Arquivo mensal: Julho 2017

Luar na Lubre – “Cabo do Mundo”

10 de Dezembro 1999
WORLD


No mar de Lugris

Luar na Lubre
Cabo do Mundo (8)
WEA, distri. Warner Music


lnl

A par dos Milladoiro os Luar na Lubre são hoje a banda galega cujo som consegue juntar um apelo universalista ao apego pelas raízes. No caso dos Luar na Lubre a integração no catálogo de uma multinacional como a Warner, coincidente com a edição do anterior “Plenilunio”, teve como consequência uma abertura do som e a sofisticação de uma produção feita a pensar no mercado internacional da “world music”. O novo “Cabo do Mundo”, curiosamente, investe numa direcção diferente da do seu antecessor. Ainda que se mantenha o cuidado posto na produção, é notória a atenção prestada pelo grupo à composição e à execução instrumental, que neste álbum atingem os níveis mais elevados de sempre na carreira dos Luar na Lubre. Nunca como em “Cabo do Mundo” soou tão límpida e carregada de emoção a voz da cantora Rosa Cédron – que num tema como “Devanceiros”, curiosamente, faz lembrar Uxia e em “Cantiga de berce” cultiva o folk progressivo britânico de bandas como Mellow Candle, Trader Horne e Tudor Lodge – nem tão cheias de coisas para dizer, a gaita-de-foles e a sanfona do “maestro” Bieito Romero. “Cabo do Mundo”, dedicado ao pintor galego Urbano Lugris (autor de uma obra surrealista à maneira de Magritte ou De Chirico que versou sempre a Galiza céltica, em odes ao verde das florestas a ao azul do mar) seria o melhor álbum de sempre dos Luar na Lubre se com ele navegássemos apenas por temas como o fabuloso “Nau”, verdadeiro hino à Galiza céltica, e apesar da influência do amigo de longa data, Mike Oldfield, se fazer sentir em arranjos como os de “Crunia:Maris”, com tubular bells e tudo… Infelizmente os Luar na Lubre não conseguiram ou quiseram resistir ao mais velho pecado da música galega, a “irlandização”, ou melhor, neste caso a “anglicização”, como uma versão de “Scarborough fair” (a balada mil vezes tocada por bandas folk principiantes depois de ter sido popularizada por Simon & Garfunkel) e, logo a seguir “Canteixeire”, uma recuperação do tradicional “John Barleycorn” com arranjo idêntico ao de John Renbourn em “A Maid in Bedlam”, aqui apesar de tudo salvo pelo desempenho do convidado Erick Riggler, nas “uillean pipes”. Um álbum apaixonante e apaixonado pelo mar, como respira na pintura de Lugris, autor de todas as imagens do disco.



Camerata Meiga – “Habelas Hailas”

Sons

17 de Dezembro 1999
WORLD


Camerata Meiga
Habelas Hailas (7)
Resistencia, distri. Sons da Terra


cm

Na continuação dos Xeque Mate surgem os Camerata Meiga conjugando em “Habelas Hailas” vários elementos daquele agrupamento com uma série de convidados dos quais fazem parte os portugueses Amélia Muge (voz principal), António José Martins e José Manuel David, ambos em adufe. Pretendendo-se imune a quaisquer purismos étnicos, “Habelas Hailas” denota, como não podia deixar de ser, o aproveitamento de linguagens que vão da música de câmara a fusões vagamente jazzísticas e à utilização de instrumentos alheios à tradição galega como o saxofone, a marimba, percussões árabes e alaúde egípcio. A folk galega costuma dar-se mal com este tipo de “heresias”, não tanto pelo acto em si, mas pelas excessivas plastificação e cedências que têm resultado de experiências como as levadas a cabo pelos Fia na Roca, Na Lua (ao contrário dos recentes e interessantes desenvolvimentos a solo da sua ex-vocalista Uxia), Matto Congrio, Armeguin, Leixapren, Brath ou, mais recentemente, Cristina Pato. Os Camerata Meiga precaveram-se, até certo ponto (há faixas de encher-chouriços, apesar de bem tocadas, como “Marcha do pelegrin”…) destes erros do passado e se “Habelas Hailas” não consegue atingir nunca o brilhantismo com as suas incursões no rock ou nas sonoridades árabes e africanas (“Ai lá”, a fazer lembrar certos ambientes de “Galinhas do Mato” de José Afonso) também não faltarão à sua música motivos de interesse, a começar pelas vocalizações de Amélia Muge, em “A tentação” (em português, com música sua e letra de Hélia Correia), “Bailai ben” (com personalidade absolutamente galega…), “Da folliña dunha rosa”, com os seus arranjos sinfónico-sintéticos, e “Adiós meu meniño”, onde assina uma das melhores interpretações no disco.



Dervish – “Midsummer’s Night”

Sons

17 de Dezembro 1999
WORLD


Dervish
Midsummer’s Night (9)
Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção


dervish

No capítulo da melhor música tradicional da Irlanda não há pai para os Dervish. Disco após disco, do já distante “The Boys of Sligo” ao recente duplo ao vivo “Live in Palma”, passando pelos exemplares “Harmony Hill” e “Playing with Fire” e a obra-prima “At the End of the Day”, a banda de Cathy Jordan, Tom Moore, Shane Mitchell, Liam Kelly, Séanus O’Dowd, Michael Holmes e Brian McDonagh não tem parado de evoluir, chegando a este “Midsummer’s Night” com o estatuto de banda clássica da “irish folk”. Mais do que nunca fazem-se sentir as raízes das quais o grupo cresceu. Ouça-se o violino e o jorro de energia que brota de um tema como “Séan bháin” e, logo a seguir, a divinal interpretação vocal de Cathy Jordan. Não é preciso procurar muito no passado para confirmar que os Dervish ocupam hoje na folk irlandesa o mesmo lugar que os Bothy Band ocuparam nos anos 70, sendo Cathy a legítima herdeira de Triona Ní Dhomnaill. Em “Midsummer’s Night” não há, aliás como nunca houve, preocupações em inventar. Para os Dervish a viagem faz-se no sentido do mergulho continuado na alma e na música da ilha. Os músicos da banda respiram a música que fazem, confundindo-se com ela. É isso que distingue os mestres e lhes concede o dom da liberdade. Não é preciso procurar longe o que está perto. Nos jigs e reels, como nas baladas, sente-se a proximidade de uma essência. De uma terra e do seu sonho. Quando ouvimos Cathy Jordan cantar “The banks of sweet Viledee”, “Èrin grá mo chroi” (aqui num registo tímbrico diferente do habitual, mais aquático e lunar), “There was a maid in her father’s garden”, “An-T-‘Ull”, “Bold Doherty” ou “Red-haired Mary”, somos confrontados e transportados pela melhor música vocal que hoje se pode ouvir na Irlanda. “Midsummer’s Night” é mais um clássico dos Dervish e um triunfo para Cathy Jordan, elevada definitivamente à condição de deusa. Em pleno voo.