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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #54 – “Barry 7’s Connectors (FM)”

#54 – “Barry 7’s Connectors (FM)”

Fernando Magalhães
17.12.2001 150341

Barry 7’s Connectors
Barry 7, dos Add N to (x), acabou de editar um CD muito curioso, “Barry 7’s Connectors”: uma selecção, da sua responsabilidade, de 21 temas raros extraídos de arquivos de várias proveniências (três, não me recordo agora quais), dos anos 60 e 70. “Incidental music”, portanto, montada numa sequência interessantíssima que mistura easy listening futurista (Moogs e theremins a dar com um pau…), lounge atípico, música de filmes, pastisches de krautrock e mesmo algum experimentalismo electrónico (Raymond Scott a espreitar no horizonte…).

O disco faz parte da mesma série que recentemente teve em LUKE VIBERT idênticas funções, de seleccionador de material de arquivo.

Ou muito me engano, ou trata-se de um disco que fará as delícias do Flash Gigantone.

FM

Vários – “Smiles, Vibes & Harmony – A Tribute To Brian Wilson”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 JULHO 1990 >> Videodiscos >> Pop

SURFISTAS DE IMPROVISO


VÁRIOS
SMILES, VIBES & HARMONY – A TRIBUTE TO BRIAN WILSON
LP, DEMILO, IMPORT. CONTRAVERSO




Hoje, os rapazes da praia são uma instituição “yankee”, espécie de “museu vivo” que faz as delícias dos turistas. A sua noção de “fun” limita-se, agora, ao “toma lá canção, dá cá a nota”. O mito, porém, persiste. Brian Wilson não é um “velho da praia”. A sua figura mantém-se, de certo modo, incólume, em termos de produção discográfica, nunca descendo a níveis excessivamente comprometedores. Continua a merecer respeito e admiração.
Os mais novos não param de descobri-lo. Em “Smiles, Vibes & Harmony” é-lhe prestada homenagem. Cada qual safa-se, o melhor que pode e sabe, na tarefa. A maioria safa-se mesmo a contento. São quase todos nomes desconhecidos, exceção feita aos Sonic Youth, Nikki Sudden e, vá lá, os Das Damen. O resto é esquisito e com designações a atirar para o estranho – Handsome Dick Manitoba, Peter Stampfel & The Bottle Caps, Dos Dragsters (Sea Foam Green) e por aí fora. Curiosamente, na prática, todos eles assumem uma atitude nada transgressora, em certos casos agindo mesmo como réplicas da banda original.
Os tais Manitoba reduzem os Boys ao rock vulgaríssimo: guitarras a tocar e toca a andar. Em “Dance, Dance, Dance” comete-se o crime de lesa pop. “This car of mine” é uma das boas imitações – os World Famous Blue Jays desunhando-se para cantarem afinadinhos e a várias vozes como os mestres. Os Das Damen despacham “Johnny Carson” a 16 r.p.m., ou seja, não são despachados mas sabem como partir uma boa canção aos pedaços e montá-la com as partes trocadas. Os The Records parecem os Táxi “bubblegum” borbulhoso. “Darlin’” a saber a sabonete. Peter Stampfel imita, razoavelmente, Feargal Sharkey, dos Undertones, em “Gonna Hustle You”. Os Untamed Youth transformam “Chug-a-lug” em country punk e os Mooseheart Faith refletem as sonoridades sombrias e psicadélicas de “Wind Chimes” numa das melhores prestações de todo o disco. Os Dos Dragsters prosseguem na mesma veia mas em ritmo de rumba enfeitado com um solo de sax etilizado, no genial “Pet Sounds”.
O segundo lado abre com as habituais distorções terroristas dos Sonic Youth, apostados em despedaçar “I Know There’s an Answer”. “Rockabilly” e entoações maneiristas da escola Bryan Ferry compõem o estilo dos A-Bones, em “Drive-In”. Segue-se uma série de prestações “garage sound” cujos protagonistas são Billy Childish and Three Headcoasts, The Cynics e The Original Sins, respetivamente, em “409”, “Be True to Your School” e “Help Me Rhonda” (este último outro dos grandes clássicos dos Beach Boys).
“I Wanna Pick You Up” desenrola-se na forma de balada excêntrica um pouco à maneira de Peter Blegvad, pela mão dos Sharky’s Machine. Anos 60 e “Mersey beat” são a aposta dos Vacant Lot para “Meet Me in My Dreams Tonight”.
Finalmente, Nikki Sudden e os Mermaids fecham com “Wonderful/Whistle in”, cruzando as tonalidades beachianas com uma atmosfera húmida e sombria que sugere, vagamente, os primeiros Pink Floyd. Pelo meio, Nikki enlouquece, permitindo que um saxofone reptiliano e vocalizações “gospel” transformem o tema em feira de fenómenos.
Ao todo, são dezasseis bandas, juntas na homenagem, frequentemente inspiradas, a um dos maiores e menosprezados génios da música popular contemporânea. “Smiles, Vibes & Harmony” diverte, intriga, às vezes provoca e dá vontade de ir, a correr, comprar todos os discos dos Beach Boys. Só por isso vale a pena.

Vários – “RooArt Presents”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


VÁRIOS
RooArt Presents
Mini LP, RooArt, import. Polygram


Da Austrália pode esperar-se o melhor e o pior. Os SPK e os Severed Heads são do melhor que o país dos cangurus tem exportado para o Ocidente, em termos de música mais ou menos popular. Do contingente dos “experimentais” nada pois a dizer senão bem e que venham mais. Do campo mais exposto da pop e do rock também não há razão para grandes queixas: Go-Betweens ou Midnight Oil são apenas dois bons exemplos da aceitação e da qualidade que as bandas deste continente, quase sempre, fazem questão de manifestar. A RooArt é uma pequena editora dirigida por Chris Murphy, Sebastian Chase e Justin Van Stom, vocacionada para o lançamento e promoção de novos nomes australianos, procurando deste modo preencher o vazio existente entre os consagrados e os debutantes ávidos de se fazerem ouvir, fora do seu território natal. O problema, tendo em conta a atual mostra, é que nem sempre o produto final se revela à altura das intenções. Neste caso, das seis bandas em exposição, apenas The Hummingbirds e os Crash Politics têm algo de minimamente interessante e original para dizer. Os primeiros praticam a pop descaradamente passadista, de recuperação “sixties”. Afirmam-se inseridos na tradição dos Stones e Velvets mas, acima de tudo, têm o sentido nato de como compor uma boa melodia, o que, no seu campo, é afinal o mais importante. Os segundos apresentam uma curiosa variação do som “new wave” americano dos primórdios, (Cars, Feelies), convicta e convincente. Das restantes bandas, uma referência ainda para os Martha’s Vineyard e para a sua vocalista Peggy Van Zaim que, embora lembre em demasia Chrissie Hynde, fez o possível para chegar aos calcanhares dos seus heróis, Jefferson Airplane e Richard and Linda Thompson. Quanto aos outros, façam o favor de esperar.