Reavaliado como pioneiro da “house”, Jarre tanto é capaz de pôr a sua parafernália de sintetizadores ao serviço de uma electrónica de “jingles” publicitários, como de se alargar em obras conceptuais (os 50 minutos de “ambient” subaquática “Waiting for Costeau” rivalizam com o próprio Eno) que alargam as fronteiras dessa mesma electrónica. “Aero” apresenta a novidade de ser o primeiro álbum inteiramente idealizado e gravado no sistema 5.1 Surround, que Jarre considera tão revolucionário como a transição do monmo para o stereo. Da edição faz parte um segundo CD, áudio, mais curto. O DVD, composto por inéditos e regravações de temas antigos de “Oxygène”, “Equinoxe”, “Zoolook” (com Laurie Anderson), “Magnetic Fields” e “Rendez-Vous”, é um portento de arquitectura sonora, aproveitando o espaço tridimensional como meio ideal para esta música revelar todas as suas virtualidades. Mesmo os temas mais “programáticos” parecem ganhar uma dimensão etérea, enquanto as novas “Scenes” e fragmentos de “Aero” vão buscar alento ao psicadelismo (o fósforo a raspar na lixa, como em “Alan’s psychedelic breakfast”, dos Pink Floyd) e a toda uma gama de efeitos cromáticos. Como suporte visual, um plano fixo dos olhos da actriz Anne Parillaud, filmados em alta definição. Perfeito “muzak”
21.05.1997
Flores Magnéticas
Bruire
Les Fleurs de Léo (8)
Diane Labrosse & Michel F. Côté
Duo Déconstructiviste (8)
Robert Marcel Lepage
La Plante Humaine (8)
Todos Ambiances Magnétiques, distri. Áudeo
Segunda parte do tríptico iniciado com “le Barman a tort de Sourire” e já completado com “L´Âme de l’Object”, “Les Fleurs de Léo” é a peça que faltava do “puzzle”. Nas boas companhias do círculo bem fechado das A. M., Jean Derome, Diane Labrosse, Robert M. LePage e René Lussier, aqui também com a programadora japonesa Ikue Mori, Michel F. Côté confirma uma tendência para a abordagem dos sons da forma menos previsível, com desprezo pelos géneros e no sincretismo de um estilo que amplia a imperfeição e rasga as noções usuais de composição.
Sopros e electrónica, espontaneidade e programação, parasitismo e paisagem, dialéctica de opostos em convulsão permanente. “les Fleurs de Léo” está estruturado em ciclos que evoluem em redor de temas que vão do heróico ao desprezível, numa amontoação de referências que constantemente remetem para memórias e músicas díspares. Côté assume o empirismo como método e a colagem subjectiva como estética. Ele próprio elabora a lista do seu sintonizador particular: Erik Satie (de quem recilca os seus “Sports et Divertissements”), John Cage, Alan Berg, Holger Czukay, Duke ellington, Alvin Lucier, Arvo Part, Witold Lutoslawski, krzysztof Penderecki, Elliott Sharp, Igor Stravinski e Anton Webern. Da combinação destes fragmentos resulta um borbulhar contínuo de ideias e mutações sonoras, numa “efeverscência jovial e criativa” que nasce da improvisação – para Côté, “terreno de investigação perfeitamente lúdico” – em estúdio, necessária ao encontro de “perspectivas oblíquas de acção”. Flores tentaculares.
A mesma estética é reavaliada por Michel F. Côté em duo com Diane Labrosse, elemento das Justine, ex-les Poules e ex-Wondeur Brass, e autora a solo do fenomenal “Face Cachée des Choses” (um dos melhores álbuns do ano passado para o Pop Rock, secção “Fora de Série”). A samplagem (os autores fazem questão de enumerar as fontes: Michel Faubert, Fred Frith, John Oswald, Hans Reichel, entre outros) adquire uma dimensão cinematográfica. A desconstrução obriga, neste caso, a noções rigorosdas de composição. Folclores imaginários, memórias sobrepostas em palimpsesto, ficções emocionais desencontradas, guerras semânticas e morfologias à deriva confluem e desagregam-se num território de alucinações privadas. Jazz electrónico, electrónica do jazz, poesia da anarquia, o que é uma canção? Nada mais do que um sonho, um encadeado de mcantam.
Robert Marcel LePage correu para o lugar mais afastado do habitado por Côté e Labrosse. Anos depois de ter posto os seus saxofones e clarinetes e a suacolecção de artefactos electrónicos avariados ao serviço de um “jazz” saltimbanco, em “La Traversée de la Mémoire Morte”, e completamente “free” em “Chants et Danses du Monde Inanimé”, com René Lussier, Le Page evoluiu para um discurso mais programático, encravado entre um classicismo desvirtuado e a nostalgia da liberdade. “Adieu Leonardo”, a sua obra anterior, e este “La Plante Humaine”, são obras de pendor classicizante (mesmo sinfónico, na sua estrutura geral) que apresentam uma visão de Leonardo da Vinci a partir dos filmes de animação com o mesmo nome realizados por Pierre Hébert, montados como uma “ópera audiovisual”.
Cruzamento do neo-romantismo com o pós-modernismo, da sua estrutura sinfónica com a retórica do “hard-rock” (“Le blaster des kids”, “tsaikomé punk”, “Rock et war”), do “jazz” com a música industrial, das tradições africanas com Edgar Varese, esta “planta humana fonográfica” devolve Robert M. LePage ao país esquecido do arco-íris. Mesmo quando é necessário desbravar uma selva de demónios – Gog e Magog, da faixa 13 – para descobrir o equilíbrio delicado das cores do pintor renascentista.
Branca e acariciante como a neve, a música do trompetista e compositor norueguês Arve Henriksen possui aquela propriedade rara de fazer feliz quem a ouve. Henriksen faz parte dos Supersilent e tocou com músicos de jazz contemplativos como Jon Balke e Anders Jormin mas “Chiaroscuro” tem mais a ver com os universos orgânicos de Jon Hassell, o silêncio de Brian Eno e a espiritualidade zen do que com quaisquer calorias jazz. Como Hassell, Henriksen faz sair da trompete um som vocalizado que submete a uma série de processamentos sonoros ou ainda a live sampling, por um dos seus companheiros neste disco Jan Bang (o terceiro é um percussionista). Mas onde as paisagens criadas por Jon Hassell são selvas povoadas por criaturas meio biológicas meio digitais, em Henriksen o horizonte é dominado por uma religiosidade serena à qual os cânticos em falseto, por vezes indistinguíveis da electrónica, acrescentam ainda maior elevação. “Chairoscuro” insinua-se suavemente na alma, com as suas canções sem palavras e as suas pulsações de azul e diamantes, quase imperceptíveis.