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The Divine Comedy – “Promenade”

pop rock >> quarta-feira >> 15.06.1994


The Divine Comedy
Promenade
Setanta, import. Contraverso



Neil Hannon tem aquele ar entre o seminarista e o perverso que caracteriza os verdadeiros “dandies” ingleses. Mas Neil Hannon, além do aspecto, é um notável escritor de canções – canções cheias de sentimento, humor, erudição e, algumas vezes, grandiloquência, a combinação perfeita a que é fácil chamar pretensiosa. Hanonn tem, de facto, pretensões de classicismo. Se, no álbum anterior, ele abrira já o livro das melodias perfeitas que permitia comparar os Divine Comedy a uma ressurreição, nos anos 90, dos Kinks, o novo “Promenade” vestiu-se ainda com maior rigor, carregando com mais força na sofisticação dos arranjos para cordas – como se Michael Nyman tivesse virado pop – e deslizando no escorrega de um piano tocado à hora do chá na biblioteca de uma velha mansão inglesa. Os Divine Comedy estão no cruzamento de um madrigal, uma sala de leitura, uma igreja, Roger Eno, Nyman, e a “mod generation” dos anos 60. A pose, bem entendido, é cultivada até ao limite, com o artista a deixar-se fotografar em sugestões de crucificação ou com a pirâmide do Louvre por fundo, arvorando uma expressão mista de altivez e distanciamento. O intelectual mas também o iconoclasta assoma em “The booklovers”, cuja letra se resume a um enunciado exaustivo de escritores, dos românticos aos contemporâneos, cada um acompanhado por um ruído, um cumprimento, uma exclamação ou uma onomatopeia, intercalado de um refrão irresistível. “Geronimo”, “Don’t look down”, “The summerhouse” ou “Neptunes daughter” insinuam-se da mesma maneira no ouvido, audição após audição. Mas é no último tema deste passeio pelo jardim que Neil Hanonn atinge o estado de graça, em “Tonight we fly”, pouco menos de três minutos de pura magia passados com Peter Pan, verdadeira lição de voo pela terra do Nunca. Desde a estreia dos Smiths que um álbum não reunia um naipe de canções deste quilate. (8)

Losadas e Chano Dominguez – “O Instinto Do ‘Matador'”

pop rock >> quarta-feira >> 15.06.1994


O Instinto Do “Matador”



Losadas e Chano Dominguez são por enquanto artistas de flamenco pouco conhecidos em Portugal. Situação que poderá ser alterada muito em breve, uma vez que se trata de duas propostas bastante originais nesta área, como de resto se poderá verificar no próximo concerto de ambos no nosso país ou nos álbuns “Chano”, de Chano Dominguez, e “Pa Llorar de Momento”, dos Losadas, ambos da editora Nuba, com próxima distribuição nacional pela Dargil.
Chano Dominguez, pianista natural de Cádis, integra o grupo de intérpretes de flamenco praticantes da fusão deste género musical com o jazz, na tradição de grandes nomes como Paco de Lucia, Carlos Benavent, Jorge Pardo, Pedro Iturralde e Toti Soler, entre outros.
Vencedor de vários prémios de interpretação em Espanha e no estrangeiro, Chano tocou com Philippe Catherine e fez parte do grupo CAI, uma mistura de rock com flamenco. Entre os subscritores da aliança jazz/flamenco estão Chick Corea, Miles Davis, com “Flamenco Sketches” e John Coltrane, com “Oie”. Qualquer deles soube retirar do flamenco elementos enriquecedores para a sua música.
É assim que as estruturas rítmicas e harmónicas do flamenco (“palos”) e em particular das “bulerias”, tangos, “alegrias” e “soleás”, se casam com o discurso improvisacional do jazz. Em “Chano” um “standard” como “Naima”, de Coltrane, transforma-se num tango, citações de Monk diluem-se nos meandros de uma “buleria”. McCoy Tyner e Bill Evans, outras duas referências no estilo do pianista, entontecem-se com as tablas e palmas que marcam os andamentos íntimos da Andaluzia. A ideia da capa do álbum de Chano Domínguez, que em breve estrá disponível em Portugal, é esclarecedora: Um touro mira de longe, preparando-se para investir sobre a silhueta de Manhattan.
Mais tradicionalistas nos sons e na atitude, os Losadas, apelido dos três irmãos guitarristas Vaky, Diego e Tito, membros de uma família cigana de Madrid, têm já uma larga reputação. Fizeram apresentações para a família real inglesa e participaram em espectáculos de flamenco como “La Misa Flamenca”, com a companhia de Paco Pena, apresentado no Carnegie Hall de Nova Iorque e em Londres, no Robert Albert Hall, “Cumbre Flamenca”, “Flamenco Fusion” e o Festival internacional de guitarra de Córdova. Tito, um dos elementos do clã Losadas, colaborou igualmente em espectáculos de flamenco, como a versão da ópera “Carmen” apresentada no Estádio Yoiogi, em Tóquio. No Japão, a obra desta família cigana é particularmente apreciada, ao ponto de ter levado à colaboração dos Losadas com Terumasa Hino, no espectáculo “On the road with Terumasa Hino”, apresentado em várias cidades nipónicas.
“Pa Llorar de Momento” é, sem sombra de dúvida, um disco recomendável a todos os apreciadores de um género que entre nós vem ganhando cada vez mais adeptos. Os “palos” preferidos dos Losadas são as “balerías”, o “taranto”, a rumba, a “granaina”, a “soleá” e o tango. Há quem encontre na sua música o cruzamento da tradição de Camarón de la Isla com a modernidade dos Ketama. Vale a pena escutá-los e apanhar esse momento único que é o “instinto gitano”.
17 de Junho, Teatro de S. Luiz, Lisboa, às 21h30

Miguel Teixeira (Em Público | Dossier)

pop rock >> quarta-feira >> 15.06.1994
EM PÚBLICO


MIGUEL TEIXEIRA *



Qual é o seu percurso anterior aos Toque de Caixa?
Comecei a tocar com 14, 15 anos, e a ouvir muita música sul-americana, toquei nalguns grupos que praticavam este tipo de música. Entretanto, comecei a interessar-me pela música tradicional portuguesa, com o Zeca Afonso e o Adriano – convém dizer que tenho 36 anos… Toquei também num grupo chamado Siga a Rusga, que durou dez anos e lançou dois discos. O Siga a Rusga acabou e fui convidado pelo Tentúgal para fazer parte da segunda formação dos Vai de Rodam e, quase ao mesmo tempo, para integrar a formação do actual Toque de Caixa.

De uma vez por todas, aceita a comparação que muita gente faz dos Toque de Caixa com os Vai de Roda?
Há uma confusão. O estigma de dois grupos serem idênticos em termos de arranjos. Mas as pessoas não se podem esquecer de que os Vai de Roda, para além do director musical comum com o Toque de Caixa que era o Tentúgal, tinha três músicos que agora estão no Toque de Caixa. Pessoas com formação musical e a tendência para pôr a sua maneira de tocar no grupo. No meu caso, a minha forma de tocar esteve presente no Vai de Roda e em particular no álbum “Terreiro das Bruxas” quando se começou a fazer arranjos baseados na música sul-americana.

Tanto quanto se sabe as relações actuais entre os dois grupos não são as melhores. Quer explicar as razões por que isso acontece?
A minha relação pessoal com o Tentúgal não é boa nem má, é de “bom dia, boa tarde, estás bom, pouco gosto em ver-te e poucas vezes”… Houve coisas que se passaram em relação ao Manuel Tentúgal e ao Vai de Roda, nomeadamente com alguns elementos do grupo que não foram muito correctos para com o actual Toque de Caixa. Por uma razão ou por outra, eles não tiveram um comportamento à altura, nem de músicos, nem de amigos que éramos.
O problema concreto surgiu porque ensaiávamos todos no mesmo sítio e, a determinada altura, começaram a surgir problemas de dinheiro, enfim, um problema de afirmação de um grupo perante o outro. O Manuel Tentúgal achou que os músicos deviam tocar ou num grupo ou noutro e que o local de ensaio deveria ser apenas de um deles. Houve uma opção do Bilão, que na altura era o dono do espaço onde ensaiávamos e puseram o Toque de Caixa lá para fora. Não aceitámos isso com muito bons olhos e daí as relações terem esfriado.

O vosso primeiro álbum, “Histórias do Som”, pode considerar-se bastante experimental, dentro do campo da chamada música de raiz tradicional. Como se processa a relação do grupo com a tradição?
Não é nada complicada. Como já disse, o meu percurso tem a ver com a música tradicional portuguesa e da América latina. No grupo, procuramos dar um determinado cariz à música tradicional, com um tipo de arranjos que estejam de acordo com a nossa forma de sentir actual. Não estamos muito preocupados em pegar em temas tradicionais e em trata-los de forma a que as pessoas achem ou não fiel. Embora neste campo tenhamos muita coisa recolhida, desde material escrito em pauta, recolhido de livros, coisas que vamos buscar aos alfarrabistas, muito antigas e que pouca gente conhece, até gravações que tanto podem ser feitas por nós em locais que visitamos como de gravações pré-existentes, caso dos discos do Giacometti.

No seu caso e na qualidade de principal compositor do grupo, como articula a sua escrita com o material tradicional?
Há sempre qualquer coisa naquilo que componho que é “tradicional”, na forma que tenho de ver a música. É uma coisa que está dentro do corpo. Para além disso, há outro tipo de músicas que vão entrando…

Como a dos Penguin Café Orchestra, por exemplo, uma das influências óbvias do Toque de Caixa?
É capaz de ser normal porque é um grupo que, se repararmos bem, tem também uma influência – nomeadamente com a introdução do “Cuatro” – dos ritmos e baixos sul-americanos. É um tipo de música onde eu pessoalmente me sinto à vontade, porque o facto de ter tocado e ouvido durante tantos anos música sul-americana me dá um grande à-vontade em termos de tempos e contratempos – esse tipo de coisas. Ainda agora acabei de oferecer, como presente de aniversário a um dos membros do grupo – o Horácio -, um disco da Linda Ronstadt, da fase em que ela cantava música sul-americana. Sempre que posso, aprendo com os sul-americanos, nomeadamente em termos de ritmo instrumental.

Concorda que a música dos Toque de Caixa privilegia um certo classicismo formal, em detrimento da espontaneidade que, por regra, se associa aos grupos ligados À música tradicional?
Penso que ainda há muito pouco à-vontade… este é o primeiro disco gravado pelo Toque de Caixa. Além disso, o conceito de estúdio põe às pessoas um problema que é o de ter de trabalhar o mais depressa possível, porque o estúdio é caro. Nos grupos de música tradicional, isto torna-se ainda mais evidente. Sentimos que em estúdio somos mais pressionados. Fora isso, os arranjos que fazemos são igualmente para serem tocados em estúdio e ao vivo. É evidente que ao vivo as coisas resultam de outra forma. Por exemplo, no disco, o tema “Aula de Música”, com a miúda a cantar. Experimentámos duas vezes ao vivo e não resultou, porque a miúda não estava à vontade. Então passámos a ser nós a fazer essa parte, com um grande berreiro. O que, em estúdio, não resultou, porque ninguém conseguiu reproduzir esse ambiente de festa. Pelo contrário, em estúdio, a voz da miúda resultou perfeitamente.

Uma das características comuns a muitos grupos portugueses da vossa área é o número elevado de elementos dos grupos, como é o vosso caso. Na Irlanda, por exemplo, dois ou três chegam para fazer muito boa música. A que se deve tal facto? Não será uma dificuldade adicional? Ou, pelo contrário, serve para disfarçar insuficiências técnicas?
Sim, provoca algumas dificuldades, nomeadamente logísticas. Temos sempre o problema de sermos nove elementos, para ir a qualquer sítio. Mas é de facto um apanágio dos grupos portugueses, terem sete, oito músicos. Quanto ao aspecto de execução técnica, como sabe, nem o Toque de Caixa, nem a maioria dos grupos portugueses são formados por músicos profissionais. Daí não podermos ensaiar todos os dias, nem sequer dia sim dia não.
A esse nível, há de facto falta de ensaios, se levarmos em conta que um grupo profissional tem pelo menos que ensaiar todos os dias, estar agarrado ao instrumento umas horas por dia. Talvez seja essa uma das razões e nós tenhamos que nos apoiar, podendo haver um músico que colmata as dificuldades do outro. Mas não sei até que ponto isso não será um falso problema, porque dentro deste género de grupos existem muito bons instrumentistas. Mas ao vivo há de facto que ter mais cuidado, são muitas pessoas, com cabos, problemas de equilíbrio de som. Aí sim, é pior.

Como se explica que o Toque de Caixa seja um dos grupos portugueses ligados à música tradicional que mais actua nos estrangeiro?
A Etnia tem sido até agora uma das vias que nos tem permitido chegar mais facilmente ao estrangeiro. Mas temos tocado bastante em Espanha, ou em França, sem termos nada que ver com a Etnia. Temos os nossos canais privados e enviamos discos a pessoas que conhecemos e estão bem colocadas ao nível da organização de concertos e festivais. O facto de o Toque de Caixa ter uma postura agradável em palco talvez também ajude.

Depois de “Histórias de Som” têm já algum novo projecto em perspectiva?
Estamos a pensar muito seriamente em começar a gravar o segundo disco no início do ano que vem. Já estamos a fazer ensaios, a trabalhar nos arranjos. Só estamos à espera que a editora [Numérica, do Porto] em Janeiro dê o sim ou não.

* Director musical e multi-instrumentista dos Toque de Caixa que recentemente editaram o álbum “Histórias do Som” e actuaram com sucesso no Festival Intercéltico do Porto.