Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Paco De Lucia – “Cositas Buenas”

20.02.2004

Paco De Lucia
Cositas Buenas

Ed e distri Universal
7/10

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Melhor “Cositas Buenas” do que nada. Paco de Lucia, um dos magos do flamenco, é incapaz de fazer maus discos. O “duende” pode estar mais ou menos adormecido dentro de si mas pode sempre esperar-se alguma chama. Sem o esplendor de álbuns como “Entre Dos Aguas”, “Siroco” ou “Amoraima”, “Cositas Buenas” impele à dança dervíchica e induz à sensualidade, dando voz e corpo à modernidade que tem sido desde sempre apanágio do guitarrista. O flamenco funde-se com o jaz rock no título tema e em “Antonia”, e com África, em “El dengue”. Estão presentes as palmas, os olés de incitamento e, na melhor de todas estas coisinhas boas, a voz de Camarón de la Isla (há aqui um enigma por resolver: as composições são novas, a voz não parece samplada mas a verdade é que o cantor há mais de dez anos que deixou o mundo dos vivos…) e a guitarra de Tomatito, em “Que venga el alba”. As bulerias, tangos, rumbas e tientos de “Cositas Buenas” mais do que fogo são água que refresca. A limpidez com que Paco de Lucia a faz nascer permanece impoluta.

Ani Di Franco – “Educated Guess”

13.02.2004

Ani Di Franco
Educated Guess
Righteous Babe, distri. Megamúsica
8/10

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Declaração de Independência

O caso de Ani Di Franco faz pensar. Com alma educada na folk e corpo tatuado no punk, a cantora de 34 anos, natural de Buffalo, é a lutadora por excelência contra o sistema, a “workaholic” infatigável, adepta do “faça você mesmo”, mas também a compositora inspirada e uma “true original” que, álbum após álbum (e já lá vão 17), vem traçando uma obra ímpar no panorama dos “singer songwriters” norte-americanos. Se longe vão os tempos em que Ani percorria os EUA de costa a costa no seu Volkswagen de molde a satisfazer os compromissos de um calendário de 200 concertos por ano, a verdade é que, nem por isso se aproximou mais do que quis ou que devia do “mainstream”.
“Educated Guest” é tão marginal ao sistema como qualquer dos seus discos anteriores, ao ponto de assegurar, sozinha, a composição, interpretação, gravação e misturas das 14 canções. Mas Ani foi mais longe desta vez. Além do prodigioso trabalho de som que torna sonicamente fascinante um álbum quase exclusivamente elaborado com a voz e uma guitarra acústica, com esporádicas pontuações de piano eléctrico ou de “wind chimes”, é a própria música que evidencia uma riqueza e complexidade que neste álbum conseguem ser tão ou mais cativante do que alguns dos seus trabalhos mais “produzidos”, como “Little Plastic Castle” ou “Up Up Up Up Up Up”. Ani declama, examina-se ao espelho em “overdubs” vocais, tira da guitarra refracções e reflexos de electrónica artesanal ou aumenta a ressonância até às dimensões de uma caverna.
Depois, o seu sentido de ritmo e de dinâmica contradizem tudo o que a indústria musical exige actualmente das “divas” pop. Ao invés de fórmulas adocicantes e “groove” sintético, a música de “Educated Guest” elimina tudo o que não tenha a luminosidade do espírito e a textura sanguínea e musculada da carne. Implosões e explosões de palavras e frases de guitarra que tanto bebem no “blues” e no “jazz” como numa “folk” espectral ilustram um sentido intricado do tempo e o desejo de experimentação, a par de uma elegância que jamais se dilui no novelo de canções psicológica e socialmente empenhadas. Ani apenas terá como concorrentes Joni Mitchell e, no caso de “Educated Guest”, o álbum mais “difícil” da cantora canadiana, “The Hissing of Summer Lawns”, sem os sintetizadores e as percussões africanas; e, esporadicamente, Annette Peacock, com quem partilha o gosto pela “spoken word” “swingante”, em que a acutilância e a ternura se confundem, em poemas apontados a alvos precisos, como “Grand Canyon” – uma raspagem ao relevo emocional e social da América e um retrato cruel dos seus habitantes, tão carregados de sarcasmo como de esperança – como ela, “born of the greatest pain/into a grand canyon of loght”.
Ani canta e “scata” como uma criança magoada, um sádico em busca de vítimas, uma “blueswoman” (por vezes mais próxima do misticismo descarnado de um John Fahey) em transe, uma sonhadora, uma guerreira. “Educated Guest” é a primeira grande declaração de independência da pop deste ano.

Lisa Gerrard & Patrick Cassidy – “Immortal Memory”

06.02.2004

Lisa Gerrard & Patrick Cassidy
Immortal Memory
4AD, distri. MVM
6/10

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Agasalhem-se, bebam uma aguardente, cheguem-se perto da lareira. Lisa Gerrard, a voz de mármore dos Dead Can Dance e This Mortal Coil, passeia-se pelo cemitério numa noite de luar. “Immortal Memory” depura o gótico e as recriações de música antiga dos Dead Can Dance, com toques de “folk” e mitologia céltica (Cassidy é um compositor irlandês que a cantora conheceu quando trabalhava na banda sonora de “Gladiador”) e uma grandiosidade expressa em grandes massas orquestrais, numa produção tumular e em canções que sugam a alma até esta ficar da cor de um lençol. “The Song of Amergin” poderia passar por Enya do outro lado do espelho, na banda sonora de uma versão de terror de “O Senhor dos Anéis”, com Lisa a invocar a entidades do além com os seus cânticos de diva sonâmbula. A partitura de Howard Shore para o filme de Peter Jackson parece ser, de resto, a principal referência de “Immortal Memory”, ao nível dos arranjos, a julgar por orquestrações como as de “Maranatha” e “Armegin’s Invocation”, esta a roçar a clonagem… Evocam-se lendas e rituais solenes, perdidos no tempo e na memória mas os grandes glaciares desta música que dança, mais ou menos ostensivamente, com a morte, têm efeitos bem mais profundos na obra dos The Zone, Lustmord ou nas inultrapassáveis e temivelmente belas litanias de “Zamia Lehmanni (Songs of Byzantine Flowers)”, dos SPK.