Arquivo da Categoria: Country

Chris Rea – “Auberge”

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

CHRIS REA
Auberge

LP / MC / CD, East West, distri. Warner port.

Paisagens melancólicas à luz do pôr do sol. Lamentos e promessas amorosas. Baladas intercaladas de baladas. A Chris Rea, irlandês, dá-lhe para o sentimento. Depois do sucesso maciço com “Water Sign”, álbum de 1984, em que acumulava funções de multinstrumentalista e cantor e “The Road to Hell” (1989), Chris encolheu-se e voltou-se para o lado de dentro, num súbito desejo de introspecção. Uma vez suficientemente introspeccionado, olhou em volta, cheio de ansiedade, à procura do grande amor ou, vá lá, do amor. Ao todo são nove canções dedicadas ao imortal tema, fora os ameaços. A abertura amorosa (Salvo seja!) dá-se ao som da sua “pedal steel”, como se estivéssemos em “Paris, Texas” de Ry Cooder. No tema seguinte, dedica-se à pesca. Depois e até ao fim, é só amor, de fazer roer de inveja o próprio Julito Iglésias. Engraçado, algumas das canções não são destituídas de encanto, como os sombreados “bluesy” de “Set me Free” ou o piano que despedaça corações de “Sing a Song of love to me” fazem questão de demonstrar. Bem bonita, a capa. ••



Garth Brooks – “No Fences”

Pop Rock

13 MARÇO 1991
LP’S

COWBOY SEM FRONTEIRAS

GARTH BROOKS
No Fences

LP / MC / CD, Capitol, distri. Emi-VC

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“Vende 220 mil discos por semana, nos Estados Unidos” – deve ser bom, com certeza. “Já é dupla platina, por vendas superiores a dois milhões de exemplares” – deve ser muito bom! “Primeiro lugar durante um mês consecutivo no top de álbuns ‘country’ da ‘Billboard’” – superdisco! No ano passado, “venceu dois prémios da Associação de Música Country” – ultradisco!! “Nomeado para sete prémios da Academia de Música Country – hiper, hiper! Uau!!! –, entre os quais ‘artista do ano’ – ooohhh! –, ‘cantor do ano’ – não é possível! –, ‘single do ano’ – desmaios – e ‘álbum do ano’ – não há palavras!
Vergado ao peso de tanto ouro e honrarias, o crítico colocou o disco no prato, com a reverência que aos deuses é devida e o nervosismo inevitável de quem se reconhece mero humano, lama que Garth Brooks deve pisar com botins de espora de ouro, cravejados de diamantes. Enfim…
O disco não é mau. Mas olha-se para todos os lados e não se vê razões para embandeirar (tão) em arco. Na “Q”, por exemplo, dá-se-lhe cinco estrelas, com base na menção dos prémios intermináveis e no argumento (entre outros) de Garth Brooks possuir o “maior chapéu de ‘cowboy’ de Nashville”. Pela fotografia da capa, ninguém diria… Na “Vox” (classif. Oito em dez), a mesma coisa – os prémios, o sucesso, a voz agradável, blá blá blá. Garth Brooks ostenta um indisfarçável ar “clean”, bem barbeado, olhar puro e decidido, que lhe dá a imagem perfeita do “americano médio ideal, branco caucasiano, defensor das boas causas e dos não menos bons lucros. A América, na altura do lançamento, em vésperas de partir para a guerra, viu-se retratada na música e nas virtudes de um “cowboy” (como Reagan, como Bush), de pistola e baladas em punho, preparado para salvar a “honra da nação”. Sabe-se como os americanos se perdem de amores por aquela que consideram ser, mais que o jazz – coisa de negros – a “sua” música. São assim os americanos, trocam de bom grado a “grande música negra”, nascida nas entranhas de New Orleans, por uma importação adaptada das ressacas alcoólicas de irlandeses amigos de dançar e trabalhar.
“No Fences” agrada e funciona na medida em que sabe vestir os valores mais conservadores do género, com uma produção perfeita, que faz da clareza e rigor extremos a sua maior arma. Tudo é nítido e evidente, desde a limpidez das baladas (“If Tomorrow never Comes”, “The Dance”, “Friends in Low Places”) ao rigor rítmico e ao balanço dos temas mais acelerados. Os instrumentistas sabem o que fazem e fazem-no bem. Rob Hajacos corta a golpes de violino a respiração e os corações em “The Dance”. As guitarras fulgem em “Wild Horses”. Canções que correm como as águas de um rio imune às tempestades. Garth Brooks transporta consigo os sonhos de uma nação inteira, montada a cavalo na ilusão de que o futuro fica na direcção do pôr do Sol. Como Lucky Luke, Garth Brooks não pode falhar – “poor lonesome cowboy”.
Para sempre. ***



Tanita Tikaram – “Everybody’s Angel”

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
LP’S

MENINA BONITA

TANITA TIKARAM
Everybody’s Angel

LP e CD, EastWest, distri. Warner port.

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Porque será que a luz de Suzanne Vega ofusca tanto? Ouvem-se as outras senhoras, habitantes do mesmo território, as suas vozes, as canções, as histórias que contam e logo a imagem da nova-iorquina se impõe, omnipresente, implacável, incontornável. Porque será? E, no entanto, o estilo e personalidade da autora de “Days of Open Hand” são de tal maneira próprios dela que, à partida, chegariam para fazer esmorecer a mais pequena tentativa de concorrência. Mas, de facto e paradoxalmente, parecem ter feito escola entre as novas gerações de cantoras femininas.
Por exemplo, vejamos o que se passa com esta rapariga (que, como Vega, optou pelo corte capilar mais ou menos arrapazado) de nome exótico e que conta já com três álbuns no activo. A sua música tem pouco a ver com a da outra senhora. A voz muito menos. Os textos contam outras histórias, outras maneiras de ver o mundo. Mas lá está, faixa sim, faixa não, damos por nós a compará-la com a sempiterna Suzanne. Que segredo se esconderá então por detrás dos modos gentis e das entoações sinuosas desta voz que, tal qual um farol, ilumina a atrai a si todas as outras, para finalmente as destruir na violência de uma personalidade dominadora? Suzanne Vega exemplifica a emancipação do “singer/songwriter” em versão feminina, liberta da imagem sexuada, assente no primado da saia curta e olhar maroto. Suzanne personifica a coerência de uma visão pessoal e vigorosa do mundo, no seu caso da América, filtrada pelo olhar único que é o da mulher. E depois, não há nada a fazer, possui o dom fundamental nestas coisas da música: a arte de compor boas canções.
Regressando à nossa Tanita, verifica-se que entre ambas há certas semelhanças, menos ao nível dos processos musicais propriamente ditos e mais ao nível da atitude: tal como na obra de Suzanne Vega, cada canção da nossa jovem conta uma história que (ao contrário daquela) se acompanha enquanto é cantada, mas que de imediato se esquece, mal termina. Não colam. Não impressionam. Apenas fazem cócegas. Existe uma artificialidade latente na maneira como cada tema se desenrola. Cheira a laboratório, desde a produção (como sempre a cargo de Rod Argent, um veterano com a escola toda, auxiliado por Peter Van Hooke) até aos próprios maneirismos vocais soando a “trabalho de casa”, passando inclusive pela própria pose corporal. Acerca da voz de Tanita Tikaram disse a “Q-Magazine” que “era incapaz de soar mal”. É precisamente disso que se trata, do predomínio da forma exterior, do bonito e do agradável, sobre a beleza verdadeira, nua e por vezes bruta, que às vezes até pode não “soar bem”. Tanita é dona de uma voz atraente. Serve-se dela para cantar canções doces, nunca agressivas, que às vezes tocam ao de leve no firmamento estético da tal Suzanne, como é nitidamente o caso de “Hot Pork Sandwiches”.
Para além disso, neste disco, Tanita Tikaram parece querer abandonar de vez certas tonalidades pretensamente celtas, de resto mais sugeridas que reais, presentes no álbum de estreia, “Ancient Heart”, trocadas por uma desejada (e ainda incipiente) negritude a que tentar dar voz em temas como “Mud in any Water” ou “Me in Mind”, neste último o naipe de metais e os coros recordando a “soul” bem swingada dos velhinhos Foundations.
Para trás ficou a participação no já citado álbum do irlandês Davey Spillane, para dar lugar aos sopros (e ao violino de Helen O’Hara) da “The Section” (na qual figura o ilustre trompetista da ECM, Mark Isham), que aqui pintam com cores quentes as frágeis e delicadas canções da menina Tikaram.
De “Ancient Heart” até este “Everybody’s Angel”, passando por “The Sweet Keeper”, manteve-se o essencial: a fidelidade a um estilo introspectivo que, paradoxalmente, recorre a formas musicais tão extrovertidas como são normalmente as da “country music” (embora Tanita seja inglesa…), traduzido em baladas que acariciam o ouvido, mas, por enquanto, incapazes de elevar a intérprete ao nível superior hierárquico das grandes autoras-compositoras da actualidade. Não que ela pareça importar-se muito, mas, para ouvidos capazes de escutar mais fundo, pode tornar-se incómoda a sombra insistente da tal americana que toca guitarra e conta/canta histórias que, de tão vividas e sentidas, chegam a arrepiar. A diferença existente entre uma “pretty baby” e a “velha” senhora. **

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