Arquivo mensal: Fevereiro 2015

Public Image Ltd. – “The Greatest Hits, So Far”

Pop Rock

6 EVEREIRO 1991
REEDIÇÃO

PUBLIC IMAGE LTD.
The Greatest Hits, so far

LP duplo e CD, Virgin, distri. Edisom

pil

A colectânea traça em traços gerais, e por ordem cronológica, as principais linhas de força que ao longo dos anos determinaram o percurso estético da banda liderada por Johnny “Ex-Rotten” Lydon. Desde os tempos em que não quis ser “punk”, ou teve medo ou fartou-se ou vá lá saber-se porquê, até à imposição progressiva da imagem de qualidade e prestígio de que actualmente desfruta. Desde 1978, várias personalidades tiveram direito a “imagem pública”, com destaque para Jah Wobble, hoje senhor de terras mais exóticas. Mudaram-se os nomes, manteve-se a vontade, coragem e lucidez do rapaz que queria a anarquia no Reino Unido. Quanto às razões que terão motivado a extinção, para muitos prematura, dos Sex Pistols, talvez a letra de “Public Image” possa fornecer alguns esclarecimentos: “Dois lados para uma única história./ Alguém tinha que me parar./ Não sou o mesmo que era quando comecei,/ não quero ser tratado como uma propriedade” ou ainda, na mesma canção: “Atrás da imagem havia ignorância e medo.” Mas medos passados não movem moinhos e este disco não pára um momento quieto; enérgico e inteligente na maneira como as palavras de Lydon, incisivas e amiúde cruéis, se cruzam e digladiam contra o vórtice instrumental. Os PIL socam na cabeça e no estômago, em golpes, nunca baixos mas de baixo pneumático, sejam eles desferidos por Jah Wobble, Bill Laswell ou Allan Dias. A guitarra acaricia como uma serra eléctrica. A electrónica perfura, tal qual uma broca de dentista. Brutamontes? Bill Laswell chamou em tempos ao ex-Sex Pistols “Ornette Coleman dos vocalistas ‘new wave’”. Com ele já trabalharam nomes como Ginger Baker, Tony Williams, Larry Shankar e Ryuichi Sakamoto, nenhum deles propriamente “mãozinhas de cimento”. Em “Greatest Hits” quase não há pausas para respirar. De “Death Disco”, “Memories” (várias vezes a voz do cantor lembra a do velhinho Roger Chapman, dos Family…), “Careering” (em registo Einstürzende Neubauten, para uma hipotética homenagem a um dos seus heróis, Peter Hammill, que por sinal compôs uma canção com o mesmo nome), “Flowers of Romance”, “This is not a Love Song”, “Rise” (manifesto da produção Laswell) até ao “funky” tribal de “The Body” e “Warrior”, os PIL fazem de cada tema uma celebração exuberante do anticonvencionalismo. No final, um tema inédito: “Don’t Ask me” – canção pop que condensa o Apocalipse numa gota de mel. ****

aqui



Front 242 – “Tiranny For You”

Pop Rock

6 FEVEREIRO 1991

FRONT 242
Tyranny for you

LP e CD, Play it Again Sam, distri. Contraverso

front242

Em sintonia com os tempos que correm, existem pressupostos ideológicos ambíguos, subjacentes à produção artística deste quarteto belga, em actividade desde 1981. Para D. Bressanutti, P. Codneyz, J. L. de Meyer e Richard J. K. o rótulo “electronic body music” serve de pretexto para desenvolver todo um discurso aparentemente militarista e totalitário. Ao longo dos cinco álbuns que contam no activo, a estratégia tem-se mantido praticamente inalterável: utilização sistemática de ritmos electrónicos maquinais (parece que meia Europa aprendeu, melhor ou pior, a lição dos Kraftwerk…), atravessados por vozes e ruídos samplados, sobre os quais o vocalista humano vai enumerando todas as misérias do mundo contemporâneo. Dá para dançar.
Dos temas preferidos dos rapazes consta o dos jogos de poder, relação senhor-escravo, do tipo chicotes e cabedal negro. Conseguiram minimamente perturbar-nos em “Official Version”, até à data o seu melhor trabalho.
Depois limitaram-se a repetir a fórmula, procurando novas soluções que teimam em não aparecer. Neste novo registo limitam-se a fabricar ritmos sobre ritmos e a berrar mais umas tantas palavras de ordem. O problema dos jogos de poder está em que a vítima acaba inevitavelmente por ser o suposto senhor. Sadomasoquistas ou militaristas, os Front 242, de momento, também lambem as feridas e marcam passo. **

aqui



B. J. Cole – “Transparent Music”

Pop Rock

6 FEVEREIRO 1991

B. J. COLE
Transparent Music

LP, Hannibal, distri. Mundo da Canção

Música delicada e melancólica que faz jus ao título que ostenta. B. J. Cole toca “pedal steel guitar” (“guitarra de aço, de pedal” não soa bem…), instrumento vulgarmente utilizado na música “country” e aqui adaptado a um formato orquestral. Da “country”, B. J. Cole deslizou para oceanos mais serenos, tendo participado no duplo “The Serpent (In the Quicksilver)/Abandoned Cities”, de Harold Budd. “Transparent Music” mantém-se fiel ao estilo daquele pianista: serenas divagações ambientais, de títulos tão belos e evocativos como “Window on the Deep”, “Sun Tear Serenade” e “Ely Cathedral”. Variações sobre temas de Debussy (“Clair de Lune”), Ravel (“Pavane pour une enfant defunte” e Satie (“Gnossiennes”, nº 3 e 5) tornam ainda mais transparente um disco de beleza espectral. Participam, entre outros, o contrabaixista Danny Thompson e o guitarrista de jazz, Ray Russell. ***