Arquivo da Categoria: Avant-Rock

René Lussier – “Fin du Travail (Version 1)”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997
reedições

René Lussier
Fin du Travail (Version 1)
AMBIANCES MAGNÉTIQUES, DISTRI. AUDEO


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René Lussier é um guitarrista canadiano da estirpe de Fred Frith que alia uma descomunal mestria técnica a um não menos descomunal sentido de humor. Fez parte dos Conventum e ajudou a criar o país musical da Recommended, hoje tornado um nicho com uma filosofia e estética próprias, imediatamente reconhecíveis no panorama da música contemporânea. “Fin du Travail (Version 1)”, reúne composições gravadas entre 1979 e 1982 para encomendas e espectáculos vários, de parceria com o saxofonista Jean Derome.
Surrealista (ou dada?), desestruturalista, anarquista e iconoclasta, René Lussier glosa a pop, o jazz, a música de variedades, o teatro musical e a improvisação com o descaramento de quem, em simultâneo, as domina e as observa, armado de ironia, à distância. “Fin du Travail” passeia-se com um desprendimento apaixonado pelos próprios domínios do paradoxo, pendurando luzes coloridas e “slogans” anacrónicos nas ruínas de Lego amontoadas pelos Henry Cow. Ao contrário do que diz o título, um trabalho interminável. (9)



Cassiber – “Beauty and the Beast”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997
reedições

Cassiber
Beauty and the Beast
RECOMMENDED, DISTRI. ANANANA


cass

É a primeira reedição em compacto do original de 1984, à qual foi acrescentado “Time running out”, anteriormente apenas disponível em “single” com edição limitada. Hermético, como todos os discos deste quarteto formado por Christopher Anders, Chris Cutler, Heiner Goebbels e Alfred Harth, “Beauty and the Beast” consegue ser, apesar de tudo, mais imediatamente apreensível do que os posteriores e radicais “Perfect Worlds” e “A Face we all Know”. Totalmente improvisada ao vivo no estúdio e dispensando ensaios prévios, as 14 “canções” de “Beauty and the Beast” jamais se deixam desagregar nas libertinagens proporcionadas pelo livre exercício de estilo, antes condensam toda a estética Recommended num híbrido de “jazz” de câmara, intervencionista nos mesmos moldes esotéricos dos Art Bears, que apelam e recorrem a estruturas profundamente enraizadas no inconsciente.
Chris Cutler, anarquista, ideólogo da Recommended e ex-percussionista dos Henry Cow, deixa, nos únicos três temas vocalizados/gritados por Anders, “Six rays”, “Vengeance is dancing” e “Under new management”, o selo do seu modo de encarar a revolução, em textos que, parecendo apenas tocar em meia dúzia de iniciados, agem a níveis mais profundos do que se optassem pelo simples panfletarismo. “Vingança é dançar num redemoinho de verde, um ‘flirt’ com o assassínio; a justiça é o seu tambor”, de “Vengeance is dancing”, cuja estrutura foi posteriormente desenvolvida em “Perfect worlds”, são palavras que poderão soar elípticas ao auditor ocasional mas é neste discurso sem concessões dos Cassiber que estão contidos os germes de terrorismo estético mais violentos dirigidos contra a sociedade ocidental capitalista. Como em “Eine minute”, um autêntico libelo de morte, na literalidade dos disparos de uma arma de fogo (seria interessante recuar até à obra anterior da dupla alemã Goebbels/Harth, para encontrar uma postura formal com o mesmo carácter formal de subversão), alternando com a discursividade “free” do saxofone. O tema final é paradigmático: uma versão enraivecida de “At last I am free”, dos Chic, em contraponto ao registo de desolação que Robert Wyatt empregara em “Nothing Can Stop us”. (9)



Dashiell Hedayat – “Obsolete”

Pop Rock

19 Fevereiro 1997
reedições

Dashiell Hedayat
Obsolete
MANTRA, DISTRI. MEGAMÚSICA


dh

Não é um disco obsoleto, mas um disco místico. Quando saiu, em 1971, na Shandar, com importação nacional, foi sofregamente adquirido pelos que, nessa época, andavam apanhados pelos Gong. Porque “Obsolete” é, de certa forma, um disco dos Gong. Daevid Allen, Didier Malherbe, Pip Pylem, Gilli Smyth e Christian Tritsh são os músicos participantes. Ou seja, a mesma formação de “Camembert Electrique”, que antecede a fabulosa trilogia “Radio Gnome Invisible”. Mas quem era, afinal, Dashiell Hedayat? Um poeta das relações dos seus homólogos da “beat generation” norte-americana, Ginsberg e Kerouac. E de William Burroughs, que aparece a meter a sua colherada vocal em “Obsolete”. Antes, Hedayat integra os Melmoth, com quem gravou “La Devanture des Ivresses”, cuja música pode ser apreciada num tema da colectânea “In the Land of Mantra” (ver POPROCK de 15 de Janeiro).
“Obsolete” é, como se depreende, um trabalho de desvairados. Preenchem-no dois temas longos. O primeiro, “Eh, mushroom, will you mush my room?” (o título é, por si só, um delírio), dividido em três partes, é uma “trip” psicadélica à maneira dos Gong, com declamações repetitivas de Hedayat, Gilli Smyth a espalhar gritos e gargalhadas com reverberação no infinito, guitarras ensopadas em ácido, o sax demencial de Malherbe e baladas de balouço na tradição dos Faust. O final tem Hedayat a ladrar e um epílogo imoral enunciado por William Burroughs.
“Cielo drive/17”, o outro tema, é uma viagem mais violenta pelo lado surreal do universo do ácido e dos bules voadores. Baixo obsessivo, rajadas cósmicas de sintetizador, uma voz de criança soprada da via-láctea e guitarras “from outer space” fazem de “Cielo drive/17” um clássico do “space rock”, entre “You shouldn’t do that” dos Hwkwind (de “In Search of Space”), “Continental Circus”, dos Gong, e as desbundas alucinadas do segundo lado do álbum de estreia dos Faust. Para ouvir com o volume no máximo.
Uma peça-chave da galáxia de “Canterbury”, com localização no seu quadrante mais longínquo. “Welcome to the planet!…”. Absolutamente obsoleto e indispensável. (9)