Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Simple Minds – “Verona”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock>> LP’s


OS GRANDES CONQUISTADORES

SIMPLE MINDS
Verona
Virgin Vision, distri. Edisom



Concerto ao vivo dos Minds, realizado em setembro deste ano no anfiteatro romano da cidade. Os cinco primeiros minutos prometem: a preto e branco e em câmara lenta, prenunciando qualquer coisa de grandioso e espetacular. Público ansioso, cartazes alusivos à banda, um “boxer” a correr (aparecem muitas imagens de seres vivos a correr, ao longo do filme), uma rapariga de moto, soldados. Não se percebe a intenção mas esteticamente resulta. Câmara subjetiva como se fôssemos nós a entrar no palco. “Good Night, Verona” – grita Jim Kerr. Surge a cor.
Trovoada tremenda sobre o palco, simulada, claro. Cai o pano, pintado com o símbolo de “Sparkle in the Rain”. “Close-ups” dos músicos (Jim Kerr – voz, Charlie Burchill – guitarra, Mick MacNeil – teclas e acordeão, Mel Gaynor – bateria, Malcolm Foster – baixo, mais Andy Duncan e duas meninas, Lisa Germano – violino e bandolim e Annie McCaig – pandeireta). Dá-se início à função, com Jim Kerr sempre no comando. Pelo meio aparece, a preto e branco, a cantar a mesma canção, mas noutro concerto. Percebe-se, porque está vestido de outra maneira.
A música alterna com entrevistas aos intérpretes (a preto e branco). Não dizem nada de especial. São melhores a tocar e a cantar (a cores). Depois, os símbolos: mãos que acenam, imagens desfocadas não se percebe bem de quê. O guitarrista, com os projetores incidindo por detrás, naquele plano típico que faz parecer deuses os homens da guitarra. “Zoom” sobre o público. Uma garrafa de coca-cola passa de mão em mão no momento imperialista da noite. Um dos espectadores é transportado para fora do recinto, de maca. Bebedeira? Síncope? Simples sonolência?
Verona. Imagens da cidade: estátuas, ruínas romanas (em Itália todas as ruínas são romanas), uma velhota à janela. Uma ponte (romana), sem estar em ruínas porque se não as pessoas cairiam.
O baterista limpa com um pano o suor da testa – pormenor videográfico sempre do agrado dos realizadores. Jim Kerr brande o microfone, qual Roberto Leal, mas quando começa a cantar “Waterfront” vemos logo que não pode ser o luso-brasileiro. Num gesto de grande generosidade artística, estende o micro à assistência que corresponde soltando alguns urros afinados.
Agora é uma mulher de meia idade que se debruça à janela. Muito gostam as veronesas de estar à janela. Uma criança circula de bicicleta entre a multidão, simbolizando a grande solidão existencial do ser humano, ou talvez a sua grande pureza –, imagem do poder que oprime e bate com o “casse-tête” (em português cacete).
“Don’t you Forget about me” – das melhores canções dos Simple Minds. No rosto de Jim Kerr, uma expressão de êxtase. Desta vez o público não urra e canta numa sétima ao lado. Entusiasmado, o cantor dá um pontapé para trás, quase lhe saltando o sapato, na violência do movimento. Caso saltasse, teria acertado em cheio na objetiva do “cameraman”.
Ruas de Verona. Um dos momentos mágicos do vídeo: Mick MacNeil, no acordeão, Lisa Germano, no violino e Charlie Burchill, na guitarra acústica, lembram-se que são escoceses e mergulham nas suas raízes folclóricas, deliciando-se e deliciando os transeuntes. No momento seguinte, os mesmos três músicos surgem sobre o palco a interpretar o mesmo tema, com os mesmos instrumentos. Excelente.
Volta a eletricidade e Jim Kerr a cantar estendido no chão, talvez devido ao cansaço, quem sabe? Mas não, levanta-se com ar de desafio e prossegue com a mesma energia. Mel Gaynor volta a limpar o suor do rosto, desta vez com uma toalha. Quer dizer que a banda dá tudo o que pode e que não brinca em serviço, que são todos uns profissionalões. Ao ponto de Jim Kerr saltar para o meio do público e beijar uma jovem fã.
Retorno às imagens de rua, com o vocalista passeando-se entre a multidão, ar distraído e melancólico, simbolizando deste modo a grande solidão existencial do artista. Lixo levado pelo vento – Woodstock para sempre. Soa um “tin whistle” sintético – Jim olha o céu e canta, como quem seus males espanta. Duas crianças correm em câmara lenta no campo. Outra toca um tambor militar entre poética neblina. As duas primeiras continuam a correr. Pressentimos que se aproxima o clímax final. Sobre o palco, Jim Kerr, todo vestido de branco, canta “Sanctify Yourself”. Imagens de santos em pedra. Um padre caminha (sobre as águas? Não se consegue perceber).
Repetem-se imagens anteriores a um ritmo vertiginoso, querendo significar que o Universo é cíclico e os Simple Minds os senhores do Universo. O Universo explode e o público também, em aplausos. O império romano volta a cair, desta vez às mãos de mentes simples. ***

Relativity – “Gathering Pace”

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 26 OUTUBRO 1990 >> Fim De Semana >> outras músicas


RELATIVITY
GATHERING PACE
LP E CD, GREEN LINNET, 47’ 33’’
DISTRIBUIÇÃO: VGM



No final dos anos 70 os Bothy Band, ao lado dos Planxty, lideravam a segunda grande explosão do revivalismo folk britânico. A Irlanda voltava a invadir o mundo. Eram os violinos e gaitas-de-foles a fazer valer os seus direitos. A Europa, de novo, se deixava enlevar e encantar pela música de um dos seus berços mais queridos. Magia druídica escondida no coração da cidade.
Mais de uma década depois, os Relativity ressuscitam o espírito de cruzada, partindo à conquista do século. Os quatro guerreiros são os dois ex-Bothy Band, Mícheál Ó Dohmnaill (guitarra e voz) e Tríona Ní Dhomhnaill (voz, clavinete e sintetizadores) mais os irmãos Cunningham, Phil (acordeão, “tin whistle”, sintetizadores e voz) e John (violino e voz), membros regulares do Silly Wizard, outro dos expoentes da folk atual. Três fabulosos instrumentistas e uma daz vozes femininas mais originais e marcantes da grande família celta, juntos num disco que sabe aliar a tradição a sonoridades mais contemporâneas – os gnomos, duendes e fadas do século XX divertem-se a brincar com a eletricidade. Em “Rosc Catha na Mumhan”, a guitarra elétrica de Mícheál Ó Dohmnaill solta chispas, mas a voz de Tríona repõe as coisas no seu lugar, num universo diferente, paralelo e mais profundo do que o dos grandes incêndios e agressões da cidade. Quem consegue permanecer quieto, sem desatar a dançar, ao som dos “medleys” dirigidos pelo violino e acordeão dos manos Cunningham? Confundem-se os mundos – tudo é relativo, como afirmava Einstein – a locomotiva da capa vem do Passado, a luz do seu farol ilumina o Futuro e ilumina-nos com o fogo do Espírito.
Os títulos evocam um tempo em que a dança unia os corpos, libertos de fantasmas, à terra, e a cabeça ao céu – ritual em que Apolo e Dyonisius davam as mãos e em que a terra, homens e Deus formavam uma só entidade, unida na comunhão dos sons e no prazer do movimento, celebrando as memórias ancestrais: “Highland Laddies”, “Blackwell Court”, “The Monday Morning Reel” – nomes, lugares e tempos concretos, assinalando o ponto onde a Eternidade toca e solta os pés e o coração da humanidade. Canções dedicadas a amigos ausentes na peregrinação das longas estradas (“Miss Tara MacAdam”), canções comemorando casamentos sobre a relva (“Highland Laddies”), canções de viagem (“First Train to Kyle”), escritas de madrugada, a caminho de terras de nomes tão belos como Lochalsh, na “viagem de duas horas, em comboio, mais maravilhosa do mundo”.
Tríona canta em gaélico, língua antiga que sela o pacto entre as gerações, como em “Rosc Catha”, escrita no séc. XVII pelo poeta Piaras MacGearailt. Se, por um lado, se perde o significado das palavras (apesar das traduções inglesas incluídas no folheto interior), por outro, o seu som encantatório é suficiente para nos fazer compreender que o Tempo, como quase tudo neste mundo, é ilusório e que só a música (sem corpo para morrer) permanece, depois da matéria às cinzas regressar. São baladas imemoriais povoadas por todas as memórias que importam, histórias simples contadas pelos velhos aos mais novos, levadas pelo vento e pelo carrocel das estações, repetindo aquilo que não muda mas que persistimos em esquecer.
“Siún Ní Dhuibir” casa as vozes, masculina e feminina, dos dois Dhomnaill, balilando etéreas entre as aves e as nuvens criadas pelo “tin whistle” de Phil Cunningham. Transporta-nos a brisa até à Irlanda imaginada – verde, sempre húmida, construída em lendas e castelos. Depois e sempre de novo a dança: “Reels” à desfilada, súbitas mudanças de ritmo, constantes permutas instrumentais, a pura alegria de tocar como se fosse a única coisa verdadeiramente importante que ao homem cabe cumprir. E no fim, como no princípio, a cadência e as sofridas palavras do amor: “os meus olhos não se fecharam, não consegui dormir/enquanto esperava que o meu amor chegasse, desde a noite anterior/Seria capaz de arrastar-me de joelhos pelo mundo fora até te encontrar/já não faltará muito, se me abandonares, e até que o meu corpo seja enterrado na terra”. Neste caso, deveria ser sempre assim. Nem tudo é relativo.

Lilac Time – “& Love For All”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


LILAC TIME
& Love for all
LP e CD, Fontana, distri. Polygram



Stephen Duffy afirma ter composto neste álbum as suas melhores canções. Todos dizem o mesmo quando sai o disco. Stephen Duffy, um rapaz cheio de virtudes e bons sentimentos, faz da música missão evangélica. A mensagem não é original e resume-se mais ou menos no título de uma das canções: “All for Love and Love for all”, ou “all you need is love”, como cantavam os Beatles há uns anitos, enquanto as bombas iam caindo e a indústria esfregava as mãos. Mas os Beatles não eram Stephen Duffy e a ele decerto que todos vão dar ouvidos. Desde a capa às letras e melodias, é tudo sorrisos e tons de cor-de-rosa, flores, barcos ao luar, uma Nossa Senhora e muitos coraçõezinhos vermelhuscos. Podia ser pior. Antes isso que as caveiras e imprecações dos “metálicos”. Michael Weston, Rurik Giri, um tal de Fraser e o já citado Duffy são uns anjinhos amorosos, muito doces, olhinhos no céu, pedindo para sermos honestos com Deus e cantando salmos vagamente psicadélicos, em tintas “sixties” e com o assentimento de Andy Partridge, que lhes produz o álbum e ainda toca um nico de guitarra. Nota-se: “Fields” e “I Went to the Dance” são versões “soft” dos XTC. Os Beatles (de McCartney) e os Prefab Sprout (parece praga) espreitam em temas como “All for Love and Love for all” (com a harmónica a decalcar uma linha melódica dos “Fabulous Four”) e “The Laundry”. Noutro tema pendem para o lado dos Simon & Garfunkel e Magna Carta (“And on we go”). “& Love for all” desliza sem sobressaltos, canção após canção. Não surpreende, mas também não cansa. É essa a sua maior virtude: conseguir criar um estado de espírito tranquilo e sonhador, fazer-nos crer que a vida é mesmo assim: bonita, agradável e luminosa. Suspiro. **