Arquivo da Categoria: Críticas 2001

Biosphere – Substrata 2

14.12.2001
Biosphere
Substrata 2
2xCD Touch, distri. Matéria Prima

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“Substrata 2” junta a versão remasterizada de “Substrata”, editado originalmente em 1997, com a banda sonora completa de “Man With the Movie Camera”, filme mudo realizado em 1929 pelo russo Dziga Vertov. Mais dois temas incluídos na versão japonesa de “Substrata”. Depois da desilusão que constituiu a recente aparição ao vivo de Geir Jenssen no Porto, vale a pena regressar ao convívio com uma música que penetra e se dissemina no inconsciente como um vírus alienígena. Com a melhoria de som, o filme interior de “Substrata” adquiriu uma riqueza de detalhe de superior qualidade. Dos baixos vulcânicos aos agudos estelares, icebergs desfilam lentamente. Macroformas de gelo, nuvens e noite que em “Cirque”, álbum do ano passado, assentariam numa cultura de microrganismos vivos. “Man with the Movie Camera” move-se noutro lugar. Electrónica de louvor a divindades pagãs, como a dos SPK, When e Lustmord, samplagens de lagos, florestas e monstros, vozes sem rosto, liturgias de escuridão, numa fabulosa construção multidimensional que é também uma das obras maiores do compositor norueguês.

Mutantes – Tudo Foi Feito pelo Sol

14.12.2001
Mutantes
Tudo Foi Feito pelo Sol
Gala, distri. Som Livre
7/10

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É verdade que a produção dos anos 60 deste grupo brasileiro, marcada pelo psicadelismo e pelo visionarismo psicotrópico, é mais estimulante do que esta versão setentista, já sem a voz da hippie Rita Lee e com o abandono aparente do consumo de drogas alucinogéneas que faziam com que “Mutantes” ou “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado” soassem ainda mais esquisitos. “Tudo Foi Feito Pelo Sol” (1975) resultou, afinal, de uma evolução semelhante sofrida pela maioria das bandas inglesas, na transição dos anos 60 para os 70, isto é, do Psicadelismo para o Rock Progressivo. As colagens sem lógica, os “cut-ups”, o “nonsense” e os efeitos de estúdios geniais das primeiras obras deram lugar a solos de guitarra e teclados, temas longos, riffs onde o bom gosto não esconde a manifestação de um certo exibicionismo, e vocalizações esganiçadas que lembram os Deep Purple. Ainda assim, “Tudo foi Feito pelo Sol” sobrevive à vulgaridade. O que quer dizer que no meio dos clichés sobressaem ainda música descomprometida e lampejos da antiga loucura.

Transchamps – Double Exposure

14.12.2001
Transchamps
Double Exposure
Thrill Jockey, distri. Ananana
7/10

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À força de insistirem na recuperação de géneros gastos e cronologicamente desfasados da actualidade, como o hard rock ou a pop electrónica dos anos 80, os Trans AM foram criando anticorpos naqueles que quiseram vê-los como arautos do pós-rock na sua vertente electrónica. Acontece que a admiração confessada por bandas como os AC/DC ou Van Halen estava longe de ser uma “boutade” e que por detrás dos sintetizadores estão três jovens agitados pela energia do punk e do rock. Em “Double Exposure”, mini-álbum de parceria com os energéticos Fucking Champs, assiste-se ao prolongamento desta atitude, mesmo se não vá faltar quem diga que eles foram longe demais ao entrarem no território proibido do rock progressivo, em “Then comes Saturday Night”, as guitarras a emularem Steve Howe, dos… Yes! “Give it to you”, por outro lado, roça, é verdade que de forma irresistível, o rock FM, o que dá que pensar e tanto pode sugerir o definitivo compromisso dos Trans AM com o mainstream como o aprofundamento da ironia. Seja como for, “Double Exposure” tem guardado um pequeno segredo de violino, guitarra acústica, mellotron e vibrafone – “First comes Sunday morning”, hino da alegria para aquecer este Inverno.