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Anne Clark: Entrevista – Poesia Electrónica Na Aldeia Global

26.09.1997
Poesia Electrónica Na Aldeia Global

No novo álbum, “Word Processing”, Anne Clark entregou os seus textos nas mãos de gente como Global Youth, Sleepers Revenge ou Juno Reactor. Uma série de remisturas tecno que oblitera o lado poético desta autora que se apresentará, amanhã, ao vivo, na Aula Magna, com um espectáculo acústico.

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“A anarquia criativa” é o método de composição seguido por Anne Clark, com o qual tem procurado estruturar um novo papel para a linguagem poética. Entre o niilismo punk, o romantismo acústico e o processamento electrónico.
FM – Nos anos 80 esteve ligada ao projecto Psychic TV, cujos métodos de trabalho passavam por processos de manipulação através do som e da palavra. Já fez alguma coisa semelhante?
AC – Hoje em dia o meu trabalho tem mais a ver com um combate contra a manipulação das imagens do que com a linguagem propriamente dita, que está a sofrer. Afastei-me do tipo de trabalho efectuado pelos Psychic TV ou, antes, pelos Throbbing Gristle. De uma forma ou de outra toda a gente usa a linguagem como uma forma de manipulação. Comunicação é manipulação. Tanto pode ser negativa como positiva.
FM – “Word Processing” assenta numa base lectrónica tecno. Não acha que, a este nível, se pode falar ainda de manipulação através do som?
AC – Há um lado ritual, quando milhares de pessoas se juntam a dançar ao som de música tecno. É um regresso ao tribalismo, algo necessário, agora que deixou de existir segurança e se estão a perder os valores religiosos. Não penso que seja negativo o facto de uma quantidade de pessoas ficarem ligadas pela música.
FM – Qual é o lado positivo?
AC – As pessoas sentirem que fazem parte de uma tribo, sentirem-se confortáveis. Há como que uma libertação e uma partilha. Acontece o mesmo com um livro, a pintura, o cinema ou a televisão. As pessoas lêem um livro para saberem se há mais alguém a pensar como elas.
FM – Concorda com a utilização de drogas como o “ecstasy” para reforçar esse estado de espírito?
AC – Não, nem dessa nem de outra droga qualquer. Já há tantas maneiras para sair da realidade que não são necessários os químicos. Mas as pessoas que sentem essa necessidade não devem ser proibidas de o fazer.
FM – O que pensa da utilização de textos subliminares?
AC – Interessei-me bastante por técnicas desse tipo, no passado, mas acabei por achá-las lamentáveis. Eram algo de ameaçador.
FM – No fundo da caixa do seu novo CD está impresso um texto com informação técnica detalhada relativa à gravação, um jargão saturado que acaba por esconde rmais do que revelar…
AC – Todo este projecto tem a ver com levar o meu material até aos seus limites, através da tecnologia. Precisamente o “word processing” do título. Não coloquei quaisquer reservas ou limitações aos diversos autores das remisturas, tiveram inteira liberdade para fazer o que quisessem. Nalguns casos processaram as minhas palavras de maneiras bastantes estranhas… Gosto bastante das faixas remisturadas pelos Mouse On Mars, e de “Nida”, pelos Saafi Bros.
FM – “A linguagem é um vírus” como escreveu uma vez “William Burroughs?
AC – “Do espaço exterior”, não é? Parece que os incas também vieram de lá… um vírus? Não creio. A linguagem, no seu todo, enquanto fonte imediata de imagens, está a desaparecer.
FM – Com a substituição da linguagem por outras formas de comunicação electrónica, como a realidade virtual, os poetas correm o risco de ficar sem emprego?
AC – Penso que sim [risos]. A informação está a tornar-se cada dia que passa mais sensacionalista, mais tablóide. Tudo se reduz ao superficial, deixou de haver profundidade. Há milhões de revistas e jornais a falarem de todas as coisas, enquanto os livros a sério são cada vez menos.
FM – No romance de George Orwell “1984”, o governo apagava sucessivamente as palavras, como forma de aumento de poder e de controlo. Sem palavras não há pensamento.
AC – Penso que a situação actual tem mais a ver com as formas de poder de Aldous Huxley do “Admirável Mundo Novo”, do que com George Orwell. Em Orwell é o controlo através do medo. No “Admirável Mundo Novo” é o controlo através do prazer e do consumo. A única forma de resitência a isto é tentar modificar o estilo de vida, não comprar um carro novo todos os anos ou trocar de mulher de três em três meses…
FM – Acredita na existÊncia da alma humana?
AC – Acredito na energia humana. Quanto à alma, gostaria realmente que ela existisse.
FM – Costuma referir-se a um “anarquia criativa” que determina os seus métodos de trabalho.
AC – O que tento fazer é atravessar o mundo e procurar compreendê-lo, as coisas que fazemos uns aos outros. As pessoas vêm ter comigo para me mostrar novos sons e novos textos.
FM – Procura fazer passar nos seus textos alguma forma de mensagem explícita, como fazia na altura em que fazia parte da cena punk dos anos 70?
AC – Limito-me a mostrar, enquanto indivíduo, as minhas reflexões sobre o mundo que me rodeia. Na altura do punk aconteceram uma quantidade de coisas malucas ao mesmo tempo; as pessoas juntavam-se para tocar sem nunca terem pegado num instrumento antes. Eu gostava de poesia e de música. Por que não reunir as duas?
FM – As palavras tanto podem ferir como curar. Qual o efeito das suas?
AC – Como toda a gente, provoco as duas coisas. Espero que os meus textos ajudem a curar, mas sei que já feri as pessoas – faz parte da natureza humana.
FM – O que pensa de uma cantora como Diamanda Galas? É alguém que pode deixar marcas profundas…
AC – Adoro-a. Gostaria de um dia trabalhar com ela. Lembro-me de assistir a um concerto dela, há alguns anos, em Londres, e de ver pessoas a sentirem um sofrimento físico. É uma “performer” que desafia realmente a audiência e que se pode tornar assustadora.
FM – Vai fazer algum tipo de “perfomance” no concerto de Lisboa?
AC – Vou trazer uma banda de seis pessoas e um dançarino. Música gerada exclusivamente por meios electrónicos corre o risco de se tornar muito aborrecida de se ver, com uma quantidade de máquinas e apenas uma pessoa.
FM – A seguir a este disco já está a preparar outro, sobre a poesia de Rilke.
AC – Gosto de experimentar diferentes estilos e ambientes. Como ser humano que sou, posso acordar numa manhã com um determinado estado de espírito e mudar ao longo do dia para outro. É um “work in progress” constante. Num dia posso estar voltada para a música electrónica e no seguinte preferir uma linguagem acústica, mais intimista.

Rui Miguel Abreu apresenta primeiro volume de “easy listening” nacional Um Luxo Estereofónico

20.06.1997
Rui Miguel Abreu apresenta
primeiro volume de “easy listening” nacional
Um Luxo Estereofónico
“Portugal de Luxe” é um objecto tão “kitsch” quanto sedutor. Uma dama loura e carnuda apresenta em pose erótica, no meio de plumas e holofotes, este primeiro volume de “um ‘cocktail’ estereofónico” para apreciadores de fibra e nostálgicos da naftalina.

É a estreia do “easy listening”, do bom e verdadeiro, em Portugal. A iniciativa deve-se a Rui Miguel Abreu, responsável por esta compilação que a Norte Sul acaba de lançar no mercado. “Portugal de Luxe” inclui clássicos como “Óculos de Sol”, “Missing You”, “Lisboa à Noite” e “Oh!”. Melodias com que os nosso pais se deleitavam e hoje acenam com um estranho encanto aos ouvidos sobrecarregados de informação do auditor dos tempos modernos.
Rui Miguel Abreu tem 28 anos de idade. Ainda não era nascido quando pairavam no éter as notas exóticas e tropicais do Thilo’s Combo. Descobriu esta música, motivado pela leitura da enciclopédia “Incredible Strange Music”, onde “se falava de nomes esquisitíssimos como a Yma Sumac ou o Esquivel”. Na Feira da Ladra começou a comprar alguns discos” que se encaixavam no ‘easy listening’. Há cerca de dois anos começou a reparar que este seu interesse “tinha um eco lá fora”, quando surgiram no mercado nacional as edições “Sound Gallery” ou “Sound Spectrum” que, “de alguma maneira, pegavam no ‘easy listening’”.
A partir daí foi só “somar dosi e dois”. Rui Miguel Abreu trabalha presentemente numa editora, a Norte Sul, subsidiária da casa Valentim de Carvalho, que tem uma longa história atrás de si. Mostrou o projecto Às chefias e pediu para investigar os arquivos. Deram-lhe carta branca. “Mergulhei à procura de coisas”, diz. Depois, partiu para as audições na companhia de Fernando Cortez, um técnico histórico da Valentim, já com 50 anos de casa. “ia-lhe perguntando, ele lembrava-se de algumas coisas, mais tarde, a partir de conversas com muitas pessoas, fui chegando a alguns nomes. A partir daqui forma meses e meses, com o Pedro Tenreiro, outro AR [artistas & reportório] da Norte Sul, a ouvir as fitas originais e a seleccioná-las.”
Na altura em que se procuram novos nomes para a música portuguesa, tarefa na qual a própria editora Norte Sul está empenhada, que sentido faz desenterrar do baú das memórias nomes como os de Thilo’s Combo (de Thilo Krassmann), o Conjunto Académico João Paulo, Mafalda Sofia ou Natércia Barreto (dos “Óculos se sol”…)? para Rui Miguel Abreu, parece não haver dúvidas de que as pessoas, conforme a geração a que pertencem, se voltaram a interessar, ou começam a interessar-se, por este género de música. O compilador de “portugal de Luxe” tem uma explicação para o fenómeno. “A essência da pop é reembalar e tornar a dar.” Mas encontra factores mais concretos. “por exemplo, no cinema, há uma série de recuperações dos heróis dos anos 60, do 007 à Missão Impossível, passando agora pelo Santo, séries que marcaram muito as pessoas das décadas de 60 e 70. passa-se o mesmo na moda, onde os estilistas voltaram a pegar nas marcas dessa altura e a inseri-las na roupa.”
Em relação à música, Rui Miguel Abreu vai ainda mais longe. “Acredito que parte do ‘trip-hop’ ajudou a voltar a meter estes sons na ordem do dia. porque começaram a ser sampladas sobretudo as bandas sonoras dessa época. Não é à toa que o projecto que lidera a Mo’Wax se chama Unkle, acho que tem a ver com a série de televisão The Man From Unkle. Como não é À toa que os Portishead samplaram o Lallo Schiffrin, conseguindo o que muitos anos de culto não foram capazes de fazer. Assim como não é por acaso que bandas como os Massive Attack foram, sub-repticiamente, metendo este tipod e som na ordem do dia. Tudo isto criou uma predisposição para se voltar a ouvir este tipo de música. É um efeito muito semelhante ao que aconteceu com a banda sonora de ‘Pulp Fiction’, ao incluir aquele tema do Dick Dale, de repente começaram a sair uma série d ecompilações de ‘surf music’ dos anos 60.” Em suma, para Rui Miguel Abreu, “quando há um ‘clic’ qualquer que chama a atenção da spessoas para uma determinada coisa, geralmente gera-se uma onda e curiosidade, que é um argumento muito forte de vendas”.
A questão que se põe, a partir do momento em qu eeste volume de “portugal de Luxe” se encontra disponível nas lojas (o segundo já está igualmente pronto a ser lançado), é saber quem vai ouvir esta música de que o tempo voltou a abrir mão.Os mais velhos, que ainda se lembram? Os mais novos, que acham piada? Uma elite bem informada adepta das delícias do “kitsch”? Para Rui Miguel Abreu, há “duas formas diferentes de a ouvir”. “Eu e o Pedro Tenreiro, quando partimos para a investigação do catálogo, tínhamos em mente uma compilação que, para o nosso meio, funcionasse como funcionou lá fora o ‘Sound Gallery’, o ‘Sound Spectrum’ ou o ‘Inflight Entertainment’, ou seja, uma compilação dirigida a pessoas que têm algumas referências neste tipo de som, nomeadamente através do ‘trip-hop’. Isto porque nós não ouvimos esta música em primeira mão, na rádio. Quando éramos crianças, já se ouvia outro tipo de coisas, eu cresci com o ‘boom’ do rock português, não foi com isto. Só que, quando mostrámos a compilação aos nossos patrões, eles começaram a perceber que esta música iria dizer alguma coisa também à geração que a consumiu em primeira mão.”
É que, de facto, para além de umcerto diletantismo que leva ao consumo, “a posteriori”, do “easy listening” original, há esses tais mais velhos, que não se esqueceram. “Tenho informações”, adianta Rui Miguel Abreu, “de que, nas lojas da Valentim, não há dia que o ‘Óculos de Sol’ toque numa loja e que eles não vendam três ou quatro CD. Se estiverem lá pessoas de uma determinada idade, vão logo a correr ao balcão perguntar onde é que isto está.””Portugal de Luxe” é, então, seja qual for a perspectiva em que se ouça, um luxo.

Sérgio Godinho – Facto de Domingo: Entrevista

04.06.1997
FACTO DE DOMINGO
O dia de domingo foi passado por Sérgio Godinho a escrever mais um punhado de excelentes canções que reuniu no seu novo álbum, “Domingo no Mundo”. Onde a dança das palavras se vestiu de experiências musicais partilhadas com uma série de outros músicos e arranjadores. Afinal, como o seu autor as define, “canções como entidades autónomas”. Ou como seres vivos.

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Convidámos Sérgio Godinho a contar, uma a uma, as histórias de cada canção de “Domingo no Mundo”. Canções diversas. Canções abertas. A muitas vozes. Com direcção musical de Manuel Faria e participações, entre outros músicos, de Manuel Faria, Nuno Rafael, Bárbara Lagido, Carlos Guereiro, Tito Paris, André Sousa Machado, João Nuno Represas, Kalu, Rui Júnior, Tomás Pimentel, Flak, Luís San payo, Carlos Azevedo, João Aguardela, Sandra Baptista, Irene Lima e Ricardo Rocha. “Um rsico mais do que assumido, mas aliciante, de fazer um disco em que várias pessoas tomassem conta dos arranjos.” Um risco que acohe o “hip-hop”, a electrónica industrial e o arraial dos Sitiados e acabou por resultar num dos álbuns mais diversificados, mas também mais estimulantes, do autor de “Pano-Cru”. É um facto. De domingo.

“Ser ou não ser”
Arranjo: Kalu
“uma canção que existia já nos disco dos Gaiteiros mas com um nome diferente. Não foi inocentemente que pus o Carlos Guerreiro a tocar gaita-de-foles no meio, de repente provoca uma quebra estilística, a contrastar com aquele universo martelo do ‘loop’ do início (…) É uma canção sobre os artesãos, dos sopradores de ferro e vidro.”

“Não respir!”
Arranjo: Kalu
“Tem uma parte ‘rapada’. Prescindir da melodia é, neste caso, uma certa urgência. É a história em três tempos de um jovem ‘junkie’. Uma espe retrato, não moralista. A primeira parte passa-se num bairro, estilo Casal Ventoso, a segunda é a sua descida à cidade, para viver ‘na Rotunda do Marquês de Sade’ e a terceira, a ressaca disso tudo e a constatação de que vive num sítio onde não há ninguém que o aopie. Há a falta de respostas mas também uma certa autocomplacência, no universo de um ‘junkie’. E um certo fascínio, muito dúbio, porque senão as pessoas não era atraídas para a heroína. Há que retratar isso também ,sob pena de não se estar consonate com um fenómeno que perpassa todo o tecido social português e que é uma tragédia, para a qual as actuais respostas são completamente desadequadas. É um permanente desassossego, de ter e não ter as coisas, entre ter e não ter a dose. Uma angústia que é também uma metáfora para o desassossego de uma geração. Em termos musicais, o uso da ‘slide guitar’, pelo Nuno Rafael, dos Despe e Siga resulta bastante enriquecedora.”

“Correio Azul”
Arranjo: Manuel Faria
“As minhas palavras devem algo à poesia de Camões. O Camões tem uma grande clareza, joga com os conceitos de uma forma muito simples. Tem uma modernidade por vezes assustadora, mas muito estimulante. Muitas vezes não nos apercebemos de quantas frases dele bailam no nosso inconsciente. Ao escrever esta canção, de repente o refrão surgiu todo feito e eu nem me apercebi que o Camões se estava a insinuar. É uma história de um encantamento e da normalização desse encatamento de uma forma muito positiva. O Tito Paris aparece porque sola muito bem na guitarra, num disco em que estas praticamente não existem. Não pretendi utilizá-lo como um músico especificamente africano.”

“Domingo no mundo”
Arranjo: Manuel Faria
“Uso aqui um ‘loop’ que determina o que vai ser a canção. Um ‘loop’ industrial, um bocado assustador. O Manuel compreendeu muito bem o que havia nos quatro tempos desta canção. Há uma descompressão, depois uma parte mais pesada, com guitarras em distorção e onde eu uso um megafone. Dá-me gozo usar sons que evocam atmosferas teatrais. Trata de um tema candente, embora em Portugal em vias de diminuição, que é o trabalho infantil. Em termos narrativos, a ideia é um rapaz que trabalha num sítio, que em princípio seria a coisa mais festiva do mundo, fogo-de-artifício, mas é a coisa que o faz penar. Há uma sugestão de que ele teria deitado fogo à fábrica… Ou nao… Gosto destas histórias em que há ambiguidade, com um final aberto…”

“As armas do amor”
Arranjo: José Mário Branco
“Aqui o universo das coisas ditas, declamadas, está em consonância com o ‘rap’, com rima livre e depois uma parte lírica cantada. Comecei a escrever este texto – de certo modo, um rio, que vai avançando e apanhando coisas pelas margens – sobre a sida e, mais do que a sida, sobre os aliados da sida: o preconceito, a ignorância, a incompetência e a condescendência, que fazem com que a sida prospere. É uma denúncia. (…) Já não trabalhava com o José Mário há muitos anos. adfastámo-nos em termos criativos. Neste caso fui ter com ele, apeteceu-me que ele trouxesse uma outra contribuição. A ideia surgiu quando estava a ouvir um daqueles discos do Zeca que ele arranjou, nomeadamente o ‘Venham mais cinco’, um dos melhores que ele fez, bastante superior ao ‘Cantigas do Maio’. Apeteceu-me que ele trouxesse as suas ousadias. Esta canção prestava-se a isso.”

“É a vida (o que é que se há-de fazer?”
Arranjo: Manuel Faria
“São ‘flashes’ da adolescência. Representa um repouso no disco. É uma canção pop muito simples sobre um adolescente à procura de caminhos para a vida. Não tem história, com um refrão superpositivo. Tenho filhos na adolescência e elees e eos seus amigos dão-me um espelho distorcido daquilo que eu sou. Procuro olhar para a minha própria adolescência e ver como é que tinha reagido há uns anos atrás, como é que eu era, o que é que perdi pelo caminho, o que é que encontrei…”

“Mesa”
Letra: Alexandre O’Neill
Arranjo: Tomás Pimentel
“Já trabalhara com o O’Neill em “Pré-Histórias”. Tive uma ideia, que não foi para a frente, de fazer um disco só com poetas musicados, por uma vez prescindir das minhas palavras, mas tenho alguma dificuldade em encontrar as minhas músicas nas palavras dos poetas. Mas o O’Neill é uma referência importante, era um tipo com uma musicalidade nas palavras enorme, com um prazer lúdico nas palavras que tem a ver com o meu. Aqui achei engraçado também pegar nos sopros de uma maneira um bocado desconstruída, como o próprio texto é, e fazer uma amálgama algo pontilhista.”

“Lamento de Rimbaud”
Arranjo: Rádio Macau
“Basicamente, é a mesma versão do espectáculo ‘Filhos de Rimbaud’, embora um pouco melhorada. As percussões são mais bem trabalhadas. Não havia registos, nem gravados nem filmados, e achei que era uma pena perder-se pelo caminho. É o exemplo d euma canção que eu não faria sem um contexto bem determinado. Em Rimbaud encontrei uma liberdade poética extraordinária. As últimas coisas que escreveu, ‘Iluminações’ e ‘Uma Estação no Inferno’, têm muito a ver com a poesia contemporânea, uma espécie de torrente poética que se vai ordenando à medida que vai saindo. Esta canção é sobre o mistério de alguém qu efez tudo até aos 21 anos, e dpois, até aos 37, foi traficante de armas e até, dizem, de escravos. A frase ‘E apoesia? mera alínea?’ foi inspirada numa das poucas fotos que existem de Rimbaud, tirada em África.”

“Os Afectos”
Música e Arranjo: Jorge Constante Pereira
“O Jorge Constante Pereira, que já tinha trabalhado comigo, inclusive no álbum anterior, ‘Tinta Permanente’, é um músico com uma visão muito pesoal e para quem sempre tive vontade de escrever uma letra, fora do contexto dos discos infantis. a ideia para esta canção surgiu quando me lembrei do teorema de Pitágoras, sobre a relação entre os lados de um triângulo. Há o conhecimento científico e os afectos, que nos fazem mover de uma maneira diferente.”

“Aguenta Aí”
Arranjo: João Aguardela
“É uma chula onde falo do Porto como património mundial, pelo lado feliz, mas também pelo das desigualdades sociais nas cidades. É preciso ter consciência que, ao incrementar a qualidade d euma cidade, se deve também incrementar a vida das pessoas. Achei que o João Aguardela casava bem neste universo.”

“Dias Úteis”
Arranjo: Manuel Faria e Sérgio Godinho
“Fala da alegria e do prazer. As últimas palavras são: ‘Por motivos talvez claros / O prazer é o que nos torna os dias raros / Por pretextos talvez fúteis / Por motivos talvez claros.’ É uma canção d epuros sentimentos em que a guitarra portuguesa e o violoncelo lhe conferem uma certa gravidade.”

Todas as letras e música, exceptuando nos casos indicados, são da autoria de Sérgio Godinho