Arquivo mensal: Abril 2020

Loreena Mckennitt – “Loreena Mckennitt Em Portugal – O Sumo Do Sol”

Cultura >> Terça-Feira, 10.03.1992


Loreena Mckennitt Em Portugal
O Sumo Do Sol


“The Visit” é o cartão de visita de Loreena Mvkennitt, uma canadiana loura como o sol que em Portugal descobriu o Graal, na disposição sagrada das laranjeiras no jardim interior de um quinta em Azeitão. Somos todos celtas ou é a luz mediterrânica, excessiva, que nos faz delirar?



Loreena Mckennitt toca harpa e canta com voz de anjo Shakespeare, Tennyson e a lenda do Rei Artur. Em “The Visit”, o seu mais recente álbum, aborda a mitologia celta e demanda o elo perdido entre o Oriente e o Ocidente. Não é uma especialista da música tradicional mas ama a tradição e um “sentido universalista”, presente nas várias culturas do globo. Loreena actua em Portugal, a 3 de Julho no Teatro S. Luiz, em Lisboa. O “PÚBLICO” falou com ela, num hotel da capital.
PÚBLICO – Comecemos pelo nome: Loreena Isabel Irene Mckennitt. Tem alguma ascendência portuguesa?
LOREENA MCKENNITT – Que eu saiba, não. Talvez haja alguma linhagem antiga, não sei.
P. – Esteve recentemente em Portugal, numa quinta do Azeitão. A que se deve essa visita?
R. – O que me levou a visitar Portugal foi uma exposição de fotografias de Elisabeth Feryn, tiradas neste país. Fiquei muito impressionada com o ambiente e achei que tinham muito a ver com o meu próprio trabalho. Falei com Elisabeth no sentido de regressarmos a Portugal para fazermos uma nova sessão de fotos e acabámos por ficar cá durante uma semana.
P. – Refere nas notas do disco que viu no jardim interior dessa quinta a materialização da mítica tapeçaria “The Lady and the Unicorn”…
R. – No pátio interior da quinta há quatro laranjeiras, uma em cada canto e outra ao centro, que me sugeriram todo o simbolismo relacionado com essa tapeçaria, nomeadamente as festas e danças de Maio associadas ao ciclo das estações, no período pré-cristão.
P. – De onde provém o seu interesse pela cultura e tradição celtas?
R. – Cresci no Canadá, no campo, o que me levou a sentir um grande amor pela terra. Depois foi o contacto com a música céltica, irlandesa e escocesa, e a visita à Irlanda com o consequente contacto com a música tradicional dessa região. Comecei a interessar-me pelas raízes históricas dos povos celtas. Estive em Veneza, em Novembro passado, na exposição dedicada ao mundo celta, onde nem sequer faltavam objectos artesanais provenientes de Portugal. Os celtas sempre se preocuparam com a terra, com os animais, com os elementos da Natureza e com a espiritualidade a ela associada.
P. – No seu mais recente disco, “The Visit”, explora as origens orientais da cultura celta, nomeadamente na faixa de abertura, “All souls night”, onde é notória a influência da música japonesa…
R. – Sim, essa influência aparece. “All souls night” aborda as festividades da morte. Os japoneses celebram a morte acendendo castiçais que depois seguem em pequenas embarcações pelas águas de um rio até ao oceano. No disco utilizei também instrumentos indianos como a “tampura” e a sitar”. Nesta faixa o próprio estilo do violinista [George Koller] é muito oriental. Note-se que eu não sou propriamente uma autoridade neste campo, apenas utilizo estas influências para enriquecer a minha criatividade. Em “The Visit” procurei juntar uma série de fios dispersos para mostrar que culturas diferentes têm rituais semelhantes. Procurei sobretudo encontrar um sentido de universalidade disperso por diversos locais, como o Oriente, a África e as regiões celtas.
P. – A música de “The Visit” aponta no entanto mais para a corrente “new age” do que propriamente para a música tradicional…
R. – Não sei bem o que o termo “new age” significa. Na América, “new age” está associado a música ambiental, a algo que as pessoas ouvem durante o banho ou durante uma sessão de massagens. Embora aceite que a minha música possa ser escutada nestas condições, penso que existe nela uma grande dose de paixão e que pode ser apreciada a níveis mais profundos. Talvez faça mais sentido associá-la ao termo “World music”. Sou da opinião que se está a desenvolver um estilo totalmente novo de música, ainda por definir, que junta as diversas “músicas do mundo” num contexto contemporâneo. Alguma música de Peter Gabriel, por exemplo, está próxima deste novo conceito.

Mistura De Ingredientes Musicais

P. – Em Portugal tem-se comparado a sua música à de Enya. Concorda com esta aproximação?
R. – Penso que ambas nos movemos em áreas semelhantes embora eu vá mais longe em termos de fusão de linguagens e culturas musicais diferentes, apesar de saber que ela canta em gaélico irlandês e esse tipo de coisas… No meu caso pessoal estou mais interessada em pegar na mitologia e no folclore tradicionais e apresenta-los em formas mais actuais.
P. – Os seus discos anteriores estão mais directamente relacionados com a música folk. “The Visit”, pelo contrário, é mais comercial. Haverá uma tentativa de fazer chegar a sua música a um número maior de consumidores?
R. – O conceito de “comercial” é muito subjectivo. Admito que algumas pessoas possam ver no meu último álbum uma abordagem mais comercial. Do meu ponto de vista nunca houve a intenção de alargar a todo o custo o leque de apreciadores da minha música e de fazer aumentar o número de vendas dos discos. Não é isso que me inspira. O que me move é apenas o interesse e a curiosidade, e, como referi antes, a vontade de explorar e misturar ingredientes musicais dispersos. Gostava que a minha música chamasse a a atenção do público para a música tradicional, mas não me considero uma especialista do género. Acho mais interessante misturar o som de uma guitarra eléctrica com uma harpa, um violoncelo ou uma “tampura”.
P. – Em que termos funciona a distribuição da sua própria editora, a “Quinlan Records”, pela Warner Bros.?
R. – A associação com a Warner prende-se com a aceitação que os meus anteriores trabalhos tiveram no Canadá. Tive anteriormente outros contactos com pequenas distribuidoras como por exemplo uma ligada ao “Vancover Folk Festival” mas acabou por se tornar evidente, pelo número crescente de pedidos dos meus discos, que o sistema de distribuição pelo correio, a partir do meu escritório, em Stratford, não era suficiente, embora até à altura isso significasse para mim uma “boa vida”, sem grandes problemas empresariais. Acabei por optar pela Warner que manifestou um interesse genuíno pela minha música e que, ao mesmo tempo, me proporcionou uma liberdade total em termos criativos.
P. – Que músicos trará consigo no concerto em Portugal?
R. – Serei acompanhada por cinco músicos, entre os quais Brian Hughes, um guitarrista que também toca “sitar”, “tampura” e “balalaika”, a violoncelista / teclista Anne Bourne, o violinista Hugh Marsh, o percussionista Richard Lazar e um baixista. Quanto a mim tocarei harpa e piano, para além de cantar.

Lá Lugh – “Duo Irlandês Em Digressão Pelo Norte Do País – Deus Pagão Em Circuito Integrado”

Cultura >> Quarta-Feira, 04.03.1992


Duo Irlandês Em Digressão Pelo Norte Do País
Deus Pagão Em Circuito Integrado


Os espectáculos dos irlandeses Lá Lugh agendados para quatro cidades do Norte do país integram-se no “circuito” de concertos regulares com que a “Etnia” se propõe aprofundar o conceito de uma “Europa” unida pela diversidade cultural. Prova de que, entre nós, há quem veja na música tradicional mais do que um simples fenómeno revivalista.



De há dois anos para cá os “Encontros Musicais da Tradição Europeia” prosseguem a sua viagem de reunificação entre actualidade e tradição. Entre o princípio e o fim e de novo o princípio. Encontros que, no interregno desses rituais maiores, se animam no convívio íntimo com as populações locais. Em “circuitos” fraternos por esse Portugal fora visando “celebrar” ou incentivar um europeísmo assente na valorização da grande diversidade de culturas que coexistem no nosso “velho continente”, como é intenção da entidade organizadora, a “Etnia”, uma cooperativa cultural do Norte, com sede em Caminha.
Assim, amanhã, na Guarda, actuam os irlandeses Lá Lugh, duo constituído por Gerry O’Connor (rabeca) e pela vocalista / flautista Eithne Ni Ualacháin, que devem a designação à divindade celta Lug ou Lugh, o deus das “mãos grandes”, neto de Balor, “Olho-do-diabo” e pai do herói irlandês Cuchulainn, cuja saga “Tain Bo Cuailnge” constitui um dos esteios da mitologia e do futuro por cumprir da Irlanda ancestral. Os Lá Lugh deslocam-se no dia seguinte, sexta-feira, a Guimarães. Para concluírem esta série de espectáculos pelo Norte do país, estarão no sábado em Viana do Castelo e, domingo, no Porto. Acompanham os Lá Lugh, nestes quatro espectáculos, os músicos convidados Garry O’Brian (mandocello, viola de arco, piano) e Seanie McPhail (guitarra).

Dinamização Cultural Descentralizada

Responsável pela vinda a Portugal, nos últimos anos, de nomes importantes da folk actual como Perlinpinpin Folk, Jean Blanchard, Andrew Cronshaw, Sileas, Altan, Manuel Luna, Rosa Zaragozza, La Ciapa Rusa, Milladoiro ou mais recentemente Nigel Eaton (ex-Blowzabella), a Etnia tem apostado, e bem, numa política de dinamização cultural descentralizada que, promovendo o “contacto e intercâmbio entre grupos ou solistas ligados à música tradicional e popular das várias regiões europeias”, pretende, numa escala mais alargada, uma “maior interligação entre as distintas linguagens musicais típicas dessas regiões” e, no âmbito da divulgação, a “criação de formas e estruturas de coordenação permanente”. Estratégia cultural onde estes “circuitos” se integram de forma exemplar.
Recém-chegados à cena folk internacional, os Lá Lugh (cuja estreia discográfica acaba de ser importada, no formato CD, pela VGM) contam nas suas fileiras com dois nomes que já deram provas neste campo. Gerry O’Connor tocou com a vocalista Dolores Keane (passagem meteórica pelos De Danann), com Jack Daly, ex-De Danann, e Patrick Street. Alia, na sua técnica instrumental, o virtuosismo técnico a uma correcta articulação dos “modos tradicionais” como são praticados no condado de Sligo, na costa Oeste da Irlanda, um dos grandes viveiros de violinistas tradicionais do país.
Nascida no seio de uma família tradicional irlandesa onde a utilização do gaélico era prática corrente, discípula de mestres como Paddy Tunney e Mary Ann Carolan, Eithe Ni Uallachain, para além de reputada flautista, interpreta um vastíssimo reportório de canções naquela língua milenária recolhidas da região do Donegal ou do Sudoeste da Irlanda do Norte, de onde é originária. Registe-se ainda a participação, nos concertos portugueses, de Garry O’Briain que alguns conhecerão dos Buttons & Bows, especialistas na utilização de instrumentos de cordas. Ritual da Primavera presidido por Lugh à entrada Ocidental do Templo.

Vários – “Criadores, Jornalistas E Radialistas Discutem Produção Nacional Em Lisboa – ‘O Império Sem Pátria’ Da Música” (debate)

Cultura >> Domingo, 02.02.1992


Criadores, Jornalistas E Radialistas Discutem Produção Nacional Em Lisboa
“O Império Sem Pátria” Da Música


Música portuguesa: “confecção, costura e corte”. O tema foi debatido no clube de Jornalistas, em Lisboa. Que há crise, ninguém duvida. Multinacionais, corrupção nos “media” e estratégias de distribuição pouco límpidas foram apontados como principais culpados. Acusações a que as multinacionais, que se recusaram a comparecer, terão de dar resposta.



“Nos anos 70, a seguir ao 25 de Abril, 65 por cento dos discos vendidos no nosso país eram fabricados em Portugal. Em 1989 a percentagem baixou para 8 por cento”. Para José Mário Branco, músico e sócio da UPAV – União Portuguesa de Artistas de variedades, tais estatísticas revestem-se de “um significado, não só económico como cultural, assustador”. A música portuguesa, e em especial a de teor mais intervencionista, sofre por tabela.
Conta José Mário Branco, logo no início deste debate levado a cabo sexta-feira à noite pelo Clube dos Jornalistas e com a promessa de continuação, que no final de um concerto seu, realizado há pouco tempo nos jardins da Guarda, dois jovens exaltados, “com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo”, o abordaram com a seguinte pergunta: “quem são os cabrões que nos impediram até hoje de conhecer estas coisas?” Uma boa pergunta. “O público quer ouvir a nossa música, há artistas que querem dar a ouvir a sua música ao público e há uma coisa, um pesadelo ali no meio, que impede a circulação” – diz José Mário Branco, segundo o qual as multinacionais são as principais responsáveis por este estado de coisas: “Somos um país pequeno onde as multinacionais entraram totalmente à balda, sem quaisquer regras que limitassem e condicionassem a sua actuação no mercado. As chamadas ‘editoras portuguesas’ não passam de escritórios em Lisboa de empresas estrangeiras. Quem manda na música em Portugal não é Lisboa nem o Porto, mas Londres, Nova Iorque, Amesterdão…” José Mário Branco segue o raciocínio das multinacionais: “Na lógica da Sony ou da EMI, o nosso mercado não passa de um quintal para onde se torna fácil escoar os restos de armazém. É esta a lógica do sistema”.

Editoras / Distribuidoras

Citam-se casos relativos a determinados processos seguidos, neste caso pelas “distribuidoras” que, na quase totalidade dos casos, são ao mesmo tempo editoras. Uma conversa de negócios entre o representante de uma “distribuidora” e um retalhista não andará longe dos seguintes termos: o retalhista pretende por exemplo comprar para a sua loja 200 discos de Michael Jackson, cuja venda lhe garantirá sem dificuldade os 48 por cento de margem de lucro que a lei lhe faculta sobre o preço de revenda. O distribuidor (e editor…) argumentará então: “Queres o Michael Jackson? Por acaso tenho aqui uma outra coisa que estávamos também interessados em vender (os tais restos)”. Se o retalhista insiste que essa ‘outra coisa’ não lhe interessa, receberá um franzir ofendido de sobrancelhas acompanhado da tirada: “Pois é, mas esses 200 discos do Michael Jackson não sei se lhos vou poder arranjar, sabe, há umas dificuldades no armazém…”. O infeliz retalhista, que apenas pretende enriquecer de forma honesta e de preferência rápida, percebe e resigna-se à continuação: “… mas se me comprar 50 destes tenho a impressão que afinal talvez lhe consiga arranjar os tais 200 do Michael Jackson!”.
Os “media”, alguns “media”, também não são poupados. Mesmo sem ter provas concretas (“sei de saber”) – diz José Mário Branco) o autor de “Ser Solidário” não duvida que o sistema esteja “profundamente corrompido, com cheques mensais passados por debaixo da mesa, com operações que significam dinheiro e chantagem ao lucro”. Na televisão – “o meio dos meios de comunicação” – “paga-se em escudos para se passar a faixa tal de um disco, segundo as imposições de programação vindas de Londres ou Amsterdão”.
O poder fecha os olhos e deixa andar. “Os canais de informação têm muitas relações com o poder político e com o poder económico. Há muitos interesses no meio disto tudo. Interessa é adormecer as pessoas e não levantar problemas” – diz Pedro Pyrrait, crítico de música, radialista e um dos convidados do debate, para quem este facto “teve influência no afastamento de uma larga faixa de música da nossa rádio”. “Há uma censura indirecta no sentido de não passar artistas como o Fausto, os Vai de Roda, o José Afonso, sob o pretexto de não ser música para FM”. Censura que nalguns casos pode passar por um “telefonema de algum secretário de Estado ou de um ministro, a protestar contra a passagem de ‘música revolucionária’, música ‘revolucionária’ que até pode ser uma canção perfeitamente inocente, mas que só por ser cantada pelo José Mário Branco ou pelo Sérgio Godinho pode prejudicar a ascensão de pessoas como o João David Nunes ou o Jaime Fernandes, que se calhar ambicionam chegar um dia a ministros. É bom o João David Nunes vir à televisão [em edição recente de “Conversa Afiada”] dizer que gosta de música portuguesa e do José Afonso. Difícil era ouvir essa música na Rádio Comercial, quando ele era director.

O Capital Contra O Capitalismo

Na opinião de José Mário Branco, todo este panorama muito pouco claro que parece minar por dentro a “costura” e “corte” da música portuguesa insere-se numa perspectiva mais vasta, de permissividade e “decadência” de “uma classe dominante pirosa e sectária (por insegurança, por ser muito recente e por nunca ter podido exercer nem exercer-se)” e, como consequência, “de uma classe política impreparada e altamente corrupta”. Corrupção que vinda das cúpulas terá por força que se reflectir nos “vários níveis da vida nacional, passando pelas diversas estruturas do Estado, pelos meios de comunicação e pelo próprio meio empresarial”.
Viriato Teles, outro representante da facção do “corte” presente no debate, que teve Eduardo Guerra Carneiro, da Direcção do Clube de Jornalistas, como moderador, tem razão quando afirma que “sem se conhecer as coisas não se pode gostar delas”. De facto, algo não bate certo quando o tal jovem da Guarda grita contra os “cabrões” que lhe dificultam e impedem o acesso ao produto musical. São as próprias leis da oferta e da procura que são impedidas de funcionar. “Há aqui qualquer coisa que não tem sequer já a ver com a economia keinesyana e com o capitalismo – a perversão do próprio capitalismo”. Quando os meios de produção artística se rendem aos “trusts”, o assunto ultrapassa os limites da “nacionalidade” para constituir “uma questão de dinheiro, de um império sem pátria”. Não deixa de ser perturbante que hoje se acuse o comunista José Mário Branco de “subversivo no sistema” apenas por defender o cumprimento da lei de oferta e procura, afinal um dos princípios básicos do “catecismo capitalista”.