Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Wim Mertens – “Skopos”

06.02.2004

Wim Mertens
Skopos
Usura, distri. Megamúsica
6/10

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Wim Mertens tem um dilema. Empenhado na criação de uma obra monumental, nalguns casos impenetrável, dispersa por trilogias, tetralogias e infinitologias, sente-se, por outro lado, impelido a mostrar um lado mais acessível e “fácil” da sua música. “Skopos” pertence à categoria do Mertens “ligeiro” e “mainstream”. Armado do seu “ensemble”, o compositor flamengo cria um híbrido de estilos e sonoridades exóticas capazes de seduzir o ouvido pelo imediatismo. Flamenco e música árabe fazem a sua aparição em “Add growth can be heard”, “Further Hunting” é pretexto para percussões em compasso de “house” subliminar e “Swirling backwards” reinventa o lado erudito dos Tuxedomoon, enquanto “From out of which” retoma as velhas poanadas num registo pop próximo dos Penguin Cafe Orchestra e “Bold forgetting” e “Working the Ploughs” apostam no minimalismo romântico que depois de “O Piano” de Nyman não cessou de se repetir. Sem dúvida bonito, mas longe da estranha música de “Vergessen”, “Struggle for Pleasure” e “Maximizing the Audience”, aqui apenas igualada pelo belíssimo ( e Nymaníssimo…) epílogo, “Bewildering din”.

Tied & Tickled Trio – “Observing Systems”

23.01.2004

Tied & Tickled Trio
Observing Systems
Morr Music, distri. Ananana
8/10

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“Observing Systems” (termo criado no início dos anos 70 pelo teórico de sistemas cibernéticos Heinz von Foerster), quarto álbum da dupla germânica formada por Markus (bateria, programações) e Micha Acher (trompete, baixo), mistura estilos e sonoridades com o desplante de quem tem à sua disposição os arquivos da grande enciclopédia de música universal. “The long tomorrow” faz interagir o jazz, a electrónica e o pós-rock com Misha a empolgar-se numa personificação energética do Miles Davis de “In a Silent Way”, bem secundado pelos devaneios “free” de Johannes Enders, no sax tenor. Mas logo tudo se fragmenta em refracções “dub” ou atraindo a si os miasmas de nostalgia dos Tuxedomoon. Sucessivamente, vão emergindo paisagens “trip hop”, “avant jazz” e até, em “Motorik”, uma leitura bastante livre e jazzística do krautrock dos Neu!. Thelonius Monk e Sun Ra são igualmente objecto de presumíveis homenagens, respectivamente em “Ship Monk” e “Radio Sun”. A observação da observação leva a uma nova compreensão da realidade”, diz Foerster e os T&TT põem em prática. Delírio quântico ou regurgitação de informação em excesso, seja como for, está bem observado.

Vários – “On Paper”

23.01.2004

Vários
On Paper
2xCD Crónica, distri. Matéria Prima
8/10

O suicídio esclarecido de Sócrates, encarado como prova da imortalidade da alma, faz sentido em termos ontológicos. Acontece que, quando calha a nós, como diria Woody Allen, faz sentido, sim, mas “no papel”. Esta discrepância entre a Fé e a desconfiança da razão encontra eco no trabalho de “colagem/descolagem” empreendida por artistas sónicos portugueses como Vítor Joaquim, @C, Paulo Raposo, Longina e Pedro Tudela, a partir de um tema deste último, “Rasgão.aif”, e do papel, simultaneamente superfície rasa e suporte de informação. “Aceitar que se trata de uma matéria que acumula informação por camadas e conjugações” como ponto de partida, determina as múltiplas manipulações/funções de “On Paper” em que o som do papel (rasgado, dobrado, batido à máquina…) é processado electronicamente. Ao contrário da máxima de Allen, porém, resulta desta operação não a dúvida ou o medo, mas uma paleta diversificada de músicas inseridas no “industrial”, na música concreta, no ambientalismo digital sujo ou em abstracções órfãs de paternidade estética. Soa incómodo, no papel. Aos ouvidos, felizmente, ainda mais.