Arquivo mensal: Setembro 2018

Jah Wobble’s Solaris – “Live In Concert” + Jah Wobble – “Fly”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
18 Abril 2003


JAH WOBBLE’S SOLARIS
Live in Concert
JAH WOBBLE
Fly
30 Hz, distri. Universal
6|10



Ostentando os números 18 e 19 da série hertziana, “Live in Concert” e “Fly” são os mais recentes desenvolvimentos de Jah Wobble, o paquiderme do baixo. “Live in Concert” reúne uma formação de luxo com o pianista Harold Budd, o baterista dos Can, Jaki Liebezeit, o trompetista com um pé no jazz e outro na “world”, Graham Haynes, e um segundo baixista na pessoa do igualmente proboscídeo Bill Laswell. Apresentado como uma abordagem “holy minimalist” de “texturas jazz, world e dub” embaladas numa “paisagem modal”, “Live in concert” varia entre a jam adrenalínica, o “dub” pneumático de baixas frequências e próteses rítmicas enxertadas a partir do material genético dos Can, com os dois baixos e a “human drum machine” Jaki Liebezeit a carburarem em tandem. Falta subtileza a estas divagações oleosas que deveriam homenagear a fábula metafísica saída da pena de Stanislaw Lem. “Fly” compõe-se de 11 “voos” cuja tripulação integra Clive Bell, Harry Beckett e Jean-Pierre Rasle. De nada valem, porque logo à segunda descolagem a aeronave despenha-se contra as cordilheiras da “etnoseca” com selo Enigma. O resto é a dose habitual de “dub”, funk & house, um magnífico voo nº4 a fazer lembrar o “Requiem” que permanece até à data como a obra mais conseguida do ex-P.I.L e uma sequela requentada da folk universalizante que Jean-Pierre Rasle ajudou a criar nos Cock & Bull. O melhor são as fotos da capa.


Jah Wobble's Solaris – Seven Dials from bandicam on Vimeo.

Ani Di Franco – “Evolve”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
28 Março 2003


ANI DI FRANCO
Evolve
Righteous Babe, distri. Megamúsica
8|10



Verifica-se na extensa discografia a solo de Ani Di Franco um desequilíbrio axial que, se por um lado, tende a traduzir-se numa sobrecarga de produtividade e em padrões de qualidade variáveis, a distingue, por outro, da concorrência. Ani Di Franco não é nem a “singer songwriter” ideologicamente empenhada nem a biógrafa sentimental, embora estas duas facetas se cruzem e, por vezes, se digladiem, na sua escrita musical, convocando estilos vocais e instrumentais díspares. “Evolve” contraria esta tendência. É um álbum que tira o máximo partido da banda que nos últimos tempos a tem acompanhado nos concertos ao vivo. Predominam as sonoridades jazzísticas, o swing a cavalo em vagas de sopros, um balanço menos tenso do habitual em discos anteriores. Ani percute as teclas do jazz, as feridas mas também as flores e frutos latinos (“Here for now”), mantendo um equilíbrio e um nível de composição e interpretação de extrema sofisticação, como se a rebelde de outrora tivesse cedido o lugar a uma diva toda ela classe, segundo um processo de transformação semelhante ao de Suzanne Vega. O lado mais cru e confessional encontramo-lo em “Serpentine” e aí Ani despe o “vison” para se confrontar com a sua imagem no espelho, mas também com a “mafia da indústria musical”, em dez minutos de golpes de guitarra, declamação e exorcismo que – confessa – a levaram às lágrimas.