Per Gudmundson, Ale Möller, Lena Willemark
Frifot (8)
ECM, distri. Dargil
Voltou tudo ao início. Depois de ser título do álbum de estreia do trio para passar a designação oficial do grupo, com a qual foi rubricado o disco anterior, “Järven”, “Frifot” volta a aparecer como título no novo trabalho desta formação sueca militante nas fileiras da editora ECM. Talvez pela presença de Per Gudmundson, na rabeca e gaita-de-foles sueca, os discos soam mais tradicionais no formato de trio do que os assinados apenas pela dupla Möller/Willemark (“Nordán”, “Agram”). À semelhança de anteriores ocasiões destacam-se as vocalizações de Lena Willemark, como em “Tjugmyren”, cuja utilização de uma antiga técnica vocal através da qual as pastoras tentavam comunicar com os animais, adquire curiosamente, com o seu radicalismo, inflexões contemporâneas. Também as baladas como “I hela naturen” servem para a cantora exercitar os seus múltiplos talentos vocais num álbum que, apesar da sua absoluta integridade e cuidado posto na produção, não faz esquecer quer as duas obras apontadas da dupla Möller/Willemark quer o marco que continua a ser – enquanto trabalho pioneiro na introdução da folk escandinava no universo musical da ECM – “Rosensfole”, da cantora norueguesa Agnes Buen Garnas com o seu compatriota saxofonista Jan Garbarek. Retenha-se um tema como “Käre Sol”, uma saudação ao sol que nasce para pôr termo ao longo inverno árctico, ao qual a combinação da gaita-de-foles com a bombarda medieval emprestam um cunho de música antiga. Um álbum clássico que não apresenta grandes inovações em relação ao passado.
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Ballet (6)
Ove Johansson
In a Different World (8)
Jormin, Gustaffson, Jormin
Opus Apus (6)
Susanna Lindeborg
Susanna Lindeborg (?)
Surge
For the Time Being (7)
LJ, distri. A Orelha de Van Gogh
A LJ é uma editora de novo jazz com sede na Suécia cujo catálogo passou a estar disponível em Portugal. Abre-se, deste modo, uma nova frente de produção e divulgação de um segmento musical até há pouco exclusivamente reservado à EDM, juntando-se o novo selo à Rune Grammofon norueguesa, na área da música electrónica, e à Xource/Resource, também sueca, mais voltada para a world music e para as reedições.
Do pacote recém-chegado às nossas mãos destaca-se o álbum, primeiro a solo, do saxofonista Ove Johansson, patrão da editora, cuja discografia com o grupo Mwendo Dawa ascende já aos 18 álbuns. Em “In a Different World” Johansson combina o saxofone tenor com o sintetizador e esculturas sonoras, numa aliança entre a electro-acústica, o fraseado solitário e a criação de ambiências electrónicas com epicentro entre a obra solitária de John Surman e o experimentalismo, numa veia semelhante a Hans Jakob-Draminsky. Esquemático e conceptual, “In a Different World” explora paisagens futuristas despojadas do blues e a exigir novas formas de entender o jazz.
De igual modo fortemente apoiada na tecnologia electrónica, “Solo”, da pianista Susanna Lindeborg, também elemento preponderante nos Mwendo Dawa e fundadora do grupo feminino Salamander, propõe um registo diverso do do saxofonista, alternando solos de piano com devaneios de pop-jazz sintético, algures entre a new age minimal e o exibicionismo primário em solos e sequenciações rítmicas efectuados em sintetizadores analógicos. De audição agradável, mas musicalmente conformista, a música de Lindeborg está longe da classe com que Anette Peacock ou Carla Bley, duas mulheres do jazz, tocaram o universo da pop.
“Opus Apus” é o trabalho mais “duro” deste lote de discos. Nele o trio Christian Jormin (bateria e percussão), Mats Gustaffson (companheiro, entre outros, de Barry Guy, Paul Lovens e Derek Bailey e ultimamente bastante requisitado pela cena pós-rock de Chicago, nos saxofones e flautofone) e Anders Jormin (parceiro de Charles Lloyd e Don Cherry, no baixo e violoncelo) pautam o seu discurso por uma aproximação ambiental ao free jazz e pela criação de um tempo em distensão construído sobre lentas metamorfoses tímbricas e subtis oscilações na improvisação. Tudo decorre lentamente e quase sempre na sombra. Sobre texturas horizontais do baixo e do violoncelo, o sax entrega-se a divagações e convulsões circulares, enquanto a bateria entra e sai de cena em solos ou apontamentos. Uma música marcada pela tensão, que, apesar de os temas terem por título várias designações de aves, em latim, nunca chega verdadeiramente a descolar.
Excesso de formalismo é também o principal defeito de “Ballet”, dos Entra, e “For the Time Being” dos Surge, dois álbuns absolutamente compreendidos entre os parâmetros da ECM. Em ambos os discos é nota dominante o trompete de Staffan Svensson. Tão tecnicamente perfeito como emocionalmente frio. Mas se “Ballet” poderia ser, pelo menos em teoria, motivo de múltiplas conversas do trompete com o saxofone de Thomas Gustafson e os teclados de Harald Svensson, com a base rítmica entregue ao baixo de Anders Jormin e à bateria de Audun Kleive, acaba por ser no formato trio dos Surge que Staffan Svensson encontra os parceiros que melhor enquadram a sua tendência para o protagonismo. Sobretudo os teclados de Bo Wiklund conferem a “For the Time Being” uma variedade e riqueza de desenhos que em “Ballet” depressa se esgotam na escassez de motivos. O jazz que vem do frio tem dificuldade em descongelar.
“Walking into Clarksdale” é o segundo álbum fruto da colaboração de Jimmy Page e Robert Plant, as duas figuras carismáticas dos Led Zeppelin, banda seminal do heavy metal dos anos 70. Estão agora mais maduros e seguros de si. E tradicionais.
No final dos anos 60, início dos 70, era tudo uma questão de pureza: ou alucinação pura ou adrenalina pura, conforme o ácido empurrava o cérebro para pôr em ordem o psicadelismo no quadro mais seguro do progressivo ou obrigava o corpo a descarregar doses maciças de electricidade e óleos pesados de hard rock. Os Led Zeppelin, desde o início, confundiram um pouco estes dois conceitos.
Em 1969, ano de lançamento do álbum de estreia do grupo, intitulado simplesmente “Led Zeppelin”, o rock visceral com as bases bem firmes nos blues não dispensava a companhia de melodias psicadélicas, que iam buscar a sua inspiração à música e ao misticismo orientais. Ao longo de toda a carreira e discografia dos Led Zeppelin, até ao seu capítulo final, “In through the out Door”, de 1979, foi notória esta dicotomia entre a procura de uma beleza depurada próxima das raízes tradicionais e o lado mais violento e visceral do rock’n’roll. Dicotomia que atingiu a sua máxima expressão no fabuloso quarto álbum do grupo, editado em 1971, conhecido como o dos quatro símbolos, com a inclusão do celestial “Staiway to heaven” e a participação da diva da folk music britânica, Sandy Denny (entretanto falecida), no tema “The battle of Evermore”. Acrescente-se que nomes da cena folk inglesa da época, como Bert Jansch, os Incredible String Band e Roy Harper faziam parte do leque de preferências de Jimmy Page e de Robert Plant, respectivamente guitarrista e vocalista dos Led Zeppelin.
Jimmy Page e Robert Plant são os dois personagens principais de uma história marcada pela magia negra (um dos “hobbies” de Page) e pelo infortúnio (o baterista da banda John Bonham morreu e apressou as exéquias do grupo) que agora renasce com um novo capítulo nos anos 90. E esta ligação antiga com a música tradicional é fundamental para a compreensão das novas direcções musicais seguidas por esta dupla que, em 1994, lançou o álbum “No Quarter” (que incluía ainda versões de temas dos Zeppelin como “Gallows pole” e “Kashmir”) e agora acaba de assinar a continuação com a edição do novo “Walking into Clarksdale”.
“No Quarter” bebia a inspiração nos ritmos africanos. A digressão que se lhe seguiu contava com a participação de uma miniorquestra de músicos egípcios, em “Kashmir”. Refira-se ainda que um dos músicos da banda que acompanhava os dois “zeps” no álbum e nos espectáculos ao vivo era o tocador de sanfona Nigel Eaton, membro ilustre da folk inglesa e ex-elemento dos revolucionários Blowzabella.
O novo projecto retoma esta convivência com as sonoridades tradicionais, nomeadamente com a música árabe, numa altura em que tanto Page como Plant não escondem a sua admiração por artistas como os Transglobal Underground (cujo teclista toca numa faixa do novo álbum, “Most high”), o grupo de percussões “sikh” The Dhol Foundation e a cantora de ascendência árabe Natasha Atlas. Antes, já Jimmy Page viajara pelo Nordeste do Brasil e Plant pela rota da seda, na Ásia Central.
O álbum foi gravado nos estúdios Abbey Road e uma das maiores surpresas foi a escolha para produtor de Steve Albini, responsável por trabalhos com os Nirvana, P. J. Harvey, Rapeman, Bush, Big Black e Pixies e conhecido como um “ditador” que costuma impor, a todo o custo, as suas ideias. Não é essa, porém, a opinião dos dois Led Zeppelin. Para eles tratou-se tão-só de uma questão de disciplina e de sintonia, até tendo em conta que qualquer dos projectos atrás enunciados dependem, em grande parte, da presença das guitarras, que constituem um dos trunfos musicais da dupla. Considerando que Jimmy Page é considerado um dos maiores guitarristas de rock de sempre, tratou-se então de tirar o máximo partido de uma abordagem que, neste álbum, é fundamentalmente espontânea e ambiental.
Steve Albini funcionou, neste caso, como o homem de vastos recursos técnicos que, segundo Plant, “soube colocar o microfone nos sítios certos” e que não se sentiu constrangido com a reputação dos artistas envolvidos, emitindo a sua opinião própria sobre o desenrolar das gravações, distinguindo “as ideias que resultam” das que podem singelamente ser rotuladas como “merda”. O resultado final não defrauda as expectativas nem o passado do grupo, ainda que, como reconhecem tanto Plant como Page, “seja impossível, à medida que a idade aumenta, arrebatar indefinidamente uma audiência jovem e viril”. Sosseguem, porém, aqueles que ainda sentem os ouvidos a zunir com a batida infernal de “Whole lotta love”” e “Moby Dick”, porque Robert Plant e Jimmy Page estão longe de ter chegado à andropausa.