Arquivo da Categoria: Etno

Joanie Madden – “A Whistle On The Wind”

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995
world


Joanie Madden
A Whistle On The Wind
GREEN LINNET, DISTRI, MC-MUNDO DA CANÇÃO



A senhora anafada e de bochechas coradas que aparece a sorrir na contracapa faz parte do grupo feminino Cherish the Ladies e é considerada uma das mais reputadas intérpretes – não diremos irlandesa, porque nasceu no Bronx, nos Estados Unidos, embora filha de pais irlandeses – de “tin whistle” e flauta da actualidade. “A Whistle on the Wind” faz jus a esse estatuto. Ao contrário do álbum de Ann Heymann, também recenseado nestas páginas, não se confina ao cacifo, pouco requisitado, dos instrumentos solistas. Possuidora de um controlo de respiração notável, aspecto mais pertinente na técnica do “tin whistle”, Joanie aproveita da melhor maneira todas as potencialidades desse pequeno tubo de lata que tão bem canta a jovialidade da alma irlandesa. Tocando ora num estilo pessoal, ora adequando a prática instrumental às restrições do estilo tradicional de Galway, Joanie Madden tanto reproduz a atmosfera de uma sessão num “pub” em Tipperary, onde conheceu os violinistas Liz Carroll e Sean Ryan, como a de um outro encontro, em Sligo, com outra violinista da Green Linnet, Eileen Ivers, e o acordeonista de Chicago John Williams. No final dá a palavra ao seu amigo e figura lendária da folk irlandesa Liam Clancy, para este recitar um poema de Mary Hynes adaptado do gaélico por Raftery. Obrigatório, para os que já têm o vício da Irlanda no corpo. (8)

Ann Heymann – “Queen Of Harps”

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995


Ann Heymann
Queen Of Harps
TEMPLE, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO



Após várias colaborações com outras harpistas, Alison Kinnaird, Ann arrisca por fim mostrar-se a sós, com a sua harpa gaélica de cordas metálicas – a “clarsach”. A produção enfatiza os acordes e as reverberações amplas, tanto nos temas de “little music”, os “reels” e “jigs” tradicionais, como na “great music” dos séculos XVII e XVIII, tocada nas cortes irlandesa e escocesa para príncipes e auditores eruditos, conhecedores das técnicas ancestrais e das origens bárdicas do instrumento. “Queen of Harps” provoca uma impressão de profundidade, porque é nas profundezas que vai buscar os ensinamentos e o alento, algo que apenas conseguimos encontrar nos velhos harpistas, bretões (esqueçam Stivell), ou irlandeses, como Derek Bell, e nunca em apenas bons tecnicistas, como William Jackson, experimentalistas, como Savourna Stevenson, “hippies” reciclados, como Robin Williamson, ou galegos eternamente constipados, como Emilio Cao. Ann Heymann devolve-nos a harpa enquanto varinha de condão. (8)

Realejo – “Realejo Lançam “Sanfonia” – SANFONA CONCERTANTE”

pop rock >> quarta-feira >> 20.12.1995


Realejo Lançam “Sanfonia”
SANFONA CONCERTANTE


“sanfonia” é o título do primeiro álbum, há muito aguardado, dos Realejo, um lançamento recente da editora Movieplay. Fernando Meireles, mentor do grupo, falou ao PÚBLICO do seu amor de sempre, a sanfona, e da maneira como a arrancou ao desprezo e abandono a que foi votada pela História.



embora tarde, “Sanfonia” chegou a tempo de entrar directamente para a lista dos “melhores do ano” do Poprock. É o vértice que faltava ao triângulo formado pelos Gaiteiros de Lisboa e pela Brigada Victor Jara. Polígono que, muito em breve, terá aumentado o seu número de lados, com os próximos a serem traçados pelos Vai de Roda, O Ó Que Som Tem, Cramol e Amélia Muge. Por enquanto não mencionaremos sequer o projecto de um disco a solo de Isabel Silvestre, com produção de João Gil, da Ala dos Namorados. É segredo. Para já é tempo de rodar a manivela da sanfona e dar a palavra ao seu executante e construtor Fernando Meireles.
PÚBLICO – “Sanfonia” começa e termina na sanfona. É um manifesto em sua defesa?
FERNANDO MEIRELES – O projecto começou a partir do momento em que construí a minha primeira sanfona. Era preciso tocá-la e dá-la a conhecer. Foi igualmente determinante a leitura da obra sobre instrumentos populares portugueses, do doutor Ernesto Veiga de Oliveira, nomeadamente o capítulo da sanfona.
P. – Não é um disco de grandes ousadias formais…
R. – A tarefa era, à partida, dignificar não só a sanfona como os instrumentos tradicionais portugueses, os quais, de um modo geral, eram mal feitos. Para mim, enquanto músico, isso sempre me desgostou. Foi por isso que comecei a fazer instrumentos. Uma das minhas preocupações é que a sonoridade do Realejo seja característica dos instrumentos e que esses sejam bons.
P. – Porquê a opção por um disco totalmente instrumental?
R. – … E totalmente acústico. As vozes não foram postas de lado “a priori”, o que aconteceu foi que nunca encontrámos no nosso caminho alguém com boa voz, ao nível de qualidade e de “feeling”. Para o nosso tipo de música, o que é preciso é ter onda. Algo difícil de encontrar, ainda para mais aqui em Coimbra, um meio pequenino…
P. – É também um dos poucos discos, na área em que se insere, onde o virtuosismo, ao nível da execução, é um facto, e não existe o receio de o mostrar…
R. – Exacto. Os instrumentos devem tocar por si. Devem ser bons, soar bem, e depois serem bem tocados. Conhecemos um pouco o que se passa no panorama musical português, onde muitas vezes as pessoas usam os sintetizadores para “fazer cama” e depois metem umas vozinhas por cima, não sei quê, e aquilo até sai bonitinho. Não nos sentimos minimamente atraídos por esse tipo de coisas. Gosto dos instrumentos portugueses e sempre achei que eles deviam ter uma certa dignidade que tinham vindo a perder sistematicamente, sobretudo a seguir a 1975, durante o “boom” da música de raiz tradicional portuguesa, quando se começaram a fazer instrumentos a dar com um pau e de qualquer maneira…
P. – Apesar disso, “Sanfonia” soa bastante “europeu”, não acha?
R. – Sim, tem uma sonoridade um bocado além fronteiras, o que resulta em grande parte da responsabilidade musical assumida pelo Amadeu Magalhães, autor dos arranjos. É um som universal, sem limites e sem estar amarrado a qualquer tipo de padrão. Para já, a Etnia mostrou-se interessada em comercializar o disco fora de Portugal.
P. – Nota-se no alinhamento uma divisão marcada entre os temas de sanfona e gaita-de-foles, com maior complexidade e muito música de câmara, e uma sequência, pelo meio, de outros mais populares, como o “Bacalhau”. São os dois lados de uma mesma moeda ou cedências ao mercado?
R. – Foi intencional. Como o Realejo é um grupo que toca música portuguesa, não quisemos de form alguma pôr de parte instrumentos como o cavaquinho, o bandolim ou a concertina, que t~em a mesma dignidade quando são bem tocados. De qualquer modo, o disco foi muito bem selecionado em termos de faixas, fomos para o estúdio com música para fazer dois discos.
P. – Não receia, por exemplo, que a rádio pegue apenas nesse lado, não dando uma imagem correcta da estética global do grupo?
R. – Repare-se, ainda a propósito dos cavaquinhos, que não é muito comum haver um grupo de cavaquinhos a tocar, como n´so tocámos, segundo uma escola que nasceu com o Júlio Pereira, a técnica de “rasgado”. De qualquer modo, penso que os temas mais fortes do disco são aqueles onde a sanfona e a gaita-de-foles se destacam mais.
P. – Nunca pensou em electrificar a sanfona, fazer com ela outro tipo de experiências?
R. – A ideia agrada-me e já fiz, inclusive, algumas experiências. De qualquer modo, aquilo que se passa, em termos de lectrificar a sanfona ou os outros instrumentos, é que os espectáculos do Realejo são na sua maior parte acústicos. Essas experiências de electrificação não têm resultado, até agora, muito bem, embora no disco haja uma faixa que aponta um bocado nesse sentido, a cantiga de Santa Maria, com um movimento meio arrockalhado. Pode ser um ponto de partida…
P. – Mas por enquanto o Realejo continua a ser um grupo de e para interiores, no duplo sentido da palavra?
R. – Sim, até um bocado pela nossa experiência em palco. Os nossos conceros são acústicos, o que cria uma intimidade e uma certa aproximação com o público. Se o Realejo começar a saltar desses palcos pequenos para outros maiores, teremos que pensar de outra forma.