Arquivo da Categoria: Críticas 2004

13TH Floor Elevators – “The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators”

27.02.2004

13TH Floor Elevators
The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators
Sunspots, distri. Trem Azul
9/10

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Do alto desta pirâmide 300 doses de LSD nos contemplam. 300 foram as vezes que, segundo as crónicas, Rocky Erickson ingeriu a substância mágica. Viria a flipar e a ser preso mas ainda teve tempo para gravar, em 1966, uma das obras-primas do psicadelismo. Subiu de elevador até à pirâmide de 25 andares e de lá fez a apologia de uma nova visão da realidade. “The Psychedelic Sounds…” é essa viagem guiada até ao cume, com direito a sexo, experimentação, sonhos lisérgicos e, no último tema, a redescoberta de Deus. Não se pense, porém, que Rocky era do tipo “flower power”, “California dreamin’”, incenso e tangerinas. A sua loucura é amarga e o som dos 13th Floor tresanda a rock de garagem. Em estados alterados de audição corre-se o perigo de não encontrar a saída. A bússola e o relógio deixam de funcionar em mantras (imaginem os Velvet sem a auto-disciplina) onde a guitarra de Stacey Sutherland, a voz e a cabeça de Rocky e o tempo reverberam, se deformam, encolhem e dilatam, e em canções como “Splash 1” que estabelecem a comunicação telepática entre Syd Barrett e Rocky. Tiveram ambos mau fim. Deixaram ambos um caminho estreito que conduz às estrelas. Ou ao lado escuro da lua.

Yardbirds – “For Your Love, Heart Full of Soul & Others” (self conj.)

27.02.2004

Yardbirds

For Your Love, Heart Full of Soul & Others
8/10

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)

Having a Eave Up With The Yardbirds
9/10

Sunspots, distri. Trem Azul

É comprar bilhete e recuar até ao tempo dos blasers justos, camisas, gravatas e “look” a fingir de atinado. Meados dos anos 60, o “cocktail” de drogas, “blues” e chá das cinco anunciava já o psicadelismo mas pouco tempo antes das flores e cabeleiras começarem a crescer o som pop inglês rimava “rhythm ‘n’ blues” com uma veia melódica por vezes barroca. Os Yardbirds foram gigantes desta época. Com escassa discografia editada no país de origem, viram os seus melhores trabalhos serem lançados do outro lado do Atlântico, como “Little Games” e os agora remasterizados “Having a Rave Up With The Yardbirds”, de 1966, e “For Your Love”, antologia de 1965. “For Your Love”, título de canção que se tornaria “standard” dos anos 60, é mais energético e r&b em sangue, com a guitarra, já a escorrer ácido, de Jeff Beck que nesta altura tomara o lugar no grupo antes ocupado por outros dois futuros “guitar heroes”, Eric Clapton e Jimmy Page, e as vocalizações de Keith Relf (formaria os Renaissance e morreria poucos anos mais tarde). “Rave Up”, mais subtil, tem “blues” demoníacos, clássicos como “Hart fuyll of Soul” e “Evil hearted you” e proto-prog (“Pounds and stomps”). A pop inglesa de guitarras nasceu e mordeu aqui.

Vários – “Nuit Celtique II”

27.02.2004

Vários
Nuit Celtique II
DVD
Ed. e distri. Sony Music
8/10

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15 de Março de 2003. Um estádio de futebol (o Stade de France, em Paris) encheu-se para ouvir música céltica, na segunda “Nuit Celtique” com selo organizativo do festival intercéltico de Lorient, Bretanha, um dos mais prestugiados do circuito folk europeu. 500 artistas provenientes do polígono celta (bretanha, Irlanda, Gales, Galiza e Astúrias) proporcionaram uma noite única. Quando John Kenny entra sozinho erguendo ao alto uma longa trompa com cabeça de lobo, o silêncio religioso que se instala não faz prever a euforia que explodirá a seguir. “Bagads”, bandas militares escocesas, coros, um grupo de pandereteiras, outro de metais, uma orquestra sinfónica, dança irlandesa, “ceilidh” e bretã – a cerimónia adquire todos os tons da celtitude. Os convidados mergulham no ambiente, presos como a multidão ao sortilégio. Carlos Nunez está em transe, toca alguns dos temas que puderam ser escutados há poucos dias em Portugal. Os olhos brilham e, no meio do habitual desempenho virtuosístico na gaita-de-foles, solta urros de incitamento e não pára de declarar que a Bretanha é um paraíso (o que é verdade). O coro vocal de anciãos Flint Male Voice Choir antecede mais folk rock, pela banda do jovem cantor bretão Deniz Prigent. As dançarinas dos Roscara Dancers da Irlanda são fadas a voar. As maiores estrelas actuam no fim mas soçobram na grandiosidade do momento. Sinead O’Connor, sem voz nem presença, parece uma menina perdida com a sua folk de trazer por casa. Por fim, como corolário lógico, chega o bardo bretão, Alan Stivell. Canta e toca harpa, hesitante, enquanto à sua volta, num imenso crescendo, se vão juntando orquestra e dançarinos. Só a voz e as notas mortiças de harpa estão desfasadas, presas ainda a este mundo. Alan Stivell perdeu-se no caminho mas o caminho continua. Lá e cá.