Arquivo mensal: Fevereiro 2015

Roger McGuinn – “Back From Rio”

Pop Rock

30 JANEIRO 1991

ROGER MCGUINN
Back from Rio

LP, MC e CD, Arista, distri. BMG

Consta em todos os manuais: os Byrds foram, ao lado dos Beach Boys, um dos grupos americanos dos anos 60 que mais influenciou o som das gerações futuras. “TRue originals”, como os anglo-saxónicos costumam dizer. Foram originais a vários níveis – na maneira como souberam integrar diversas linguagens musicais (o jazz, as ragas indianas e, sobretudo, a “country”) no vocabulário do Rock; no aproveitamento, em estúdio, do “espaço” sonoro e da reverberação (recorde-se a fabulosa produção de “Eight Miles High”), que, juntamente com a característica anterior, conferiram aos Byrds o estatuto de precursores do psicadelismo e, finalmente (porventura o mais importante), na mestria com que facilmente compunham “clássicos” através de uma intuição melódica que, na altura, talvez só encontrasse rivais nos já citados Beach Boys e nos inevitáveis Beatles.
Convém relembrar estes factos, já que “Back from Rio” representa, em grande medida, o renascimento do som da banda extinta em 1973. Ao longo de todas as faixas manifesta-se, com inconfundível fluência, o som característico da velha guitarra Rickenbacker de doze cordas que, aliado ao não menos característico timbre vocal do ex-Byrd, faz de “Back from Rio” um perfeito sucessor das aventuras de antanho.
Chris Hillman e David Crosby, seus antigos companheiros, ajudam no processo de recuperação do mito. Elvis Costello, Tom Petty e Dave Stewart (Eurythmics) contribuem para que o disco não possa ser confundido com uma mera estratégia revivalista, através da assinatura e participação nos temas “You Bowed Down”, “King of the Hill” e “Your Love is a Goldmine”, respectivamente. Stan Ridgway empresta a sua voz, via telefone, a “Car Phone”, homenagem (que inclui a citação de um dos seus versos) aos “fabulosos quatro” de Liverpool.
“Back from Rio” testemunha o facto, hoje em dia cada vez mais evidente, do desaparecimento do confronto entre as diferentes épocas musicais das últimas três décadas. Se algo entretanto mudou nesse período, não foi certamente a capacidade de Roger McGuinn nos transportar, a cavalo em guitarras, pelos caminhos míticos da América. Um regresso feliz. ***

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Chris Burke – “Idioglossia”

Pop Rock

30 JANEIRO 1991

CHRIS BURKE
Idioglossia

CD, Mode, distri. VGM

“Idioglassia” – “condição na qual a pessoa afectada pronuncia as palavras de tal forma distorcidas que a fala resultante se aparenta a uma linguagem própria e individual”. Traduzido em termos musicais, o conceito corresponde neste CD a uma série infinita de manipulações electrónicas a que são submetidos “samples” previamente gravados, segundo uma estratégia de desmultiplicação estilística que só encontra paralelo entre os Negativland, Steve Fisk, os Residents da fase inicial ou os Severed Head de “Clifford Darling Please Don’t Live in the Past”, estes últimos na maneira como, a partir do processamento e sequenciamento de vozes “sampladas”, se constroem melodias e ritmos fragmentados. Vinte e nove miniaturas computorizadas, de títulos tão estranhos como “World of Deceptikons”, “A Little Yes and A Big No” ou “Listen for Fossils”, tornam “Idioglassia” num trabalho inclassificável e imprescindível para os apreciadores do bizarro. ****



Jefferson Airplane – “Surrealistic Pillow” + “Crown Of Creation” + Volunteers” (reedições)

Pop Rock

29 MAIO 1991
REEDIÇÕES

JEFFERSON AIRPLANE
Surrealistic Pillow **
Crown of Creation ***
Volunteers **

CD / RCA, distri. BMG

ja1

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ja3

Começa a fartar, a década de 60. Tudo o que é “Sixties” é bom. Nesse tempo é que era. Os ideais, a luta contra o “establishment”, gozar à brava, enfim, a grande farra. A música desses anos conturbados reflecte a confusão. Desde os percursores aos mártires, passando pelos oportunistas, há de tudo um pouco. Mais ou menos por volta de 1966, eclodia na costa Oeste dos Estados Unidos, mais concretamente na cidade de São Francisco, um movimento que se convencionou chamar de “psicadélico” ou, para outros, de “acid rock”, o que, na prática, vai dar ao mesmo. O mesmo é obviamente o ácido, lisérgico, vulgo LSD, que o professor Leary, na época, apregoava como panaceia universal. Exploração dos espaços interiores, libertação dos sentidos, comunicação directa com os deuses – eram as explicações mais vulgares que justificavam o consumo desregrado de substâncias que faziam ver estrelas durante o dia e permitiam falar de igual para igual com os nossos “irmãos”, apenas mais atrasados evolutivamente, como as ratazanas ou os pepinos.
Os músicos experimentaram, para ver como é que a coisa resultava, em termos de inspiração. Como em tudo, resultou bem com uns, pessimamente com quase todos. Os bons ficavam óptimos. Os maus, geralmente tocavam dois acordes de “sitar”, faziam “V” com os dedos e caíam para o lado, com um sorriso beato nos lábios. Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix e mais nuns tantos que a história ignorou, foram até às últimas consequências, com os resultados que se conhecem. Os outros, ex-“hippies”, reconvertidos às delícias da sociedade de consumo, ajudaram a fazer o folclore.
Na tal costa Oeste, a tríade de “psicadélicos” célebres incluía os Grateful Dead, de Jerry Garcia, ainda em actividade, os Quicksilver Messenger Service e os Jefferson Airplane. Na maior parte das vezes o mito ultrapassou a realidade. Dito de outro modo, a música não sobreviveu ao teste temporal. Dos Jefferson fizeram parte grandes músicos (Paul Kantner, Marty Balin, Jorma Kaukonen, Jack Casady) e uma voz razoável (Grace Slick). Na época, os três álbuns agora reeditados fizeram furor, sobretudo o primeiro (1967, terceiro nos tops americanos), de “Somebody to love” e “White rabbit”, hinos do psicadelismo, respectivamente ao “amor livre” e ao consequente disparo em flecha da taxa de natalidade, daí a subtil alusão aos coelhos que, como toda a gente sabe, etc. “White rabbit” chegou mesmo a provocar problemas com a editora, motivados pela referência explícita às drogas e à palavra “shit”. O pior é que as restantes canções se ficam pela normalidade, sem quaisquer rasgos de génio ou, pelo menos, já que se pretendiam “psicadélicos”, de uns toques de exotismo que então deleitavam os jovens que dos relvados públicos faziam local privilegiado para as suas viagens astrais. “Crown of Creation” é melhor. Mais esquisito. Tem sons que já poderemos chamar de “psicadélicos”. “Chuchingura”, por exemplo, do título à mescla de sons abstractos, é totalmente incompreensível, o que, no género, se pode considerar bom e desejável. “Lather”, composto e cantado por Slick, distingue-se do resto, pela positiva, nas colaborações “folky”, na estranheza não despropositada do arranjo, na intemporalidade de uma melodia realmente inspirada. Destaque, ao longo de todo o disco, para as guitarras, por vezes completamente alucinadas, de Jorma Kaukonen e Marty Balin. Dos cogumelos atómicos e alucinogénicos de “Crown of Creation” passou-se, em “Volunteers”, às “stars & stripes” nacionais, às canções de protesto e ao encosto às sonoridades “country” (o disco inclui dois tradicionais), sem que, da mudança táctica, resultassem melhorias significativas. Aos Jefferson Airplane faltou sempre a chama do génio que, ainda hoje, guia “iluminados” do movimento, como Jerry Garcia e os seus Grateful Dead. Só voa quem sabe.

surrealistic pillow – aqui – pwd:bajotierra