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Anamar – “À Noite Ela Voa” (entrevista)

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9 Maio 2003


à noite ela voa

Em torno da antologia “Afinal” bailam as imagens de uma mulher cuja aura continua a intrigar, Anamar. À noite as imagens são mais difusas. E voam.



Afinal quem é Anamar? A cantora da noite e das poses fatais de “Almanave” e “Feia Bonita”? A lua do Sul que ilumina as profundezas de “M”? A regressada aos dias de luz e a descoberta dos seus guias interiores no projeto SM58 partilhado com Né Ladeiras e Pilar Homem de Mello? A intérprete mutante das vozes míticas, de Edith Piaf, Sinatra, David Bowie, Leonard Cohen ou Lou Reed? A presença dentro da escuridão radiante do fado, com o fim de lhe extirpar a tragédia e de o vestir com um vestido novo, de preferência branco?
Anamar é, afinal, uma mulher simples e é nessa simplicidade que reside o seu maior mistério. Afinal um caminho eternamente inacabado, um “Baile final” que agora se revisita na antologia “Afinal”, a preparar um novo disco de originais cujos contornos a cantora prefere manter em segredo. Anamar, olhos verdes muito claros, demasiado transparentes, olha em frente e além. Por vezes torna-se difícil, quase doloroso, sustentar o olhar de água, ou de águia. Porque dolorosa é a mágoa de enfrentar, cara a cara, a verdade. Mesmo que a verdade seja, como no seu caso, encenada ao pormenor sobre o palco de um antigo e oculto teatro. A entrevista com o Y foi feita de dia, Anamar trajada de negro, com sombras em redor, a brincar.

Há alguma razão especial para lançar nesta altura uma antologia?
Há, um balanço. Por outro lado, está a haver um novo espaço para o fado e ouvindo-se os discos que já gravei percebe-se que esta nova abordagem é uma coisa recorrente no início da minha carreira e ao longo dela. Mas os discos foram esporádicos, alguns não apoiados convenientemente, por não ter feito espetáculos ao vivo, não ter alimentado uma presença na música… Um disco precisa absolutamente de ser acompanhado por espetáculos ao vivo. Eu sou mais real ao vivo do que em disco. Há neste disco uma série de músicas que, apesar de não serem inéditos, a maior parte das pessoas nunca deve ter ouvido na vida… Seria um desperdício encetar algo novo sem pôr cá fora o sumo do que posso considerar a minha viagem próxima do fado, ou de um canto de alma telúrico qualquer.
Este é, então, o tempo certo para se ouvir as suas músicas antigas?
Sim, fiz trabalhos talvez desfasados do tempo, que dificultaram o seu consumo: abordagens novas ao fado, um disco mais ambiental como o “M”, numa altura em que no mercado era pouco comum haver esse pioneirismo. Ao mesmo tempo, houve uma ausência da minha parte em lhes dar vida ao vivo, na comunicação com as pessoas.
Hoje vive-se numa situação em que tudo o que tem a ver com o fado é facilmente aceite…
Acho alguma graça. Sobretudo quando já se passaram 20 anos sobre novas abordagens, como o “Lisbunah”, da Anabela Duarte, o “Almanave”, meu, ou o primeiro disco da Sétima Legião, sem esquecer o nosso eterno irmão, António Variações. Na altura era o fruto proibido, um tabu. Linchava-se em praça pública quem o fizesse. Hoje há um “boom” comercial, porventura marcado por um certo exagero. O que antes era tabu, está agora na praça pública. Hoje há mais pessoas a dizerem as mesmas coisas que eu ando a dizer há uma data de anos, sem estarem sujeitas a testes de linchamento ou de endeusamento, tudo ao mesmo tempo. Que foi o que me aconteceu, um teste emocional brutal. Hoje é possível ouvir, por exemplo, Cristina Branco falar abertamente da relação entre música, sensualidade e sexualidade sem que seja capa do jornal no dia seguinte, como se fosse o caso mais polémico de Portugal.
Mas algumas das novas fadistas são bastante tradicionalistas. A Anamar, pelo contrário, continua a ser uma transgressora…
Você o diz (risos) e nem sabe o que se avizinha! Sobre o próximo disco apenas posso dizer que terá a ver com o fado e não será com certeza um trabalho tradicional.
Tem sobre as pessoas o efeito de projetar uma imagem muito forte. Tem consciência disso?
Projeto uma imagem forte que se pode confundir com a minha essência. Isso pode fazer com que as pessoas achem que a figura da mulher vestida de preto, de cabelos compridos e pose de “femme fatal” seja aquilo que tenho para dar. Na verdade, não é. Não passa de uma veste.
Recentemente cantou Bowie, Reed, Cohen, Sinatra, Piaf…têm ou não algo que tem a ver consigo?
…não se esqueça do Gardel, estamos a falar de um universo vasto. Foi um espetáculo [“Wild Cabaret”] que surgiu na sequência do espetáculo de teatro “Rita Hayworth”, como uma das minhas criações “à margem”, que sempre versaram universos míticos internacionais da música. É como o David Bowie cantar Brecht.
Mas o que o núcleo da artista Anamar persegue é a junção dos cantos de alma do universo luso-latino.
A capa de “Afinal” tem algo de sombrio, muito David Lynch.
Acha? Eu leio a noite, sem dúvida, que, para todos os efeitos, continua a ser uma imagem colada a mim, mas também umas asas brancas e um ar bastante tranquilo. Na noite ela voa… Há um lado teatral evidente mas, curiosamente, a fotografia da capa foi tirada durante uma pausa na sessão. O resto do rolo tem poses, encenações, intenções, mas nesta estava apenas a descansar.
Mantém sempre uma lucidez extrema em relação a tudo o que faz.
Tem vezes!…(risos). Como provenho de um universo anglo-saxónico, americano, preocupo-me com o conhecimento técnico que preside à criação artística, com o controle conceptual, desde a imagem aos conteúdos escritos, passando pela escolha de parceiros, pela luz…
No entanto o mistério que a rodeia adensa-se…
Mas eu explico, desmonto tudo! Sou uma pessoa simples! As pessoas é que não acreditam (risos) e continuam a achar que sou misteriosa. Mas finalmente se constata que o mistério da Anamar não é um mistério construído, como foi dito em tempos. Se à medida que vou falando e explicando, ele se mantém e até se acentua, é porque deve existir por si próprio. Claro que não consigo desmontar o que passa através da minha voz e do meu canto. Será aí que reside o mistério.
Ao vivo, sente que está a expor, ou a expor-se a esse mistério?
O palco para mim não é um território de exposição, daí ser apelidada de animal de palco. E é verdade. O palco é a minha casa. Estou num palco como estou em casa. Não tenho a noção de estarem não sei quantas pessoas a olharem para mim. É como se me sentasse, entre aspas, atrás de uma secretária, é o trabalho que tenho para fazer – o que passa e o que sinto é a comunhão.
É portanto uma atriz, como Isabelle Hupert, que quanto mais se expõe em situações teatrais extremas, mais oculta a sua essência?
Como todas as grandes figuras reais e não as que são construídas pela máquina de consumo, ela tem uma essência que passa através de tudo aquilo que faz e que é extraordinariamente profunda e simples. Porque é verdadeira. A Isabelle Hupert é também uma pessoa que explica tudo, que se expõe, mas que na sua vida pessoal deve ser com certeza simples. Provavelmente é esta essência que está presente em tudo o que se faz quando se trabalha para se ser verdadeiro. O meu caso é igual: o melhor que tenho para dar é a minha essência. Ser eu o mais verdadeiramente possível. E assim criar pontes com as pessoas. E isso é misterioso. Porque é misteriosa a relação das almas e dos corações.
Que músicas misteriosas anda a ouvir neste momento?
Algumas que até poderão ter a ver com o meu próximo trabalho, mas só em termos técnicos ou de pesquisa histórica. E “Secrets of the Beehive”, de David Sylvian, o “Concerto nº3” de Rachmaninov, o álbum ao vivo do Rodrigo Leão, Susana Baca, “Bodily Functions” do Matthew Herbert.



Pedro Caldeira Cabral – “Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII”

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2 Maio 2003


PEDRO CALDEIRA CABRAL
Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII
2xCD ed. e distri. Tradisom
8|10



Há anos que Pedro Caldeira Cabral tem vindo a divulgar o reportório da guitarra portuguesa, funcionando como contraponto erudito de Carlos Paredes. À conceção telúrica do autor de “Verdes Anos” contraporia o fundador do grupo de música antiga, La Batalla, uma visão mais depurada e académica. A presente edição esclarece este e outros pontos. Dividida em dois CDs, o primeiro apresenta o músico na guitarra portuguesa, acompanhado por Fernando Alvim, na guitarra clássica, e Duncan Fox, no contrabaixo, a interpretar, além de temas da sua autoria, outros de Carlos Seixas ou de Paredes (as emblemáticas Variações em si menor e ré maior, as “Danças Portuguesas” e “Verdes anos”), sendo o segundo dedicado a repertório Barroco para guitarra inglesa, com Marcos Magalhães (cravo), Kenneth Frazer (violoncelo barroco) e Duncan Fox (violone barroco). Paredes por Caldeira Cabral é uma outra forma de tocar a essência da música portuguesa, menos próxima do abismo, mais ascética e matematizada, tornando luminosa a emoção que em Paredes era noite. Já as peças de Manuel José Vidigal que ocupam maioritariamente o CD2 são delicadas variações próximas da música popular, lidas e executadas por Caldeira Cabral com o justo equilíbrio entre espírito e ornamentação.



“História Do Fado Custa Um Milhão De Euros” – “Espólio Nas Mãos De Coleccionador Inglês” (artigo de opinião)

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sexta-feira, 2 Maio 2003


História do fado custa um milhão de euros

ESPÓLIO NAS MÃOS DE COLECIONADOR INGLÊS

Um milhão de euros é quanto pede Bruce Mastin pela sua valiosa coleção dos primórdios do fado. São cinco mil discos raros, de 78 rotações. A proposta de compra vai ser feita nos próximos dias



O fado vende-se. O fado compra-se. O fado paga-se. Paga-se e bem, sobretudo quando se trata de um espécime raro. Imagine-se um espólio de cinco mil discos de 78 rotações, a maior parte deles inéditos, remontando as gravações mais antigas, ainda em cilindro de cera, a 1904. Este espólio existe, mas está nas mãos de um inglês.
O fado é nosso. Pois é. Mas quem tem uma parte importante dele é o britânico Bruce Mastin, colecionador. Acontece que Mr. Mastin, sabendo do interesse do Estado português em adquirir a preciosidade que, em meados do século passado, adquiriu num armazém de Lisboa por tuta e meia, até compreende e aceita as razões lusitanas, mas, desfazer-se dela, só a troco de um cheque de um milhão de euros.
E vale esse dinheiro? Se vale! Nesses cinco mil discos está impressa a origem do fado gravado, quando, em 1926, a companhia inglesa Gramophone, com sede em Hayes, Middlesex, estabeleceu filiais em Lisboa (na Valentim de Carvalho) e no Porto (no Grande Bazar do Porto). As duas fábricas de gramofones e discos encetaram então um intenso processo de gravação de discos, com orçamentos que previam o pagamento aos artistas, aluguer das salas de gravação, publicidade, salário dos engenheiros de som (Fleming e Draycott, assim se chamavam os dois técnicos que a firma inglesa fazia deslocar a Lisboa para o efeito), equipamento, etc… As sessões duraram até 1936, a II Grande Guerra estalou entretanto e a Gramophone Company deixou Portugal, abandonando o espólio que o sr. Mastin teve a sorte de encontrar.
Entre as históricas gravações contam-se os nomes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor e Maria Victoria, todas registadas em 1904. Mais recentes, há 78 rotações de, entre outros, Maria Alice, Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista, Maria do Carmo Torres e dos míticos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e Alfredo Duarte (Marceneiro). Fado como se cantava nos cafés Vitória ou Luso, este último descrito no início dos anos 30 pelo musicólogo Rodney Gallop como “um retângulo amplo, cuja entrada era interdita aos portadores de bonés ou boinas”.

Peças únicas
Tudo isto existe, tudo isto é triste (enquanto não passar para cá), tudo isto é fado. Que fazer, então, para que deixe de ser triste? João Pinto Sousa, diretor da empresa Corda Seca, especializada em iconografia do fado, e elemento da associação Movimentos Perpétuos, quer ir pessoalmente a Londres e trazer o tesouro para Portugal, custe o que custar. De preferência, menos do que o milhão de euros pedidos pelo sr. Mastin (uma “exorbitância”), mas se for mesmo preciso puxar os cordões à bolsa, paciência.
Antes, já uma comissão oficial se deslocara a Londres, chefiada por Joaquim Pais de Brito, diretor do Museu Nacional de Etnologia, para testemunhar “a mais-valia e a importância deste espólio para Portugal”, até porque são “os primeiros fados gravados” e urge devolvê-los à pátria onde nasceram. Feita a avaliação, é a vez de João Pinto de Sousa viajar até Londres para tentar convencer o colecionador, o qual, segundo parece, se mostra “sensível” às razões dos portugueses.
Com ligações afetivas à Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, empresa municipal interessada na transação, é nessa condição que João Pinto Sousa recebeu “todo o apoio para poder, também como cidadão”, fazer tudo o que estiver ao seu alcance “para, com algumas boas influências, nomeadamente do próprio Presidente da República, tentar trazer a coleção para Portugal”.
Atingido tal objetivo, os cinco mil discos (dos quais, “pelo menos, 4500 são peças únicas”) serão organizados, digitalizados, integrados numa base de dados e editados numa antologia, “Arquivos do Fado”, pela Tradisom, de José Moças, outra das pessoas empenhadas em recuperar os registos fonográficos “de uma das épocas mais importantes do património musical português” e exemplares cuja importância e raridade são reconhecidas por especialistas do fado como Daniel Gouveia, José Manuel Osório, José Pracana e Luís Filipe Penedo. Recorde-se que nos arquivos atuais do fado os exemplares mais antigos não ostentam data anterior a 1945. A acompanhar esta antologia será editado um trabalho inédito do investigador norte-americano Paul Vernon, com o levantamento de toda a discografia do espólio.

Preço “descabido”
Em teoria, incluindo as necessárias autorizações, está tudo pronto. Falta apenas trazer o material e, claro, falta o dinheiro para o pagar. Pinto de Sousa tentará fazer descer o preço. O dinheiro não virá do Estado – “O Ministério da Cultura (MC), através do POC, só pode apoiar a futura gravação, digitalização, reprodução, não a compra efetiva” –, mas de uma série de mecenatos, como bancos, que Pinto de Sousa procurará angariar, com base nos apoios do próprio MC, da Casa do Fado, da Câmara de Lisboa e da Presidência da República.
Mas um milhão de euros é um preço “descabido”: “Admito que, do ponto de vista comercial, o homem seja justamente renumerado, mas o peso do que estaria em cima da balança é o de algo que é pertença de uma certa alma portuguesa. Vou tentar que ele desça à terra e seja sensível aos argumentos românticos desta história”.
Mesmo que Bruce Mastin não desça à terra, João Pinto Sousa defende que o negócio tem que ser feito. “Há coisas que não têm preço, e este seria um dinheiro bem gasto”. Além disso, dado as primeiras gravações datarem de 1904, “era bonito em 2004, já que vamos ter a Europa a olhar para nós por causa do futebol, podermos ter também um centenário do fado”.