Arquivo da Categoria: Críticas 2001

Fennesz – Endless Summer

07.12.2001
Fennesz
Endless Summer
Mego, distri. Matéria Prima
7/10

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Originalmente título de uma colectânea de 1974 dos Beach Boys, compilada por Mike Love, “Endless Summer” culmina uma operação de reconversão genética da música pop e o fim do idealismo. O surf nas ondas do sonho da geração de 60 morreu na praia e o naufrágio do sonho americano é aproveitado pelo austríaco Christain Fennesz como matéria de oscilação para outro tipo de ondas. Se David Thomas e os Pere Ubu ainda conservam, na mesma devoção à banda de Brian Wilson, os traços de um romantismo dilacerado, o antigo elemento da Orchester 33 1/3 – que num EP de 1998 já pulverizara outra canção dos rapazes da praia, “Don’t Talk (put your head on my shoulder)”, do álbum “Pet Sounds” – liquefaz aquele imaginário num oceano de clicks & cuts, aqui bem mais chegado às margens tranquilas do chill-out. Um chill-out com rugas, bem entendido, a deformar o smile da geração “rave”. Enquanto o anterior álbum, “+47º 56’ 37” – 16º 52’ 08””, impressiona pelo abstraccionismo e poder de análise, “Endless Summer” confirma o talento de Fennesz como bricoleur, capaz de arrancar insuspeitas melodias ao ruído e de cortar em pedaços e estética monumental que ele próprio ajudou

Tom Waits – Used Songs, 1973-1980

07.12.2001
Tom Waits
Used Songs, 1973-1980
Elektra/Rhino, distri. Warner Music
7/10

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pwd (se necessário): lagrimapsicodelica

O vagabundo de negro está de volta. Não com uma nova colecção de mutações arrancadas ao fundo de um copo de Nova Iorque, mas através de uma recapitulação da fase inicial da sua carreira, correspondente Às gravações para o selo Island, dos álbuns “Changing Time”, “The Heart of Saturday Night”, “Nightawks at the Diner”, “Small Change”, “Foreign Affairs”, “Blue Valentine” e “Heartattack and Vine”. Eram os anos da boémia, das noites passadas em claro, dos amores vadios e das monumentais bebedeiras que chegaram a entornar o piano, no inesquecível “The piano has been drinking (not me)” (de “Small Change”), infelizmente deixado de fora na presente colectânea. Os apreciadores do Waits “vaudeville” não têm, porém, razão de queixa, já que o cabaré, as baladas jazzy trôpegas e as orquestrações de sentimentos oscilantes entre a decrepitude e a eternidade, regressaram com o bónus das remasterizações, conferindo uma nitidez ofuscante a canções que antes se abrigavam nos recantos mais sombrios da alma do músico. É verdade que toda a carreira posterior de Waits se elevou a patamares bem mais elevados (e arriscados), mas também por isso vale a pena recordar os primeiros passos vacilantes e a ingenuidade perdida de um dos grandes criadores pop deste século.

Klankrieg – Radionik

30.10.2001
Klankrieg
Radionik
Cling Film, distri. Matéria Prima
8/10
Ultrapassado o obstáculo inicial que é conseguir (literalmente) destruir o invólucro de borracha que sela o CD, “Radionik” constitui um bom exemplo da vertente electrónica mais conotada com o industrialismo “kraut” de nomes como Asmus Tietchens ou Conrad Schnitzler. É também a revelação do lado mais conceptual e experimentalista de Felix Kubin, que nos habituámos a ver como genial “jongleur” da electrónica “nonsense” como é praticada para os lados da editora Stora. O som dos Klankrieg – Kubin e Tim Buhre – joga-se no campo oposto, dos sons escuros, dos circuitos (mal) integrados, dos testes de frequências e da maquinaria feroz. Não são já, sequer, as fábricas românticas onde trabalhavam os Cluster, mas armazéns abandonados, contaminados por lixos tóxicos, que os Klankrieg percorrem, armados com os seus instrumentos de análise e disseminação de ruído. A samplagem de uma fuga de gás no tema inicial, “Gas”, serve de introdução a este cenário pós-apocalíptico onde a desolação escorre através de um labiríntico sistema de oleodutos residuais.