Arquivo mensal: Junho 2015

Sérgio Godinho – Palavras Com Música (artigo de opinião)

Pop Rock

5 MAIO 1993

PALAVRAS COM MÚSICA

António Lobo Antunes e Manuel Alegre, escritores, solicitados pelo PÚBICO, deram a sua opinião sobre Sérgio Godinho, escritor de canções. Ambos reconheceram qualidade literária nos textos do autor de “Tinta Permanente”.

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“Nos anos 60, com o José Afonso, sobretudo, mas também com José Mário Branco e Fausto, começaram a aparecer letras de canções de uma grande qualidade.” Quem o diz é António Lobo Antunes, escritor cujas palavras Vitorino recentemente musicou em “Eu que me comovo por tudo e por nada”. “Parece-me muito difícil fazer letras como as que o Sérgio Godinho faz. Conseguir tornar poéticas palavras por vezes muito pouco poéticas.” Para o autor do “Tratado das Paixões da Alma”, “há bastantes mal-entendidos à volta da palavra ‘escritor’”. Se “em relação aos livros há que distinguir entre ‘escritores’ e ‘fazedores de livros’, diz, “em relação à música passa-se o mesmo, entre ‘escritores de canções’ e ‘fazedores de canções’”.
Escritor de canções, segundo Lobo Antunes, “tem que ver com duas coisas fundamentais: o talento e o trabalho. E com uma honestidade intelectual, uma questão de fidelidade a si próprio, não tentar vender gato por lebre, não piscar o olho ao público”. “Em literatura, há tipos que encontraram uma receita de sucesso e depois de limitaram a repeti-la”, continua, “um escritor honesto seria aquele que correria riscos cada vez que fizesse um novo trabalho. Parece-me que é o que o Sérgio Godinho faz”.
Serão assim tão diferentes o poeta e o escritor de canções? Lobo Antunes é de opinião que, “quando se escreve só poesia, há apenas a preocupação com as palavras”. “O dramático da canção é tentar dizer muita coisa em três minutos. É mais fácil com um romance, em que se tem 300 ou 400 páginas…”
Quanto a Manuel Alegre, também ele autor de poemas musicados, entre outros, por Adriano Correia de Oliveira, Alain Roman, Vitorino e José Niza, pensa que a tradição dos escritores de canções “vem de muito longe, dos provençais, que compunham, escreviam e cantavam”. Manuel Alegre, como Lobo Antunes, aponta José Afonso como pioneiro. De Sérgio Godinho diz que “recuperou aquela tradição, sendo moderno” e que o fez “com bastante felicidade, inspirando-se também”, supõe, “em alguns exemplos da música brasileira e francesa, mas com inegável originalidade”.
Sobre a diferença entre poesia e poesia para canções, Manuel Alegre afirma que “toda a grande poesia, desde o início, de Homero à ‘Bíblia’, até Camões e aos grandes poetas”, se inscreve numa máxima de Ezra Pound: “A poesia e a música nasceram juntas.” “Quando a poesia se separa da música, normalmente degenera.” Segundo o poeta de “Babilónia”, “a grande poesia é mesmo para ficar no ouvido, para ser dita, para ser cantada, para ser decorada, para ser partilhada. Há poemas de Camões que parecem ter sido escritos para serem cantados, para serem cantados pela Amália.”

Luís Represas – Entrevista

Pop Rock

3 NOVEMBRO 1993
EM PÚBLICO

LUÍS REPRESAS *

Por que razão escolheu Cuba como local de gravação para o seu primeiro álbum a solo [“Represas”]?
Fundamentalmente, para ganhar uma distanciação suficiente em relação àquilo que tinha feito para trás, a todo o peso da carreira nos Trovante, às pessoas que me envolveram durante estes últimos 17 anos. Não numa de negação, mas de combater a insegurança provocada por esta mudança.

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Que tipo de insegurança?
Insegurança em relação àquilo que eu quero. De repente, vi-me sozinho. Eu não estive nos Trovante; eu vivi com os Trovante toda a minha vida enquanto músico. Sempre em trabalho de equipa, altamente partilhado. Quando, de repente, pus a questão de fazer um disco sozinho, pensando-o e fazendo-o e reagindo em relação aos meus próprios estímulos, evitando ao máximo ser influenciado por opiniões mais ou menos viciadas em relação ao um contexto passado, isso levou-me não só a isolar-me – não no sentido daquele isolamento angustiado – como a trabalhar num terreno que me fosse familiar, agradável e que respondesse àquilo que eu queria.

E só em Cuba é que se encontram todas essas condições?
É um país que eu visito regularmente há muitos anos, mais até do que Espanha, que está mesmo aqui ao lado, um país que tem músicos que giram dentro de um meio que me é familiar e da música que eu gosto de fazer, e que, à partida, estavam disponíveis para trabalhar com alguém que eles não conheciam. Ou seja, também aqui não ia haver leituras viciadas ou preconcebidas em relação a mim.

Curiosamente a influência cubana não está muito presente no disco…
Exactamente. Comecei, de repente, a aperceber-me disso quando vi as pessoas a ouvirem o disco e a respirarem de alívio… Se calhar, estavam com medo que eu fosse fazer um disco de turista, um disco de “salsa”, que eu não quis fazer, de todo. O que acontece é que os músicos cubanos bebem, de facto, a mesma água que eu.

Que tipo de água?
A água de que o Trovante também bebia, ou seja, uma música que evita a rotulagem e o estereotipo, uma coisa que sempre me incomodou imenso. É uma água onde existe muita música, desde o rock ao jazz e à música popular. Música do mundo, no fim de contas, os mesmos conceitos que levaram, por exemplo, à formação da “nova trova cubana” ou à formação da “nova música popular brasileira”. Uma geminação, um encontro entre várias culturas.

Como aconteceu a colaboração com Pablo Milanès, no tema “Feiticeira”? Algo sentido ou também um chamariz comercial?
É uma coisa sentida e que eu queria fazer há muito tempo. Já tinha cantado antes com o Pablo, no Brasil, sou um profundíssimo admirador dele e sempre quis trabalhar com ele em alguma coisa minha. Pus-lhe várias canções à frente e ele escolheu a “Feiticeira”. Agora não nego que, em relação à edição em espanhol e a uma possível edição na América Latina e em Espanha, o nome dele não seja um valentíssimo empurrão. Assim como ele também não nega que o facto de cantar comigo, para ele, é um valentíssimo empurrão em Portugal.

Há pouco, referiu-se a estímulos. Quais foram os que o levaram de novo a compor e a gravar?
Os Trovante tiveram uma fase, depois da saída do Gil e do José Salgueiro, de tentativa de continuar. Essa tentativa não resultou e nunca foi minha intenção abandonar a música, que sempre foi o tronco fundamental da minha vida. Estive um bocado à espera da altura certa, não do momento comercial, mas do momento em que eu me sentisse disponível, suficientemente tranquilo, assumindo a minha insegurança, para depois recuperar a segurança necessária para fazer este trabalho.

Sentiu algum medo na passagem de um trabalho em equipa para um trabalho solitário?
Quando uma pessoa se empurra a si própria para essa decisão, de ser ela só a decidir, é complicado. É a mesma coisa que estar-se habituado a tomar banho no mar com os amigos todos e, de repente, ficar-se pela primeira vez sozinho. Sabe-se nadar na mesma mas as primeiras braçadas são complicadas.

O que separa este disco a solo da música dos Trovante? Há um acréscimo ou uma ruptura?
Para haver um acréscimo, teria que haver uma manutenção de muita coisa dos Trovante. Em “Represas”, não há acréscimos, embora haja influências e pontos de coincidência com os Trovante, porque foi a música que eu gostei de fazer a vida toda e continuo a gostar de fazer. O que me fez mais feliz neste disco foi ter conseguido fazer exactamente o que queria. Não se trata, sequer, de qualquer conquista de liberdade – para isso, já teria abandonado os Trovante há mais tempo. Mas é sempre difícil uma separação total. Se se tirasse o Mick Jagger dos Rolling Stones e se se pusesse, em seu lugar, o Paul McCartney, as pessoas pensariam logo que se tratava dos Beatles…

Põe a hipótese de, no futuro, vir de novo a fazer parte de um grupo?
Não, nunca mais. Quando digo “nunca mais”, quero dizer que não vou voltar a andar á procura de fazer uma banda. Mas se, alguma vez, aparecer um grupo de gente para fazer qualquer coisa pontual, até é provável que aceite.

Isso tem a ver com a idade, com uma fase de maturidade?
Provavelmente. Acho que há uma idade de se formarem os grupos, a idade de se descobrir as coisas juntos, de compartilhar, uma idade em que, de facto, ainda não há, da parte de cada um, uma sabedoria adquirida que permita começar a andar sozinho. De facto, passados todos estes anos, apetece-me ficar sozinho.

De uma vez por todas, que papel desempenhou Milton Nascimento no seu estilo de cantar?
Gosto muito da maneira de cantar dele. O Milton Nascimento faz parte do leque das vozes que são referências para mim. Tal como a Simone, o Fausto – uma grande referência enquanto parceria, música-palavra. O Fausto e também o Sérgio ensinaram-me a respeitar o texto enquanto texto e a língua enquanto comunicação.

Considera-se uma pessoa tranquila e ponderada ou é só aparência?
Em relação à minha personalidade, ela não é serena. Mas sou sereno mas tento sê-lo. No entanto, na parte da composição, se não lutar pela inspiração, se me sento para tocar ou escrever e as coisas não saem, largo rapidamente e vou fazer outra coisa. Não sofro com as momentâneas faltas de criatividade. Largo tudo e vou-me embora: tomar banho, ver televisão, fazer o primeiro disparate que me apeteça. Não sou nada disciplinado nesse aspecto.

Aceita a imagem que algumas pessoas têm de si, de “bon vivant”?
Gosto das coisas boas da vida. Não faço cerimónia nenhuma. Não confundir as coisas boas da vida com outras coisas que parecem boas mas que acabam por não o ser tanto como isso, que a gente vai provando e deitando fora. Vamo-nos tornando selectivos.

* Compositor, pianista, guitarrista e vocalista dos Trovante, grupo entretanto já extinto. Gerente e proprietário do bar Chafarix. O seu primeiro álbum a solo, intitulado “Represas”, será lançado, nesta semana, pela EMI-VC.

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Sérgio Godinho – Entrevista (A Tinta Permanente É A Mais Volátil)

Pop Rock

5 de Maio de 1993

“Tinta Permanente” é o 15º álbum da discografia de Sérgio Godinho, quatro anos depois do lançamento de “Aos Amores”, último álbum de originais, e dois depois do duplo com novas versões de temas antigos, “Escritor de Canções”. Sem apresentar muitas novidades em termos formais em relação à sua obra anterior, “Tinta Permanente” te, entre outras, a virtude de mostrar que Sérgio Godinho permanece atento e vigilante às histórias do quotidiano e às histórias que se vão desenrolando no interior de si próprio.
Gravado entre Dezembro do ano passado e Março deste ano, “Tinta Permanente” tem produção do autor e de Paulo Pulido Valente. Os arranjos e direcção musical levam a assinatura de João Esteves da Silva, que já havia colaborado com Sérgio Godinho no álbum de 1983, “Coincidências”.
Entre os músicos convidados, contam-se José Salgueiro, Paleka, Tomás Pimentel, Pedro Wallenstein e João Paulo Esteves da Silva e um quarteto vocal feminino composto por Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Dora Fidalgo e Sandra Fidalgo. O alinhamento de temas é o seguinte: “O Elixir da eterna juventude”, “O primeiro gomo da tangerina”, “A face visível da Lua”, “Enfim SOS” (do filme de Sérgio Godinho “SOS Stress”), “Melhor que o amor”, “O fim de tudo”, “Pequenos delírios domésticos” (com música de Jorge Constante Pereira), “Os hinos” e “Fotos do fogo”.
Inicialmente programado para sair a 11 de Maio, problemas técnicos obrigaram a um adiamento, prevendo-se que “Tinta Permanente” seja editado ainda antes do final do mês.

“A TINTA PERMANENTE É A MAIS VOLÁTIL”

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As suas palavras dizem tudo. Ou quase. Sérgio Godinho, “escritor de canções”, regressa com novas histórias. Casos de amor, golpes de dor, partidas que a memória prega. Até de “dar porrada”, quando é preciso. Escritas, todas, a tinta permanente.

“Tinta Permanente”, primeiro disco de originais depois de “Aos Amores”, de 1989, renova o encontro de Sérgio Godinho com as palavras, a música das palavras, e as palavras com que desde 1971 vem escrevendo a vida em forma de canções. Entre o sonho e o esquecimento, continua a ser o primeiro dia.
PÚBLICO – Desde 1989 que não gravava um álbum de originais. A que se deve esta espera tão longa?
SÉRGIO GODINHO – Nunca funcionei com prazos nem contratos para gravar de tanto em tanto tempo. Depois, tenho interesses noutras áreas. O que aconteceu foi que, após ter gravado o “Aos Amores”, senti um certo cansaço, que era um bocado o fim da linha de uma determinada fórmula. Resolvi repensar tudo e fazer o espectáculo Escritor de Canções, em que reformulei a noção de acompanhamento e fiz uma revisitação de antigas canções sob roupagens diferentes.
P. – Essa pausa prende-se com os projectos que desenvolveu em cinema?
R. – É evidente. Fiz na altura o Luz na Sombra, uma série de programas sobre seis figuras e funções menos conhecidas do mundo da música, com toda a anarquia inerente a trabalhar numa produção da RTP. Foi muito absorvente. Depois houve também um projecto de três filmes de ficção, de título genérico “Ultimactos”, que acabei por filmar só em Janeiro do ano passado. Ficaram prontos em Setembro e programados para a grelha da RTP de Novembro, cuja reformulação, devido a esta estúpida guerra de audiências que existe, acabou por privilegiar, como produção portuguesa, apenas telenovelas e “sitcoms”. Os meus filmes ficaram em “stand by”…
P. – O título do novo álbum, “Tinta Permanente”, como o anterior, remete de imediato para a noção de escrita. Desta vez com a sugestão de um clássico…
R. – Em metade dos meus álbuns tive dificuldade em encontrar um título. O que é um bocado absurdo, tendo em conta que mexo imenso com as palavras… Há discos em que encontrei o título em primeiro lugar, como “Coincidências”, “Salão de Festas” ou “Aos Amores”. Mas houve outros em que, já depois do disco estar feito, foi como que ter de encontrar o nome para um filho vendo primeiro a cara dele. “Tinta Permanente” tem um bocado essa noção, daquilo que fica, que vai permanecendo, mas também do que foge: a tinta permanente é a tinta mais volátil. Há portanto uma ilusão. E uma ironia. Essa permanência traz consigo uma contradição. Dupla ironia.

“Luta permanente”

P. – Depois de “Escritor de Canções”, que de certa forma pode ser entendido como o fecho de um ciclo, “Tinta Permanente” não avança grandes novidades em relação à sua obra anterior. Será que esse estatuto de “escritor de canções” impede qualquer tipo de ruptura?
R. – Nunca fui, até por formação, uma pessoa de rupturas totais. Há caminhos próprios e o retomar de certos elementos. A minha proposta continua a ser mexer com o meu imaginário poético e tocar no imaginário das pessoas.
P. – Mas não receia a institucionalização do seu som? A nível dos arranjos ou de fórmulas melódicas, por exemplo? De uma certa maneira de vestir as canções que parece ter cristalizado?
R. – Só vendo canção a canção. A nível musical acho que há uma espécie de apuro, uma dinâmica da melodia…
P. – Sempre atrás da musicalidade das palavras?
R. – Não, à partida. Começo de uma base musical. O grande equívoco é que, como as minhas palavras são bastante fortes, presume-se que elas surgem antes da música. Na verdade, é a música que vai determinar o que serão as palavras. Quando falo em “luta permanente”, no texto de introdução, refiro-me à luta que existe no acto de compor. É estranhíssimo. Tenho dias em que não consigo fazer nada, um desgosto pela criação… até que de repente há uma fulgurância que me coloca outra vez na senda. Uma luta feita de jogos interactivos entre a melodia e o ritmo. Depois as palavras começam a aparecer, apesar disso e com isso.
Neste disco retomei três ou quatro coisas que procurei desenvolver, como a presença de coros femininos, que é quase uma constante do disco e que dá, de certo modo, um contraponto à minha maneira de cantar, mais enfática. Por outro lado, a presença de percussão. Só há três canções com bateria. Por outro, ainda, o retomar da guitarra acústica, que eu quase tinha abandonado e é o instrumento no qual componho. Abandoná-la seria quase uma traição a qualquer coisa que me é intrínseca.
P. – Em “Tinta Permanente” assoma com muita força uma dimensão que tem marcado toda a sai obra, a do tempo e das histórias que lhe servem de medida. O disco inicia-se com um “Elixir da eterna juventude”…
R. – É uma canção profundamente irónica, mas ao mesmo tempo séria. Em quadras que jocosamente vão descrevendo essa passagem do tempo e, em simultâneo, uma falsa declaração de envelhecimento. Por isso acabo com esse semi-“rap”: “Estou velho, dói-me o joelho, a parte interna de uma perna”…
P. – Como encara o seu próprio envelhecimento?
R. – A minha visão é muito estranha. Por um lado, sou muito pouco geracional, não me situo nem sobrevalorizo determinada época “versus” outra. Até em termos pessoais, tenho um bocado de dificuldade em definir a minha idade. Sinto-me muito puto. Com uma receptividade natural ao que está a acontecer.
P. – A experiência não conta?
R. – A experiência acumulada, seja em termos de criação ou das desilusões da vida, vai-me dando um certo calo. O que me permite neste momento falar do envelhecimento, da morte…
P. – O tema da morte surge várias vezes neste disco…
R. – Falo, de facto, várias vezes da morte, mas – é curioso – não num sentido depreciativo.
P. – Como fim e recomeço, talvez?
R. – O renovar das forças é essencial. Quando acabo um disco, por exemplo, fico sem vontade sequer de ouvir ou de compor. É um trabalho que esgota as energias criativas. Então sinto uma necessidade meio vampírica de me alimentar de outro tipo de criação. Mas voltando ao tema da morte, penso que este disco é até bastante luminoso. Embora tenha arriscado terminá-lo num tom sombrio, com “As fotos do fogo”.
P. – Um tema como “O primeiro gomo da tangerina” é quase “O primeiro dia” sem “o resto da tua vida”…
R. – Isso é engraçado. Essa canção foi composta ao ver a minha filha mais pequena comer a primeira tangerina.

Entre dois fogos

P. – Em “As fotos do fogo” recua ao período da guerra colonial. O que o levou a regressar a esse passado doloroso da história portuguesa?
R. – Faz-me um bocado impressão a falta de memória activa deste país. A incapacidade de construir a partir de uma experiência que foi fortíssima para o imaginário português – a guerra. Essa experiência está presente nas tatuagens que se vêem no Verão, nos braços por baixo de camisas de manga curta. No outro dia vi um tipo com uma tatuagem de um corpo de mulher que dizia, suponhamos, “Lena, amo-te”, riscado e corrigido para “Carla, amo-te” e de novo riscado e substituído por um terceiro nome.
Concretamente houve duas coisas que me levaram a escrever essa canção: uma reportagem do “Expresso” sobre o massacre de Wiryiamu [Moçambique, 1972] e, quase paralelamente, a história de militares que violaram mulheres sob ordens, na Bósnia. Quis ficcionar sobre o que leva as pessoas aparentemente sãs a, debaixo de certas circunstâncias, fazerem coisas que são contra todos os seus princípios e natureza. E depois, por outro lado, por que é que as pessoas se vão esquecendo disso. Não é só por bloqueio, porque o quotidiano tende a normalizar essas coisas, a diminuir a sua importância. O tipo da canção começa a ver as fotos da guerra, junto ao fogo da lareira, e vai vendo progressivamente menos. Até que acaba por fechar o álbum.
P. – Curioso como volta a assumir, em “Tinta Permanente”, um lado mais “intervencionista” para a sua música…
R. – Nunca fui grande fã desse rótulo de “música de intervenção”…
P. – Referia-me ao pôr o dedo em alguns tiques e taras da sociedade portuguesa.
R. – Essa palavra, “intervenção”, creio que se esgotou. Acabou por dizer menos do que aquilo que queremos dizer.
P. – Sente-se então na posição do artista afastado do mundo, que cria num limbo?
R. – Como criador e como artista, falo de coisas de que gosto e de outras de que não gosto. Com contundência e com poesia. A contundência, assim como o humor são segundas naturezas. Como tocar naquele ponto nervoso que provoca uma reacção em todo o corpo. É isto que eu quero fazer. Trabalhando de dentro para fora e não de fora para dentro.
P. – Em “Os hinos” é bastante contundente.
R. – Em “Os hinos” eu tinha que dar porrada…
P. – “Quantos sentidos tem a palavra que o hino tomou por escrava”, não é?
R. – Essa e outra frase essencial do mesmo tema: “Em cama onde não durmas não te deites”. “Tinta Permanente” é um disco irónico. Com uma utilização muito sarcástica da ideia.

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