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2 Maio 2003
PEDRO CALDEIRA CABRAL
Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII
2xCD ed. e distri. Tradisom
8|10
Há anos que Pedro Caldeira Cabral tem vindo a divulgar o reportório da guitarra portuguesa, funcionando como contraponto erudito de Carlos Paredes. À conceção telúrica do autor de “Verdes Anos” contraporia o fundador do grupo de música antiga, La Batalla, uma visão mais depurada e académica. A presente edição esclarece este e outros pontos. Dividida em dois CDs, o primeiro apresenta o músico na guitarra portuguesa, acompanhado por Fernando Alvim, na guitarra clássica, e Duncan Fox, no contrabaixo, a interpretar, além de temas da sua autoria, outros de Carlos Seixas ou de Paredes (as emblemáticas Variações em si menor e ré maior, as “Danças Portuguesas” e “Verdes anos”), sendo o segundo dedicado a repertório Barroco para guitarra inglesa, com Marcos Magalhães (cravo), Kenneth Frazer (violoncelo barroco) e Duncan Fox (violone barroco). Paredes por Caldeira Cabral é uma outra forma de tocar a essência da música portuguesa, menos próxima do abismo, mais ascética e matematizada, tornando luminosa a emoção que em Paredes era noite. Já as peças de Manuel José Vidigal que ocupam maioritariamente o CD2 são delicadas variações próximas da música popular, lidas e executadas por Caldeira Cabral com o justo equilíbrio entre espírito e ornamentação.
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sexta-feira, 2 Maio 2003
História do fado custa um milhão de euros
ESPÓLIO NAS MÃOS DE COLECIONADOR INGLÊS
Um milhão de euros é quanto pede Bruce Mastin pela sua valiosa coleção dos primórdios do fado. São cinco mil discos raros, de 78 rotações. A proposta de compra vai ser feita nos próximos dias
O fado vende-se. O fado compra-se. O fado paga-se. Paga-se e bem, sobretudo quando se trata de um espécime raro. Imagine-se um espólio de cinco mil discos de 78 rotações, a maior parte deles inéditos, remontando as gravações mais antigas, ainda em cilindro de cera, a 1904. Este espólio existe, mas está nas mãos de um inglês.
O fado é nosso. Pois é. Mas quem tem uma parte importante dele é o britânico Bruce Mastin, colecionador. Acontece que Mr. Mastin, sabendo do interesse do Estado português em adquirir a preciosidade que, em meados do século passado, adquiriu num armazém de Lisboa por tuta e meia, até compreende e aceita as razões lusitanas, mas, desfazer-se dela, só a troco de um cheque de um milhão de euros.
E vale esse dinheiro? Se vale! Nesses cinco mil discos está impressa a origem do fado gravado, quando, em 1926, a companhia inglesa Gramophone, com sede em Hayes, Middlesex, estabeleceu filiais em Lisboa (na Valentim de Carvalho) e no Porto (no Grande Bazar do Porto). As duas fábricas de gramofones e discos encetaram então um intenso processo de gravação de discos, com orçamentos que previam o pagamento aos artistas, aluguer das salas de gravação, publicidade, salário dos engenheiros de som (Fleming e Draycott, assim se chamavam os dois técnicos que a firma inglesa fazia deslocar a Lisboa para o efeito), equipamento, etc… As sessões duraram até 1936, a II Grande Guerra estalou entretanto e a Gramophone Company deixou Portugal, abandonando o espólio que o sr. Mastin teve a sorte de encontrar.
Entre as históricas gravações contam-se os nomes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor e Maria Victoria, todas registadas em 1904. Mais recentes, há 78 rotações de, entre outros, Maria Alice, Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista, Maria do Carmo Torres e dos míticos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e Alfredo Duarte (Marceneiro). Fado como se cantava nos cafés Vitória ou Luso, este último descrito no início dos anos 30 pelo musicólogo Rodney Gallop como “um retângulo amplo, cuja entrada era interdita aos portadores de bonés ou boinas”.
Peças únicas
Tudo isto existe, tudo isto é triste (enquanto não passar para cá), tudo isto é fado. Que fazer, então, para que deixe de ser triste? João Pinto Sousa, diretor da empresa Corda Seca, especializada em iconografia do fado, e elemento da associação Movimentos Perpétuos, quer ir pessoalmente a Londres e trazer o tesouro para Portugal, custe o que custar. De preferência, menos do que o milhão de euros pedidos pelo sr. Mastin (uma “exorbitância”), mas se for mesmo preciso puxar os cordões à bolsa, paciência.
Antes, já uma comissão oficial se deslocara a Londres, chefiada por Joaquim Pais de Brito, diretor do Museu Nacional de Etnologia, para testemunhar “a mais-valia e a importância deste espólio para Portugal”, até porque são “os primeiros fados gravados” e urge devolvê-los à pátria onde nasceram. Feita a avaliação, é a vez de João Pinto de Sousa viajar até Londres para tentar convencer o colecionador, o qual, segundo parece, se mostra “sensível” às razões dos portugueses.
Com ligações afetivas à Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, empresa municipal interessada na transação, é nessa condição que João Pinto Sousa recebeu “todo o apoio para poder, também como cidadão”, fazer tudo o que estiver ao seu alcance “para, com algumas boas influências, nomeadamente do próprio Presidente da República, tentar trazer a coleção para Portugal”.
Atingido tal objetivo, os cinco mil discos (dos quais, “pelo menos, 4500 são peças únicas”) serão organizados, digitalizados, integrados numa base de dados e editados numa antologia, “Arquivos do Fado”, pela Tradisom, de José Moças, outra das pessoas empenhadas em recuperar os registos fonográficos “de uma das épocas mais importantes do património musical português” e exemplares cuja importância e raridade são reconhecidas por especialistas do fado como Daniel Gouveia, José Manuel Osório, José Pracana e Luís Filipe Penedo. Recorde-se que nos arquivos atuais do fado os exemplares mais antigos não ostentam data anterior a 1945. A acompanhar esta antologia será editado um trabalho inédito do investigador norte-americano Paul Vernon, com o levantamento de toda a discografia do espólio.
Preço “descabido”
Em teoria, incluindo as necessárias autorizações, está tudo pronto. Falta apenas trazer o material e, claro, falta o dinheiro para o pagar. Pinto de Sousa tentará fazer descer o preço. O dinheiro não virá do Estado – “O Ministério da Cultura (MC), através do POC, só pode apoiar a futura gravação, digitalização, reprodução, não a compra efetiva” –, mas de uma série de mecenatos, como bancos, que Pinto de Sousa procurará angariar, com base nos apoios do próprio MC, da Casa do Fado, da Câmara de Lisboa e da Presidência da República.
Mas um milhão de euros é um preço “descabido”: “Admito que, do ponto de vista comercial, o homem seja justamente renumerado, mas o peso do que estaria em cima da balança é o de algo que é pertença de uma certa alma portuguesa. Vou tentar que ele desça à terra e seja sensível aos argumentos românticos desta história”.
Mesmo que Bruce Mastin não desça à terra, João Pinto Sousa defende que o negócio tem que ser feito. “Há coisas que não têm preço, e este seria um dinheiro bem gasto”. Além disso, dado as primeiras gravações datarem de 1904, “era bonito em 2004, já que vamos ter a Europa a olhar para nós por causa do futebol, podermos ter também um centenário do fado”.
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07 Março 2003
capa
Carlos Paredes
A GUITARRA QUE VENCEU O FADO
CARLOS PAREDES
O Mundo Segundo Carlos Paredes. Integral, 1958 – 1993
Ed. e distri. EMI-VC
10|10
Se Amália foi o fado, Paredes é a sua transcendência. Amália foi a onda, nítida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que não se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim – com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solidão. A integral O Mundo Segundo Carlos Paredes, agora editada, é o testemunho vivo desse caminho.
“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço: é um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. É desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros músicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”, cuja obra integral acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o título “O Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993”.
O mundo segundo Carlos Paredes é um mundo que a todos fascina mas também um mundo cuja originalidade se torna difícil de enquadrar sob a lupa da análise mais fria. A música deste “ser etéreo” que, como dizia Goes, parecia pairar no espaço enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimensão mais trágica do ser português, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solidões se sublima amorosamente pela Saudade.
Para além de Amália, Paredes foi, enquanto músico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas razões, pelo valor documental e pelas não razões, de ordem emocional, que cada um descobrirá dentro de si, “O Mundo Segundo Carlos Paredes” é, desde já, no capítulo das reedições, o acontecimento editorial do ano.
Apresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 páginas explicativas, incluindo um texto de apresentação de Ruy Vieira Nery, compõe-se de oito CDs organizados por ordem cronológica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e álbuns lançados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra é escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Amália), mas absolutamente imbuída de uma intensidade inigualável na música deste século.
nascer do dia
“Despertar”, título do CD de abertura, é composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP “Fado de Coimbra”, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colaborações prévias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.
Descobre-se nesta introdução a nostalgia e o típico “rubato” coimbrões que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o génio musical presente no EP “Carlos Paredes”, de 1962.
Os desenvolvimentos melódicos, em forma de rapsódia, e, sobretudo, a sua exposição em termos técnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sessão em casa de Amália, comentou: “Aquilo não tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ninguém tocava daquela maneira”. Não tocava, de facto. Quanto à guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arquétipo pelo qual todos os guitarristas das gerações posteriores se guiariam.
Outro EP, de 1964, apresenta “Guitarradas sob a Forma do Filme ‘Verdes Anos’”. Não era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o cálice onde vamos beber a transcendência, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam já preparadas para fazer florescer uma música ainda mais sofisticada. “Frustração”, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revelação do destino. Noite sem véus.
“Guitarra Portuguesa” (1967) constitui o álbum de estreia, através do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no coração alguma destas melodias. “Dança” evidencia o lado mais enraizado na música tradicional de Paredes, enquanto “Fantasia” e “Pantomina” ilustram as suas ligações à música antiga, respetivamente da Renascença e da Idade Média. “Divertimento” sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de construção melódica, rítmica e harmónica do músico. Muitas músicas numa música. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo delírio, formam uma orquestra subliminar, atuante nos vários planos de escuta. “Romance Nº1” e “Romance Nº2” são harpa de luz e água. Paredes e Alvim, guitarras em dança sagrada. Precisamente no meio do alinhamento está “Verdes anos”. E aqui, de tão próximos e tão misteriosamente e para sempre distantes (não é isto, também, a Saudade?) resta-nos o silêncio e a entrega. Porque de silêncio e entrega, mas também de uma solidão exposta com nudez quase cruel, se trata. Música em estado puro, verdadeiro “movimento perpétuo” do qual o executante se faz puro agente mediúnico. Aquele que recebe, dá e revela.
Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que era já muito longe de Paredes. E pus lá um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao máximo a viola do Fernando Alvim…”. Completam o “Despertar” três temas extraídos do LP “Coimbra de Ontem e de Hoje” (1967) de Luiz Goes.
água corrente
“Na Corrente”, CD Nº2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o documentário televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em Cd apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra clássica improvisando em tempo real sobre as imagens projetadas. Um Paredes diferente, abstrato, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o fôlego, umas vezes próximo do espírito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O “mundo segundo Carlos Paredes” é Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de água, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes. Inquebráveis. Doze minutos e meio de vida como ela é, ou seja, música: Movimento. Enigma. Tempo. “Na corrente” é um título perfeito.
Por isso se cai aos trambolhões quando, sem aviso, a voz de José Carlos Ary dos Santos se faz a ouvir lendo poemas medievais e contemporâneos, com Paredes a acompanhá-lo. O álbum chamava-se “Espiral Op.70” (foi uma oferta de Natal da agência de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos…) e teve edição privada em 1969. Alguns solos (já na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama “Meu amor, meu amor”, poema seu que Amália cantaria com música de Alain Oulman.
Vem a seguir uma raridade: “Meu País” (1970), de parceria com a cantora e atriz Cecília de Melo, então companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de Cândida Branca Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e dá-lhe um céu repintado da obra anterior. Mas céu, seja como for…
“Danças”, CD Nº3, traz “Movimento Perpétuo”, de 1971. Um clássico. Ao lado dos inéditos, o LP incluía um par de temas compostos para a banda sonora de “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com a participação de Tiago Velez, na flauta, o que confere à música uma sonoridade com ressonâncias “new age” na linha da música de Paul Horn. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projetadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes.
“Quando entrávamos para estúdio”, recorda Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez…’, dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.
Há ainda “O fantoche” (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sessões, e outras duas versões, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em “single”. Uma delas, “Balada de Coimbra”, com arranjo de Artur Paredes, foi responsável por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se terá insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem… Os restantes seis temas fazem parte de um álbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compilação de raridades “Na Corrente”. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclusão em álbuns posteriores, “Concerto em Frankfurt e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo”, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de relações entre ambas as partes.
o destino nas mãos
“As Mãos” reúne material de “É Preciso um País” (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do “guitarrão”, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra clássica e da guitarra portuguesa normal. A revolução de Abril ainda fervia e os poemas de Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo não cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento político, deu-se de corpo e alma a esta luta que também foi a sua mas da qual outros se aproveitaram. Digamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um comício. A sua revolução era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a música em Portugal.
Já o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu “companheiro de estrada”, está mais próximo da corrente politizada da MPP do pós-25 de Abril, com uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panfletário veiculada pelo tom declamatório de Alegre.
A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt” fecha o alinhamento de “As Mãos”. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza (o desespero?) substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, realmente fado, a escuridão que escorria então da sua guitarra. Tocava já como se adivinhasse um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, procurando esventrá-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num “lado de lá” que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que compõem a “suite” ”Seis Cantos Improvisados sobre a Cidade”, ficando o lado mais lírico reservado para as “Seis Guitarras sobre uma Fábula”.
inventar a solidão
Outra colaboração, desta feita com Carlos do Carmo, em “Fado moliceiro”, para o álbum “Um Homem no País” (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado “Improvisos”. Mas a “peça de resistência” é constituída pelos dois longos “diálogos” da guitarra de Paredes com o piano de António Victorino d’Almeida que formam “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultaram esporádicas confluências mas, acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d’Almeida é um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a atenção da guitarra para espaços comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se à hipotética aproximação de dois monólogos em vez da comunhão. Paredes exigia, sem querer, subserviência. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impensável. E a Paredes um só labirinto chegava.
Em “Asas” arruma-se o imprescindível “Espelho de Sons”, revisto e aumentado na primeira transição de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música o domínio de si mesma nas suas mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se lucidez em cada frase, a visão e a sabedoria do que antes era intuição e mediunidade. Paredes ataca as notas, já não para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. Não toca “contra” mas “com”. A tragédia, de inevitável, é integrada num patamar de existência superior. Paredes ganhara “Asas sobre o Mundo” (dois inéditos acrescentados ao conceito original de “Espelho de Sons”, em edição exclusiva para a TAP) e é com elas que desce o pano sobre o sexto CD de “O Mundo Segundo Carlos Paredes”.
A vida, segundo a segundo
É sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros músicos, outras músicas. Mas nem por isso os outros músicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de união que em 1990 foi editada em álbum, “Charlie Haden & Carlos Paredes”, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível do alinhamento. Assim se inicia o CD número sete desta Integral, “Diálogos”. De Haden, apenas o hino “Song for Che”. O resto, em temas como “Dança dos camponeses”, “Marionetas”, “Balada de Coimbra”, “Divertimento” ou o incontornável “Verdes anos”, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. É caminho escuro, mas também cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflete o mundo, mas só à sua imagem. Três temas finais completam estes “Diálogos”, todos gravados na sessão realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta só “Mudar de vida”, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães em “Canto de embalar” (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, “O navio”.
Faltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, “Memórias”. Paredes, o músico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do túnel, desamparado, as mãos presas nas garras da doença. “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor. Foi preciso montar “takes”, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a estátua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que é “Guitarra Portuguesa” e a “Valsa diabólica” que é uma das múltiplas mágoas de “Titi”, a música de Paredes cresceu, como escreve João Lopes no posfácio da Integral, “uma pura identidade em construção: uma música carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua própria ideia de liberdade (…) uma arte de não abdicar das razões da solidão”.
Ao escutarmos e – melhor ainda, ouvirmos – “O Mundo Segundo Carlos Paredes” sentimo-nos mais sós e menos sós. Mas essa é a essência da Saudade. Saudade do que somos.