Arquivo mensal: Agosto 2019

Alan Stivell – “II Festival Intercéltico E Semana Da Bretanha, No Porto – Stivell Desafinou”

Secção Cultura Sexta-Feira, 19.04.1991


II Festival Intercéltico E Semana Da Bretanha, No Porto
Stivell Desafinou



A Bretanha invadiu a capital nortenha, ao som da harpa electrificada de Alan Stivell. Não houve feridos – em nítida baixa de forma, o bardo não conseguiu fazer a festa e desiludiu os entendidos. Diferente opinião tiveram os milhares de pessoas que encheram o Teatro Rivoli, no Porto, e que no final aplaudiram de pé.

Quem desde a época brilhante de “La Renaissance de l’harpe celtique” e “Chemins de terre” tem vindo a acompanhar a obra de Alan Stivell, não pode deixar de se sentir desiludido com a fraca amostra a que teve direito na noite de anteontem. Acompanhado somente por Yves Riblis, nas guitarras acústicas e sintetizador, Alan Stivell trocou notas, falhou tempos e desafinou, chegando ao ponto de, num dado momento, a voz lhe faltar completamente, obrigando à interrupção e ao recomeço do tema.
Unanimemente reconhecido como um dos grandes intérpretes da harpa céltica e arauto da cultura bretã, Alan Cochevelou, de seu verdadeiro nome, mais parecia um novato, à procura da afinação certa e do registo vocal adequado. Saiu-se melhor nos poucos temas em que utilizou o “tin whistle”, típico pífaro metálico irlandês, ou a bombarda, com a qual tentou “agarrar” o público, através de uma das suas habituais cedências ao rock ‘n’ rol. Quanto à gaita-de-foles, sempre presente nos discos, nem vê-la – “em cena, só no meu grupo de rock” – explicou. O alegado cansaço (três horas de sono, na véspera, entre várias viagens de avião) não desculpa porém a falta de brio profissional de que deu mostras, mais parecendo, a certa altura, tratar-se de um ensaio e não de um espectáculo pago.
Por seu lado, Yves Riblis, coitado, lá ia acompanhando como podia a falta de swing evidenciado pelo mestre )certas incursões na atonalidade contemporânea não servem de justificação para o dedo que falha na corda…). Por fim preferiu perguntar pelo resultado do Porto – Benfica.

Novo Disco Inspirado Em Avalon

Resta a consolação de um novo disco, a sair em breve, “The Misto f Avalon” [As Bruxas De Avalon], gravado na Irlanda e inspirado na obra de Marion Zimmler Bradley. Álbum “conceptual, de canções girando à volta do conceito arturiano” – nas palavras do autor. Alan Stivell assegura que “os franceses ficaram deslumbrados com o romance” e com a sua “maneira diferente de rever a lenda do rei Artur, a partir de um ponto de vista feminino e de uma visão pré-céltica das origens, anteriores ao Cristianismo”.
A Tradição, como ponte para o Futuro, tem sido desde há muito a cruzada pessoal do músico bretão, empenhado em participar na construção dos alicerces musicais da “nova idade” – “correspondente aos próximos 2000 anos”, período que acredita ser o da “reunificação da Humanidade” e da “comunicação total”. Recordam-se, a propósito, o seu último disco até à data, “Harpes du novel âge” ou o duplo “Symphonie celtique”, de 1980, manifesto de confluência das músicas e culturas do universo, no mundo celta. Curiosamente, Alan Stivell afirma que no início, não pretendia senão “fazer rock bretão, ou céltico, sem recorrer forçosamente aos instrumentos tradicionais”. Chega a irritar-se quando chamam “cósmica” ou mesmo “céltica” à sua música – “procurar etiquetas, não faz parte de uma verdadeira atitude céltica. A noção de que tudo, o mundo, o universo, tem de ser analisado e dividido em pedaços, é tipicamente latina. No fim de contas é a maneira de funcionar do cérebro, tal como um computador. É uma noção latina que o povo celta não compreende”. A acreditar na teoria, chega-se facilmente à conclusão de que os portugueses nunca foram afinal, nem são, um povo latino.
As propostas de instauração planetária da “nova idade”, em que os celtas desempenhariam o principal papel, são à partida, louváveis: “Trata-se de reunir tudo, mas em que, ao mesmo tempo, nada ficará completamente unido. Cada indivíduo do planeta concretizará, à sua justa escala, a sua própria reunificação e terá acesso à grande biblioteca mundial”. E que “o macrocosmos e o microcosmos existem em todos e em cada um”, logo também “em cada música será possível escutar todas as músicas do planeta”. Decerto que sim, mas se nos cingirmos ao concerto de anteontem, fica-se mais com a ideia de que o mundo passará a ser como um quintal, em vez da grande e tão apregoada fraternidade universal.

Paco de Lucia – “Zyryab”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 17.04.1991


Paco de Lucia
Zyryab
LP / MC e CD, Philips, distri. Polygram



Ao lado de Manitas de Plata, Paco de Lucia faz papel de grande embaixador do flamenco no mundo. Ao contrário de Manitas ou do menos conhecido (mas não menos importante) Pepe Habichuela, conservadores na atitude e no estilo, Paco de Lucia investe em áreas que só indirectamente t~em a ver com a música cigana, como o jazzou a canção de tons mais ligeiros (quem nunca trauteou “solo quiero caminhar”?). Com John McLaughlin (com quem partilha um estilo particular de fraseado) e Al Di Meola, gravou um álbum exclusivamente dedicado às possibilidades da guitarra. “Zyryab” revela-se ecléctico no modo como aborda as típicas bulerias, tarantas, rumbas ou fandangos ciganos, através de uma liberdade formal que não receia juntar o discurso ortodoxo do flamenco às divagações jazz-rock ou a incursões mais marcadamente arabizantes, como acontece no título-tema “Zyryab”, valorizado ainda mais pela participação pianística de Chick Corea. ****

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Nils Lofgren – “Silver Lining”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 17.04.1991


Nils Lofgren
Silver Lining
LP e CD, Essential, distri. Ananana



É guitarrista, mas Neil Young convidou-o para tocar piano em “After the Goldrush” e, mais tarde, já o instrumento certo, em “Tonight’s The Night” e “Trans”. Após uma passagem rápida pelos Grin, lançou-se numa carreira a solo relativamente bem sucedida, assinalada pela gravação de álbuns de rock “mainstream” (“Grin”, “Nils Lofgren”, “Back iy up”, “Cry Tough”, “Night Fades Away” ou “Wonderland”, entre outros), que lhe valeram o estatuto de “guitar hero” capaz de proezas acrobáticas, como tocar de costas em salto de trampolim ou, segundo reza a lenda, de prodigiosos triplos saltos mortais com “flic flac” à retaguarda. Entrou para a E Street Band, de Bruce Springsteen, e parece que ficou mais sossegado. Agora regressa a solo com “Silver Lining”, mas não há nada de particularmente interessante a registar – o mesmo “rock ‘n’ rol” honesto de sempre, as mesmas baladas agradáveis e inócuas, o virtuosismo guitarrístico que se lhe reconhece. Uma referência final para a lista de convidados especiais: Bruce Springsteen, Levon Helm, Billy Preston e Ringo Starr. A música, infelizmente, nada tem de especial. **

Legenda
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único