Ao cabo de três anos de viagem constante com os Madredeus, José Peixoto encontrou o espírito da paz. Em “As Vozes dos Passos”, o seu novo álbum, há uma guitarra acústica, um som solitário e uma procura. A voz dos passos é a voz do silêncio.
José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, é um nómada da música. Um espírito livre, em trânsito entre o redemoinho das digressões com o grupo e as longas praias do seu Sul. Parou no intervalo desse percurso para falar ao PÚBLICO.
PÚBLICO – “As Vozes dos Passos” refere-se mais do que uma vez ao tempo e à viagem. Quando e onde se processou a sua gestação?
José Peixoto – A ideia foi concebida ao longo da série de viagens que integraram a última digressão dos Madredeus, três anos, desde que entrei no grupo, de viagem permanente.
P. – É um disco de depuração máxima. Uma guitarra acústica e uma solidão.
R. – É capaz de ser a expressão mais íntima. Ter um instrumento só, capaz de veicular todas as ideias num universo monotímbrico.
P. – O risco não é maior?
R. – Em termos comerciais, é mais arriscado. Só que nunca coloquei, em relação à música que faço, o problema nesses termos. Não vivo nem nunca dependi da música que faço. Assim, sinto que gozo de toda a liberdade para explorar o que me apetecer. Sem quaisquer pressões.
P. – O álbum pode ser um escape à rotina dos Madredeus?
R. – Sim, é verdade. A viagem deu-me o tempo e o isolamento necessários. Durante a viagem, em que se não é o aeroporto é o hotel, ou o carro, ou o camarim, estabelece-se uma rotina que, se não é combatida com uma postura criativa permanente, pode levar a uma cristalização. Andar de um sítio para o outro sem aproveitar, sem viver o tempo.
P. – Esse isolamento é um refúgio?
R. – Sobretudo é haver tempo para poder estar comigo mesmo. São viagens de 500, 600 quilómetros sentado num autocarro, durante os quais se pode ler ou ouvir música, ou, pura e simplesmente, penar, ir aprofundando certas ideias.
P. – Anotava essas ideias, tocava, como é que fazia?
R. – Sobretudo quando podia estar num sítio sentado, para poder tocar. As viagens em si, em autocarros ou aviões, podem definir certos estados mentais que posteriormente, sozinho, posso materializar, dar-lhes uma expressão sonora. Não quer dizer que ande a escrever as partituras nos autocarros ou nos aviões…
P. – Há alguma razão especial para ter dividido o disco em duas partes distintas?
R. – Os “Apontamentos de Viagem” foram feitos mesmo nesse período de viagem. O segundo capítulo, “Das Vozes”, é música cujo miolo já estava definido, embora a arte final também fosse feita em viagem.
P. – O epílogo tem um título enigmático, “A espera”. Espera de quê?
R. – A espera em si. A espera, não como uma atitude passiva, mas como uma atitude expectante.
P. – Já falou em viagens exteriores. E a interior?
R. – É uma viagem interior permanente. Se partirmos do princípio que a vida pode ser encarada com um processo de auto-consciência, da pessoa se ir encontrando, essa procura de uma voz interior, é uma procura permanente. Vivida segundo a segundo. Tento aproveitar o mais possível o privilégio de estar vivo.
P. – Orienta-se por um Sul espiritual?
R. – O Sul é onde me sinto em casa. Tem a ver com luz, temperatura, com uma certa vibração das pessoas e da Natureza.
P. – Não receia que este disco possa ser ouvido um pouco pela superfície, como música de fundo, embrulhado na seda da “new age”?
R. – É algo que já me escapa. O disco já não me pertence. O que lhe vai acontecer escapa-me. Preocupa-me mais a intemporalidade do que a modernidade, no sentido de estar na vanguarda. É mais importante que esta música possa ser ouvida com a mesma validade daqui a 50 ou 100 anos, sem estar sujeita ás modas.
P. – Não conseguiu encontrar o espírito da paz nos Madredeus?
R. – Isto é a minha música, que já existia antes dos Madredeus. O grupo tem outras referências, é formado por outras pessoas, é uma cabeça colectiva. Nunca poderia estar cem por cento satisfeito, no sentido de não ter que fazer esta música. “A Voz dos Passos” é um artigo para o espírito.
P. – “As Vozes dos Passos” demora-se em que ponto da viagem?
R. – Um disco é sempre um ponto de partida, funcionando como o registo no tempo de uma determinada fase ou de um determinado estado de espírito. Nunca é um ponto final, mas uma vírgula. Agora, que surpresas é que vou ter de mim mesmo, no futuro, isso não sei. Não sei se será uma orquestra, se irá ser um disco de silêncios. A porta está aberta.
Jorge Lima Barreto lança um álbum novo e reedita dois antigos
“TIVE UMA COLISÃO MUITO
GRANDE COM AS PESSOAS DO JAZZ”
No seu novo disco, mais um, dos Telectu, intitulado “À Lagardère”, a banda de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua conta com a participação do trompetista Jac Berrocal. Em paralelo, acabam de ser reeditados os dois primeiros álbuns da Anar Band, entre os quais “Encounters”, com Saheb Sarbib. Para ler, há também um novo livro, “Musa Lusa”. Um período em cheio para Jorge Lima Barreto que continua imparável na sua marcha em direcção a uma utopia.
“À Lagardère”, “Anar Band” mais “Encounters”. 20 anos separam as duas edições. 20 anos separam o tempo em que Jorge Lima Barreto martelava as teclas de um piano em Cascais, dos dias de hoje, em que o músico musicólogo do Porto atrai para a música dos Telectu a nata dos improvisadores da cena internacional. No fundo, trata-se apenas de pôr em prática a “capilaridade” que existe entre estes sons e estes músicos. Como o próprio explica em entrevista ao PÚBLICO.
PÚBLICO – Depois de Elliott Sharp e Chris Cutler, os Telectu voltaram a gravar com outro nome importante da música improvisada, desta feita o trompetista Jac Berrocal. Como surgiu esta colaboração?
Jorge Lima Barreto – O Berrocal é um músico francês que trabalhou com o Daunik Lazro que, por sua vez, fazia parte do grupo de Saheb Sarbib quando este vivia em França. Daí que eu tenha mantido sempre uma relação estreita com esse círculo musical. Por outro lado, o Berrocal está muito ligado à “performance”, esteve nas Caldas da Rainha, num certame de música alternativa, ao lado do Jorge Peixinho, entre outros músicos. Quando nos foi propiciado convidar um músico para trabalhar connosco num concerto na Casa de Serralves, no Porto, ele veio, sentimos que a coisa era conciliável do ponto de vista do estilo e a partir daí ele já fez uns sete ou oito concertos connosco. Para este disco, preparámos, no Festival de Guimarães, um quarteto com ele e com o Louis Sclavis. O Jac ficou cá mais uns dias, o que nos proporcionou seguirmos para Espinho para gravar na Numérica.
P. – Esta estratégia de intercâmbio com músicos convidados não obriga à modificação constante de estilo dos Telectu?
R. – Neste tipo de música, improvisada, existe uma capilaridade muito grande, uma troca constante entre as figuras musicais. O Zíngaro, por exemplo, toca e grava com diversos músicos. Por outro lado, vão-se criando afinidades, uma troca de situações que é muito importante. Tocar com um baterista como o Cutler é diferente de tocar com outro, como o Paul Lytton. Para nós é um engrandecimento da nossa própria experiência.
P. – Mas não existe o perigo de as pessoas não conseguirem reconhecer aquilo que pertence intrinsecamente aos Telectu?
R. – Respondo com outra colaboração. O Daniel Kientzy estava para vir tocar com o Jorge Peixinho. O Jorge Peixinho morreu e eu fui falar com ele, aliás ele é que se dirigiu a mim, porque queria fazer a divulgação do disco dele com o Peixinho. Veio cá a casa, conversámos e disse-lhe que estávamos para ter um concerto de música improvisada nas Festas da Cidade. Foi ele mesmo que disse que queria improvisar connosco. Tocámos, ele gostou, e criou-se um núcleo Kientzy/Telectu para a realização de vários concertos. E convidou-nos para gravar em Paris com ele. Do nosso lado procurámos criar um tipo de situação sonora a pensar num homem que é multi-instrumentista de sopros. Mas quando é com o Cutler, um baterista, a coisa é completamente diferente. Exige outro tipo de planificação. Mas se reparar, há da nossa parte um trabalho de composição em que estabelecemos um determinado número de premissas para as coisas se realizarem. Nunca é improvisação absoluta. Depois, repare, um compositor contemporâneo pode compor para quarteto de cordas, para percussão, para sopros, para electrónica, situações que levam quase a uma mudança de identidade. Mas, por outro lado, sentimos que há qualquer coisa, talvez indefinível, uma coerência nas várias situações que descrevi.
P. – Os últimos álbuns, e o novo, em particular, denotam uma certa fixação no ambientalismo…
R. – … Um lado mais modal, sim…
P. – Um tema como “Baccarah caril” lembra fortemente a estética de Brian Eno, em “On Land”…
R. – Sim, pode haver uma relação. No novo disco houve uma escolha de escalas, uma espécie de fórmula modal, a partir da qual se desenvolveu uma temática que, por outro lado, depende da instrumentação, umas vezes do sintetizador, outras do piano, daí que tenham resultado estruturas muito mais melódicas. Mas não fazemos isso no sentido de uma imitação.
P. – Em paralelo com a edição do novo disco com Jac Berrocal, foram reeditados, num compacto simples, os dois primeiros trabalhos da Anar Band, o segundo deles, “Encounters”, em colaboração com Saheb Sarbib. Há aqui o desejo de uma reapreciação estética destes discos ou, simplesmente, a perspectiva do arquivista histórico?
R. – Nos anos 70 estes dois discos foram os únicos que existiram neste tipo de música, improvisada. O disco com o Sarbib, por exemplo, era para ser gravado com o quarteto do Pinho Vargas. Foi na época em que Rão Kyao costumava vir a minha casa e em que gravou o “Goa”. Nessa altura eu tinha tocado em Cascais, em 1974, em piano e banda magnética, um tipo de propostas absolutamente iconoclastas. Quando sugeri ao Sarbib fazermos um “replay” dos temas, tocar por cima do que já estava tocado, foi a primeira vez que aqui se fazia esse tipo de experiência, embora Bill Evans já o tivesse feito lá fora. Era um tabu para as pessoas do “jazz”. Nesse tempo estavam a “rebentar” as músicas improvisadas, as quais estavam a divergir do “jazz”.
P. – Passados 20 anos, como é que ouve estes dois discos?
R. – É complicado. Não vou falar em sentimentalismo… No caso do disco só da Anar Band, ouço, embora haja coisas que até passo à frente, mas, de resto, foi muito gratificante, em particular o trabalho no piano, nas cordas do piano, que julgo ter sido bastante original. No caso do “Encounters”, é completamente diferente, uma vez que se tratava de um grande músico, como é o Sarbib, que na altura estava na pujança do seu estilo, em particular com aquele som do contrabaixo, semi-amplificado, que, além deste, só se encontra em mais dois ou três discos dele. Ainda em relação ao “Anar Band”, está dividido em dois lados. O primeiro acho-o marcante, em termos de intervenção de um estilo de piano que ainda hoje pratico nos concertos. No outro lado, só com o sintetizador, aí é que ponho certas reticências, já que algumas abordagens parecem pretender insinuar coisas que depois se desenvolver muito. Por exemplo, o minimalismo, ou certo tipo de automatismos que teriam, então, paralelo com o rock alemão. A estratégia de divisão em temas separados é que não terá sido a mais correcta, já que ao vivo eu costumava tocar apenas uma longa composição electrónica. Mas existia o prazer da manipulação do sintetizador analógico, o A.R.P. Odyssey. Agora há aí o “hip hop” em que se está de novo a utilizar o analógico e as mesmas marcas… Com os Anar Band utilizava uns painéis que recortava e sobrepunha, em cada composição, numa espécie de palimpsesto.
P. – A provocação era parte integrante da proposta estética dos Anar Band?
R. – Lembra-se daquele festival em Sintra, em que fizemos a primeira parte do concerto do Michel Portal? [N. R. : Lembramo-nos, e de que maneira! A actuação do grupo de Portal permanece na nossa memória como a mais extraordinária assunção de “música total” a que alguma vez assistimos.] A nossa proposta foi, nessa ocasião, extremamente provocadora. Quanto ao disco, é difícil compará-lo com qualquer outro tipo de realidade. Não são visíveis influências.
P. – Por último, mais um livro, “Musa Lusa”, no qual, mais do que dissertar sobre música, analisa os seus meios de produção e divulgação…
R. – É um livro mais de consulta. Também vou editar proximamente um outro, “O Siamês Telefax Stradivarius”, na Campo de Letras, do Porto, que é um desenvolvimento deste, sobre aquilo que eu considero ser a cultura dos “media”. Hoje temos uma cultura que nos é fornecida pelos “media”. A música está inclusa nesse tipo de cultura.
P. – Os seus trabalhos no domínio da escrita têm, por norma, causado uma certa polémica. Isso deve-se à manutenção de um estatuto de “marginalidade” no interior do sistema ou a um menor rigor no tratamento dos assuntos abordados?
R. – No caso da minha escrita, ou da minha atitude perante a música e da sua situação social, tem existido uma relação bastante desgastante com alguma crítica, mas isso acontece em todos os lugares. No meu caso, tive uma colisão muito grande com as pessoas do “jazz”, porque, na altura, tentava impor o “free jazz”. Depois veio a música minimal, da qual também fiz uma grande divulgação, e essas posições originam sempre uma reacção. Entra-se em confronto com essa reacção.
P. – Mas não reconhece haver um certo fundamentalismo no modo como expõe as matérias?
R. – Se não fosse assim, ninguém fazia nada. Por exemplo, um actor de teatro que queira desenvolver uma nova linguagem ou alguém, do cinema, que queira mostrar cinema experimental. Alguém, ainda, das artes plásticas, que pretenda mostrar o novo subjectivismo na pintura, tudo situações de hoje. Ou a divulgação da pós-modernidade, que agora acontece na música, a explicação dos seus fenómenos, cada vez mais complexos, labirínticos. Está-se a explicar aquilo que nos rodeia. E o que nos rodeia é uma cultura mediática, que nos é inculcada pelos “media” e leva as pessoas a estarem atrasadas. No sentido em que não têm sequer contacto ao que se faz de novo. As massas, o grande público, estão acantonadas, isoladas, das coisas novas que aparecem. Devido a esse isolamento, quando elas aparecem, não as compreendem.
14.11.1997
Os Poetas Apresentam “Entre Nós E As Palavras”
O Caminho Das Letras Que Cantam
Mário Cesariny, Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Al Berto e Franco Alexandre são os poetas da escrita presentes no álbum de estreia de Os Poetas, um grupo de músicos atentos ao som das palavras e ao sentido dos sons. “Entre Nós e as Palavras”, assim se chama o disco, é esse espaço de abertura e convergência.
Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Francisco Ribeiro e Margarida Araújo, os quatro instrumentistas de Os Poetas, falaram ao PÚBLICO da fase actual de um projecto que pretende alargar-se, num futuro próximo, à área do teatro e a outros poetas contemporâneos. Cesariny ou Herberto Helder poderão subir ao palco sempre que quiserem.
FM – Qual é a génese deste projecto?
Margarida Araújo – Surgiu de uma conversa entre o Rodrigo, o Gabriel e o Hermínio Monteiro, da Assírio & Alvim, quando este último falou da existência de gravações de poetas a recitarem os seus próprios poemas. Chegaram à conclusão que seria interessante juntar isso com música. No início deste ano entrámos em estúdio.
Rodrigo Leão – Começámos em Abril, praticamente do zero. Havia uma ou duas coisas que eu já tinha feito para um espectáculo para a associação Saldanha…
FM – A quem se deve a escolha dos poemas para o disco e para o espectáculo?
Rodrigo Leão – O Hermínio emprestou-nos as gravações e a partir delas seguiu-se um proceso de selecção muito espontÂneo. Não nos interessava inventar um tipo novo de música, mas trabalhar as reações mais imediatas à tonalidade dos diversos poemas.
Gabriel Gomes – Foi um acto de paixão. Quando começámos a ouvir os discos dos poetas, as palavras eram demasiado fortes. A partir daí tentámos encontrar uma cadência tanto para os poemas como para a forma como estes eram expressos pelos seus autores. Andámos à procura da coincidência entre a palavra e a música. Fomos experimentando. Umas vezes compúnhamos inspirados directamente na poesia, tocando sobre ela, noutras a música surgia depois do poema, noutras ainda compúnhamos o tema e íamos à procura do poema certo para ele.
FM – Em termos estritamente musicais, é difícil não recuarmos aos primeiros tempos dos Madredeus, até porque há três elementos que fizeram parte desse grupo…
Rodrigo Leão – É difícil comparar dois projectos tão diferentes, apesar de haver semelhamças, ao nível da sonoridade. Os Madredeus têm uma cantora, uma figura que canta a apoesia de outra maneira. No nosso projecto, são os próprios autores a ler os poemas.
FM – Se tivessem um cantor tudo funcionaria de maneira diferente?
Francisco Ribeiro – Quando há um cantor, toda a instrumentação tem de ser adaptada a ele. No nosso caso, embora tivéssemos o cuidado de procurar a tonalidade, as pausas, toda a maneira como o poeta diz, o processo de criação foi mais livre, sem uma melodia rígida em relação à qual nos tivéssemos de cingir. também aí divergimos dos Madredeus, na medida em que cada um de nós foi livre para criar a música.
FM – Como reagiram, em termos de apreciação e posterior composição, A`s duas formas diferentes de dizer o poema que utilizaram: uma, a gravação com o próprio autor a declamar e outra, com a declamação, em tempo real, feita pela actriz Margarida Marinho?
Francisco Ribeiro – A maneira como nos adaptámos à palavra difere de tal maneira, de poema para poema, e de pessoa para pessoa… Imagine-se, por exemplo, que temso a Margarida Marinho a declamar uma das poesias de uma forma mais lenta, aí temos que adaptar a música a essa cadência.
Gabriel Gomes – Digamos que essas duas situações, uma em “off”, outra em tempo real, são distintas. Se, por um lado, é óbvio que temos de nos adaptar, por outro, com a Margarida Marinho, o trabalho pode ser feito em simultâneo, adaptarmo-nos nós ou adaptar-se ela. Pessoalmente, achei supernovo estar a tocar em palco e, de repente, ser disparada uma voz que não está em palco. Com a Maragarida Marinho é diferente, é como se ela fosse uma cantora. Complementando com a palavra, que também é melódica. E há poemas em que a música é, à partida, como uma página em branco, que nos empurra para a improvisação, conforme as palavras vão sendo ditas.
Há Uma Palavra Certa
FM – Além da música e da poesia, há uma componente teatral nos vossos espectáculos, já para não falar no modo como o Francisco Ribeiro canta “quem Me Dera (Amanhã)2. Tencionam desenvolver mais esta faceta?
Rodrigo Leão – O disco cristaliza o momento, segundo o conceito dos poetas recitarem a sua poesia e nós musicarmos essa poesia em diversas situações. Nos espectáculos, temos vindo a desenvolver essa componente mais teatral.
Francisco Ribeiro – É mais uma “perfomance” que dá lugar à expressão corporal. a ideia é, de resto, essa, de juntar diversos campos artísticos.
rodrigo Leaõ – A personagem que o Francisco encarna no tema que canat não foi estudada, foi surgindo a pouco e pouco, mas agora realmente sentimos que ele encarna mesmo uma personagem. De resto, ele também já faz a declamação, ao vivo, do poema “há uma hora, há uma hora certa”, do Cesariny.
FM – Todos os elementos do grupo partilham a mesma forma de encarar os poemas que foram escolhidos “a priori”?
Gabriel Gomes – Quem assistir aos nossos ensaios perceberá como funcionamos. Cada um tem uma ideia, mas há como que uma sintonia, porque o outro já estava a pensar em algo semelhante. Não existe grande confrontação.
Rodrigo Leão – … Embora também haja momentos de desintonia perfeita!… Sobretudo nos últimos três meses de estúdio, houve muitas discussões, mas acabámos, de forma quase inconsciente, por achar as soluções certas e encontrar uma unidade estética.
Gabriel Gomes – Por exemplo, há um poema do Al Berto com música do Francisco. Não tínhamos música para ele, mas queríamos mesmo usar o poema, “XXX”. Porque é que não haveríamos de usar apenas o Al Berto e o violoncelo? experimentámos com uma música que já estava feita há muotos anos, e que inclusive já tinha sido tocada em espectáculos dos Madredeus. Foi aproveitada e funcionou na perfeição na relação entre o poeta solitário Al Berto e o violoncelo solitário do Francisco.
FM – Já puseram a hipótese de convidar algum dos poetas deste projecto para declamar ao vivo, co o grupo, em palco?
Gabriel Gomes – Há poucos dias tivemos a honra de fazer um “videoclip” com o mário Cesariny, que é uma coisa fantástica. Conheci pela primeira vez o senhor e fiquei bastanrte impressionado. Convidei-o para ir ao espectáculo [que teve lugar na Aula Magna, na passada terça-feira]. não vamos pedir, obviamente, que ele vá recitar… A não ser que ele queira mesmo… Já tem idade e posição suficiente para fazer o que lhe apetece. Se ele disser: “Quero ir recitar”, o palco é para ele e a música que improvisarmos há-de ser feita. e com o Herberto Helder também gostaríamos que acontecesse… Quanto ao Franco Alexandre, vai mesmo colaborara connosco proximamente.
FM – Também não se lembraram de experimentar com a chamada “poesia fonética”, de Mello e Castro, por exemplo?…
Rodrigo Leão – Podia ser giro, mas é preciso ver que não somos verdadeiros especialistas em poesia. Só este ano é que começámos a levar para a frente este projecto, e temos vindo a apaixonar-nos e a envolver-nos cada vez mais com apoesia. Até é possível que apareça um segundo disco, embora não tenhamos obrigatoriedade de carreira com este projecto.
Francisco Ribeiro – E há outra situação super-interessante que podemos explorar no futuro, que é ter poetas vivos, contemporâneos, connosco em estúdio, para uma criação em conjunto. Composição em tempo real entre a palavra e a música. Que é o que, de resto, se passa, por vezes, com a Margarida Marinho.
FM – Um grupo com um poeta no lugar do cantor?
Gabriel Gomes – Exacto. Aliás, a ideia inicial deste projecto incuía a participação do próprio Al Berto. Infelizmente ele faleceu e isso não aconteceu. Se calhar, ele até poderia compor poesia original para as nossas músicas, ou vice-versa… Mas esta ideia permanece de pé, com outros poetas que eventualmente escolhermos.
FM – “Desde os primórdios que a poesia nasceu para ser cantada ou recitada”, escreveu Hermínio Monteiro, a propósito do lançamento do disco. A afirmação é discutível…
Gabriel Gomes – Mas quando ele diz isso está a recuar à época dos gregos, a poemas como a “Elíada” ou a “Odisseia”, que eram poesia para ser cantada. E na Idade Média acontecia amesma coisa.
FM – Vocês são os trovadores desta geração?
Francisco Ribeiro – Um pouquinho… Não, estou a brincar.
Rodrigo Leão – Não, temos é a possibilidade de fazer a conjugação das artes. Ultimamente, cada uma tem caminhado sempre um pouco no seu campo. a nós interessa-nos juntá-las.
FM – O declamador tradicional tende a desaparecer? Villaret e Mário Viegas já cá não estão… Será que a poesia necessita, hoje, de ser dita em outros contextos?
Francisco Ribeiro – É um facto que a poesia tende a ficar cada vez mais guardada numa prateleira. Neste sentido, o projecto “Entre Nós e as Palavras” vem mostrar mais uma vez que a poesia existe e está viva.