Arquivo mensal: Junho 2010

Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão

16.07.1999
Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão
O Elefante Visto De Muito Perto
Sei Miguel situa a origem da sua música nos blues. Um blues, definido como um bicho “de que não se consegue ver a totalidade por se estar mesmo em cima dele”, é a longa peça de violoncelo solo que ocupa meia hora do seu novo trabalho, um CD duplo intitulado “Token”

Contando com um naipe de colaboradores mais numeroso do que o habitual (Rodrigo Amdado, Rafael Toral, Bernardo Devlin, Luis Desirat, Manuel Mota, Pedro Chuva, Fala Miriam e Rute Praça, entre outros) e com uma diversificação de sonoridades que vão da bateria electrónica ao theremin e do trombone ao violoncelo, “Token” permite uma aproximação diferente da de álbuns anteriores. A sua estranheza é o seu principal fascínio.
Sei Miguel faz uma apresentação mais simples: “É o meu disco mais concreto.” Um disco “muito elaborado” que demorou “quatro anos ou mais” a fazer. E também bem-humorado, como atesta a referência a um “djembé temperado”. “É francamente irónico”, admite, referindo-se também ao tema que abre “Token”, uma suite estruturada segundo os andamentos clássicos do barroco, com o título “real dancer suite”. “Estou a ironizar sobre a própria noção de ‘suite’ que, neste caso, foi composta para ‘ballet’. Gravei-a praticamente sob contrato e acabou por dar em nada, daí ter assumido a suite até ao fim. É um objecto um pouco sarcástico.” No fundo “é mais um blues”, diz, desta feita a brincar.
São os blues que animam por dentro muita da música composta por Sei Miguel. “Estão na essência de ‘The ring’, tema que já me disseram ser demasiado longo.” O “demasiado longo” deste tema incluído em “Token” significa mais de meia hora de um desempenho de um violoncelo solo por Rute Praça. “E eu respondo: nem queiram saber até que ponto eu acho que é demasiado longo!”, corrobora Sei Miguel para logo acrescentar que foi de “propósito”. “Faz parte intrínseca do peso do blues. Esse peso está ali. É um blues à primeira irreconhecível, como um desenho de um elefante visto de muito perto, em que não se consegue ver com a sua presença, enquanto instrumentista, embora isso se deva, também, a ter sido feito, como acima se entende “em circunstâncias muito duras”.
Todos os paradoxos se desvanecem e todas as abstracções se iluminam se conseguirmos entrarmos nos meandros do pensamento do músico, encontrando no significado de cada palavra desvios ao que a norma lhes impôs. “Token”, insiste, “é um disco muito técnico.” Não usa o termo como um elogio. “Talvez seja o desequilíbrio dele – o Paulo [da editora Ananana] mata-me [Risos.] – em comparação com ‘Showtime’ que é um disco muito mais ‘soft’, no bom sentido”. “Showtime” é “um disco de jazz”, afirma, enquanto “Token” é “um disco de músico de jazz”. Diferença subtil onde se manifesta o sentido essencial de alguém que, contra todas as aparências, a si mesmo se define como “um músico de jazz”.
“A composição e improvisação são termos úteis à tradição ocidental, académica, mas que o jazz transcendeu.” Ser músico de jazz é “participar na forma mais inacabada e mais actual de fazer música. E mais contraditória, também, porque é a música que tende mais para o abstracto”, embora continue “longe das academias e a ser uma música de rua”. E se à improvisação é possível arranjar uma definição, então ela é “estar mais próximo do mais antigo, do mais básico, do material musical e, ao mesmo tempo, estar obrigatoriamente, como consequência, na última vertente, no que se está a fazer. Na vanguarda, para utilizar uma palavra que hoje não está muito na moda”.

Joel Xavier Grava Música Latina Com Convidados De Luxo

14.05.1999
Joel Xavier Grava Música Latina Com Convidados De Luxo
De Havana, Com Amor
Com “Latin Groove”, quarto álbum da sua discografia, Joel Xavier descobriu o que antes apenas intuíra: a identificação plena com a música latina. Gravado com um mínimo de meios, instrumental, para ser ouvido fora dos elevadores, conta com algumas das estrelas da música latina de fusão. O Verão está chegar.

Após ter gravado três álbuns que serviram, essencialmente, para depurar a sua técnica guitarrística, “18” (“muito influenciado pela editora”), “Sr. Fado” e “Palabra de Guitarra Latina”, este ao lado de grandes guitarristas conotados com as sonoridades latinas, como Larry Coryell, Bireli Lagrene e Tomatito, Joel Xavier descobriu, com o novo “Latin Groove” a sua verdadeira vocação: A música latina.
“A ideia era definir quem é o Joel Xavier, que tipo de música é que gosta mesmo de fazer”, explica, ao mesmo tempo que faz remontar as raízes deste interesse a “Palabra de Guitarra Latina”: “Foi ele que me proporcionou o contacto com uma música que desconhecia, música instrumental latina e com a qual me identificava. Gosto de “blues” mas, para mim, falta-lhe ritmo.”
Joel Xavier trabalhou antes com “um dos nomes mais conhecidos da guitarra latina em todo o mundo”, Rene Toledo, um guitarrista cubano que vive em Miami e que “grava com toda a gente, desde a Gloria Estefan À Luz Casale, ao Julio Iglesias e Enrique Iglesias, Às irmãs Azucar Moreno, até com os Gypsy Kings ele já gravou”. Xavier disse-lhe que gostava de gravar um disco de jazz latino, com a participação de alguns músicos que o influenciaram. Foi graças a ele que “Latin Groove” pôde contar com a participação de quatro convidados de luxo, em quatro duetos com Xavier: o saxofonista cubano Paquito D’Rivera, o guitarrista norte-americano Larry Coryell, o trompetista, também cubano, Artur Sandoval, e o pianista Michel Camilo, da República Dominicana.
“Latin Groove” é um disco de fusão, longe de qualquer purismo. Um tema como “Habana” evoca, de imediato, o estilo de Carlos Santana. “A minha música é, essencialmente, influenciada por toda a música que se faz em Cuba, o centro de toda a música latina”, explica o guitarrista que afirma ter sentido “a necessidade de que, pelo menos num tema, transparecesse essa influência”. “este tema faz lembrar Santana, faz lembrar salsa. A minha música tem muito a ver com o Carlos Santana, embora ele não me tenha influenciado directamente. Eu sou um português influenciado pela música cubana, ele é um mexicano influenciado pela música cubana.” Além de Carlos Santana, Joel Xavier aprecia guitarristas como Gary Moore e George Benson. Nos “blues”, destaca Stevie Ray Vaughan. Também ouve música latina “mais comercial”, Gloria Estefan, por exemplo. Ao contrário de outros guitarristas, como Steve Vai ou Joe Satriani, “que primam por evidenciar a técnica que têm”, Joel Xavier tem antes como objectivo “criar música tão agradável quanto a música cantada e tirar a música instrumental dos elevadores e dos supermercados”, estruturando as suas canções “como se fossem cantadas, inclusive com refrões”.
Joel Xavier é adepto da discrição. “Já houve um jornalista que ao ouvir este disco disse que a guitarra parecia pedir licença para entrar.” Também a produção de “Latin Groove” aponta para uma concepção de som que dispensa os truques e a espectacularidade, uma produção “minimalista” em que foi utilizado “muito pouco equipamento”. “Pretendi fazer um som diferente. Hoje, quando se liga uma estação de rádio ou de televisão, soa tudo a música de plástico, tudo à base de máquinas, de sintetizadores. Então optei neste disco por não trabalhar os instrumentos. Pus o microfone à frente deles e gravei. E não mexi mais na altura de misturar. O som que está no disco é, rigorosamente, o som dos músicos. Se as pessoas gostarem dêem os parabéns aos músicos.” Para além disto, Joel Xavier explica também “que não houve ‘overdubs’ nem ensaios. As pessoas ouviam as músicas e tocavam. Se por acaso corria mal, parava-se e recomeçava-se do início. Nunca foram precisos mais do que três ‘takes’.”
Joel Xavier usou em “99 por cento” de “Latin Groove” uma Gibson Les Paul clássica de 1960, “uma réplica”, não um modelo original. Ideal para conferir ao álbum o tom de seda e a fluidez que o caracteriza.
Para já, Joel Xavier recomenda, como cartão de visita de “Latin Groove”, os temas “Caribbean Mood” (“uma balada que de repente muda para salsa”) e “African Taste”, com o saxofone de Paquito D’Rivera, “com mais ritmo”.
“Latin Groove” terá a sua apresentação ao vivo nos próximos dias 21, na FNAC do Porto, e 23, na FNAC de Lisboa. No dia 25 de Junho, está agendado um concerto no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

Tó Neto Apresenta “Planetário” No Planetário

07.05.1999
Tó Neto Apresenta “Planetário” No Planetário

LINK (“Néctar”)

“Planetário”, o novo álbum do angolano Tó Neto, mistura os astros e os golfinhos com canções new age e rap ecologista. A partir de Maio esta música vai ser apresentada ao vivo no Planetário de Lisboa, em formato multimédia. Durante um mês e meio, todos os dias. Viagens imaginárias até Oceania, o planeta onde as coisas de que não gostamos não existem
Durante muitos anos foi apelidado de “Jean-Michel Jarre português”. Tó Neto afasta essa imagem e, de facto, a música de “Planetário” tem pouco a ver com a do autor de “Oxygène”. Mas o interesse pela astronomia mantém-se. Um interesse que remonta à gravação do seu álbum de estreia, “Láctea”, já lá vão 13 anos, a que se seguiram “Big Bang”, “Negro” e “Angola”. “Planetário”, quinto álbum de originais deste músico angolano apaixonado pela electrónica e pela new age, acrescenta às antigas viagens pelo cosmos uma mensagem ecológica, expressa, de resto, no single “Salva os Animais”.
Participam neste álbum uma série de músicos e técnicos de som, luz e vídeo aglutinados num projecto que recebeu o nome de Oceania. “Um projecto [concebido] para a próxima passagem de milénio”, explica Tó Neto. Com a estreia inicialmente prevista para a Expo, “Planetário” vai afinal ter a sua apresentação ao vivo no próprio Planetário de Lisboa: “O melhor sítio para um artista, como eu, que acompanhou sempre a astronomia.”
Oceania “é um continente ou um planeta imaginário onde as coisas de que não gostamos não existem”. Curiosamente, Oceania foi também o nome dado à terra virtual que os visitantes da Expo puderam percorrer no Pavilhão da Realidade Virtual. Uma coincidência que Tó Neto até aprecia: “Quer dizer que há muita gente na mesma senda.”
A grande diferença deste álbum em relação aos anteriores “foi a aposta nos vocais”. “Senti necessidade de escrever, de recorrer ao texto, para fazer passar mensagens muito específicas.” Como acontece em “Suku Maehee!”, “Minha Nossa Senhora”, na língua kimbundu, que “fala da corrupção em Angola, da ostentação de riqueza, quando a grande maioria do povo está na miséria, com crianças a viverem nas sarjetas”.
Tó Neto lança um alerta – “Atenção para onde estamos a caminhar!” -, ao mesmo tempo que acusa os cientistas e políticos de “não quererem encarar a realidade”. As suas preocupações ecologistas estão bem visíveis em canções como “Salva os Animais”, “Eu sou um golfinho”, “Lua Azul” e “Praia do Paraíso”, às quais Tó Neto adicionou sonoridades hip hop e ritmos de inspiração africana.
Para os promotores deste novo projecto de Tó Neto, trata-se de “música construída no sentido de induzir no ouvinte um estado de transcendência espiritual”. Um estado que o teclista pretende reforçar, quando “Planetário” for acompanhado da projecção de lasers da última geração, “slides” e outros efeitos visuais projectados sobre a abóboda de estrelas do Planetário de Lisboa. Um “espectáculo hipnótico”, nas palavras do músico, “concebido para criar momentos em que as pessoas se esqueçam de tudo o que existe lá fora, momentos de beleza e de bem-estar, de relax, com um reportório escolhido para as pessoas viajarem, mas sempre com a preocupação de fazer passar uma mensagem ecológica”. Quem assistir [ao espectáculo] vai ficar absorvido em termos visuais e auditivos do princípio ao fim”, garante Tó Neto.
Para trás fica o rótulo de Jean-Michel Jarre português, apesar de outra curiosa coincidência aproximar o músico angolano do francês: ambos dedicarem alguma da sua música ao comandante Cousteau. O francês dedicou-lhe um álbum inteiro, “Waiting for Cousteau”, o angolano um tema do seu novo disco, “Eu sou um golfinho”. Tó Neto afirma que a única coisa que existe em comum entre ambos é o facto de “usarem os mesmos instrumentos”. Tó Neto prefere, de resto, ouvir Vangelis, Kitaro ou Richard Siuther.
“Planetário”, que Tó Neto define, em termos técnicos, como “uma experiência de sincronismo absoluto entre os sintetizadores, os lasers, os diaporamas e o planetário” estreia-se no Planetário de Lisboa (em Belém, nas instalações do Museu da Marinha) a 1 3 de Maio, com apresentações diárias (excepto às segundas-feiras), a partir das 22h, até 30 de Junho.