Arquivo mensal: Julho 2016

Entrevista: The Divine Comedy / Neil Hannon – “Lascívia Animal”

Pop Rock

19 de Junho de 1996

The Divine Comedy actuam em Portugal e lançam novo álbum

Lascívia animal

“Inspiration” e “Promenade” e o mais recente “Casanova” são, até à data, três momentos de um percurso de que não se conhece, por enquanto, a chave certa. O mistério dos Divine Comedy é o lugar de eleição de Neil Hannon, um irlandês de 25 anos que faz da afectação modo de vida e da maquilhagem musical uma lei.


nh

“Casanova” é teatro, sexo, amores canibais e um caleidoscópio de referências que vão de Burt Bacharah a Marc Almond, de Scott Walker a Peter Hammill. A pop na voz de um excêntrico. Ou de um comediante. Entre outras coisas, Neil Hannon explicou ao PÚBLICO a estratégia de choque para se ir para a cama com alguém.

PÚBLICO – “Casanova” representa uma mudança radical em relação ao anterior “Promenade”, até a sua maneira de cantar mudou. A que se deve esta inflexão?
NEIL HANNON – Quanto à voz, aprendi a cantar de uma forma decente (risos). Basicamente, altero tudo em cada novo álbum. Depois, deram-me desta vez uma grande quantidade de dinheiro para o fazer, o que me permitiu fazer canções superarranjadas (“Over arranged”m no sentido de excesso). O ambiente também é inteiramente diferente, mas o princípio por detrás das canções é o mesmo…
P. – E esse princípio é…
R. – Oh… Não sei! São canções que são eu. Encaradas de cada vez de um ângulo diferente.
P. – Pode dizer-se que trabalhou desta vez como um actor?
R. – Num certo sentido, sim. Mas por outro lado há neste álbum uma honestidade maior. Pretendi descrever o que me estava a acontecer de facto, mais do que em “Promenade”, onde sobretudo fantasiava. “Casanova” é mais corajoso.
P. – Porque escolheu a personagem de Casanova para base temática?
R. – Ironia total. Obviamente, não andei atrás de duas mil mulheres, mas dei o meu melhor.
P. – O amor é um jogo perigoso, que pode conduzir ao inferno, como diz em “Through a long and sleepless night”?
R. – No início, nunca parece perigoso, não é? Começar algo que não se termina pode ser um dos caminhos…
P. – A expressão “louco de amor” diz-lhe alguma coisa?
R. – O amor não teve que ver tanto como isso. Foi mais lascívia animal.
P. – Uma forma de paixão?
R. – Sim, a falta de uma coisa e o excesso de outra.
P. – Há neste álbum uma série de influências ou de permutas com universos musicais de outros autores. Scott Walker, por exemplo.
R. – Não se pode dizer que partilhe da sua visão, mas certamente que partilho do cepticismo da sua obra dos últimos anos da década de 60. A sua vertente mais actual, expressa em “Tilt”, é demasiado sombria para mim.
P. – Quer dizer que não é uma personalidade tão estranha quanto ele?
R. – Não me consigo imaginar a fazer um álbum como esse. Gosto em demasia da melodia. Tenho no subconsciente uma sensibilidade pop. Como se me tivesse alimentado de pop e vivido com ela toda a vida. Não se pode fugir a isso. Mesmo que quisesse ser vanguardista, provavelmente não o conseguiria. A única coisa que ambiciono é escrever canções engraçadas.
P. – E Peter Hammill. Há faixas onde canta e até grita como ele…
R. – Tem havido muitas pessoas a dizer-me o mesmo, mas a verdade é que não conheço a sua música. É muito embaraçoso.
P. – Que discos ouvia na sua adolescência?
R. – Comecei por ouvir alguns horrores dos anos 80, como Nik Kershaw. Evoluí para os U2, como toda a gente nessa altura, e diplomei-me com os REM, mais tarde com os My Bloody Valentine, fechando o ciclo com o retorno aos anos 60 e a Scott Walker.
P. – David Bowie?
R. – Nunca o ouvi com muita atenção, embora o admire.
P. – Citei-o porque a introdução de “Songs of love” lembra fortemente o Bowie de “The Man who Sold the World”.
R. – Acha? Basicamente, tenho ouvido sempre uma quantidade de música, por acidente, na televisão, por exemplo. Há muita música neste mundo e não se pode fugir a ela. Procuro não ouvir muita coisa em casa, voluntariamente, isso não ajuda a ser original, acidentalmente podemos começar a usá-la.
P. – Hoje que toda a gente fala do “easy listening”, assume ter sido influenciado por este género musical em “Casanova”?
R. – Sem dúvida que há elementos de “easy listening”, mas não estava consciente do movimento até ao momento em que terminei o álbum. Na verdade, aquilo que as pessoas classificam como “easy listening” é em geral música pop orquestral dos anos 60, música por que me tenho interessado nos últimos cinco ou seis anos. Muita dessa música é tudo menos fácil (“easy”), muito menos o meu álbum, que é mais do género “hard listening”…
P. – É impossível não pensar em Marc Almond, dos Soft Cell, quando o ouvimos a si na abertura do disco, em “Something for the weekend”, no mesmo ambiente de festa decadente…
R. – Sem dúvida, é muito Marc, embora sempre achasse que ele canta de uma forma demasiado rude, aguçada, para o meu gosto. À parte isso, admiro-o muito. Para dizer a verdade, não o ouvi muitas vezes, apenas me ouço a mim próprio (risos).
P. – “Charge” é um universo à parte, onde a sua voz se passeia por vários registos, desde o teatro de Kurt Weill à personificação de um “crooner”.
R. – Mudo constantemente. Sou como um monstro, um monstro cheio de lascívia. Esse tema, em particular, é bastante violento, uma espécie de má estratégia militar que pode ser interpretada de várias maneiras. É um tema difícil de analisar. Quando escrevi o que pode ser considerado o primeiro lado do álbum, a preocupação era desenvolver várias imagens baseadas no facto de se fazer qualquer coisa para ir para a cama com alguém. “Charge” é como que o zénite desse estado de espírito, uma tentativa desesperada. No resto do álbum, foi como se partisse tudo em bocadinhos para descobrir o que é que se esconde e existe realmente por detrás de tudo isto. É completamente só instinto sexual.
P. – Que processo seguiu para compor este autêntico caleidoscópio que é “Casanova”?
R. – Cinco por cento de inspiração mais 95 porcento de trabalho duro. Há na minha música muito mais de instintivo do que me é em geral atribuído. Uma espécie de fluência que ao longo do processo de gravação acrescenta pormenores que não existiam no momento da composição.
P. – Como é que transpõe esse processo para o palco?
R. – Com uma banda tradicional, com piano, órgão Hammond, bateria baixo, duas guitarras e eu a cantar, o mesmo formato que utilizarei na minha actuação em Portugal.
P. – “Casanova” é um trabalho de paixão ou um trabalho de ironia?
R. – De certo que não é um trabalho de amor! Mais de desespero. Tive bastantes problemas em descobrir o que fazer depois de “Promenade”. Este álbum nasceu de uma frustração.
P. – O trabalho de um matemático ou o trabalho de um padre?
R. – Certamente que quero passar uma mensagem para as pessoas, mas ao mesmo tempo acho que não tenho o direito de o fazer, sou apenas um simples irlandês (risos).
P. – Uma questão de moral, portanto?
R. – Tenho demasiadas morais no coração, acho eu.
P. – O trabalho de um amante de livros (o “booklover” de “Promenade”) ou o trabalho de um amante de espectáculo?
R. – Apenas o trabalho de um amante.
P. – Nesse tema de “Promenade”, faz uma lista de escritores. No novo disco, na introdução de “Theme from Casanova” descreve a ficha técnica. Qual a explicação para este gosto pela enumeração?
R. – Começou por ser apenas uma piada. A seguir a uma canção como “Through a long and sleepless night”, procurei no tema seguinte uma espécie de alívio dessa tensão acumulada, como uma reacção química. Não resultou tão bem como quis porque no final de “Theme from Casanova” voltam a acontecer coisas estranhas, como uma trovoada. É uma das minhas músicas preferidas.
P. – Ainda a propósito desse tema, fala de esquizofrenia…
R. – Porque vai do ridículo ao sublime, em quatro minutos. É uma súmula de tudo o que quis dizer no álbum, sem ter de cantar uma única palavra.
P. – Três cores para definir “Casanova”?
R. – Púrpura, escarlate e uma espécie de azul-turquesa pálido e doentio…
P. – Vamos acabar com o velho jogo das associações. Dou-lhe um nome e você faz um comentário rápido. Está de acordo?
R. – Não sou muito bom nesse jogo, mas vamos a isso.
P. – Ray Davies.
R. – Terry encontra-se com Julie.
P. – Bryan Ferry.
R. – O senhor sexo.
P. – Phil Spector
R. – “Wall of sound”
P. – Burt Bucharah
R. – Um encanto encantador.
P. – Julie Andrews
R. – Não consigo deixar de pensar na aparência dela agora, uma visão que não é nada agradável.
P. – Deus
R. – Inverosímil.
P. – Neil Hannon
R. – Ainda mais inverosímil.



Concertos – Dead Can Dance – Dead Can Dance Assombram Madrid – “Espanta Espíritos”

Pop Rock

26 de Junho de 1996

Dead Can Dance assombram Madrid

ESPANTA ESPÍRITOS

Madrid assistiu no Sábado passado ao ritual gótico dos Dead Can Dance perante uma assistência alucinada que se vestiu a preceito de “zombies” e vampiros para os receber. Tambores, muitos tambores, envolveram a voz sobrenatural de uma princesa dos livros e os espectros dançaram em liberdade em noite de “Haloween”.


dcd

A tarde fora triste para “nuestros hermanos”. Tragédia nacional, com a selecção espanhola a sucumbir aos pés dos algozes ingleses. Só faltavam os Dead Can Dance para o sábado ser “sabbath” negro em Madrid. Dia de finados. Noite boa para a banda de Lisa Gerrard e Brendan Perry encher de sons lúgubres e gemidos góticos o Teatro Monumental da capital espanhola. E, já agora, de pessoas, uma vez que a sala estava à cunha.
Ambiente a condizer. O negro imperava nas vestes de uma falange jovem da assistência. Elas com “look” vampirela, rendas e luto, cabelos eriçados, maquilhagem fosforescente, bruxinhas sensuais a afiar a pose e as garras. Algumas pintadas de branco marmóreo para melhor se parecerem com cadáveres. Eles ao melhor estilo Robert Smith ou, na versão “hard”, Eduardo Mãos de Tesoura. Quem não soubesse, julgaria tratar-se da enésima sessão de “Rocky Horror Show”. Mas não, eram os Dead Can Dance, na sua actual personificação de fantasmas do mundo, também eles vampiros de sons e tradições.
Passavam poucos minutos das dez quando a banda subiu ao palco. Oito músicos. Todos vestidos sem nada de especial à excepção de Lisa Gerrard que apareceu envolta em vestes de princesa medieval, túnica de um branco imaculado até aos pés, um manto azul-turquesa a cobrir-lhe os ombros, o cabelo louro, comprido, entrançado à volta da cabeça em forma de tiara, emoldurando uma face de palidez sobrenatural arrancada a um romance de Radcliffe. Na sua frente, uma cítara (saltério), que tocou como uma feiticeira a dar vida a sinos e cristais.
Esperava-se que os Dead Can Dance fizessem rodar as canções do seu novo e magnífico álbum, “Spiritchaser”, onde põem em destaque a faceta mais ritual da sua música. Afinal, num alinhamento de 14 temas, fora os “encores”, apenas quatro saíram desse disco: “Nierika”, a abrir, “Song of the dispossessed”, “The snake and the moon” e “Indus”, no fecho. Talvez porque as subtilezas que caracterizam “Spiritchaser” não se compadeçam por enquanto com as limitações técnicas de uma actuação ao vivo.
As percussões dominaram. Batuques, tambores, derboukas, bendirs, “rattlesnakes”, pequenas campainhas… “Nierika” e “Rakim” ribombaram, causando sobressaltos nos estômagos, numa invocação aos espíritos da Natureza que deu razão às doutrinas animistas professadas pela banda. Ouviram-se cantar as forças elementares, rochas, feras e vento, mas também a erva, os calhaus, as flores e pequenos bichinhos com muitas patas e antenas.
“Song of the dispossessed” mostrou Brendan Perry numa “imitação” vocal de Sting e “Yulunga” soltou da tumba as memórias do canto gregoriano, das trevas e luzes da Idade Média, embora sem os sintomas de peste que infectam as flores bizantinas dos SPK, em “Zamia Lehmanni”. O gelo derreteu-se em seguida com o Brasil a torcer-se de samba no balanço de “The snake and the moon”, para na parte final Brendan Perry experimentar as suas aptidões como guitarrista.
Chegados a “Tristan”, Lisa deixou ficar nos bastidores o manto de brancura, para se transformar na própria imagem de uma alma penada, errando por cânticos de súplica e apelos a divindades pagãs. Tristão e Isolda, ela e Brendan em diálogo de necromantes, sobre a liturgia de um órgão de filmes de terror. Neste, como em todos os temas que cantou ao longo da noite, Lisa demonstrou a imensa gama de potencialidades e registos de que a sua voz é capaz, qual Monserrat Figueras pop, borboleta esvoaçando entre as estrelas mas também vítima da sedução dos vermes e da putrefacção.
O “slow” e vocalização “à maneira antiga” de salão de baile, de Brendan, em “Dolphins”, foram uma parte gaga para esquecer, o mesmo não acontecendo quando Lisa solou pela primeira vez na cítara, em “Greek rembetiki”, de ressonâncias bizantinas. Mais guitarradas, em “American dreams”, antecederam o final, de novo em directo da campa, com seres saídos das profundezas a porem um sol negro pendurado sobre “Indus”.
Para trás tinham ficado quase duas horas de transe e nem uma única palavra dirigida a um público que não poderia ser mais fanático nem vibrante. Só já perto do final é que Lisa e Brendan se libertaram da tensão, consentindo em sorrisos que traíram o espírito de celebração “zombie” da noite. George Romero não teria encenado melhor esta procissão de figuras e sons em trânsito entre este mundo e o outro. Se é verdade, como já dissemos, que o velório gótico se sobrepôs aos rituais “etno” de “Spiritchaser”, não o é menos que os Dead Can Dance souberam teatralizar na perfeição o seu “grand guignol” de fantasmas diplomados nos vários folclores do globo.
Três encores, exigidos e recebidos pelo público madrileno com “olés”, fizeram esquecer em definitivo a desfeita que lhe fora feita de tarde, aos pontapés na bola, pelos bifes. Um “bolero” de mortos-vivos, uma batucada infernal no instrumental “Tanamakoa” e “Dreams made flesh”, com Lisa e Brendan fazendo par na cítara e nas vozes, puseram ponto final no “rondó”. Os sonhos fizeram-se carne e espantaram os espíritos. Dead Can Dance. Os mortos podem dançar.



Monty Python – “And now, for something completely different…”

PÚBLICA

24 Novembro 1996

“And now, for something completely different…”

John Cleese era a figura com maior carisma dos Monty Python, o mais fantástico grupo de humoristas de todos os tempos. Monty Python’s Flying Circus, a série de televisão que os tornou célebres do mundo subatómico aos confins da galáxia, está a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa. Será que o Governo português vai cometer o mesmo erro que o seu congénere britânico cometeu há 25 anos e “gastar menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional?” John Cleese “dixit”.


mp

Um homem de gabardina, John Cleese, entra numa loja de animais para protestar. Venderam-lhe um papagaio morto. O vendedor, Michael Palin, procura a todo o custo convencê-lo de que o animal está apenas a dormir. O homem bate com a ave várias vezes no tampo do balcão. “Está morto, faleceu, finou-se, bateu a bota, deu o berro, entregou a alma ao criador!” O outro insiste: “Não, não! Está a dormir!” magnífica metáfora sobre a condição humana. E um dos “sketches” emblemáticos dos Monty Python e do seu Flying Circus, série que a RTP exibiu recentemente e cujo primeiro pacote se encontra a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa.
O “sketch” do papagaio, como é conhecido, tem, à semelhança de muitos outros, o seu “script” totalmente transcrito para uma das várias páginas da Internet dedicadas aos Monty Python, a maior “troupe” de humor de todos os tempos. Mestres absolutos do “nonsense”, o humor dos Monty Python marcou a sua época, entre 1969 e 1974, cinco anos que abalaram o tradicional conservadorismo britânico através da série televisiva Monty Python’s Flying Circus.
O impacte atingiu Portugal dois anos a seguir ao 25 de Abril, em 1976, criando-se desde logo um fenómeno de culto, reforçado na década seguinte, com uma primeira reposição, interrompida a meio. Este ano, os Monty Python regressaram pela terceira vez aos ecrãs nacionais, com a exibição diária da série, na RTP1, que, uma vez mais, não respeitou a sua ordem cronológica nem contemplou a totalidade dos episódios.
Pior ainda, talvez com receio de chocar ou ferir susceptibilidades (passado um quarto de século, a televisão do Estado ainda tem destes medos!), a castidade dos programadores levou-os a arrumar, é o termo, este monumento ao humor universal num horário obsceno, já de madrugada e com a agravante de o retalhar com odiosos intervalos. Decerto em nome dos bons costumes e com a pia intenção de poupar o grande público à iconoclastia e à influência nefasta que o grupo poderia exercer sobre as mentes da nossa juventude.
Os que eram fanáticos, claro, não perderam um episódio, mantendo-se firmes no seu posto, nem que tivessem de esperar até às quatro da manhã. Ou então ligando o gravador. É que tão bom como ver pela primeira vez um episódio dos Monty Python é revê-lo vezes infinitas. Mas os novos, os desconhecedores, todos os que não tiveram nem o privilégio nem a felicidade de ter conhecido a obra dos Monty Python ficaram a perder. Porque ainda estavam mortos? Não, porque estavam a dormir!…
A partir de agora, porém, toda a gente vai poder desfrutar em casa do humor dos Monty Python. Para os tais fanáticos – pois não se pode gostar dos Monty Python de outra maneira, que não os venera detesta-os – é a oportunidade de conservar para a posteridade, nas melhores condições técnicas, o objecto da sua devoção. Para levar para casa, existe, para já, um primeiro volume, contendo os primeiros quatro episódios da primeira série: 126 minutos de delírio, de génio, de pura religião com o seu templo e os seus sumo sacerdotes, contendo “sketches” clássicos como (só a menção dos títulos, provoca um júbilo irreprimível) “Artur ‘duas cabanas’ Jackson”, “A anedota mais engraçada do mundo”, “O homem com três nádegas”, “O problema do rato”, o antológico “sketch” “do Restaurante”, “Cotoveladas” ou “Autodefesa”. Todos sublimes. Todos capazes de enviar um cérebro inteligente para o hiperespaço do riso. Aliás, os tradutores encontraram bons títulos descritivos, como “Palestra francesa sobre carneiros aeronaves” ou “No tribunal (testemunha no caixão/cardeal Richelieu)”, opção deliberadamente esotérica, dirigida, em primeiro lugar, aos iniciados.
Formavam os Monty Python cinco personalidades únicas: John Cleese, Eric Idle, Micahel Palin, Graham Chapman e Terry Jones. Um sexto elemento, Terry Gilliam, era o responsável pelas montagens animadas da série, embora também tivesse esporádicas participações como actor. Mais tarde viria a notabilizar-se na realização, através de filmes como “Brazil”, “O Rei Pescador” ou o recente “12 Monkeys”. Neil Innes, do grupo cómico musical Bonzo Dog Doo Dah Band, e Carol Cleveland foram dois dos convidados mais assíduos. Graham Chapman – o “Brian” da longa-metragem do grupo “A Vida de Brian” – já morreu.
Com o fim da série, que mantiveram intermitentemente durante cinco anos na BBC, iniciaram um novo período de actividade, durante o qual, ainda como Monty Python, fizeram quatro longas-metragens, qualquer delas histórica, “And now for Something Completely Different…”, de 1971, inédito em Portugal, “O Cálice Sagrado”, de 1975, “A Vida de Brian”, de 1979, e “O Sentido da Vida”, de 1983. A partir daí, cada um seguiu uma carreira em separado, com esporádicas associações em filmes ou documentários.
O conjunto total com o genérico Monty Python’s Flying Circus – atenção, tomem nota, para não deixar escapar nada – divide-se em quatro períodos temporais, correspondentes a outras tantas séries de programas. A primeira foi para o ar na BBC a 5 de Outubro de 1969, aí se mantendo até 11 de Janeiro de 1970. É constituída por 13 episódios. A segunda é formada pelos episódios 14 a 26 que estiveram em exibição entre 15 de Setembro e 22 de Dezembro de 1970. A terceira, com os episódios 27 a 39, durou de 19 de Outubro de 1972 a 18 de Janeiro de 1973. A quarta e última, episódios 40 a 45 (sem John Cleese), encerrou o ciclo, entre 31 de Outubro e 5 de Dezembro de 1974. Existem ainda mais dois episódios adicionais, gravados para a televisão alemã, de genérico “The German Episodes”. No total, uma obra com a dimensão e a importância de “Guerra e Paz”, “O Anel dos Nibelungos”, a Enciclopédia Britânica e sexo.
Sim, o SEXO. Os Monty Python reinventaram o sexo para o destruir e reinventar de novo e redestruir e… como reinventaram a religião para a destruir, para… e a política, e o desporto, e a arte, e os papagaios, e os juízes, que eram sempre “travestis”, e os polícias, e os ingleses, e os franceses, e os escoceses, sobretudo os escoceses, de Johann Gombolputty – dois minutos de apelidos – von Hautkopff of Ulm, e a Inquisição (“Nobody expects the Spanish Inquisition”, tchatcham!) e tudo o mais que existe á face da Terra, sem esquecer Ken Buddha e os seus joelhos insufláveis. E até, escândalo dos escândalos, a rainha. Sim, um dos episódios, dos mais ordinários e com o humor mais negro, mesmo próximo do mau-gosto, da série, é-lhe especialmente dedicado. O “sketch” que encerra este episódio é mais ou menos assim. Trata-se de um diálogo entre um cliente (John Cleese) e o empregado de uma agência funerária. Cliente – A minha morreu. Empregado – É para enterrar, cremar ou deitar fora? Cliente (hesitante) – Bem… Empregado – Trá-la consigo? (o cliente acena com a cabeça e atira com um cesto para cima do balcão). Já considerou a hipótese de a comer, temos um belo forno… Cliente (ainda hesitante) – De facto, tenho alguma fome, mas não sei se… E se me sentir mal? Empregado – Não há problema, pode vomitar que nós depois apanhamos e atiramos para a cova. Fim do “sketch”. Com dedicatória a sua majestade.
Mas o humor dos Monty Python é uma moeda com mais de duas faces. A sua essência está no talento para extrair humor de qualquer faceta da vida, por mais ínfima que seja. Os Monty Python inventavam a vida. Tudo, mas mesmo tudo, era usado como fonte de gargalhada ou sorrisos. De transgressão. Puro gozo interior. O êxtase supremo de quem está a fazer humor é ter ao mesmo tempo consciência dele próprio no próprio instante em que está a ser criado. Deste modo se explica o caos estrutural, por vezes no limite do aleatório, que anima e sustenta alguns episódios da série. Nestes, um “sketch” confunde-se, transforma-se ou alterna com outros, aniquilando toda e qualquer espécie de lógica narrativa ou de linearidade temporal. Ladrões do tempo. O intervalo tanto podia surgir no princípio como no fim. Episódios inteiros terminavam antes do tempo (!), com o restante preenchido com interlúdios que tanto podiam ser o ecrã completamente negro, como o logotipo da BBC ou John Cleese dentro de uma armadura, passeando numa praia deserta com um frango depenado na mão.
Além do mais, os cinco Monty Python eram extraordinários actores. Vale a pena visionar vezes sem conta cada episódio só pelo prazer de saborear as entoações, as expressões e os pequenos gestos das personagens, segundo uma espontaneidade encenada ao pormenor. Monty Python’s Flying Circus é o humor na sua expressão mais elevada. Cada vez que a série é reposta, cada cena vista e revista centenas de vezes, apresenta sempre algo de novo, numa pluralidade incontável de níveis de leitura. Mesmo antes, há já uma antecipação emocional, uma comoção estética que apenas os fãs dos Monty Python compreendem e sentem. Melhor do que ver um episódio dos Monty Python só discutir um episódio dos Monty Python. Quando dois fanáticos dos Monty Python se encontram para conversar sobre os seus heróis, sentem-se unidos por um elo iniciático. O riso transforma-se num acto sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. A mesma impressão de sagrado que sentiram os milhares de fiéis que nos dias 26, 27, 28 e 29 de Setembro de 1980 se reuniram no Hollywood Bowl, para assistir a uma memorável apresentação do grupo, ao vivo, num espectáculo cuja síntese também se encontra gravada em cassete vídeo no mercado português. “Albatross!”
Perdoem-me se me excedi.
Mas nos sabemos que entre os deuses vivia, e continua a viver, um deus maior. Silêncio. Chama-se John Cleese. A simples menção do nome provoca arrepios de prazer. John Cleese é o mago. O dominador absoluto da arte de fazer rir da forma mais inteligente. John Cleese está marcado pelo humor desde que nasceu, em 27 de Outubro de 1939, em Weston-Supermare (dava um belo título para um “sketch”), no Somerset. O pai chamava-se Reginald Francis Cheese (“queijo”), mudando o apelido para Cleese quando entrou para o exército. Cleese recebeu tratamento psiquiátrico, escreveu livros e continua a representar no cinema. Em televisão, depois de Monty Python’s Flying Circus, realizou com a sua mulher Connie Booth e interpretou a série Fawlty Towers, também já exibida na televisão portuguesa. Quem não se lembra de Manoel, o impagável empregado espanhol da pensão, ou do episódio dos nazis?
Participou como actor, entre outros filmes, em “Os Ladrões do Tempo”, “Clockwise”, “Silverado”, “Um Peixe Chamado Wanda”, “Erik the Viking: The Book of the Film of the Book” e, mais recentemente, tem uma aparição esporádica no “Frankenstein”, de Kenneth Brannagh. No teatro, ainda hoje representa Shakespeare. No registo mais sério que se possa imaginar. Realizou o vídeo “Como Irritar as Pessoas” (“o segredo é dar a entender que não se faz de propósito”…).
John Cleese sente-se particularmente à vontade no papel de psicopata ou em todas as personagens que envolvam histeria. Não resistimos a descrever duas cenas memoráveis, ilustrativas desta sua faceta. Uma é o “sketch” em que faz de instrutor numa aula de autodefesa contra peças de fruta. O seu grito de desafio para um dos alunos, “Hit me with a banana!”, faz parte da História. Outra é uma sequência inteira de “Cálice Sagrado”, quando invade, alucinado, um encantador casamento que se está a celebrar num pacato castelo medieval. Investido com as armas de Cavaleiro da Távola Redonda, vai chacinando sucessivamente todos os convidados. No auge da alucinação, volta atrás numa escadaria, só para decepar à espadeirada uma vela que se encontrava no seu caminho. Quando, no meio de um mar de sangue, em pleno átrio do castelo, se dá conta do equívoco, pede desculpa. Tinha sido um engano.
Num registo diferente, o domínio absoluto do corpo, há outra cena para rever até ao fim dos tempos. A dos passos disparatados. Se a versão original da série é um portento de hilaridade, a versão ao vivo no espectáculo do Hollywood Bowl ainda é melhor. Só visto e revisto. “No ano passado, o Governo gastou menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional!”, desabafa Cleese e acerta altura.
Para terminar, duas observações de John Cleese, na área das relações humanas: “Penso que o cimento é mais interessante do que as pessoas julgam” e “Por favor, desculpe a minha mulher. Ela pode não ser muito bonita, não ter muito dinheiro, não ter qualquer espécie de talento e ser chata e estúpida, mas por outro lado ela… perdão, não me consigo lembrar de mais nada!”
“And now…”