasco Graça Moura, Maria Teresa Horta, Pedro Támen e Eugénio de Andrade. Com William Shakespeare a deitar também a sua pitada de sal a uma música em que Custódio Castelo se encarrega de dar sentido aos sons.
Tudo partiu de um poema de David Mourão-Ferreira que deu o nome ao álbum anterior de Cristina Branco, “Corpo Iluminado”. Mourão-Ferreira volta a estar presente, desta feita, com “Assim que te despes”. Assim Cristina Branco se despe de preconceitos. Fado dos sentidos. Fado-carne. Fado picante? Cristina garante que se sente, neste novo registo, “como peixe na água”.
A capa calhou ficar talvez um pouco sugestiva demais, provocando todo o tipo de associações. A cantora não tem culpa, ri-se com gosto e salta imediatamente para o cerne da questão: “Toda a gente pensa logo, poesia erótica e tal…”. É este “tal” que importa esclarecer. Tenham clama, é tudo científico: “inicialmente pretendi que fosse um documento sobre a sociedade portuguesa desde a época medieval até agora. Como é que os portugueses viam a sexualidade. Acabou por não ser, porque entretanto tropeçámos no Shakespeare, no Vinicius e no Chico…”. Apesar da vertente didáctica, Cristina assume que “Sensus” tem “uma linguagem mais ousada, embora sem cair no óbvio”, do que os álbuns anteriores.
Mas “Sensus” fala de sexualidade ou de erotismo? “Tem as duas coisas. Sem utilizar as palavras concretas”, como faz questão em frisar. “Pastoras da estrela”, um dos belíssimos temas de “Sensus”, composto por Miguel Carvalhinho, soa a música antiga, situando o fado nas noites trovadorescas de antanho. É pecado, clamariam as vozes censoras. É pecado sentir e tirar prazer da música. “Sensus” destila esse pecado e quem nos absolverá desta luxúria? “A abordagem musical do Custódio tem algo que bebe em tempos muito remotos”. A voz de Cristina faz o resto, lançando-nos no caminho da perdição.
Sem misericórdia pelos fracos, Cristina garante que “ainda pretende ir mais longe”. Na revolução do fado, bem entendido. E recorda que, nos primórdios, o “fado era cantado por prostitutas”, o que lhe conferia um carácter, digamos, não de pecado mortal, mas venial.
Quanto a Cristina Banco, o seu canto afasta-se cada vez mais das formas tradicionais do fado. “Porque não contar apenas uma história?”. As histórias de “Sensus” incluem um “Soneto de separação”, de Vinicius de Moraes, “O meu amor”, de Chico Buarque, “Ninfas”, de Camões, “Soneto destruído”, de Graça Moura, “As mãos e os frutos”, de Eugénio de Andrade e “O sabor de saber”, de Rui Branco. Histórias, afinal, de amor que uns dizem que vem antes e outros que vem depois. Cristina Branco destaca uma, “O meu amor”, uma espécie de “impressão digital”. Começa assim: “O meu amor/Tem um jeito manso que é só seu/E que me deixa louca/Quando me beija a boca/A minha pele fica toda arrepiada/E me beija com calma e fundo/Até minha alma se sentir beijada”.

Tocam em “Sensus” Custódio Castelo (guitarra clássica, baixo), Alexandre Silva (guitarra clássica), Fernando Maia (baixo), Miguel Carvalhinho (guitarra clássica), André Dequech (piano) e Ben Wolf (contrabaixo).



Anamar – “À Noite Ela Voa” (entrevista)

(público >> y >> portugueses >> entrevistas)
9 Maio 2003


à noite ela voa

Em torno da antologia “Afinal” bailam as imagens de uma mulher cuja aura continua a intrigar, Anamar. À noite as imagens são mais difusas. E voam.



Afinal quem é Anamar? A cantora da noite e das poses fatais de “Almanave” e “Feia Bonita”? A lua do Sul que ilumina as profundezas de “M”? A regressada aos dias de luz e a descoberta dos seus guias interiores no projeto SM58 partilhado com Né Ladeiras e Pilar Homem de Mello? A intérprete mutante das vozes míticas, de Edith Piaf, Sinatra, David Bowie, Leonard Cohen ou Lou Reed? A presença dentro da escuridão radiante do fado, com o fim de lhe extirpar a tragédia e de o vestir com um vestido novo, de preferência branco?
Anamar é, afinal, uma mulher simples e é nessa simplicidade que reside o seu maior mistério. Afinal um caminho eternamente inacabado, um “Baile final” que agora se revisita na antologia “Afinal”, a preparar um novo disco de originais cujos contornos a cantora prefere manter em segredo. Anamar, olhos verdes muito claros, demasiado transparentes, olha em frente e além. Por vezes torna-se difícil, quase doloroso, sustentar o olhar de água, ou de águia. Porque dolorosa é a mágoa de enfrentar, cara a cara, a verdade. Mesmo que a verdade seja, como no seu caso, encenada ao pormenor sobre o palco de um antigo e oculto teatro. A entrevista com o Y foi feita de dia, Anamar trajada de negro, com sombras em redor, a brincar.

Há alguma razão especial para lançar nesta altura uma antologia?
Há, um balanço. Por outro lado, está a haver um novo espaço para o fado e ouvindo-se os discos que já gravei percebe-se que esta nova abordagem é uma coisa recorrente no início da minha carreira e ao longo dela. Mas os discos foram esporádicos, alguns não apoiados convenientemente, por não ter feito espetáculos ao vivo, não ter alimentado uma presença na música… Um disco precisa absolutamente de ser acompanhado por espetáculos ao vivo. Eu sou mais real ao vivo do que em disco. Há neste disco uma série de músicas que, apesar de não serem inéditos, a maior parte das pessoas nunca deve ter ouvido na vida… Seria um desperdício encetar algo novo sem pôr cá fora o sumo do que posso considerar a minha viagem próxima do fado, ou de um canto de alma telúrico qualquer.
Este é, então, o tempo certo para se ouvir as suas músicas antigas?
Sim, fiz trabalhos talvez desfasados do tempo, que dificultaram o seu consumo: abordagens novas ao fado, um disco mais ambiental como o “M”, numa altura em que no mercado era pouco comum haver esse pioneirismo. Ao mesmo tempo, houve uma ausência da minha parte em lhes dar vida ao vivo, na comunicação com as pessoas.
Hoje vive-se numa situação em que tudo o que tem a ver com o fado é facilmente aceite…
Acho alguma graça. Sobretudo quando já se passaram 20 anos sobre novas abordagens, como o “Lisbunah”, da Anabela Duarte, o “Almanave”, meu, ou o primeiro disco da Sétima Legião, sem esquecer o nosso eterno irmão, António Variações. Na altura era o fruto proibido, um tabu. Linchava-se em praça pública quem o fizesse. Hoje há um “boom” comercial, porventura marcado por um certo exagero. O que antes era tabu, está agora na praça pública. Hoje há mais pessoas a dizerem as mesmas coisas que eu ando a dizer há uma data de anos, sem estarem sujeitas a testes de linchamento ou de endeusamento, tudo ao mesmo tempo. Que foi o que me aconteceu, um teste emocional brutal. Hoje é possível ouvir, por exemplo, Cristina Branco falar abertamente da relação entre música, sensualidade e sexualidade sem que seja capa do jornal no dia seguinte, como se fosse o caso mais polémico de Portugal.
Mas algumas das novas fadistas são bastante tradicionalistas. A Anamar, pelo contrário, continua a ser uma transgressora…
Você o diz (risos) e nem sabe o que se avizinha! Sobre o próximo disco apenas posso dizer que terá a ver com o fado e não será com certeza um trabalho tradicional.
Tem sobre as pessoas o efeito de projetar uma imagem muito forte. Tem consciência disso?
Projeto uma imagem forte que se pode confundir com a minha essência. Isso pode fazer com que as pessoas achem que a figura da mulher vestida de preto, de cabelos compridos e pose de “femme fatal” seja aquilo que tenho para dar. Na verdade, não é. Não passa de uma veste.
Recentemente cantou Bowie, Reed, Cohen, Sinatra, Piaf…têm ou não algo que tem a ver consigo?
…não se esqueça do Gardel, estamos a falar de um universo vasto. Foi um espetáculo [“Wild Cabaret”] que surgiu na sequência do espetáculo de teatro “Rita Hayworth”, como uma das minhas criações “à margem”, que sempre versaram universos míticos internacionais da música. É como o David Bowie cantar Brecht.
Mas o que o núcleo da artista Anamar persegue é a junção dos cantos de alma do universo luso-latino.
A capa de “Afinal” tem algo de sombrio, muito David Lynch.
Acha? Eu leio a noite, sem dúvida, que, para todos os efeitos, continua a ser uma imagem colada a mim, mas também umas asas brancas e um ar bastante tranquilo. Na noite ela voa… Há um lado teatral evidente mas, curiosamente, a fotografia da capa foi tirada durante uma pausa na sessão. O resto do rolo tem poses, encenações, intenções, mas nesta estava apenas a descansar.
Mantém sempre uma lucidez extrema em relação a tudo o que faz.
Tem vezes!…(risos). Como provenho de um universo anglo-saxónico, americano, preocupo-me com o conhecimento técnico que preside à criação artística, com o controle conceptual, desde a imagem aos conteúdos escritos, passando pela escolha de parceiros, pela luz…
No entanto o mistério que a rodeia adensa-se…
Mas eu explico, desmonto tudo! Sou uma pessoa simples! As pessoas é que não acreditam (risos) e continuam a achar que sou misteriosa. Mas finalmente se constata que o mistério da Anamar não é um mistério construído, como foi dito em tempos. Se à medida que vou falando e explicando, ele se mantém e até se acentua, é porque deve existir por si próprio. Claro que não consigo desmontar o que passa através da minha voz e do meu canto. Será aí que reside o mistério.
Ao vivo, sente que está a expor, ou a expor-se a esse mistério?
O palco para mim não é um território de exposição, daí ser apelidada de animal de palco. E é verdade. O palco é a minha casa. Estou num palco como estou em casa. Não tenho a noção de estarem não sei quantas pessoas a olharem para mim. É como se me sentasse, entre aspas, atrás de uma secretária, é o trabalho que tenho para fazer – o que passa e o que sinto é a comunhão.
É portanto uma atriz, como Isabelle Hupert, que quanto mais se expõe em situações teatrais extremas, mais oculta a sua essência?
Como todas as grandes figuras reais e não as que são construídas pela máquina de consumo, ela tem uma essência que passa através de tudo aquilo que faz e que é extraordinariamente profunda e simples. Porque é verdadeira. A Isabelle Hupert é também uma pessoa que explica tudo, que se expõe, mas que na sua vida pessoal deve ser com certeza simples. Provavelmente é esta essência que está presente em tudo o que se faz quando se trabalha para se ser verdadeiro. O meu caso é igual: o melhor que tenho para dar é a minha essência. Ser eu o mais verdadeiramente possível. E assim criar pontes com as pessoas. E isso é misterioso. Porque é misteriosa a relação das almas e dos corações.
Que músicas misteriosas anda a ouvir neste momento?
Algumas que até poderão ter a ver com o meu próximo trabalho, mas só em termos técnicos ou de pesquisa histórica. E “Secrets of the Beehive”, de David Sylvian, o “Concerto nº3” de Rachmaninov, o álbum ao vivo do Rodrigo Leão, Susana Baca, “Bodily Functions” do Matthew Herbert.