Arquivo mensal: Abril 2015

Bill Pritchard – “Jolie”

Pop Rock

 

10 JULHO 1991

 

BILL PRITCHARD

Jolie

LP/CD, Play It Again Sam, distri. Contraverso

bp

Na capa, o rapaz está mesmo “joli”. Vestido de negro, sobre alvo areal, em tarde soalheira, toda azul celeste de filtro a condizer. A música, não é menos “jolie”. E as canções, contando histórias da vida do rapaz, das namoradas do rapaz, dos Verões passados no paraíso (sempre perdido) pelo rapaz, até das tias do rapaz. No fundo, o imaginário e a iconografia pop de sempre, só que, no caso de Bill Pritchard, transformados em objecto de luxo. Desde as fotografias interiores, de Anton Corbijn, aos arranjos requintados, sem esquecer as entoações acetinadas da voz, como se Bill quisesse fazer o álbum mais elegante do mundo, tudo contribui para o resultado final de “produto acabado”, bem embalado e apoiado numa dose bem servida de inspiração.

Se, por vezes, os acentos vocais de Bill Pritchard se parecem em demasia com os de Lou Reed (“Pretty Emily” ou esse “Tears of Maxine” que não destoaria em qualquer álbum do ex-Velvet Underground), ou, noutras ocasiões, com a sinuosidade swingante de um Morrisey luminoso (o refrão de “In the Summer” ou a totalidade de “Violet Lee”), nem por isso “Jolie” deixa de cintilar como uma jóia entre o esterco das músicas “de top” circundantes. Um pouco mais de azul (sem filtros) e seria o céu… ****

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Violent Femmes – “Why Do Birds Sing?”

Pop Rock

 

19 JUNHO 1991

 

JOGOS PROIBIDOS

 

VIOLENT FEMMES

Why do Birds Sing?

LP/CD, Slash, distri. Polygram

vf

A América tem essa estranha capacidade para se autoparodiar. Como se tudo se reduzisse a uma imensa feira consumista e Deus, o Presidente, Marilyn, cowboys, a Coca-Cola ou a “fast food” fossem uma espécie de mitos comerciais despejando eternamente no mercado produtos para usar e deitar fora. Para o americano médio, não há coisas mais importantes que outras. Cada uma será importante apenas à medida das necessidades imediatas do seu utilizador. A religião não escapa à regra. Há religiões para todos os gostos, publicitadas preferencialmente via televisão. Os Violent Femmes são os representantes típicos desta atitude, para muitos leviana, mas para eles perfeitamente natural. A Gordon Gano, vocalista de voz esganiçada, não faz impressão tocar guitarra ao domingo, durante a missa, numa qualquer igreja americana (não diz qual, já que o segredo é a alma do negócio) e, nos discos, berrar imprecações ou descrever minuciosamente perversões várias, desvios sexuais e violência gratuita. A sua filosofia consiste em levar a vida a brincar, mesmo quando os assuntos são sérios. “A vida tende para o cómico” – diz ele –, “o que não impede que a levemos a sério.” De facto, nada impede. Os discos dos Violent Femmes (incluindo este último) são até, neste aspecto, extremamente divertidos. Se só o estilo vocal de Gano faz rir, quanto mais palavras tão divertidas como “o passeio rebentou-lhe a cabeça, quando ela se atirou pela janela de um altura de 30 andares e atingiu o cimento sólido do chão” (em “Out the window”). Coisas da vida. Ridículas, triviais. Não por acaso, Gano considera “Why do Birds Sing” o álbum mais leve e engraçado da banda. Todos lhe perdoam as brincadeiras. Até o padre da igreja de que é membro efectivo assegura que jamais o expulsará. Mesmo as ovelhas negras têm direito a pertencer ao rebanho.

Para além dos “gospels” perversos espalhados um pouco por todo o álbum (“Girl trouble”, cuja introdução ostensivamente evangélica precede uma invocação a James Brown ou “He likes me”, em que Jesus ensina “a amar os inimigos”), Gordon Gano deu recentemente livre curso às suas tendências religiosas no seio da banda “gospel” Mercy Seat (onde afirma ter aprendido “imenso”). Hoje toca regularmente guitarra numa igrejinha, ao lado de um padre organista de 75 anos e de um rapazinho baterista, de 12. A explicação para tanta virtude é simples: para Gordon Gano, a “principal motivação está no conteúdo espiritual das letras”, para muitos uma mera cumulação de “clichés”, mas para ele “símbolos das experiências mais positivas da vida”.

Os outros músicos, Brian Ritchie (foi-lhe concedido tempo para gravar dois álbuns a solo – “The Blend” e o recente “I See a Noise”), Michael Beinhorn (companheiro habitual de Bill Laswell, nas suas aventuras fusionistas, fez parte dos Material e Golden Palominos) e Victor de Lorenzo fazem o possível por conter o rido enquanto se divertem à grande. Ritchie no baixo, Beinhorn armado em sacristão, no órgão Hammond, ambos compenetrados, a acompanhar respectivamente os delírios “country” da guitarra acústica e os discursos inflamados de Gano.

Quanto a este, completamente tresloucado, na guitarra (qual Eugene Chadbourne em versão protestante) e nas vocalizações (a abertura, “American music”, soa como uma mescla de Lou Reed, Don MacLean – o tema é, de certa forma, uma “pastiche” ao hino americano “American Pie” – e Jonathan Richman; em “Hey nonny nonny”, a voz rivaliza, no exagero nasal, com Michael Stipe, dos REM), lá vai, cinicamente ou não, convertendo uns quantos nababos ao seu credo abastardado. Mesmo quando ele próprio dá tudo por tudo para parecer sério, na versão muito especial do queixume Culture Club de “Do you really want to hurt me?”. Com os Violent Femmes, é preciso acrescentar “religion” à tríade “sex, drugs & rock’n’roll”. ***

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The Fall – “Shift-Work”

Pop Rock

 

19 JUNHO 1991

 

THE FALL

Shift-Work

LP/CD, Cog Sinister/Fontana, distri. Polygram

fall

A sinceridade e a honestidade são duas grandes virtudes. Geralmente arredadas do mundo da música, onde quase sempre os fins justificam os meios. Dito de outra maneira: todos os golpes são lícitos quando calha a facturar. Mark E. Smith e os Fall têm todas as condições para se imporem no mercado, fora do circuito restrito independente. Simplesmente não querem, se isso os obrigar a afastarem-se, um milímetro que seja, da linha de orientação que desde há muito para si próprios traçaram. Assim, recusam o acessório, o adorno inútil, para se reterem no essencial que, no seu caso, passa pela denúncia de tudo o que consideram errado. A arma preferencial tem sido e continua a ser o rock, duro, sem concessões, suporte musculado e infatigável do discurso acusador de Mark E. Smith. Não há pausas para descansar (exceptuando talvez a balada sentimental “Edinburgh man”. Muito menos canções para distrair. Quando muito o espaço apertado para a dança em “The mixer”, aberto pelo sequenciador de baixo e a caixa de ritmos. De resto, são as batidas primárias, a energia (assustadoramente negativa e disforme no tema final “Sinister waltz”) e as palavras violentas de sempre. Os Fall são, à entrada dos anos 90, aquilo que os Sex Pistols foram meteoricamente nos 70 – um murro na cara do sistema. ***

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