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Kate St. John Fala Do Seu Novo Álbum: “Já há música que chegue para os mais novos” – Entrevista –

31.10.1997
Kate St. John Fala Do Seu Novo Álbum
“Já há música que chegue para os mais novos”
Romântica e poética. Assim se poderá definir a personalidade e a música de Kate St. John, cujo último álbum, “Second Sight”, acaba de ser editado. Com as marcas da canção francesa e de assuntos difíceis de enfrentar, como a morte, e onde a poesia é encarada como forma de redenção.

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Rquisitada com assiduidade para participar em sessões de estúdio dos mais diversos artistas, Kate St. John recolhe-se nos seus discos a asolo numa música mais intimista, onde se descortinam fortes traços de romantismo e melancolia. A antiga cantora dos dream Academy prepara actualmente um álbum de homenagem a Nick Drake.
FM – “Second Sight” conta com a presença de Roger Eno, com quem já colaborara em “The Familiar”. Quando é que o conheceu?
Kate St. John – No início dos anos 90, através de um amigo comum, americano, da editora de discos. Eno andava à procura de uma cantora para “The Familiar”. Demo-nos bem e acabei por escrever as letras para o disco. Nunca tinha ouvido antes a música dele, depois percebi imediatamente que tínhamos muito em comum. Mas as melodias de “The Familiar” não eram bem canções, por isso a voz foi usada mais como instrumento. Não era a clássica sequência “verso-refrão-verso”, embora tivesse palavras.
FM – O que tem, exactamente, em comum com Roger Eno?
Kate St. John – Bem… Gostamos ambos de música bastante romântica, assim como nos interessa fazer arranjos dentro de um estilo neoclássico, em vez de uma música mais ruidosa. É como se seguíssemos os dois num ritmo sincronizado.
FM – O ambiente geral da música que ambos fazem pode definir-se como impressionista?
Kate St. John – Sim, sem dúvida. Ele prefere que a voz seja calma, de maneira a misturar-se com o resto da música. Não se trata de um cantor com uma banda por trás.
FM – Na vida real é assim tão calma e romântica como aparenta ser nos discos?
Kate St. John – não [risos]! Bem, na verdade sou uma pessoa calma, mas também tenho um lado mais gregário. Tenciono kostrar no próximo álbum outros aspectos da minha personalidade. Algumas pessoas acham que os temas de “Second Sight” já não são tão depriomentes e sombrios como costumavam ser. Penso que estou a mudar.
FM – “Second Sight” é uma viagem (“trip”) por várias paragens e ambientes do planeta…
Kate St. John – “Yeah”, meu [risos]!
FM – Não nos referimos a esse tipo de viagens…
Kate St. John – Ah, bom, não tenho nada a ver com drogas. Mas, sim, o álbum é como uma viagem, uma viagem imaginária.
FM – O que não a impediu de trabalhar com Julian Cope, a maior “acid head” dos dias de hoje…
Kate St. John – É verdade, mas isso já aconteceu há muito tempo. Nãos ei se temos algo em comum, somos amigos e ele pareceu gostar daquilo que fiz no álbum del. Ah, sim, gostamos os dois de música dos anos 60!
FM – Trabalhou em “Second Sight” com uma série de artistas estrangeiros – franceses e russos…
Kate St. John – Sim, tenho a tendência para me relacionar melhor com pessoas que vivem for a de Inglaterra. Regra geral, no resto da Europa existe uma mentalidade mais aberta. Em relação aos músicos russos que participam no álbum, os Aquarium, de Boris Grebinshikov, já tinha produzido dois álbuns deles. Foram eles que fizeram questão de entrar no meu disco. A voz de Boris é simplesmente fantástica. Gravámos uma faixa em Londres, durante uma tarde. A França surge devido ao facto de o meu co-produtor ser francês e de eu gostar bastante de trabalhar com músicos de estúdio franceses.
FM – Quando canta, em francês, “J’attendrais”, é difícil não pensar em Edith Piaf. Até que ponto foi influenciada pela chamada “chanson française”?
Kate St. John – Acha? Sim, de facto adoro todos esses velhos cantores franceses, não só Edith Piaf, mas também Juliette Gréo ou Lucienne Boyer; é um dos meus estilos de música favorito. Teria gostado imenso de fazer um álbum inteiro só de canções francesas, mas tive que me conter e gravar apenas essa, um “standard” que toda a gente em França conhece.
FM – Joseph Racaille, também francês, é outra presença importante no disco. ele veio dos ZNR, ao lado de Hector Zazou e…
Kate St. John – Ah, conhece a sua música? Ele tem um álbum novo, fantástico, na WEA, onde eu também participo, a tocar saxofone e a cantar. Infelizmente, para já, só está disponível em França.
FM – Outro nome que nos vem à mente é o de Virginia Astley. Voltou a tocar com ela depois do projecto Ravishing Beauties?
Kate St. John – Depois disso só fiz com ela um par de temas para o seu novo álbum, que apenas foi editado no Japão. Não a convidei para participar neste meu novo álbum, porque o tinha feito no anterior e porque gosto de mudar.
FM – Já trabalhou com uma quantidade enorme de pessoas, de Julian Cope, como já se falou, aos Blur, Everything But The Girl, Kirsty McColl ou Van Morrison… Sente-se à vontade a tocar com tanta gente diferente?
Kate St. John – Na maior parte das vezes, trata-se unicamente de sessões de estúdio. Entro lá numa tarde, toco uma ou duas canções e já está, adeusinho, acabou! É a minha profissão. Andei anos a estudar e a praticar saxofone e agora as pessoas pedem-me para tocar com elas.
FM – Não é um instrumento que seja muito vulgar ver tocado por mulheres, pois não? Já agora, tem alguma ligação com o jazz?
Kate St. John – Não, na verdade não é!… Mas gosto e tenho o hábito de ouvir jazz. Tento mesmo aprender a tocar jazz. Penso, aliás, que o meu próximo álbum será mais “jazzy”, com mais ritmo.
FM – Sabemos que está actualmente envolvida num projecto de produção de um álbum de homenagem a Nick Drake. Pode adiantar-nos alguma coisa sobre ele?
Kate St. John – É uma co-produção com Joe Boyd, que foi quem descobriu e produziu os álbuns originais de Nick Drake. Há alguns anos atrás começou a gravar algumas versões de temas de Nick Drake, na américa, mas depois parou e o projecto ficou na gaveta. Até que, recentemente, resolveu recomeçar e pediu-me para ser eu a co-produtora. Nesta altura estamos a contactar diversos artistas, para aprticiparem no disco, como Kate Bush, Brian Kennedy ou Paul Buchanan, dos Blue Nile e, talvez, Paul Weller, não sabemos ainda. Contamos que o álbum saia por altura do Ano Novo.
FM – Numa altura em que muitas intérpretes femininas se voltam para o hi-hop e para a música de dança, você permanece fiel a uma linha musical bastante recatada. Gosta assim tanto de se manter afastada do resto do mundo?
Kate St. John – Faço discos apenas para meu próprio prazer. É por isso que stou numa pequena editora independente que pode não vender muitos discos, mas me deixa fazer aquilo que eu quero. Não estou interessada em fazer algo que me desagrade do ponto de vista musical. No meu caso, a vida de músico é dura – pouco dinheiro e muito trabalho. Se não tivesse uma recompensa, uma satisfação estritamente musical, não faria qualquer sentido continuar. Já não tenho 20 anos, mas 40, e gosto de fazer música para pessoas mais velhas. Porque é que não se há-de fazer música para toda a gente, em vez de só para os jovens? Já há música que chegue para os mais novos. Então e os outros, não têm direito a outra música? Então e eu, não tenho esse direito [risos]?
FM – O que procura fazer chegar às pessoas, o que gostaria que elas sentissem ao ouvir a sua música?
Kate St. John – Alguns dos temas das minhas canções são bastante tristes, como a morte de pessoas, assuntos difíceis de encarar, mas com os quais toda a gente tem de viver. Escrever sobre esses temas, de uma forma poética, ajuda-me a lidar com eles. Trata-se, no fundo, de poder encará-la sob uma perspectiva menos terrífica. Vi há alguns dias escrito num jornal que a poesia pode ajudar a recuperar os doentes de cancro. Em vez de se sentirem aterrorizados, a pensar em suicídio, na doença do seu corpo, que vão morrer, concentram-se na beleza. Mesmo que seja na forma da tragédia.

Carlos e Vasco Martins lançam “Outras Índias” – Entrevista –

10.10.1997
Carlos e Vasco Martins lançam “Outras Índias”
“Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar”
Carlos e Vasco Martins partilham uma filosofia comum, com raízes no zen. Recusam as etiquetas. Cabo Verde é o mundo. E o jazz um ponto – ou uma ponte – de partida para o caminho do Oriente que ambos perseguem. Em “Outras Índias”, tudo se prende a algo ancestral: “Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar.”

Em “Outras Índias” Carlos Martins e Vasco Martins fizeram, com sucesso, a fusão das raízes musicais de Cabo Verde com um discurso contemplativo que não hesitou em voltar as costas ao jazz. Para Carlos Martins, é a concretização do seu ideal de uma lusofonia verdadeiramente universal. Para Vasco Martins, uma abertura no seu refúgio “new age” com sede no Atlântico. Uma descoberta a dois.

FM – Quando é que se encontraram e como surgiu a ideia de fazer este disco?
Carlos Martins – Conhecemo-nos há uns anos através de um amigo comum, o João Freire, uma pessoa que sempre se interessou por Cabo Verde. Numa ocasião em que ele e o Vasco estiveram em Portugal, andaram à minha procura, só que o encontro não se proporcionou. Nessa altura eu tocava com a Constança Capdeville e com a Olga Pratts, que também me disse que o Vasco era de Cabo Verde e compunha. Fiquei com curiosidade em saber quem era, ainda por cima alguém com o mesmo apelido do que eu… Até que nos encontrámos finalmente em Roterdão, numa conferência sobre a diáspora cabo-verdiana. Eu ia falar sobre o que os emigrantes podem fazer fora do seu país, em termos culturais. O Vasco ia falar da música de Cabo Verde. Desse primeiro encontro resultou numa ida a Amsterdão, durante um dia inteiro. Esse dia inteiro fez este disco. Desde a visita oa museu Van Gogh até às conversas que tivemos. Chegámos ao hotel e tocámos um bocado. Vimos que as coisas funcionavam.
Vasco Martins – Eu tinha levado apenas uma guitarra para fazer uma demosntração da música de Cabo Verde.
FM – Já conheci a trilogia atlântica, “Southbound Music”, do Vasco Martins?
Carlos Martins – Já tinha ouvido algumas coisas e não era o tipo de música que eu queria fazer.
FM – E o Vasco, já tinha ouvido antes a música do Carlos?
Vasco Martins – Era um desconhecido, só sabia que era um músico de jazz com talento.
FM – Como é que os universos de ambos se ligaram? Esse passeio de que falaram deve ter sido bonito, mas depois como é que a coisa funcionou no estúdio?
Carlos Martins – A vantagem é que tudo foi articulado em Cabo Verde. Estive lá cinco dias antes de vir para cá. esses cinco dias é que fizeram com que o som se consolidasse. O que se passa é que há uma alma dentro de cada um de nós que junta, que roça numa extremidade do mesmo universo. Um universo de gostos comuns, apetências comuns e sonoridades comuns. Depois sobressaiu ainda uma certa visão zen da música, uma certa orientalidade.
FM – Os discos do Vasco não chegam ao Continente…
Vasco Martins – Gravo pela Celluloid francesa, mas os discos são mal distribuídos em Portugal. saem em Espanha, nos Estados Unidos, na Alemanha. Continuo a fazer música electrónica, mas também sinfónica e outras coisas.
FM – A música da sua trilogia é bastante universalista. De que forma trabalhou nela a influência da música de Cabo Verde?
Vasco Martins – Há duas formas de ver a questão. Uma é a intuição do ambiente onde o artista vive. A outra é o aproveitamento das raízes, das tradições. Eu utilizo ambas. Na música da trilogia, está presente a temática de Cabo Verde, mas não a utilizo de uma maneira objectiva, dou pinceladas, sou mais um impressionista.
FM – “Outras Índias” é um disco de uma grande serenidade, bastante diferente do seu discurso mais jazzístico…
Carlos Martins – Uma das coisas que mais gostei de discutir a propósito deste disco é o facto de existir uma poesia do mundo, ligada a uma certa dramaticidade da vida, que é algo constante em mim.
escrevo desde miúdo. Quando andava na quarta classe, a minha alcy«unha era o “Camões”, porque escrevia versos. E continuo a escrever, só que agora mais música do que texto. Mas há a presença constante da poesia. Logo, não sou um único Carlos Martins, nem quero sê-lo. Não tenho a mínima culpa de que as pessoas precisem mais de um único Carlos Martins, para se equilibrarem na sua crítica.
FM – O Vasco Martins funcionou como um catalisador dessa sua visão poética?
Carlos Martins – Este disco só foi possível de fazer entre mim e o Vasco. Por isso é que arranjámos um nome, “Outras Índias”, que quer dizer exactamente “outras coisas”, não digo quais, nem interessa explicar.
FM – A filosofia inerente a este disco não anda longe da partilhada por Rão Kyao, ou anda?
Carlos Martins – A orientalidade não é um factor que me inspire musicalmente, linearmente, do tipo “eu penso oriental, a música é oriental”. A orientalidade está em mim como sensibilidade. O que se passa aqui é que ando á procura de outro caminho, do Caminho do Oriente. À procura do fado, da morna e do choro lento. Mas sem tudo o queo que o Vasco tem de Cabo Verde eu não tocaria desta maneira. É uma relação interactiva.
FM – Este projecto enquadra-se na estética “new age”?
Vasco Martins – A “new age” é muito contestada na Europa porque é tida como um apêndice de filosofias orientalistas americanas. Hoje em dia, a “new age” já não é isso. Há bons músicos de “new age” a fazerem bons trabalhos, algun deles músicos de jazz.
FM – Precisamente, há, sobretudo da parte dos puristas, quem não veja com bons olhos essa “fuga” de muitos músicos de jazz para essa outra área musical…
Carlos Martins – Não sou preto, não sou americano, não vivo em Nova Iorque, não tenho que representar coisa nenhuma do jazz, tenho é que adaptar à minha música e à minha tradição tudo aquilo que aprendi do jazz, que é uma das linguagens mais belas deste século e que se tornou universal pela capacidade de improvisar e sair do seu próprio mundo e de elaborar mundos novos a uma velocidade vertiginosa. Para mim este disco é um descanso. É uma atitude assumida. Há quanto tempo é que existem uma guitarra e uma voz a cantar? É ancestral. Antes da “new age”, antes do jazz, existiu sempre um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar. É isso que se passa neste disco, estou-me perfeitamente nas tintas para o resto. Isto para mim representa um tipo a cantar sobre as harmonias de umas cordas. É antigo, é o que eu sinto e é o que praticava quando era miúdo, com uma flautazinha no jardim.

Anamar: Entrevista – O Despertar Da Alquimista

26.09.1997
O Despertar Da Alquimista
Anamar, mais que uma cantora, é uma viajante da alma. As imagens do seu filme interior mudaram nos últimos dez anos. Aprendeu a serenidade e a luz que se esconde nos gestos e nas palavras. “M”, o seu novo álbum, é pura vibração. “M” de “mais”, “M” de “morte”, “M” de “mudança”, “M” de “mundo”, “M” de “mar”.

A linguagem é a da alquimia. Casamento de elementos, dissociação e harmonização interior são termos empregues por Anamar para falar de “M”, o seu novo disco, gravado numa igreja. Um banho de luz.

FM – “M” é um título estranho, não acha? “M”, “Matou”, de Fritz Lang. “M”, o grupo que fez o tema chamado “Pop Music”…
Anamar – Não queríamos limitar o que se pudesse percepcionar do disco com uma palavra. A ideia de ter só uma letra é de as pessoas associarem o que quiserem a essa letra. Deixar uma porta aberta.
FM – Depois há uma canção chamada “NSN”…
Anamar – Aí é por causa do “N”, que se diz com os lábios fechados, mas é audível cá fora. Uma relação exterior que nos interessa. Além disso, são as iniciais de “Nossa Senhora da Neves”, a quem foi erigida uma capela do séc. XII onde foi gravado o CD, no alto da Serra de Montejunto.
FM – Estás sempre a falar em “nós”… Nós quem?
Anamar – Este trabalho não foi feito por mim exclusivamente, mas por um núcleo criativo de quatro pessoas: eu, o André Louro de Almeida, ao nível musical e do conceito de arranjos, e o Tiago Torres da Silva e a Ana Calhau, também criadoreas do conceito de origem.
FM – Que conceito?
Anamar – Cantar a luz através do fado, sendo que, de uma maneira muito comum, o fado está associado a outro tipo de emoções: ciúme, posse, vingança, escuridão, saudade, desilusão, revolta… Mas esse conceito não me entusiasmou especialmente, não estava muito virada para pegar no código do fado, já muito usado e trabalhado anteriormente. Não é fado que costumo ouvir em casa, mas coisas com outra espacialidade, indicadoras de outros estados de espírito – Dead Can Dance, Rachmaninov, Brian Eno, David Sylvian… No entanto, o pacote de letras que o Tiago me apresentou era extraordinário.
FM – Falou em espacialidade. E religiosidade?
Anamar – Absolutamente. É uma característica, para mim, básica. No entanto, não é assim tão óbvio que a arte entre em linha de conta com ela.
FM – Essa religiosidade não está a transformar-se, nos dias que correm, um mero amontoado de ícones e imagens, esvaziadas do seu verdadeiro significado?
Anamar – Todo o fenómeno de profetas com pés de barro, ou aproveitamentos comercialóides do fenómeno “new age”, mais as seitas, tudo isso e a “astrologite”. Se religião significar religar, e é daí que vem a palavra, aí sim, sou uma pessoa profundamente religiosa. Religar à vida, sendo que esta, em si, é a transcendência.
FM – É engraçado estar a falar sobre estas questões. As pessoas estavam habituadas a ter de si outra imagem…
Anamar – Eu sei. Deixei de cantar e de aparecer há muitos anos, nove anos. É curioso verificar como uma imagem pode ficar cristalizada no tempo. Há dez anos, vestia de preto, pintava os lábios de vermelho e usava os cabelos muito compridos. Uma imagem que ficou ligada a uma noção de estilo e à sedução, ao risco e à ousadia. Hoje, nem a minha cara é igual. Nem o meu ser interior.
FM – O que aprendeu nestes últimos des anos?
Anamar – Fui crescendo. A opção, neste período de tempo, de não cantar e de não manter uma actividade pública deriva da minha necessidade de ouvir primeiro o que estava cá dentro e ver se tinha alguma coisa para dizer. Uma das coisas que aprendi nestes dez anos foi o valor do silêncio. O valor do quietar. Do respirar, do fruir de tudo o que a vida tem para nos dar, em vez de querermos que as coisas correspondam aos nossos desejos.
FM – Essa filosofia de vida, transferiu-a para a feitura do seu disco?
Anamar – este disco não é fruto de um trabalho pessoal meu, mas de um trabalho de equipa. O que pediu uma abertura e uma aprendizagem do que é “criar com” outras pessoas, algo que eu não conhecia assim tão bem. Nos outros discos trabalhei com muita gente, mas o conceito e o ponto de partida eram definidos por mim. Neste caso, não, fui obrigada a uma disciplina.
FM – Quer dizer que o seu ego se suavizou?
Anamar – Tendo um ego, como toda a gente, há partes desconhecidas de mim própria em relação às quais faço questão de estar especialmente atenta, de maneira a estar em sintonia com elas. Quanto mais fundo se vai dentro de nós, menos se faz questão de ter ou não ego, de ser isto ou aquilo.
FM – Como é que se processaram as gravações?
Anamar – O disco foi gravado quase como um disco ao vivo, em tempo real, o que quer dizer que houve muitas repetições, que aproveitei para fazer apuramentos, ao nível de questões técnicas. Foi exigida uma concentração muito grande, havendo necessidade de se estar tranquilo para que as coisas fluíssem. Ao todo foram três semanas ao longo das quais gravámos 21 canções e… uma brincadeira.
FM – Que brincadeira?
Anamar – Numa ocasião o Joaquin d’Azurém estava a tocar guitarra portuguesa num teste de som e eu comecei a cantar por cima. Ou a leitura de um texto sobre uma banda-sonora composta pelo André Louro de Almeida.
FM – Falou, há pouco, do fado, que também corre o risco de se desvirtuar. De que forma é que sente este tipo de música?
Anamar – O fado é um código e uma porta de acesso directo à alma, como os “blues” ou o “gospel”. Do ponto de vista cultural, cristalizou no tempo. Lembro-me de quando era miúda e cantar “A canção do mar”, da Amália, ser um escândalo. Mas a própria Amália gostou muito do tema.
FM – A maneira de se exprimir sugere elegância, mesmo quando se trata de espiritualidade…
Anamar – Entendo que uma das qualidades da espiritualidade é precisamente a elegência. Não há espírito sem beleza. Há uma tentativa da minha parte de tratar a vida com elegância. Não há harmonia sem ela, todos os pontos de vista radicais ou separatistas, que só tendem para um lado da realidade, não me satisfazem. A vida não é separada, tal como a visão das coisas não deverá ser separada. A elegância é uma característica da verdadeira complementaridade de elementos.
FM – Quais são os seus elementos?
Anamar – Água e fogo. Embora talvez o mais importante seja o éter, o quinto elemento… A água identifica-se com os sentimentos e as emoções, com o fundo da alma e o poder de aplicar o coração na vida. O fogo equivale a uma verticalidade, a um amor pela verdade, a uma expansão, a uma inspiração, à criatividade em si, aquilo que faz com que um átomo e outro se juntem dando origem a uma coisa. Por isso tento articular a expressão, própria do fogo, com a interiorização, própria da água. Um casamento que é um dos trabalhos aos quais me tenho dedicado. É como uma cafeteira com água a ferver. É bom que a água fervente esteja em total correspondência com a intensidade da chama. Se ferve demais, apaga a chama. Se a chama estiver demasiado alta, evapora a água.
FM – Está a falar como uma alquimista…
Anamar – A alquimia é um código de profundidade… mas na verdade é a própria simplicidade da vida. A harmonia é a forma mais simples, mas também a que requer mais trabalho.
FM – Assusta-a o envelhecimento, a decadência da beleza física?
Anamar – Assusta-me o envelhecimento, por estagnação. O envelhecimento interior. Assusta-me a morte interior, não em mim, e digo não em mim, porque não há receio que em mim, por dentro, morra aquilo que me anima, senão não estava viva. Sou a típica sobrevivente. Acredito que existe uma relação entre o envelhecimento da matéria e a sabedoria interior. Através do tempo, o homem tem acesso a ser, cada vez mais, ele próprio, a ser sábio. O envelhecimento físico acaba por ser o preço a pagar pela experiÊncia vivida. Mas também acredito que o corpo físico é condicionado pela energia interior, nomeadamente a psíquica. Daí não saber se as pessoas forem cada vez mais psiquicamente saudáveis se não serão também cada vez mais fisicamente vitais.
Já agora, também me assusta a paranóia de que todoa a gente queira ser como a Claudia Schiffer até aos 80 anso!… É a prioridade dada à plástica, ditada pela moda, uma ditadura de formatação de mentalidades, responsável pela morte interior de muitas pessoas.
FM – Vivemos uma época de morte e de apodrecimento. O Apocalipse?
Anamar – Talvez uma época de altos preços a pagar por tantas cristalizações. Há uma coisa que me faz muita impressão. Habitualmente, a informação que chega às pessoas é sempre sobreo lado negro dos sinais, nos telejornais e nos jornais. Parece qu ehá uma publicação num país, não sei bem qual, que se dedica só a divulgar aquilo que de bom acontece no mundo e que tem tido um público tremendo. Estamos numa fase crítica e, por isso, privilegiada. Considerando que o preço é alto, porque a tal formatação da cabeça e do “modus vivendi” das pessoas chegou a um limite de dissenção com o seu próprio interior, por outro lado existe a oportunidade de ver de caras, a um nível extremo, o que não dá, o que não funciona, que não traz felicidade. Nesse sentido, quanto mais claro se vê o inimigo, mais fácil é o entendimento do que poderá ser mais criativo.
FM – Quem ou o que é o inimigo?
Anamar – O medo.
FM – Como é que se pode vencê-lo?
Através da emergência da tomada de consciência de quem se é e do que se está a fazer. É a única saída. O homem meteu-se numa camisa de forças e, de alguma maneira, está a ser encostada à parede na pressão máxima. Ou descobre como é que sai lá de dentro ou então morre. Acabou o problema, estoira tudo. Acredito, ou melhor, sei internamente que o futuro das coisas é sempre e tendencialmente luz.