Arquivo mensal: Abril 2015

Robert Fripp & The League Of Crafty Guitarists – “Show Of Hands”

Pop Rock

 

19 JUNHO 1991

 

ROBERT FRIPP & THE LEAGUE OF CRAFTY GUITARISTS

Show of hands

LP/CD, Editions E.G., distri. Edisom

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Tomando como exemplo este “‘show de mãos”, Robert Fripp passou a ter, a partir de agora, 34 daqueles membros anteriores, num total de 340 dedos. Acontece que os 16 músicos que integram a “liga dos guitarristas habilidosos”, formados no curso orientado pelo próprio ex-líder dos King Crimson, são como que os múltiplos tentáculos de um único corpo, cujo cérebro é, obviamente, Fripp. Embora oficialmente este se limite a assinar dois dos 14 temas instrumentais, escritos para guitarra, na prática, o que os ouvidos ouvem e o coração capta é uma determinada sensibilidade e abordagem técnica à guitarra, eminentemente frippianas, ressalvando as inevitáveis idiossincrasias dos respectivos intérpretes. Por detrás deste, digamos, totalitarismo estético, há todo um suporte ideológico que não cabe aqui explicar, coerente com as premissas que o músico há anos vem anunciando. A tónica incide assim num “colectivismo” assumido e exemplarmente demonstrado no tema “Circulation”, em que, a partir de uma sucessão de notas tocadas individualmente por cada músico, se constrói o círculo fechado por onde flui a energia acumulada dos intervenientes. O símbolo da capa (como no álbum “Discipline”) é, neste aspecto, para quem souber ver, esclarecedor sobre as técnicas tântricas utilizadas. São permitidas pequenas heterodoxias: “A Connecticut yankee in the court of king Arthur” junta Snakefinger (defunto colaborador dos Residents) com Steve Howe (dos Yes). “Chiara” ou a parte final de “Asturias” nada devem aos transes de Laraaji. A voz solo de Patricia Leavitt funciona de interlúdio em cinco temas, de resto perfeitamente dispensáveis. Quanto ao “show” de guitarras, é assombroso do princípio ao fim. Os discípulos, deixaram de ser aprendizes de feiticeiro, para se equivalerem ao mestre. Brilhante. ****

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Tim Buckely – “Sefronia” + “Look At The Fool” + “Dream Letter”

Pop Rock

 

5 JUNHO 1991

IMPORTAÇÃO DO CATÁLOGO DEMON RECORDS

 

TIM BUCKLEY

Sefronia (1973) **

Look at the Fool (1974) **

Dream Letter (reed. 1990) ***

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Obedecendo sabe-se lá a que estratégias comerciais, a obra de Tim Buckley começou, entre nós, a ser editada pelo fim, pelos anos correspondentes à fase da decadência criativa, das concessões ao “business” e da incongruência de atitude. Longe iam os tempos de glórias passadas como “Goodbye and Hello”, “Happy Sad” ou a viagem interminável pelos confins da loucura que é “Starsailor”.

Rendido ao apelo dos dólares, cansado de ser remetido para o “ghetto” dos autores malditos, Tim Buckley terá pensado ter chegado a altura de alterar tal estado de coisas. “Sefronia” constitui o primeiro passo decisivo nessa direcção, após a tímida tentativa de “Greetings from L. A.”. Perdida a magia da época dourada, a própria voz parece deslocada, em registos que procuram apoio na “soul”, resultando, na prática, pelo menos duvidosos. Uma canção assinada por Tom Waits e um último vestígio de lucidez poética (nas duas partes de “Sanfronia” – “After Asklepiades” e “After Kafka”) são insuficientes para salvar o álbum da mediania.

“Look at the Fool” avança ainda mais no abismo da decrepitude. Tudo se reduz ao rock mais vulgar, contundente, é certo, mas totalmente falho de inovação. Canções curtas, insípidas, passam com a brevidade de uma brisa, sem deixar marcas nem boas recordações. A partir daqui, para Tim Buckley, a música passava a ser outra, em canções sem sons nem palavras que viriam a revelar-se fatais.

“Dream Letters”, gravado ao vivo em Londres, 1968, funciona assim como a derradeira imagem de uma personalidade inquieta, perdida entre visões poéticas alucinadas e uma energia que aos poucos a viria a consumir. Imagem difusa de uma voz apaixonada, em diálogo intimista com as reverberações de um vibrafone e a tristeza sombria de um contrabaixo.

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John Cale – “The Academy In Peril”

Pop Rock

 

5 JUNHO 1991

IMPORTAÇÃO DO CATÁLOGO DEMON RECORDS

 

JOHN CALE

The Academy in Peril (1972) ****

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John Cale, académico, é sempre suspeito. Pelo menos na época em que gravou o disco em questão. De formação clássica, o músico galês optara pelo niilismo e a violência conceptual dos Velvet Underground, guardando para a sua obra a solo as experiências mais periferias, que, ocasionalmente, viriam a resultar em discos esplendorosos, como “Fear”, “Slow Dazzle” ou “Music for a New Society”.

Gravado numa igreja com o acompanhamento da Royal Philharmonic Orchestra, “The Academy in Peril” pode considerar-se como obra que antecipa, com duas décadas de avanço, o formalismo clássico e o rigor estrutural do recente “Words for the Dying”, mas que, ao contrário deste, é permeável a um humor subtil, a que não é alheio a participação de Legs Larry (dos Bonzo Dog Band, variante pop/burlesco dos Monty Python). Música clássica assumida, subvertida ou subversiva? Podem levar-se a sério títulos como “Brahms”, “Faust” ou “John Milton”, com um “Legs Larry at Television Center” pelo meio? Estaria a academia realmente em perigo, ou tudo não passava de uma ressaca provocada pelos excessos de “The Church of Anthrax”, monstruosidade paquidérmico-minimal levada a cabo com a cumplicidade de Terry Riley? Estas e outras questões permanecerão talvez para sempre sem resposta. A capa (uma série de slides Kodachrome de Cale, assinados por Andy Warhol) ajuda a aumentar a confusão.

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