Arquivo mensal: Junho 2015

Ravi Shankar – “At The Woodstock Festival”

Pop Rock

8 JULHO 1992
REEDIÇÕES

RAVI SHANKAR
At the Woodstock Festival

CD, BGO, distri. Variodisc

Ravi Shankar (não confundir com Shankar, o violinista da ECM), foi, pode dizer-se, na segunda metade dos anos 60, o inoculador das sonoridades tradicionais indianas nos cérebros já um pouco desarranjados dos jovens “hippies” dessa época. As vibrações da sitar de Shankar casavam às mil maravilhas com as alucinações do LSD. Claro que foi recebido pela geração do “flower power” de braços e neurónios abertos. Com o aval dos Beatles, do guru e de “Lucy in the Sky with Diamonds”.
Depois de uma actuação memorável no festival de Monterey, precisamente no mesmo ano de “Sgt. Peppers”, Ravi Shankar repetiria dois anos depois o êxito e o êxtase na reunião histórica de Woodstock. Cerca da meia-noite de sexta-feira, 15 de Agosto, debaixo de chuva. Mas o nirvana ergue-se acima da meteorologia, e nessa noite ninguém arredou pé (também, mesmo que alguém o quisesse fazer, seria difícil, no meio da multidão), meio milhão de pessoas presas da magia da sitar e das cadências rítmicas das “tablas”. Este CD regista na íntegra essa actuação – duas ragas e um solo de “tabla” de Allarakha –, constituindo ainda hoje uma boa introdução à música indiana, que Ravi Shankar ofereceu à voracidade da pop. (7)

aqui



Fairport Convention – “Tipplers Tales”

Pop Rock

8 JULHO 1992
REEDIÇÕES

FAIRPORT CONVENTION
Tipplers Tales

CD, BGO, distri. Variodisc

FC

Datado de 1978, “Tipplers Tales” é o derradeiro álbum dos Fairport Convention com o violinista Dave Swarbrick, já antes confrontado com a ameaça de surdez provocada pela potência decibélica da banda nos espectáculos ao vivo. Para trás tinham ficado clássicos do folk rock, como “What We Did on Our Holidays”, “Unhalfbriking”, “Liege & Leaf” e “Full House”, os três primeiros contando ainda com a voz da malograda Sandy Denny.
Permanece neste disco ainda viva a energia e o amor ao cancioneiro tradicional britânico, expresso de forma soberba na versão longa do épico “Jack O’ Rion”, que inclui partes escritas por Swarbrick, e nos clássicos “Reynard the fox” e “John Barleycorn”. Uma energia que o envelhecimento dos músicos das primeira formações da banda – além de Swarbrick, Simon Nicol e Dave Pegg (Richard Thompson e Dave Mattacks já tinham abandonado, atraídos por músicas bem afastadas da folk) – levou à sua inevitável queda, para a espaços ressurgir, como no álbum de instrumentais “Explective Delighted”, último álbum digno do nome e da herança legados pela lenda Fairport Convention.
Ric Sanders bem procura hoje manter acesa a chama, nos discos e nos espectáculos de reunião que anualmente celebram o aniversário da banda. “Tipplers Tales” ainda tem brilho próprio. Depois, pouco restaria para além do cintilar da recordação. (8)

aqui



Sheila Chandra – “Weaving My Ancestors’ Voices” + Joan La Barbara – “Sound Paintings”

Pop Rock

27 MAIO 1992

LIÇÕES DE CANTO

SHEILA CHANDRA
Weaving My Ancestors’ Voices (7)
LP/CD, Real World, distri. Edisom

SC

JOAN LA BARBARA
Sound Paintings (8)
CD, Lovely Music, import. Contraverso

jlb

Nunca se sabe o que a voz de uma mulher esconde sob o canto. Sheila Chandra e Joan La Barbara escondem o tempo. A primeira retoma o passado na forma das tradições vocais da Irlanda e da sua Índia natal para o projectar, transfigurado, no futuro, através de uma abordagem conotada com a “new age”. A segunda move-se no seio da vanguarda, utiliza técnicas vocais experimentais desenvolvidas ao longo de 20 anos de carreira, agarra na modernidade de Klee, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles ou na iconografia do pós-guerra da cidade de Berlim para finalmente criar música em que o canto toma de assalto o passado, canto do corpo, do sangue e da pele, feito de pulsações rítmicas, respirações, gritos e murmúrios.
Sheila é uma tradicionalista que quer parecer moderna. Joan, uma exploradora que parte do fim em busca das origens.
Sheila Chandra tornou-se conhecida há alguns anos atrás com uma canção que chegou aos “tops”: “Ever so lonely”. Depois dedicou-se à música indiana. “Weaving My Ancestors’ Voices” é um pouco como o disco de Claire Hammill sobre as estações. A voz estende-se sobre “drones” infinitas criadas pela simulação electrónica de “Tampuras” ou por si própria recriada em ecos e refracções ambientais.
A cantora indiana interessa-se, diz ela, em comparar as semelhanças existentes entre culturas diferentes e depois em misturá-las. Técnicas vocais indianas são utilizadas na interpretação de temas tradicionais irlandeses. Em “Speaking in tongues”, a voz declaca as batidas do “mrdingam” e de “tablas”. “Nana”, uma peça de Manuel de Falla, explora a vertente árabe da música espanhola.
Há hinos e ragas, baladas e suspiros, sobre um “continuum” sonoro que confere ao disco tonalidades hipnóticas e uma serenidade nunca perturbada.
Joan La Barbara, pelo contrário, manda a serenidade às urtigas. “Sound Paintings”, que inclui obras escritas entre 1979 e 1988, investe no perigo e na diferença. São peças, na maioria encomendadas, que recriam pela voz ambientes ou vivências específicas: as cores tropicais da praia de Miami, com a voz servindo de tambor ou imitando ruído de animais, entre o pio e o grunhido (“Urban tropics”); um estudo psicológico sobre “as sombras e memórias que invadem a periferia do pensamento”, de vocalizações cavernosas e cânticos sombrios (“Shadowsong”); uma “animação sónica” dos movimentos de atletas em competição, elaborada a partir de respirações repetitivas, com recurso à técnica das “multiphonics” e ao “canto circular” (som também emitido durante a inspiração), em “Time (d) and unscheduled events”. Em “Erin”, há folclores, conversas cruzadas e um coro de tragédia na evocação da morte de um membro do IRA; “Klee alee” reporta-se a uma pintura de Paul Klee em que se procura o som das cores; as memórias de Berlim são evocadas num crescendo obsessivo, construído sobre repetições e cortado pelo som de sirenes da polícia ou o resfolegar de uma locomotiva em “Berlin träume”.
Em todos os temas, a voz jamais se sujeita a qualquer tipo de processamento electrónico, partindo à descoberta das “pinturas de som” que o título refere, em tempo real ou desmultiplicada em “multitracking”. “Sound paintings” insinua e materializa, de forma progressiva, os ritmos do corpo e as asas do espírito. Pelo sopro da voz que é a vida.

torrent