Arquivo mensal: Setembro 2018

13th Floor Elevators – “Easter Everywhere”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
9 Maio 2003


13TH FLOOR ELEVATORS
Easter Everywhere
Sunspots, distri. Trem Azul
8|10




1967 teve como nome próprio “Psicadelismo”. Experimentava-se a cor dos abismos e os aromas do céu. Recebiam-se graças. E pagava-se por elas, claro. Roky Erickson pagou com a loucura a ousadia derramada em álbuns lendários: “The Psychedelic Sounds of The 13th Floor Elevators” e “Easter Everywhere”, ambos reeditados em formato de cartão com a respetiva remasterização sonora. Menos flipante e caótico que o álbum de estreia, “Easter Everywhere” não deixa de ser outro guia de viagem sem índice pelas regiões recônditas do cérebro. Guitarras saturadas de efeitos a improvisar alucinações e terramotos, melodias que raspam o fundo, amibas e lulas luminosas. Erickson cantava no fundo do aquário. “Baby blue” arrasta-nos para o lodo onde se ocultam pedras e corais valiosas. “Easter Everywhere” soa em 2003 com a mesma força que tinha 36 anos antes. Como os Byrds, os Grateful Dead ou os Ultimate Spinach, os 13th Floor Elevators subiram até ao último andar. Só que, uma vez lá chegado, o elevador de Rocky Erickson não parou.



Mia Doi Todd – “The Golden State”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
18 Abril 2003


MIA DOI TODD
The Golden State
Columbia, distri. Sony Musica
7|10



Apesar do nome induzir em associações maliciosas, Mia Doi Todd é um daqueles segredos bem guardados do território da pop no feminino. Com produção de Mitchell Froom e a guitarra do neo-hendrixiano Nels Cline, “The Golden State”, primeiro álbum elétrico após uma sucessão de três acústicos, é, nas palavras da autora, um “pequeno mantra” que tem tanto a ver com os montes relvados que rodeiam a Intestate 5 na Califórnia, como o Jardim do Paraíso ou uma sociedade perfeita inspirada nos ideais de Platão e Confúcio. Desprende-se um idealismo inato da música desta californiana com raízes no Oriente e na Irlanda que estudou teatro “butoh” no Japão. Fruto de uma tensão construída com base na contradição entre racionalidade e emoção. “In my age of reason/complicated by feelings/I dream of impossible things/I dream of impractical things”, canta em “Age of reason”. Como em Aimee Mann ou Nico — que Mia parece retratar compondo uma versão “quente” da diva lunar dos Velvet na faixa “Like a knife” — a violência não é explícita mas parte de um processo de autodescoberta. Que esse processo se ilumine numa espécie de ikebana musical, eis o toque de Midas de “The Golden State”.



Lisa Germano – “Lullaby for Liquid Pig”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
18 Abril 2003


LISA GERMANO
Lullaby for Liquid Pig
Ineffable, distri. Edel
8|10



Quase sempre os lugares mais interessantes da pop são os mais misteriosos e difíceis de encontrar. Não é fácil descortinar entre os vultos do bosque a cabana onde Lisa Germano se esconde e projeta, em noites de insónia, os fantasmas da sua fantasia. O chão está molhado, forrado de vermes e cetim apodrecido. Das paredes tombam farripas de papel de cores indefinidas, desbotadas pela chuva, como as canções e as palavras que escorrem tristemente de “Lullaby for Liquid Pig”. Podemos imaginar uma sessão de espiritismo. Podemos imaginar “The lodge” — a capela do medo que Lynch instalou no meio do nada de “Twin Peaks”. Podemos mesmo ver, nas fotos da capa, um corpo suspenso no ar ou encurralado a um canto de um quarto vazio. Ou a floresta onde Lisa corre como uma noiva perdida. Predominam a melancolia, sombras coleantes, cânticos de solidão e amores de sentido único, pianos bolorentos, correntes de ar eletrónica a compor o mesmo tipo de emoções veiculadas pelos This Mortal Coil. Lisa sussurra-nos ao ouvido farrapos de melodias decalcadas dos seus discos anteriores, como um carrocel que não pára de girar no mesmo sítio mas continua a salpicar-nos de sangue.