Arquivo da Categoria: Country

Paul Brady – “Trick Or Treat”

Pop Rock

22 MAIO 1991
LP’S

PAUL BRADY
Trick or Treat

LP e CD, Fontana, distri. Polygram

pb

Há quem o considere “o segredo melhor guardado do rock”. Bob Dylan e Tina Turner, por exemplo, não lhe regateiam elogios. Paul Brady tem um passado de respeito. Bastaria o facto de ter passado pelos Planxty, expoentes da Folk irlandesa, para fazer arrebitar o ouvido. Infelizmente, toda a sua recente discografia a solo é mais de molde a conferir-lhe o epíteto de “barrete”. Não há ponta por onde pegar em “Trick or Treat”. Do passado irlandês, nem vê-lo. Se não soubéssemos, não acreditávamos. Musicalmente é a mediocridade completa, o que geralmente não impede, antes pelo contrário, a entrada nos Tops. Este tem todos os ingredientes para o conseguir: melodias melosas e versos que oscilam entre o metafísico (“I can just be who I am”), o ecológico (“We all want a world with a perfect constitution”) ou o patético “Baby, when this cruel world is tearing you apart/let me bem your shelter”, em português “vem cá filha que eu já te aqueço”. “Trick or treat”? Trick. (consultar o dicionário). *

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Johnny Cash – “The Mistery Of Life”

Pop Rock

17 ABRIL 1991

Johnny Cash
The Mystery of Life

LP/MC e CD, Mercury, distri. Polygram

cash

Ao fim de 36 anos de carreira ininterrupta, Johnny Cash, rei da “country music”, mantém intactas uma frescura e uma originalidade de escrita surpreendentes. Produzido por Jack Clemente, o mesmo dos discos gravados para a editora “Sun” (onde durante anos pontificou um outro rei – Elvis Presley) da década de 50, “The Mystery of Live” confirma o seu autor como um dos pilares a música tradicional americana. Desde o balanço contagiante da “cowboy song” de abertura, “The Greatest Cowboy of Them all”, a baladas como “I’ll Go somewhere and Sing my Songs again” (co-composta por Tom T. Hall), o original de Dylan “Wanted Man” ou a nova versão de uma das suas primeiras canções, “Hey Porter”, Johnny Cash continua a cantar, com o empenho e a mestria de sempre, as histórias e História do outro lado da América. “Goin’ my Book” demonstra até que ponto Stan Ridgway, o moderno “cowboy” americano, aprendeu com as lições do mestre. Indispensável para os amantes do género. ****

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Joni Mitchell – “Night Ride Home”

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

REGRESSO A CASA

JONI MITCHELL
Night ride home

LP / MC / CD, Geffen, distri. BMG

Um caso de classe e distinção.
Não fora o lamentável equívoco de “Dog Eat Dog” (acesso tardio de comercialite aguda) e seria caso para se dizer que Joni Mitchell nunca erra. Com “Night Ride Home” não só não erra como acerta em cheio no alvo. Digamos que a cantora canadiana consegue aqui conciliar a extrema simplicidade dos arranjos com as típicas sinuosidades de um estilo vocal e composicional muito próprio, sem perder de vista uma acessibilidade que não envolve qualquer tipo de concessões.
Longe vão os tempos do jazz, de “Mingus” e “Don Juan’s Reckless Brother”, ou os labirintos estruturais de “The Hissing of Summer Lawns”. De regresso à serenidade e ao tom acústico da fase inicial, aquela que culmina em “For the Roses”, ou, já num período de transição, em “Court and Spark”. “Night Ride Home” flui com a facilidade das águas de um rio antigo, até ocupar o lugar exacto num universo pacientemente construído, a que se acede sem pressas nem escusadas violências. Joni Mitchell nunca foi, de resto, mulher de perder a cabeça. Mas, se, na aparência, se pode falar em termos de “regresso”, “Night Ride Home” representa, além de tudo o mais, a maturidade e a depuração de um estilo.
Se, por vezes, o seu modo de cantar pareceu “difícil” e a sua poesia demasiado obscura, agora a música revela-se com a limpidez e o brilho de um diamante perfeitamente lapidado. Entre o som dos grilos numa noite de Verão, de “Night Ride Home”, e o tom sombrio e despojado de “Two Grey Rooms”, Joni Mitchell vai aos poucos desvelando o seu universo pessoal, através da poesia e de uma voz que, como em “Passion Play”, nos toca como o veludo sobre a pele.
Momentos trágicos, pontuados pelas explosões surdas dos timbalões orquestrais, em “Slouching towards Bethlehem” (baseado no poema “The second coming”, de W. B. Yeats). Momentos mágicos, vividos na Itália de Botticelli e Fellini, trazidos pelos ventos quentes do oboé que a própria Joni toca. Brilho cintilante ainda nas percussões de Alex Acuna, ao longo de todo o disco, e no saxofone de Wayne Shorter, em “Cherokee Louise” e “Ray’s Dad Cadillac”. Depois do regresso, de novo a partida. ••••