Arquivo da Categoria: Dark Folk

Muslimgauze – “Citadel”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Muslimgauze
Citadel

Extreme, import. Ananana


citadel

No início de uma discografia que já se aproxima das duas dezenas de títulos, entre os quais quatro gravados para a Extreme, os Muslimgauze (“névoa muçulmana”), um grupo enigmático originário de Manchester, propunham a guerrilha sonora assente em torrentes de ritmo metálico algures entre os Test Dept. e a escola dura de dança da “electronic body music” europeia, infiltrada por alusões e referências em defesa da causa árabe. “Citadel” suaviza o discurso, razão por que este se torna talvez ainda mais perturbante. As sombras adensaram-se. As percussões recuaram e os sintetizadores são como espectros mantidos em expectativa na retaguarda, prestes a atacar. A raiva vem à superfície e a tentação techno aflora em “Opel”. Mas na maioria dos temas os Muslimgauze preferem a surdina ao grito, a hipnose à tortura, o subliminar ao ostensivo, inscrevendo a sua música ao lado da dos seus conterrâneos O Yuki Conjugate. Uma citadela que se ergue, qual Babel, até às nuvens mas que para muitos poderá parecer impenetrável. (7)



Jorge Reyes – “The Flayed God”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
WORLD

JORGE REYES
The Flayed God

Staalplat, distri. Ananana


JR

“Mundo real” significa, no caso de Jorge Reyes, “Mundo interior”. A progressão da obra deste músico mexicano que nos últimos anos se tem dedicado à prática de uma “música mexicana pré-hispânica” (aliás, título de um dos seus álbuns), reinventada a partir de referências simbológico-mitológicas, mais do que o resultado de um estudo das fontes históricas, é exemplar.
Da música progressiva com tendências planantes dos primeiros álbuns (“Ek-Tunkul”, “A la Izquierda del Colibri”, com Antonio Zepeda), Reyes passou para a electrónica, que cedo começou a incorporar elementos étnicos, através de utilização de instrumentos rituais mexicanos, os álbuns como “Comala”, “Niérika”, “Bajo el Sol Jaguar” e o m ais recente “El Costumbre”. O aprofundamento deste vertente etno-ritual, inclinada para o uso preferencial de sons acústicos, viria a produzir obras como “Cronica de Castas” (com o guitarrista espanhol Suso Saiz) e a já citada “Musica Mexicana pre-Hispanica”, cuja distribuição está prevista pela Dargil. O encontro com Steve Roach, expoente da “nova electrónica” norte-americana, cujo percurso tem evidentes pontos em comum com o do mexicano (“World’s Edge”, por exemplo), presente em “El Costumbre”, foi determinante para Jorge Reyes levar ainda mais longe a opção pelo “exclusivamente acústico”. Ficando a estética electrónica salvaguardada no colectivo Suspended Memories, do trio Reyes, Roach e Saiz, do qual resultou já o álbum “Forgotten Gods”. “The Flayed God”, divindade mexicana que simboliza realidades como a morte, a ressurreição, o sacrifício ritual e a fertilidade, é, ainda com maior intensidade que em discos anteriores, uma alucinação de “peyote”, imersão num universo elementar, mágico e ancestral. Jorge Reyes manipula flautas de osso, didgeridoos, pedras, água, tambores que reproduzem os ritmos do homem, da natureza e dos cosmos. Anjos e demónios são convocados do alto de arquitecturas erguidas no mundo dos sonhos. A capa reproduz preces e invocações, num invólucro com reflexos de pérola e opala que reforçam o onirismo deste objecto situado nas margens da música contemporânea.
Ao auditor coloca-se o dilema de mergulhar nesta fantasmagoria onde, consoante a profundidade a que se chegue, se manifestam entidades surgidas do Inconsciente ou provenientes do labirinto do tempo, ou, pelo contrário manter distâncias e optar pela visão aérea, exterior, podendo mesmo assim maravilhar-se com as cores e texturas da música sem atender aos chamamentos. “The Flayed God” é o disco psicadélico por excelência. (8)



Dead Can Dance – “Into the Labyrinth”

Pop Rock

22 SETEMBRO 1993

CATEDRAL DA ILUSÃO

DEAD CAN DANCE
Into the Labyrinth

4AD, distri. MVM


dcd

Brendan Perry e Lisa Gerrard são sérios e sisudos, místicos modernos, arquitectos de catedrais de som que vão à procura dos segredos dos construtores antigos. Assim acontecera já no álbum anterior da banda, “Aion”, com a recriação de algumas vertentes características da música antiga, da Idade Média e Renascimento. “Into the Labirynth” procura investigar noutras paragens. A oriente, no encontro com a música indiana, no tema de abertura, “Yulunga”, na herança folclórica britânica, em “The wind that shakes the barley” – que permite a Lisa assumir sem complexos e de forma convincente o canto “a capella” tradicional –, na reprodução de memória das vozes búlgaras, em “Saldek”, terminando na visão da decadência, por Brecht, recontextualizada em “How fortunate the man with none”. Três temas conseguem a síntese equilibrada e original desta mescla de influências: “Toward the within”, “The spider’s stratagem” e sobretudo “Emmeleia”, em que as vozes de Perry e Gerrard se harmonizam em amoroso anelo. O ambiente, no interior do labirinto, é escuro, carregado de uma religiosidade soturna e profana. Vai-se de escorrega até ao fundo pelas cordas de violoncelos que descem ao limite das lamentações e dos graves. O som, carregando ameaças de terror, tem a textura do veludo de tapeçarias violáceas de palácios em ruínas. Digamos, por comparação, que “Aion” era mais luminoso enquanto “Into the Labirynth” é pesaroso. O sonho-casulo dos amantes de Bosch, em “Aion”, deu lugar ao pesadelo e a torturas de alma mais dolorosas. Tudo é nocturno nas música dos Dead Can Dance. Um jardim de estátuas funerárias iluminadas pelo luar. Há, sem dúvida, beleza na “antiquíssima noite” que Pessoa poetizou. Só que os Dead Can Dance não exploram a escuridão até ao fim. Estão com um pé lá e outro cá. E, pelo sim pelo não, põem a cabeça de fora e acenam com lanternas a fazer sinal de “podem avançar”. Principalmente quando Brendan Perry põe a dele (cabeça) de fora, as coisas doa para o torto. Em “The ubiquitous Mr. Lovegrove”, voz perde-se nalguma ligeireza, vassala dos Japan de David Sylvian, e as reviravoltas rítmicas clamam em surdina pelos Simple Minds, de Jim Kerr, da época fria de “Empires and Dance”. Perry, por mais carradas de produção “atmosférica” que lhe atirem para cima, mostra que é um fraco vocalista, afectado por sintomas de anemia e preocupantes sinais de rouquidão, em “Tell me about the forest”. Não chega para interromper o gozo que dá aventurarmo-nos pelas sombras sabendo de antemão que é tudo a fingir e recortado em plástico e papelão. A catedral dos Dead Can Dance, sabemo-lo, é falsa. Espreita-se para trás do cenário e das maquetas e vê-se que as velas são de luz artificial, os fantasmas de papel e a profundidade não passa de um “trompe l’ oiel” eficaz. Mas, caramba, temos que reconhecer que, do lado de dentro, se nos quisermos e deixarmos enganar, como fazem as crianças que conversam com os bonecos e se assustam no quarto dos brinquedos, a ilusão é perfeita. Não é a ilusão, afinal, a essência do próprio labirinto? (7)

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