Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Afonsinhos do Condado – “Os Afonsinhos do Condado”

QUARTA-FEIRA, 14 MARÇO 1990 VIDEODISCOS
Pop


AFONSINHOS DO CONDADO
Os Afonsinhos do Condado
Polygram
MLP coletânea



A pop é diversão. Os Afonsinhos são danados para a brincadeira, descaradamente “kitsch” e à beira do piroso, traçando, de disco para disco, uma tipologia da Lisboa foleira: a declarada (Amoreiras, Parque Meyer) e a mascarada de “artista” – Bairro Alto.
Todos os géneros (rap, ska, salsa, samba…) lhes servem para desmontar os esquemas do provincianismo saloio. O sr. Lopes, o dr. Faria e Mr. Galvão são parolos apenas nos nomes, nas cores dos fatos e nos óculos escuros. São as torres das Amoreiras da música nacional. Oportunistas e oportunos, falam de Gorbatchov, o “carequinha” em ritmo de samba e com pronúncia abrasileirada, ou do Bairro Alto, deitando abaixo tudo e todos com Madalena Iglésias pelo meio. Ouçam o disco. Sejam inteligentes e foleiros. Este é o verdadeiro, o único, o inolvidável rock português que até vai ao festival da canção. E porque não?

Everything But The Girl – “Driving”

QUARTA-FEIRA, 7 MARÇO 1990 VIDEODISCOS
Pop


EVERYTHING BUT THE GIRL
Driving
Blanco y Negro, import. WEA
LP e CD


Antes era o “Hip-Hop”, agora é o “Hit-Top” que faz dançar milhões. Depois das multidões, dançam os cifrões. Tudo neste disco foi feito a pensar nas listas que fazem engordar as contas bancárias. Composições, arranjos, escolha de músicos, aspecto gráfico, nada é deixado ao acaso suscetível de espremer o limão de ouro até à última gota. As massas vão adorar, claro, e as pistas de dança necessitam de engatar periodicamente novas mudanças.
Com “Driving” os Everything But The Girl conduzem em segurança, suavemente, ritmadamente e sem exageros. A viagem é óbvia, o destino também. Mas não atropelam ninguém pelo caminho e as vistas até nem são de todo desagradáveis. Talvez adormeçamos a meio pois as paisagens não variam muito, mas até isso pode saber bem.
A voz de Tracey Thorn faz o resto que afinal é quase tudo. Os arranjos ficam-se pelo mel das “cordas” sintetizadas, o piano ao fundo da sala e os já habituais saxofones imortalizados por “Baker Street”, há já uns aninhos. Inócuos, bonitos e repetindo invariavelmente o mesmo solo delicodoce.
Para dourar ainda mais a pílula, convidaram-se Joe Sample, Stan Getz e Michael Brecker, conceituados músicos de “Jazz”. O trabalho foi fácil e mais uns dólares em caixa nunca fizeram mal a ninguém.
“Driving” encantará alguns milhões de auditores e afastará irremediavelmente aqueles que recordam com saudade os bons velhos tempos dos Marine Girls ou os álbuns iniciais da atual banda de Tracey Thorn e Ben Watt. Terá valido a pena? Tudo vale a pena se a “fatia” não for pequena…

Squeeze – “A Round And A Bout”

PÚBLICO >> VIDEODISCOS >> QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990
Pop


SQUEEZE
A Round And A Bout
LP/MC e CD, EMI – Valentim de Carvalho



A dupla Difford/Tilbrook é responsável por alguns dos melhores momentos da pop descomprometida. Neste disco, gravado ao vivo no Newcastle City Hall e no Hammersmith Odeon, repesca velhos temas de anteriores álbuns e “Hit” “singles” como “Is That Love”, “Up The Junction” ou “Tempted”, com resultados que ficam um pouco aquém das versões de estúdio. Não são mais um solo de guitarra elétrica ou o irritante ruído de gritos histéricos e palmas que substituem com vantagem as subtilezas e o fino humor patenteado em inúmeros trabalhos realizados no interior forrado a botõezinhos das casas de gravação. Claro que para os incondicionais da banda (atenção: as versões em CD e cassete contêm temas extra), isto é conversa fiada, as canções estão lá, que é o que interessa; se mais ou menos reconhecíveis, melhor ou pior tocadas, são questões pouco pertinentes que só podem interessar a esses chatos dos críticos. Enfim, descontando as tais constantes e abomináveis intervenções dos assistentes (que chegam ao desplante de cantar em coro com os músicos!…), o disco não incomoda sobremaneira e, por vezes, consegue até ser divertido.