Arquivo mensal: Junho 2015

Orbestra – “Transdanubian Swineherds”

Pop Rock

13 MAIO 1992

ORBESTRA
Transdanubian Swineherds
CD, Rykodisc, distri. MVM

orbestra

Projecto interessante, o destes Orbestra – um hidra de formação erudita liderada por Peter Cowdrey, que lança os seus tentáculos aos vários folclores do globo com o humor de uns Penguin Cafe Orchestra, a excentricidade de uns Kahondo Style e o apuro formal da orquestra filarmónica de Berlim. Os Orbestra acendem fogueiras à volta do Danúbio e sonham com os calores da Colômbia. Tocam tradicionais da Bulgária, da Grécia ou da Sérvia como se tivessem nascido lá, ou quase. E ainda têm tempo para dar um salto à Noruega ou para ensaiarem um passe de hipnose na Nigéria, ao som de “mbiras” e flautas de bambu.
Há sempre um toque de loucura, de transgressão, que os leva a inverter os papéis da instrumentação tradicional (há aqui trombones, violinos e fagotes ao lado de darbukas, “tapans” e “dvoinitsas”), a inventar novas cadências para as danças ancestrais, a obedecer aos imperativos da pauta com a reverência de um bárbaro ou, pelo contrário, a envergar um fraque da respeitabilidade na interpretação do piar dos passarinhos num casamento algures na Macedónia, ou no recorte de uma partitura de Bartok enfeitada com porcos (8).

Márta Sebestyén – “Apocrypha”

Pop Rock

13 MAIO 1992

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

MÁRTA SEBESTYÉN
Apocrypha

CD, Rykodisc/Hannibal, distri. MVM

ms

A primeira audição confunde, desnorteia, coloca interrogações. Neste contexto, faz todo o sentido a frase de Pessoa. Habituámo-nos à pureza do rosto de Márta Sebestyén e, por analogia, a ver nela e na sua música um território demarcado, um reduto indestrutível, um santuário de ortodoxia na paisagem inflacionada das músicas tradicionais.
A audição de “Apocrypha” começa, pois, por ser um choque. Mais para os nossos hábitos e preconceitos do que outra coisa, pois a experiência até nem é inédita. Márta decidiu arriscar e ser diferente. As “Muszikas” passaram a ser outras e com outros intérpretes. Para o lado ficou arredada a Hungria profunda e cigana de “The Prisoner’s Song”, “Muszikas” e “Transylvannia Blues”, substituída pela poesia, de outro tipo, dos computadores. O rosto de Márta, esse, continua resplandecente, iluminado por um sorriso onde agora julgamos ver um toque de ironia.
“Apocrypha” é então um disco de música electrónica na mesma medida que “Rosensfole”, de Agnes Buen Garnas com Jan Garbarek, “Gula Gula”, de Mari Boine Persen ou “Sagn”, de Arild Andersen, o são: efabulações imaginárias da tradição, delineadas sobre novos mapas e segundo modelos de sensibilidade moldados no convívio com a tecnologia electrónica.
No caso particular de Márta Sebestyén e da música folclórica da Hungria – que continua a ser o material base de todas as composições de “Apocrypha” –, poderia pôr-se reservas que se prendem às formas muito próprias desse mesmo folclore, ao arrebatamento dos intérpretes, sobretudo nos rasgos e síncopes arrancados aos instrumentos de corda. Diga-se desde já, e segundo esta perspectiva, que os computadores, manipulados por Károly Cserepes, estão longe de possuir a elasticidade e a riqueza expressiva de um violino cigano, de uma bombarda ou de uma gaita-de-foles, qualquer destes instrumentos fazendo parte da panóplia dos Muszikas.
A voz de Márta Sebestyén passou então a movimentar-se num terreno diferente. Se, nos Muszikas, se permitia entregar-se a maiores transportes dramáticos, agora inflectiu nos acentos poéticos, jogando na contenção e a uma espécie de jogo subtil do gato e do rato com os estímulos e automatismos propostos pelo computador. Táctica que resulta em pleno ao longo de todo o disco – onde, diga-se, a instrumentação tradicional não está de todo ausente, desempenhando embora um papel secundário – e que em “Betlehem, Betlehem” atinge o máximo de depuração e elevação.
Arrede-se, pois, para o canto, por esta ocasião, o que pensámos ser definitivo e reconheça-se, entre o pulsar dos sequenciadores, o que aprendemos a amar nos álbuns anteriores: uma voz com a energia do sol e o fascínio da lua, e uma música nascida das entranhas do tempo que aqui foi capaz de obter a mais difícil das vitórias: da ideia contra a prisão das sombras transitórias. (8)

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Maddy Prior & The Carnival Band – “Carols & Capers”

Pop Rock

13 MAIO 1992

MADDY PRIOR & THE CARNIVAL BAND
Carols & Capers
CD, Park, distri. Megamúsica

mp

Conclusão da trilogia de canções de Natal, iniciada com “A Tapestry of Carols” e continuada com “Sing Lustilly and with Goos Courage”. Para Maddy Prior, mais uma demonstração das suas extraordinárias capacidades vocais a que os muitos anos de experiência conferiram uma impressão de facilidade e descontracção não isenta de perigos, como o dão a entender algumas prestações talvez demasiado ligeiras aqui incluídas.
A música antiga continua a ser o filão inesgotável. Só que não chega utilizar um alaúde ou um “curtal”. Amiúde em “Carols & Capers”, o tom de celebração dispensa a interiorização e o aprofundamento sem os quais a “música antiga” corre o perigo de se transformar num postal ilustrado de redundâncias e citações “kitsch” aos reportórios medieval e renascentista. Música de dança de salão, espirituais americanos e transcrição bem-humorada de uma pauta de Marc-Antoine Charpentier contribuem para a diversidade de “Carols & Capers”, num programa que tem o brilho de uma árvore de Natal. (7)

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