Arquivo mensal: Junho 2016

Entrevista: Dulce Pontes – “Fica tudo levezinho, doce…”

Pop Rock

13 de Novembro de 1996

Dulce Pontes sente os “Caminhos” do seu novo álbum

“Fica tudo levezinho, doce…”

Dulce Pontes gosta da naturalidade, de se ouvir experimentar a voz numa igreja ou num espaço aberto, sob a chuva ou os aplausos do público. Com uma nova imagem e um novo disco, “Caminhos”, encontrou amigos da Galiza e a essência da música portuguesa, da qual é hoje uma das estrelas mais cintilantes.


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O sucessor de vendas do seu disco anterior, “Lágrimas”, em Portugal e nos estrangeiro, e a participação na banda-sonora de um filme com Richard Gere, “Primal Fear”, exibido e todo o mundo, não afectam a natural simplicidade de Dulce Pontes. O mais importante continua a ser cantar os poemas e as músicas que lhe dão prazer. “A capella” ou acompanhada por uma orquestra. Demarca-se de Amália, “Somos mundos distantes”, e leva Carlos Nuñez “a sítios onde ele não iria”. Dulce Pontes segue, no fundo, o seu próprio caminho, que toca com os caminhos dos outros. O PÚBLICO acompanhou-a na fase mais recente da sua viagem.
PÚBLICO – A abrir caminho no disco está “O Infante”, com letra de Fernando Pessoa e música sua. Como surgiu este tema?
Dulce Pontes – Há uns três meses atrás estávamos a jantar, eu e o Guilherme [Inês], e à procura de um poema que pudesse ser o “leitmotiv” de todo o disco. Encontrei-o nesse poema.
P. – Que “leitmotiv” é esse?
R. – Inspirando-nos nas nossas raízes – o fado, o folclore e a música popular – quisemos alargar um pouco mais estas influências, sendo o mar o factor de união.
P. – “Caminhos”, pelo tipo de produção, parece-nos feito a pensar no mercado internacional. Concorda?
R. – Também. É para quem o quiser ouvir. É evidente que pessoas como o Carlos Nuñez ou o Leonardo Amuedo tiveram influência no som final. Procuro que a minha mensagem seja universal.
P. – Não receia perder-se num atalho, tantos são os caminhos do disco?
R. – Não. Andar num caminho com umas palas nos olhos seria pior. Podemos continuar no nosso caminho tendo uma visão mais abrangente, influenciada por tudo o que se vê à nossa volta.
P. – O que é que dá unidade a “Caminhos”?
R. A tal essência da música portuguesa. A música é algo muito maleável e a portuguesa, por ter uma base tão simples, harmonicamente falando, permite uma série de interpretações, uma série de caminhos distintos. Dá-me imenso gozo experimentar essas diferentes formas de cantar, esses diferentes sons, embora tendo sempre como base o ponto de partida que já referi.
P. – “Lela”, um dos temas com Carlos Nuñez, já aparecia no álbum deste músico, “O Caminho das Estrelas”. Foi um aproveitamento?
R. – Não. Aliás, isso também aconteceu noutro tema, “Porto”, que está no disco do Leonardo. Com o Carlos Nuñez trata-se de o levar a sítios onde ele não iria e vice-versa.
P. – No meio da sofisticação que impera na maioria dos arranjos, acaba por sobressair a sua interpretação “a capella”, em “Senhora do Almortão”. Em qual dos contextos prefere cantar?
R. – Em termos afectivos – e noto muito isso nos espectáculos ao vivo – prefiro o “less is more”, sinto que consigo aproximar-me mais do público do ponto de vista emotivo, quando canto “a capella”, ou só com o piano ou uma guitarra.
P. – Por que razão foram precisos seis estúdios para gravar o disco?
R. – Aconteceu… Bem, no que respeita àquele onde fizemos as misturas, os Wisseloord studios, em Hilversum, na Holanda, é fácil de explicar: São os Rolls Royce dos estúdios da Europa. A orquestra sinfónica fomos gravá-la em Roma também porque era mais fácil ir eu lá com o Guilherme e os dois técnicos do que trazer a orquestra inteira para aqui. Em Espanha, foi por ter estado lá a gravar um tema do disco de Luís Pastor, “Chuva de Maio”. Adorei o estúdio, tinha um grande microfone, daqueles antigos, com um som que não tem explicação! Com uma naturalidade e neutralidade espantosas!
P. – Cultiva essa naturalidade, não é?
R. – Sim, embora também goste do que se faz em estúdio, efeitos, “delays”, “reverbs”, mas de facto tenho esse gosto pelo natural. Por vezes, quando estive numa igreja, em Brasília, comecei a cantar lá dentro, só para ouvir o som, um som que não se consegue em estúdio nenhum. Noutra ocasião, ia a passear na Arrábida, ao pé do convento, estava a cair uma chuva miudinha. Parei para fazer uma coisa que gosto de fazer em espaços abertos, quando está silêncio absoluto: emitir alguns sons, não é bem cantar. Consoante os lugares, obtêm-se “delays” diferentes. Nessa altura, de repente, estava eu a fazer esse tipo de experiência, vejo ao fundo uma luz a acender e a apagar, ao ritmo do que fazia com a voz. Acho que estavam a gravar cenas do filme “Afirma Pereira” e alguém deve ter ligado o projector, quando me ouviu…
P. – Como é que se sentiu a cantar com uma orquestra?
R. – Foi arrepiante. Parece que se sente o som a atravessar os poros. Fica tudo levezinho, doce… É um luxo a que não estamos habituados em Portugal, infelizmente. Continua a haver alguns preconceitos de alguns músicos clássicos em relação à música ligeira, o que é uma estupidez.
P. – As fases mais recentes da sua carreira, com participações em filmes estrangeiros, como “Primal Fear”, e o sucesso de vendas do disco anterior, “Lágrimas”, conduziram-na ao estrelato. Como lida com este estatuto, tão rapidamente adquirido?
R. – Não sinto muito… Como fui sempre um bocadinho “marginal”, não sinto quaisquer pressões, apenas a da responsabilidade do trabalho que falço. O que mudou na minha vida foi passara a ter menos tempo para estar com os amigos, algo um pouco doloroso. Mas por outro lado posso estar com muita gente, amigos anónimos. Uma coisa compensa a outra. Quando acabo um espectáculo, o facto de saber que as pessoas estão na sala com um sorriso, que, de alguma forma, lhes proporcionei um bom momento, sentir que tive esse privilégio, faz-me ultrapassar tudo.
P. – Irritam-na ou sente-se lisonjeada com as constantes comparações que fazem entre si e Amália?
R. – Não me irritam, é um elogio, mas não gosto que façam essas comparações. Como intérpretes e cantoras não temos nada a ver uma com a outra. Nem a forma de sentir o fado. São mundos distantes.
P. – Mudou a sua imagem. Porquê?
R. – Toda a gente me dizia para não cortar os caracóis, que não era lá muito boa ideia, que as pessoas estavam habituadas ao corte que tinha. Mas decidi mesmo cortar, depois já não havia nada a fazer. E foi como voltar a sentir-me de novo dentro da minha pele.



Entrevista: Boris Ex Machina – “Retorno Ao Interior”

Pop Rock

25 de Setembro de 1996

Boris Ex Machina estreiam

RETORNO AO INTERIOR

Boris Ex Machina, em homenagem a Boris Vian, escritor e músico. O primeiro álbum da banda acabou de sair, embora as canções andassem na cabeça dos músicos há já vários anos. Tem por título “Tango Infernal”. Junta tangos e valsas, Brel e literatura, o passado e o futuro, num parque de variedades virtual.


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São seis os elementos que integram a formação dos Boris Ex Machina, mas apenas quatro puderam estar presentes na conversa com o PÚBLICO. Rini Luyks, o acordeonista holandês, está em França. Miguel Pereira, contrabaixista com formação clássica, encontra-se em digressão com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Os outros quatro – Armando Teixeira, teclas, programações e voz (também elemento dos Da Weasel e Bizarra Locomotiva), Ernesto Pinto, bateria, Carlos Morgado, guitarra, e Carlos Costa, guitarra – optaram por falar no colectivo.
PÚBLICO – O preto e branco e a pose do grupo na capa significam alguma imagem especial que queiram dar?
BORIS EX MACHINA – Há um ambiente que vem de há cinco anos a esta parte e que tem a ver com o “bas fond” dos cabarés. O nosso único interesse é mesmo tocar numa sessão de “strippers”, em festas de casamento, coisas assim…
P. – As danças de “Tango infernal” são o tango e a valsa…
R. – E rumbas! É uma música que reflecte, em parte, a nossa cultura, do país latino que somos. E mais acessível do que alguma música com origem externa que se ouve por cá. A valsa e o tango… Se calhar, na sua casa ou nas nossas, era o que os nossos pais ouviam. Isso e o fado, cujas letras reflectem uma certa nostalgia…
P. – Há nostalgia na música do grupo?
R. – Bastante.
P. – E tragédia?
R. – Sim, muito sublinhada pelas letras.
P. – Que, por vezes, não se conseguem perceber bem, abafadas pela música…
R. [de Armando Teixeira, A.T., aqui tínhamos que personalizar] – Pois, isso são os meus problemas de dicção, não há hipótese [risos]. Há músicas onde não se deve perceber minimamente o que estou a dizer… mas e relativo… Se não percebes a letra toda, pelo menos uma parte apanhas e acabas por construir uma imagem entre a música e essas partes da letra. Não pusemos as letras na capa por alguma razão…
P. – Sente-se na vossa música um certo luto que, por vezes, faz lembrar o universo estético dos Sétima Legião. Concordam?
R. – Não! Não! (…) [A.T.] Bem, vamos lá a ver, temos um determinado percurso e os Sétima Legião fizeram parte da minha adolescência, como o Tom Waits e tantos outros.
P. – Na ligação da electrónica aos sons acústicos, o nome dos Tuxedomoon diz-vos alguma coisa?
R. – Diz-nos muito. Fizeram história. Embora sejam bastante mais jazzísticos do que nós.
P. – Jacques Brel?
R. – Esse, sim, bastante mais do que todos os outros. “Le port d’Amsterdam”, gravado ao vivo, cada vez que ouvimos aquilo, dá-nos arrepios. É emoção, uma questão de “feeling”. E a ironia dele, mais do que tudo.
P. – A valsa é a vossa dança preferida?
R. – Se calhar é o tecno! [risos] Neste álbum, de facto, são as valsas e o tango. Tem três valsas e dois tangos – um resultado que se pode considerar equilibrado. Mas há algo a acrescentar: é que todos estes temas têm entre três e cinco anos.
P. – Por que motivo ligaram o adjectivo “infernal” ao tango e não à valsa, cujas conotações diabólicas são conhecidas?
R. – O tango é mais infernal! Pela cor. O vermelho, o púrpura, são muito mais “underground”. E este disco, embora não seja pesado, é um bocado fumarento, denso…
P. – Brel, valsa, acordeão, ambientes marítimos, no fim um poema de Mário de Sá-Carneiro e agora os fumos… O ambiente compõe-se… “Tango Infernal” é um disco de alucinações de ópio?
R. – Tem a ver com todo um imaginário. Mas sem dependências nenhumas… Na altura em que foi feito, as coisas batiam de maneira diferente. Se fosse feito agora, era muito mais leve.
P. – E as alusões à heroína, em “Cavalo louco”?
R. – Tem mais a ver com histórias e situações de pessoas que conhecemos. A maneira como descrevemos, nesse tema, a viagem não é a mais normal de se falar de droga, há aquele lado da perda dos amigos. Depois é aquilo de saberes que não deixas, não queres lá meter ninguém contigo mas a tendência é levares sempre mais alguém, embora não de forma consciente.
P. – Que tipo de dificuldades encontraram e os impediu de gravarem há mais tempo?
R. – Editoras, promessas… Depois, só há uns dois anos é que se começou a ouvir e a falar sobre um determinado tipo de música como a dos Tindersticks, por exemplo, que talvez tenham as mesmas influências que nós. Durante muito tempo, houve quase uma luta contra um tipo de música mais lenta. Há seis ou sete anos atrás, os Tindersticks não tinham qualquer hipótese de vingar. Agora nota-se de novo uma apetência por coisas que tinham sido completamente esquecidas pela pop, como o tango e a valsa.
P. – Despediram-se definitivamente do rock?
R. – Estamos a tentar! A música que fazemos é uma espécie de retorno ao nosso interior, da descoberta das origens dentro de nós mesmos.
P. – Já nos estávamos a esquecer de António Calvário, a propósito de alguns excessos de sentimento nas vocalizações…
R. – Sabe qual é o problema? Às vezes, essa coisa do amor, dessa maneira de cantar, é muito séria. A maneira como abordamos isso não é a gozar, queremos de facto dar esse ambiente. O tom pejorativo com que se fala do António Calvário ou do Tony de Matos é por culpa das pessoas que têm deles determinada imagem. O facto é que marcaram a cultura portuguesa. Devia ser um espectáculo estar a cantar naquelas rádios, com a orquestra por trás. Isso fascina-nos bastante. Claro que uma coisa era a atitude, a maneira como eles cantavam, e outra aquilo que diziam. O que nós dizemos não tem nada a ver com o que eles diziam. É aí que jogamos.
P. – Sentem algum particular fascínio pelos chamados “dias da rádio”, anteriores à televisão?
R. – Bastante. É capaz de ter sido a época mais bonita da rádio, pelo menos para nós, que a vemos à distância. Havia aquele “stress” todo do directo, do gajo que está a fazer o programa e está preocupado se o artista vai ou não chegar a horas ou se o som da orquestra está a sair audível lá fora, por uns transístores. E o fascínio das pessoas que estão a ouvir, as famílias que se reuniam num serão em volta de uma telefonia…
P. – Gostavam de fazer essa experiência, de tocar ao vivo e em directo na rádio?
R. – Gostaríamos muito, não uma coisa do tipo “unplugged”, mas um concerto em AM, com som AM, nada de FM estéreo. Vivam os Parodiantes!
P. – Seria o fim dos “samplers”?
R. – Só os utilizamos por não nos ser possível arranjar um instrumentista para cada som que se encontra lá. Uma orquestra de 50 elementos, era espectacular! É esse o nosso sonho. Uma filarmónica!!! Isso é que seria mesmo uma máquina, como aquelas bandas dos filmes italianos.

P.S. – Os Boris Ex Machina andam à procura de um baixista e de um pianista-organista. Os interessados podem contactar com a Symbiose pelo telefone (01)3526483



Rui Júnior – Entrevista: “Na Catedral do Tambor”

Pop Rock

1 de Maio de 1996

Na catedral do tambor

O “Ó” que som tem, quando bate em “Ó Tambor”? Tem o som que tinha há 13 anos no álbum homónimo de estreia, mas mais aberto. O acento reforçou-se. Num maior poder de hipnose, na subtileza dos batimentos, no peso dos convidados. Um “O” de espanto.


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Rui Júnior, rosto e alma do projecto, Fernando Molina e José Salgueiro, três dos percussionistas de O Ó Que Som Tem, sentem o ritmo no fundo, mas também à flor da pele. A pele de um tambor. Um instrumento “espiritual” capaz de pôr um homem em transe.

De “O Ó Que Som Tem” para “Ó Tambor” houve alguma mudança na orientação do grupo?
Rui Júnior – Houve, naturalmente. Treze anos de diferença, todos nós amadurecemos. Inclusive, havia temas que não conseguíamos tocar e que hoje tocamos com facilidade.
P. – Referia-me à estética…
R.J. – Digamos que “Ó Tambor” é uma continuação do primeiro disco, no sentido de juntar instrumentos de percussão portugueses com outras culturas. A novidade está na existência de sons sintetizados, ao contrário do primeiro, que era todo acústico. Actualmente, os sons sintetizados fazem parte do universo da música. Embora não goste da maior parte deles, reconheço que os há muito bonitos.
P. – O grupo só pode existir com este núcleo de músicos?
R.J. – Este género de reportório requer muitos meses, até anos, de ensaios. Nada melhor do que pegar nas pessoas que já sabem uma série de temas de cor, em vez de passar novamente três, quatro anos a aperfeiçoá-los com músicos novos. Apesar de neste disco contarmos com percussionistas novos, o João Lobo, o Mário Santos e o João Balão. O curioso é que alguns destes temas já estão a ser tocados por outros percussionistas e bateristas, como “Mody Dick”, que está a ser usado pelo grupo de José Salgueiro.
José Salgueiro – … Um grupo actualmente com mais cinco bateristas, que surgiu a partir de um “workshop” com o Max Roach. Quanto a “Moby Dick”, tem sido transmitido oralmente aos meus alunos mais novos, que por sua vez o tocam. [N.R. Na origem, “Moby Dick” é uma homenagem aos Led Zeppelin e ao tema com este nome.]
P. – Um dos aspectos mais interessantes de “Ó Tambor” é a estrutura da maior parte dos temas, que partindo de uma entrada simples se vão tornando progressivamente mais complexos, segundo uma estratégia de subtil adição.
J.S. – O Rui sempre encarou a percussão como sendo melodia também. Como numa melodia simples, com a percussão as coisas também vão acontecendo aos poucos. Hoje em dia, quando se ouve percussão, ouve-se uma quantidade de instrumentos a tocarem ao mesmo tempo. Não dá para perceber que ritmo é que faz cada um. É uma massa sonora, que até pode ter um balanço incrível. No nosso disco acontece o contrário, os sons vão-se somando e mudando a percepção das pessoas.
P. – Onde foram buscar o estranho poema que José Mário branco declama no título-tema?
R.J. – É um trecho dos textos védicos, uma espécie de corão dos indianos. Há aí pequenos textos que falam de percussão, nomeadamente quando o xamã aparece com o seu tambor, que toca para comunicar com os espíritos e ter as visões para orientar as pessoas. O texto que escolhi é uma invocação à força dos tambores. Há uma lenda africana que diz que o mundo nasceu de um tambor.
P. – “68” é um título um pouco enganador, remetendo de imediato para o mítico Maio desse ano…
R.J. – É o tema com as Fincapé. Uma coisa extraordinária que acontece cá em Portugal, relativa a certas visões da música popular. Sempre disse que muitas pessoas olham para longe sem verem o que está perto. Esse grupo, genuinamente africano, representa a África aqui em Lisboa. Mais concretamente na Buraca, onde os seus elementos residem. Elas é que escolheram o tema, dedicado a Amílcar Cabral.
P. – Em “Moby Dick”, são utilizadas técnicas vocais indianas. De onde lhe veio esse interesse pela Índia? Relaciona-se com alguma necessidade espiritual? As tablas são mais espirituais que um bombo?
R.J. – Mas também sinto as nossas percussões de forma espiritual, como se percebe logo no tema de abertura, “Musti”, no modo como emprego as caixas. Por outro lado, sei que em Taiwan [!] acham bastante piada a este disco. A relação entre determinados instrumentos e a espiritualidade sentimo-la tanto em relação a sons que nos são mais distantes e estranhos como em relação aos nossos.
J.S. – Embora a espiritualidade esteja, de facto, mais ligada à Ásia, à Índia, ao Japão. Eles usam a percussão e a espiritualidade como partes de um todo. Na Europa não temos tanto essa relação.
P. – Outra influência que permanece do primeiro álbum é o cano gregoriano, em “Recolhimento”.
R.J. – São coisas que nos acompanham desde a infância. Sempre gostei de boas vozes, bem cantadas. Os cantos gregorianos comovem-me.
P. – Agora estão na moda, desde os monges de Silos aos Enigma…
R.J. – Já no nosso primeiro disco misturávamos o canto gregoriano com adufes. Dez anos depois surgem os pseudo-gregorianos…
Fernando Molina – Os monges de Silos deram um balúrdio de dinheiro à editora. E são tipos contemplativos, nada virados para os bens materiais… Deram-lhes em troca uma cozinha nova!
P. – Que significam os temas “5ª feira” e “6ª feira”?
R.J. – “5ª feira” é um tema meu, cujo nome parte do compasso, um 5/8 (cinco por oito). “6ª feira” foi composto pelo Fernando Molina.
F.M. – … Numa sexta-feira, 13! Com um “Fostexzinho” [gravador], em casa, pus-me a fazer experiências. Calhou nessa noite. Cheguei fora de horas a casa, vindo de tocar num bar. Estava particularmente inspirado e fiquei até às seis e meia da manhã à volta daquilo.
P. – O disco termina num registo quase paradoxal, não tanto pela primeira parte, com o “sample” das crianças a entoarem a lengalenga, mas pela orquestração final, samplada, julgo que em tom de ironia, pomposa e quase despropositada…
F.M. – Um “the end” à maneira de um filme americano!…
R.J. – A ideia é essa. Vejo este disco como uma viagem. Que, por exemplo passa por África, no tema das Fincapé. Aí fui espectador e aprendiz. Todo o disco segue a sequência de uma viagem. Viagem-filme. Só tenho pena de as imagens não saírem dos olhos directamente para a fita. É a banda sonora de um filme que tenho na cabeça. Acaba como acaba o filme. No fim, vê-se o genérico.
P. – A Amélia Muge está como peixe na água no meio das percussões.
R.J. – A Amélia consegue trazer melodia aonde eu não consigo. Ela sente as percussões muito bem, que ali é para cantar de determinada maneira e não de outra.
P. – Um dos temas mais belos do disco é, precisamente, “6ª feira”, no modo como o violoncelo se ergue a cantar de entre as percussões.
F.M. – É uma composição minha em que dou o mote numa “gato drum”. Compus aquilo num “Octapad” [percussão sintética], por motivos óbvios, à noite. Depois, em estúdio, o Rui não gostou muito do som. Agarrámos no “gato drum” e realmente soava bastante mais quentinho. É um tema obsessivo. Um percussionista adora como ninguém explorar isso. Um gajo chega a Marrocos e vê aqueles tipos durante meia hora a tocarem uma malha.
P. – “Ó Tambor” explora, precisamente, esse lado ritual das percussões…
R.J. – O transe. Um bendir ou um adufe, para mim, é andar à volta de uma mesa, de olhos fechados, a tocar [imita o som]. É um mundo.
F.M. – Num dos ensaios fizemos uma experiência muito gira. Uma coisa é ter os temas estruturados e debitá-los mecanicamente. Outra, é como Rui faz, um exercício em que fechamos todos os olhos, agarramos num padrão mais conseguido, e ficamos ali cinco, dez, quinze minutos, a girar em torno dele, obsessivamente.
Aí é que um gajo começa a sentir a intenção que a técnica não consegue transmitir. Um estado em que se vêem dinâmicas lindíssimas. Já tem acontecido, às tantas, desatarmo-nos a rir com os efeitos que se conseguem. Emocionamo-nos mesmo. Cria-se uma empatia tal entre nós… quase religiosa. De repente, sentimos num determinado tempo que aquilo tem que parar. Fica um silêncio… Um gajo até sustém a respiração…
P. – Ninguém sente necessidade de desbundar, de explodir?
J.S. – Sem dúvida que às vezes apetece! Aí o Rui sempre foi um disciplinador. A desbunda, por muito que apeteça, não nos leva a lado nenhum. Ou leva-nos a alguns sítios, mas nunca com certezas. O melhor, nessas alturas, é andarmos para trás, quando as pessoas se deixam de escutar umas às outras. Olhamos todos para o Rui e lá está ele, com uma cara de mono [risos]. “O.k., vamos lá parar e começar outra vez!”
P. – Nesta nova etapa da sua existência, O Ó Que Som Tem, pode ser encarado como o pólo complementar dos Gaiteiros de Lisboa? Eles a falarem alto, vocês mais em surdina?
J.S. – Complementam-se, em termos de enriquecimento da nossa música tradicional, que tem que evoluir e ser trabalhada. Durante muitos anos muita água correu, mas o barco nunca chegou. Agora o barco chegou e estamos todos a embarcar num que nos pode levar a qualquer sítio.
P. – A música tradicional não passa de um ponto de partida, quase um pretexto, para o vosso projecto, não concordam?
R.J. – As referências existem, simplesmente, nada nos prende aí, nem a nenhum sítio. Nenhum de nós é pesquisador ou estudioso, ou etnólogo, à excepção talvez do Rui Vaz, que tem conhecimentos a esse nível. Já por ocasião do primeiro disco tentaram conotar-nos, com alguma boa vontade, com trabalhos de recolha. Sempre rejeitámos isso.
J.S. – Há uma procura de uma estilização em relação às bases rítmicas portuguesas. Queremos fazer evoluir isso. Sentimos o “tum tum tum- tacatacataca- tum- tum tum tum”. É a chula, que nós temos cá dentro. Só que podemos evoluir, assim como os espanhóis fizeram com o flamenco. É essa a nossa procura, sem nunca perder de vista a estrela.
F.M. – Já no primeiro álbum o Rui provou que se estava a marimbar para as ideias pré-concebidas, que o disco fosse isto ou aquilo, em termos de aproveitamento promocional.
R.J. – Está lá um tema chamado “Marimbando”… [risos]

Nota: Quem quiser saber outros pormenores de O Ó Que Som Tem pode procurar no endereço que o grupo abriu na Internet: http://www.ip.pt/ruijunior.