Arquivo mensal: Novembro 2018

Danças Ocultas + Simentera + Ustad Mahwash & Kaboul Ensemble + Mahotella Queens + Totonho & Os Cabra + Kronos Quartet + Kad Achouri + The Skatalites +”Músicas Do Mundo Entram No Castelo De Sines” (concertos / festivais / artigo de opinião)

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quinta-feira, 24 Julho 2003


Músicas do Mundo entram no Castelo de Sines

Em Sines a “world music” está bem guardada no castelo, palco da 5ª edição do Músicas do Mundo. Com os Kronos Quartet a radicalizarem o conceito de “fusão” que caracteriza a linha musical do festival



As Mahotella Queens, da África do Sul, levam a Sines as músicas e as tradições do Soweto, representadas pelo estilo “mbaqanga”

Sines, o castelo, o fogo-de-artifício a iluminar o espetáculo da última noite. A música derramando-se para dentro e para fora das ameias do castelo. Instrumentos e vozes exóticos em contraponto ao som das ondas do mar. O festival Músicas do Mundo, que hoje começa na cidade alentejana de Sines, é tudo isto e muito mais.
“Isto” chama-se mística, um especial eco que certos acontecimentos, pessoas e lugares são capazes de desencadear. Em Sines, a mística faz-se da comunhão e do convívio com a música e a história. Com a pedra, a areia, a água (e o peixe, acabado de saltar diretamente do anzol para o grelhador) e os sons da “world music”.
O “muito mais” depende do programa. Que, regra geral, é bom. O desta 5ª edição não é exceção. O Músicas do Mundo ganhou prestígio e não brinca em serviço.
Quinta-feira. Como é hábito, há o banquete de inauguração, a preparar o corpo e o espírito para as libações da noite. Os olhos, já brilhantes, e os ouvidos, já despertos, receberão em primeiro lugar, e convenientemente, os Danças Ocultas, grupo de acordeões diatónicos sob a direção de Artur Fernandes. “Fazemos nova música com um instrumento antigo”, diz Fernandes, acrescentando que, ao invés de exibições de virtuosismo, o grupo prefere “explorar o lado expressivo do instrumento e comunicar através da emoção coletiva”. Em Sines vão ter a companhia dos convidados Rui Júnior (percussões), Gabriel Gomes (acordeão) e Edu Miranda (bandolim), na apresentação de material a incluir no próximo álbum, a sair em Outubro.
Sem quebrar os laços de fidelidade os ligam à sua terra natal, Cabo Verde, os Simentera levam a Sines as velhas formas de canto tradicional do arquipélago adaptadas às formas de vida e cultura de Cabo Verde contemporâneo. O seu quinto álbum, a apresentar no Músicas do Mundo, tem por título “Tr’adicional”.

Rainhas do Soweto
Sexta-feira, a agulha da bússola aponta para o Afeganistão. Formados em Genebra em 1995, o Ensemble Kaboul dedica-se à recuperação da música tradicional afegã nas três principais modalidades: o ghazal (influenciado pelo raga indiano), a popular e a pachtoun, típica da etnia dominante. O exotismo da cultura e da instrumentação (tablas, rubab, tula, harmónio…) não deverão distrair nem da integridade do trabalho nem da voz da cantora Ustad Mahwash. Em Sines, o Ensemble apresentará o novo projeto “Rádio Kaboul, Tributo aos Compositores Afegãos”.
Desvio para a África do Sul, de fortes tradições na música vocal “a capella”. É de lá que chegam as rainhas Mahotella Queens. Começaram por acompanhar o cantor Mahlathini, tornando-se presença regular no circuito musical do Soweto dos anos 60, projetando-se, a partir daí, para uma carreira internacional que atingiu o zénite em 2000, com a atribuição ao grupo, pela cooperativa Womex, do prémio “World music artist of the year”. O seu estilo, denominado “mbaqanga”, integra elementos de música tradicional zulu, gospel, ritmos elétricos e soul americana.
A noite de sexta encerra com Totonho & Os Cabra, grupo brasileiro oriundo do Nordeste. Sons livres, como os de Lenine, que os apadrinhou, e de Tom Zé. “Manguebeat”, electro, salsa, funk, rock, misturam-se na paleta dos Cabra, e a palavras que retratam a realidade social do país. O chefe Totonho já escreveu canções para Chico César e afirma: “Sou melhor compositor. Eu parto da palavra, daí faço uma frase, desmancho, faço outra, mudo, transformo, busco um sinónimo… Sou um tipo de pedreiro que vai quebrando um tijolo até ele caber em sua construção.” Totonho deverá deixar intactas as ameias do castelo.

O feitiço do tempo
Sábado, contar-se-á o tempo pelos Kronos Quartet cuja presença neste festival alguns acharão estranha. Os Kronos Quartet, já com 30 anos de carreira, são um grupo de cordas contemporâneo e o seu conceito de “música do mundo” não é exatamente o da ortodoxia, como se pode verificar em álbuns como ”Pieces of Africa”, “Caravan” e o novo “Nuevo”, com as suas especialíssimas interpretações da música do México, que vai estar no centro do concerto.
Noite de violinos, violas e violoncelos para escutar candidamente sob as estrelas? Nem por sombras. O Kronos domina o tempo a seu bel-prazer, quebrando as noções convencionais da música de câmara com irrupções de eletrónica, sampling e um sentido, por vezes arrasador, de experimentação iconoclasta.
Kad Achouri, que atua a seguir, nasceu em França há 33 anos, filho de pais argelinos. Mas foi em Londres que desenvolveu o seu estilo particular de fusão onde o “groove” nasce do equilíbrio entre o jazz, a canção francesa e as tonalidades étnicas. “Liberté”, álbum de estreia editado no ano passado, reflete algumas das suas preocupações sociais: “Tenho a impressão de que a cidadania já não existe. Tornou-se um pouco ‘eu consumo, eu sou’, o resultado do capitalismo selvagem que favorece o individualismo em detrimento da noção de partilha.”
Mas como nem tudo é consumismo e capitalismo selvagem, o Músicas do Mundo termina festivamente com uma sessão de “reggae” por uma das suas bandas históricas e mais carismáticas, os Skatalites, formados em 1962. A música do grupo, radicando embora nas típicas síncopes da Jamaica, assimilou o rhythm ‘n’ blues e a música tradicional africana. O título do álbum de 1998, “Ball of Fire”, evoca toda a energia do rock ‘n’ roll. Os Skatalites não andam lá longe. São fogo. E assim, as “músicas do mundo” de Sines arderão, uma vez mais, no abraço entre as bolas de chamas multicolores que chovem do céu e os sons em brasa que salpicam o castelo.

Hoje
DANÇAS OCULTAS + SIMENTERA

Amanhã, dia 25
USTAD MAHWASH & KABOUL ENSEMBLE + MAHOTELLA QUEENS + TOTONHO & OS CABRA

Sábado, 26
KRONOS QUARTET + KAD ACHOURI + THE SKATALITES
SINES, castelo
Às 21h30. Tel. 269632204. Bilhetes a 2 euros

Fairport Convention – “Fairport Convention” + “What We Did On Our Holidays” + “Unhalfbricking”

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11 Julho 2003


FAIRPORT CONVENTION
Fairport Convention
8|10

What We Did on our Holidays
9|10

Unhalfbricking
9|10
Island, distri. Universal

fairport convention
quem sabe para onde o tempo vai



No manifesto de intenções de “Fairport Convention”, álbum de estreia de 1968 da banda que viria a tornar-se a instituição da folk rock inglesa, pode ler-se: “What we played – The best of the singers-songwriters, music of almost suicidal variety, mind boggling complicated arrangements of ostensibly simple songs, anything that other groups wouldn´t touch”. Ainda com Judy Dyble e Martin Lamble (que viria a morrer num acidente de viação), “Fairport Convention” arranca para este rally com o que poderia ser um clássico dos The Byrds, “Time will show the wiser”, de Emitt Rhodes, e prossegue com “I don’t know where I stand”, título apropriado para uma vocalização frágil e tocante de Dyble, na linha do que faria nos Trader Horne. Álbum variado, integra influências da pop psicadélica, britânica e americana (como na delirante versão de “Jack O’Diamonds”, de Dylan, algures entre os Grateful Dead e os Jefferson Airplane), com Ashley Hutchings, futuro fundamentalista da tradição rural, a revelar inusitada destreza na escrita de coisas tão bizarras como “The lobster”. A reedição, remasterizada, inclui quatro temas extra, entre os quais “Suzanne”, de Cohen, e “Morning glory”, de Tim Buckley. Um clássico menor e, para os que apenas conhecem fases posteriores do grupo, uma surpresa estonteante.
No ano seguinte, Alexandra Elene MacLean Denny, Sandy Denny, entrara já para o grupo, em substituição de Judy Dyble, fazendo de “What we Did on our Holidays” algo de especial que abre com o clássico que daria nome ao seu primeiro projeto fora do grupo, “Fotheringay”. Abrangendo ainda temas de Dylan (“I’ll keep it with mine”) e Joni Mitchell (“Eastern rain”), o psicadelismo, o “cajun” ou os “espirituais” (Denny a fazer de Joplin em “The Lord is in this place, how dreadful is this place?”), bem como um “Book song” de Ian Matthews, o álbum introduz o conceito de “folk elétrica” em “Mr. Lacey” ao mesmo tempo que aparecem os primeiros arranjos de tradicionais, entre os quais “Nottamun town” e “She moves through the fair”, prenúncio da direção que o grupo viria a seguir.
“I’ll keep with mine” vale pela vocalização de Denny, em veia já explorada no álbum de 1967 de apresentação dos Strawbs, “All of our Own Work”, e “Meet on the ledge”, um original de Thompson, com aquele “swing” característico dos The Byrds que os Fairport tão bem adaptaram a uma inconfundível “britishnes”, figura na galeria dos melhores temas do grupo.
Ainda de 1969, outra peça-chave, “Unhalfbricking”, título sugerido por Denny em mais do que provável estado de euforia etílica. “Genesis hall” ostenta a marca de uma voz em estado de graça. Poucas vezes Sandy Denny terá cantado como nesta canção de abandono, capaz de nos arrebatar naquele tom que apenas se encontrará, na música inglesa, em “I Want to See the Bright Lights Tonight”, de Richard e Linda Thompson. Denny que em “Si tu dois partir”, versão “cajun” e cantada em francês de um tema de Dylan, volta a abrir caminho ao “boom” do folk rock inglês dos anos 70, por bandas como os Steeleye Span, Matthews Southern Comfort ou Albion Country Band, e se mostra superlativa no jazzy “Autopsy”, onde está já tudo o que se pode encontrar na sua brilhante discografia a solo.
O mantra de 11 min. e único tradicional do álbum, “A sailor’s life”, é apresentado pela cantora de “world” Sheila Chandra como contendo os genes da música de fusão, na síntese de 2000 anos de canto tradicional védico com os timbres e modos da música irlandesa. O mesmo que, sem que ninguém desse conta, e na mesma altura, também fizeram os Mr. Fox e que em “Liege and Lief” iria ainda mais fundo. Depois, foi neste disco que os Fairport contrataram a sua estrela, o violinista Dave Swarbrick, aqui ainda um dos convidados, a par de Ian Matthews, Dave Mattacks (baterista que marcaria a rítmica futura dos FC) e Trevor Lucas (pilar dos Fotheringay). Apesar de três originais de Dylan, “Unhalfbricking” apresenta, pela primeira vez, o estilo distinto que levaria os Fairport ao estatuto mítico de que ainda hoje gozam. Mesmo que Denny lançasse ao vento as dúvidas e a interrogação ao destino – que para si seria trágico – em “Who knows where the time goes?”. “Não receio o tempo”, canta. E é todo um tempo de beleza gloriosa que desaba sobre nós.

Berrogüetto, Llangres, Barahúnda + Vários – “Folk E Um Rio De Várias Cores” (festivais / concertos / artigo de opinião)

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terça-feira, 8 Julho 2003


FOLK E UM RIO DE VÁRIAS CORES

Berrogüetto e Llangres trouxeram ao II Intercéltico de Vizela o melhor da música do Norte celta de Espanha, num festival ainda à procura de personalidade própria.




Os Barahúnda mostraram alguns bons instrumentistas, mas também que precisam de fazer muito trabalho de casa

Vizela teve no passado fim-de-semana a segunda edição do seu festival Intercéltico. Dois dias de música céltica, ou nem tanto, que atraíram à Praça da República – com o palco instalado diante da fonte onde, reza a lenda, “quem se banhar nela mais cedo ou mais arde irá viver para Vizela” – um público verdadeiramente interessado em ouvir música folk, passantes e curiosos e uma mão cheia de crianças de tenra idade (todas, certamente, com insónias, dado nunca terem dado mostras de cansaço) que acompanharam a música proveniente das bandas em palco com danças, folguedos e gritaria constantes.
Sexta-feira, dia de abertura, teve início com os portugueses Ódagaita cuja música está atrasada uns vinte anos. O som dos Trovante imperou numa atuação que foi buscar temas de José Afonso e arranjos que, dada a evolução que a MPP tem conhecido nos últimos anos, já não fazem muito sentido. Uma banda a necessitar urgentemente de se atualizar.
Depois de um intervalo preenchido por uma atuação, entre o público, do trio tradicional da região de Miranda do Douro, Lenga-Lenga, liderado pelo gaiteiro Henrique Fernandes, chegaram os Barahúnda, de Madrid, com música do seu álbum de estreia, “Al Sol de la Hierba”. Uma cantora excelente, Helena de Alfonso, de voz e presença corporal plenos de sensualidade, estilo cigana “sexy”, e o colorido proporcionado pela sanfona de Jota Martinez e pelo clarinete de Dário Palomo não fizeram esquecer um percussionista quadrado e a necessidade de muito trabalho de casa.
À noite, no apregoado “bosque dos druidas”, em esplanada improvisada, as gaitas-de-foles fizeram-se ouvir ao desafio. A rusticidade e genuinidade do modelo transmontano “contra” a sofisticação dos protótipos galegos.
Sábado nasceu cheio de sol e de promessas de melhor música. Almoço no Maquias, onde se come assim-assim. Fica num local paradisíaco, na margem do Vizela. Cenário verdejante. Porém, quando nos debruçamos sobre o rio, é o choque. A incredulidade. A vergonha. As águas, correndo cheias de energia por entre o granito e as ervas, são… cor-de-rosa, lilás, roxas, numa gama de tonalidades dignas de um pintor paisagista psicadélico, ou louco. Noutros dias, contam-nos, são amarelas, azuis, de todas as cores menos a natural. Alguns quilómetros acima uma tinturaria despeja há mais de uma década as suas tintas para o leito do rio, poluindo-o sem que alguém consiga inverter a situação. Portugal no seu pior.
De noite, porém, todos os gatos são pardos e, na Praça da República, a música ultrapassou as expetativas, depois de, durante a tarde, a Banda de Gaitas e Danças dos Amigos do Mosteiro de Melon (sextos classificados da Terceira Divisão no concurso de bandas de gaitas do ano passado; na Galiza não se brinca com estas coisas…), formada por elementos muito jovens, ter animado o jardim da praça, com o aprumo de uma coreografia espartana e os mimos dos familiares que vieram em peso apoiá-los. Já sem farda, pareciam alunos de uma escola, de mãos dadas aos pais, e a comer gelados.
A grande música folk chegou finalmente com os Llangres, das Astúrias. Na folk, a atitude é um trunfo e a banda, que recentemente editou o álbum “Stura”, esbanjou o entusiasmo característico das melhores formações irlandesas. Instrumentistas de alto nível, tocaram, precisamente, “à irlandesa”, em toada de “jigs”, com rigor, musicalidade e bom gosto inultrapassáveis. Borja Baragaño deu “show” na gaita asturiana, enquanto no tom mais introspetivo das baladas se destacou a harpa céltica de Yago Prada. O público fez roda e dançou, conseguindo, inclusive, abafar a gritaria da criançada.
Era difícil aos Berrogüetto fazer melhor. Foram diferentes. Atualmente já integrados no grupo restrito dos grupos galegos com projeção na Europa, praticam uma música abrangente que procura agradar a todos os gostos. Temas mais comerciais e cantaroláveis alternaram com instrumentais de extrema complexidade (depois da “irlandização”, a folk galega parece estar a ser afetada pela “balcanização”…) que puseram em relevo as capacidades de Anxo Pintos, “virtuose” em todos os instrumentos que toca: sanfona, gaita-de-foles, flauta de bisel, saxofone soprano… Uma “jota” de sabor medieval destacou-se como o momento mágico da noite, com Anxo Pintos, na sanfona, a evocar os antigos trovadores.
A noite não terminaria na nota de profissionalismo dos Berrogëtto, mas, antes, com o que a folk tem de mais verdadeiro e espontâneo, numa sessão dos Llangres num “pub” de Braga, para onde a comitiva do festival seguiu. Aí, entre as conversas distraídas ou a concentração dos aficionados, a música deslizou como a cerveja Guiness nas gargantas ressequidas – água da vida, fonte de alegria. Borja Baragaño, então, “abusou”, entregando-se a um inacreditável solo de gaita de quase meia hora, sem conseguir parar. No final, alguém lhe bateu nas costas, a tentar descobrir onde ficava a cavidade das pilhas…