TORI AMOS
Little Earthquakes
LP/CD, WEA, distri. Warner Music
Partamos do princípio que Kate Bush não existe. Admitindo que Kate Bush não existe, “Little Earthquakes” é um dos álbuns mais originais, inspirados, perturbadores, ousados e requintados gravados por uma voz feminina nos últimos anos. Voz envolvente, capaz de percorrer uma escala alargada de tons e sentimentos. As canções de “Little Earthquakes” abalam realmente, provocam arrepios na espinha, confundem, perturbam, levam-nos aos tropeções por uma montanha russa e pelo comboio-fantasma de uma feira de emoções. Algumas falam de sexo. Quase todas de paixão.
A questão sexual está sempre de alguma forma presente, nas espirais de orgasmo da voz, nos murmúrios, nas rouquidões húmidas que de súbito eclodem entre um salto de oitava e um salto emocional, na pureza perversa com que a cantora lança o seu feitiço, desnudando-se por dentro e descobrindo o sexo dos anjos. Sexo e religião interligam-se num universo de prazer e pecado onde a lógica não tem lugar. Império do sentir. Como Tori Amos sentiu, e de que maneira, aos 23 anos, na carne, sobretudo, e no espírito, através de sucessivas infecções na bexiga (também 23, tem piada) provocadas por um intenso complexo de culpa devido aos ditos problemas do foro sexual. “Todos os dedos do quarto apontam para mim” – queixa-se ou entusiasma-se em “Crucify”. A frase é ambígua, pode ser fálica. Pode se assustadora.
Vamos supor, como diz Tori, que “não tínhamos corpos e que apenas libertávamos pequenas energias luminosas, como cores, e que então nos fundíamos”, para a cantora, “o verdadeiro significado de fazer amor”. Sim, admitamos. O amor é platónico, mas nem sempre. Em “Leather”, Tori canta nestes termos: “repara, ergo-me nua diante de ti/ não queres senão o meu sexo/ posso gritar tanto com a última/ mas não posso pretender a inocência”. Em “Me and a gun”, a voz solo descreve movimentos suspeitos no banco de trás de um automóvel, incluindo pormenores de alguém que “desaperta as calças”. A espingarda não deve ser bem uma espingarda.
Há fantasmas à solta na música e na cabeça de Tori Amos. São eles que dão encanto ao disco. São eles que confundem e perturbam. Uma das canções chama-se “Happy Phantom” e inventa uma ópera universal em que Judy Garland leva Buda pela mão. Não quer dizer nada, mas faz-nos imaginar coisas.
Claro, continua a ser preciso fazer um esforço para não nos lembrarmos de Kate Bush e da semelhança de vivências (exceptuando as infecções da bexiga) entre as duas cantoras, que de resto se aproximam ainda nas inflexões vocais ou no modo como o corpo inteiro se assume como filtro das emoções. Canções como “Crucify” ou “Silent all these years” recordam também outra senhora, chamada Dalbello, canadiana que há muitos anos editou um disco intitulado “Womanfoursays”. Não chega a constituir problema porque quase ninguém conhece.
Depois, há a maneira de Tori tocar piano, como se este instrumento fosse uma grande caixa de música de onde se evolam notas estranhas, presentes nas afinações exóticas de “Precious Things” ou “Mother”. E há outros pequenos terramotos: “ragtimes” fantasmagóricos, Lili Marlene num clube de jazz, e medos maiores e mais profundos na assombração final de “Little Earthquakes” – “dançámos em cemitérios com vampiros até de madrugada/ rimo-nos na cara dos reis, sem medo de nos queimarmos/ odeio, odeio, odeio/ a desintegração espera por nós”. Tudo é diferente em Tori Amos. Tudo seria ainda mais diferente se não existisse Kate Bush. (7)
“Harvest Moon”, novo álbum de Neil Young, editado em Portugal no dia 23 de Outubro, com o selo Warner Music, revisita o seu antepassado de 1972, “Harvest”. Os músicos são os mesmos, os arranjos acústicos remetem para os de há 20 anos. São canções de amor, de ressaca, passado o delírio eléctrico e o excesso de “Weld”, o álbum anterior. Agora o autor de “After the Gold Rush” anda pela Europa a explicar que não se trata de qualquer acesso de nostalgia, apenas de um álbum capaz de agradar a toda a gente. Um grupo de jornalistas convidados escutou as suas razões, numa conferência de imprensa realizada na semana passada num hotel de Madrid. Não são grandes razões as que o músico apresentou. Neil Young fala pouco, preferindo deixar as opiniões sobre o seu trabalho para os críticos e o público em geral. “Harvest Moon” é um bom álbum de canções, registadas num momento de pacificação. O guerreiro em tempo de paz.
Que motivos levaram afinal Neil Young a este regresso a um passado distante? As respostas não foram claras, ficando uma série de dúvidas a pairar no ar. Ele diz que foi quase por acaso: “Escrevi as canções primeiro, depois escolhi os músicos e só então reparei que eram os mesmos [os Stray Gators], que tinham trabalhado comigo em ‘Harvest’.” Pura coincidência, portanto. Quanto aos arranjos, acústicos como no álbum de 1972, devem-se unicamente à inspiração de momento. “Foram escritos na guitarra acústica. Ficavam melhor num registo ‘soft’.” Poder-se-ia pensar numa repetição de esquemas. Mas também aqui Neil Young se recusa a abrir o jogo, embora conceda: “Durante muitos anos as pessoas pediram-me para fazer isto, mas não tinha as canções certas. Não programo o tipo de canções que escrevo. Aconteceu agora e pronto.” E pronto.
Certo é que “Harvest Moon” não esconde a filiação, senão não repetiria a palavra comum aos dois álbuns. E compreende-se que a escolha tenha recaído em “Harvest”, que foi, na altura do seu lançamento, um dos que mais dividendos monetários trouxe ao seu autor e o projectou na cena rock internacional. Por outro lado convém não esquecer que a obra de Neil Young se organiza por avanços e recuos sucessivos – “Vou a um extremo e depois regresso, para não haver perda de energia. Energia que é mais forte quando toco com os Crazy Horse, visível em trabalhos como ‘Ragged Glory’, ‘Weld’ e ‘Arc’. Depois tenho de parar e tocar qualquer coisa mais suave” –, agrupando-se os álbuns em núcleos específicos. É verdade que “Harvest Moon” remete em primeiro lugar para “Harvest”, mas não é menos verdade que também não anda longe do registo de “Comes a Time”, de 1978. Da mesma maneira que “Weld” se poderá inserir numa linha idêntica à de “Ragged Glory” (1990) e “Rust never Sleeps” (1979). Intenções declaradamente comerciais não existem: “É um álbum sentido com o coração. As pessoas podem dizer o que quiserem. Não tenho de defender a minha música, apenas de a fazer.”
Uma pausa e promoção
Fica de imediato afastado qualquer paralelo com uma estratégia semelhante, por exemplo, à de “Tubular Bells II”. Nem a integridade artística sempre mantida pelo autor o permitiria. Desde os tempos longínquos de “Everybody Knows this Is nowehere” que Neil Young recusa a segurança de um estilo ou de uma fórmula que se revele rentável. Ele é por natureza um explorador, alguém que se recusa a parar. Do rockabilly à country, do rock nos mais diversos matizes ao escândalo que em 1983 causou a aventura electrónica de “Trans”, é todo um percurso em que constantemente tem procurado novas soluções. Por tudo isto também espanta a pausa que “Harvest Moon” significa. E é de facto de uma pausa que se trata. Se “Weld” e a sua extensão de puro caos e “feedback” que é “Arc” – “nas discotecas utilizam-no em blocos de 10 segundos entre as canções para dançar e na rádio costuma servir de separador” –, gravados durante a guerra do Golfo, representam, nas suas palavras, algo parecido com “estados alterados, como o ar que se transforma em vapor” ou “uma fronteira limite, o princípio de algo novo, um tiro no escuro”, “Harvest Moon”, pelo contrário, é “a calma depois da tempestade” e “a paz a seguir à guerra”.
Quanto às actividades promocionais em que, pela primeira vez em 25 anos de carreira, se vê envolvido, devem-se a directivas dos patrões da editora, que viram em “Harvest Moon” um álbum com um potencial comercial razoável: “Em Los Angeles sentaram-me numa cadeira e disseram-me: ‘Temos de fazer isto, senão ninguém saberá que tens um novo álbum.’” Neil Young acedeu e parece que não se tem dado mal com a mudança: “Agora posso viajar pela Europa, por cidades maravilhosas, frequentar bons restaurantes…” A questão é que, se, como ele diz, os fãs “hard core” não precisam de referências para adquirir o álbum, já o mesmo não acontece com uma franja de público novo que, de outro modo, não teria acesso a saber da existência do disco – “É um tipo de música que a rádio não passa, nos dias de hoje.”
Ídolos da América
Em “Harvest Moon”, Neil Young escreve e canta sobre o amor e a loucura. Ele prefere que sejam os outros a tirar conclusões. Questionado quanto à temática de algumas canções, de novo se escudou num quase mutismo: “Um verso de ‘Dreamin’ Man’ diz algo como ‘sou um sonhador’. Tem sido esse o meu problema.” Problema que Neil Young reduz a “alguém que não consegue adaptar-se à realidade”, sem adiantar outros pormenores: “Tentar explicar as canções é trair essas canções.” Um ponto de vista defensável, por muito que custe à curiosidade jornalística. Noutra canção, “From Hank to Hendrix”, refere explicitamente, além das duas personagens citadas no título – Hank Williams, nome lendário da música country, e Jimi Hendrix –, os nomes de Marilyn Monroe e Madonna. Neste caso, forneceu algumas explicações extra, talvez por incidirem numa temática de teor não autobiográfico: “Hank e Hendrix são pólos positivos da América. As pessoas gostam de ouvi-los, porque são ambos grandes músicos. Marilyn e Madonna fazem pensar em coisas diferentes… As pessoas ainda não têm uma opinião definitiva sobre a sua qualidade.” Sobre a autora de “Sex” e “Erotica”, contudo, Neil Young tem uma opinião formada, por sinal positiva, já que considera que “alguma da sua música é boa” e à escandalosa “uma cantora com potencial”, que “fará música mais aventurosa no futuro”.
A queda de Colombo
Neil Young, que já sofreu na carne os efeitos da censura, em Espanha, onde lhe cortaram o texto da canção “Cortez the Killer” (do álbum “Zuma”) sente-se mais à vontade quando questionado sobre os outros ou sobre assuntos de ordem menos pessoal, ou íntima. A propósito da descoberta da América por Cristóvão Colombo, da qual se comemora este ano o quinto centenário, assunto que mantém excitados os nossos vizinhos espanhóis, Neil Young deitou um balde de água fria sobre os ânimos de “nuestros hermanos”: “Colombo? É uma anedota. Um ídolo caído. Passados 500 anos, já ninguém fala da descoberta, mas do extermínio dos nativos americanos. Há um mal-estar geral. Durante séculos, Colombo foi um herói. Agora, o seu tempo terminou.”
Entre os projectos actuais do músico, conta-se o regresso ao cinema (na lista dos seus realizadores preferidos figuram Scorsese, o Godard das origens, Fellini e Alan Rudolph), através da realização de um filme centrado sobre a história, lida num livro, de “uma senhora franco-canadiana que afirmou ter encontrado uma cura para o cancro”. Enquanto isso continua a apoiar várias organizações de auxílio a crianças deficientes, uma para doentes e seropositivos da sida, outra de ensino da fala com o auxílio de computadores.
De Bob Dylan, ao lado de quem tocou recentemente no concerto do 30º aniversário de carreira daquele compositor, diz ser uma “personalidade única e fascinante” e um grande poeta (“tal como Shakespeare”), cuja música “sabe falar à sua geração”. Vai mais longe ao afirmar que “as palavras ganham um novo sentido quando saem da sua boca”. Instado a pronunciar-se sobre as próximas eleições nos Estados Unidos, Neil Young ficou-se por um lacónico: “Sou canadiano!”
Em “The Voyage”, Philip Glass celebra o quinto centenário da descoberta da América, por Cristóvão Colombo. A ópera estreou-se no passado dia 12, na Metropolitan Opera House, em Nova Iorque, com lotações esgotadas e transmissão radiofónica, em directo para os Estados Unidos, em diferido para a Europa. Seguem-se Vasco da Gama e os Descobrimentos portugueses, em “The White Raven”, e o mais que vier por encomenda.
Em simultâneo com este novo trabalho, volta à cena “Einstein on the Beach”, a sua primeira ópera, escrita em 1976, de parceria com Robert Wilson, numa “tournée” mundial que culminará na Academia de Música de Brooklyn. Entretanto, “The White Raven”, “Orphée” e “Low” encontram-se em fila de espera. “The White Raven” é a ópera encomendada pela Comissão dos Descobrimentos Portugueses, com “libretto” da escritora Luísa Costa Gomes e estreia prevista para 1994, em Lisboa ou em Bona, que aborda numa perspectiva metafísica (idêntica à de “The Voyage” as viagens do navegador português Vasco da Gama.
Em “Orphée”, Philip Glass faz a adaptação operática do filme realizado por Jean Cocteau, em 1949. Finalmente, “Low”, uma sinfonia que recria temas instrumentais do disco homónimo de David Bowie, gravado em 1977, tem estreia prevista para o próximo mês e contará com as colaborações de próprio Bowie e de Brian Eno. A sinfonia sairá em disco com o selo Point Music, criado recentemente por Glass. Na calha estão já cinco novas óperas…
Philip Glass, aos 55 anos de idade, não tem pois mãos a medir. Ele é sem dúvida o compositor contemporâneo mais solicitado pelas instituições oficiais. A todas as encomendas, Glass responde com quilómetros de pauta e notas musicais fotocopiadas, de maneira a fazer render ao máximo a mina do minimalismo, termo que há muito deixou de fazer sentido e para o qual o próprio compositor admite estar-se nas tintas. “The Voyage”, por exemplo, pouco ou nada tem que ver com a atitude pioneira de quem, nos anos 60, ao lado de nomes como LaMonte Young, Steve Reich e Terry Riley, ousou lutar contra a ortodoxia que acorrentava a música contemporânea às regras do tempo linear.
Então, Glass era um revolucionário. Hoje, é um académico. As microdivisões tonais aprendidas com os mestres indianos deram lugar a outro género de números e divisões. “The Voyage”, talvez ainda influenciado pelo ritmo que levou Philip Glass a escrever música para os últimos Jogos Olímpicos de Barcelona, até bateu recordes – é a produção de ópera mais cara de sempre, com um orçamento inicial de 325 mil dólares, mas cujas despesas finais deverão rondar os dois milhões de dólares, derrubando a anterior marca, detida há longo tempo pelo conhecido Giuseppi Verdi, com “Aїda”, que, feitas as devidas equiparações e câmbio monetário, alcançou na época (em 1870) a marca notável de 225 mil dólares.
À descoberta do continente humano
“The Voyage” é uma grande ópera, na senda das não menos grandes “Einstein on the Beach”, “Satyagraha” e “Akhnaten”, já para não falar da sequência interminável de “Music in 12 parts”. Alguns dados adicionais sobre este trabalho: tem três horas e meia de duração e o “libretto” leva a assinatura de David Henry Hwang (autor dos textos do “music-hall” “Madame Butterfly” levado à cena na Brodway em 1988 e com quem Glass já trabalhara em “1000 Aeroplanes on the Roof”). Entre os intérpretes, contam-se Timothy Noble, Tatiana Troyanos e Douglas Perry. A cenografia, a cargo de Robert Israel, inclui adereços como uma colagem de um quadro de Van Gogh, uma pirâmide transparente, uma cabeça gigantesca da estátua da liberdade e um foguetão. Não se pode dizer que haja muitos pontos em comum com “O Barbeiro de Sevilha” ou a “Flauta Mágica”…
O argumento parece ser, à partida, interessante: a exploração dos meandros mentais do “homo sapiens”. Cristóvão Colombo serve de pretexto. E a América simboliza o continente desconhecido do inconsciente humano. A história começa com um prólogo narrado por um cientista preso a uma cadeira de rodas, numa alusão directa ao físico Stephen Hawking (também ele – considerado por muitos o “novo Einstein” – na praia?). Refira-se a propósito que Philip Glass esteve para escrever a partitura de um filme de Erroll Morris – na sequência do que já fizera antes em “The Thin Blue Line”, deste mesmo realizador – intitulado “A Brief History of Time”, baseado no livro com o mesmo título, escrito em 1988 por aquele astrofísico.
Tudo funciona para além das aparências e da História. O primeiro acto, passado nos primórdios da humanidade, decorre na Idade do Gelo e apresenta os extraterrestres como nossos progenitores, segundo a teoria dos deuses astronautas que vieram à Terra procriar. O que, diga-se de passagem, soa bastante menos comprometedor que descender dos macacos.
O terceiro e último acto transporta-nos ao ano 2092 e mostra esses mesmos extraterrestres a abandonarem pela calada o nosso planeta, aparentemente arrependidos do trabalhinho que arranjaram. Coisa mítica, como se vê. É o regresso à ficção científica de Philip Glass, que, numa ópera menos conhecida, já encenara a novela de Doris Lessing, “The Making of the Representative for Planet 8”. Entre Colombo, Vasco da Gama e os homenzinhos verdes, Philip Glass lá vai facturando à conta do vazio que se instalou no coração do século.