Em 1977, quem quisesse fazer música electrónica era tocar ou largar, nada de MIDIs nem de programações. Dan Lacksman, um dos elementos do grupo tecnopop belga Telex, ainda antes da formação desta banda, amassou todos os sons de “Disco Machine” com o suor dos seus Polymoog, Moog Model III P, EMS VCS3 e sequenciador. Tudo máquinas analógicas, daquelas que necessitavam que se ligassem cabos e se rodassem botões, com os seus filtros VCF e VCO que tornaram mítica a sonoridade cheia dos sintetizadores fabricados por Robert Moog. “Disco Machine” começa com três temas encadeados sobre a mesma batida “disco” que Giorgio Moroder popularizou em “I Feel Love”, cantado por Donna Summer, com efeitos cósmicos por cima. O mais monocórdico que se possa imaginar para fazer baloiçar o corpo e a mente em viagens intituladas “Flight to Tokyo”, “Cosmos Trip” e “Fly to Venus”. A pop electrónica sinfónica faz o seu aparecimento em “Sailing to an unknown plante” antes da batida – uma mistura de Moroder com os Tangerine Dream – regressar infatigável, apenas ligeiramente modificada para dar entrada, em “Rock machine”, a uma antecipação de “Twist à Saint-Tropez”, dos Telex. É verdade que neste mesmo ano Jean-Michel Jarre fazia “Oxygène” e os Kraftwerk punham os robôs a viajar sobre carris pela Europa, em “Trans Europe Express”, mas isso não impede que “Disco Machine” seja um delicioso anacronismo.
08.10.1999
Mafalda Arnauth Estreia-se A Solo
Não Foi Deus, Foi Ela Mesmo
Do grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth cedo demonstrou estar mais próxima da essência do fado. Na sua estreia discográfica a solo, porém, Mafalda Arnauth ignorou os clássicos do fado e fez um disco que é um roteiro da sua vida. Onde o fado, em definitivo, não está arrumado “na prateleira da desgraça”.
Não há fados conhecidos de todos mas apenas originais compostos pela própria. Prova de auto-confiança da autora, “Mafalda Arnauth” torce um novelo que muitos adivinhavam ser a continuação de uma tradição que, desde Amália Rodrigues, não encontrara ainda representante à altura. Não era “ a nova Amália”, rótulo que, periodicamente, se tenta colar a qualquer fadista cuja voz suba mais alto do que as outras, porque Amália é única, mas quando a ouvíamos cantar o fado, sentíamos nela o mesmo fogo, a mesma dor sentida como destino.
Há quatro anos atrás, quando ainda integrava o grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth não pensava sequer em gravar um disco. “Não tinha maturidade”, confessa, “era tudo uma coisa nova que estava a acontecer, cantava meia dúzia de coisas que gostava mas não tinha ainda qualquer filosofia ou ideal”.
Quatro anos fizeram amadurecer o que então não passava de um hobby. João Braga lançou-a. Ela acabou por seguir o seu próprio caminho. “Foi uma coisa natural, essa emancipação, sou uma pessoa independente, com as minhas próprias ideias, embora ainda hoje aprenda com o João Braga, foi com ele que aprendi o gosto pelo poema”. Em paralelo com o canto, Mafalda continuou o curso de Veterinária: “falta-me uma cadeira para entrar no último ano”.
O disco, agora editado, iludiu algumas expectativas. Que foi feito de “Foi Deus?” Onde param os clássicos? “Nunca encarei a carreira de fadista como o objectivo primordial da minha vida, por isso preferi fazer uma coisa mais arriscada. É a minha história que eu conto, a minha realidade, quer as pessoas gostem ou não”. Admite que o disco poderia ter “o tal lado comercial” onde decerto caberia o tal fado de Amália que “seria um sucesso garantido”. Mafalda Arnauth não condescendeu, se o termo se pode aplicar no caso de um fado como “Foi Deus”. A cantora acaba por admitir, no entanto, que “foi um bocado a opção da editora, que já tinha um espólio enorme da Amália”. “Quase de certeza que, se gravasse um fado dela, a atenção acabaria por não recair na minha interpretação”. Mafalda Arnauth não põe, no entanto, de parte, a possibilidade de gravar um dia um álbum dos fados que a “marcaram”. Para já “isto”, os seus fados, são aquilo que mais gosta de cantar. “Tudo o resto continuo a cantar nos espectáculos, mas gravar é outra coisa”. Depois de permanecer algum tempo a cantar nas noites do Embuçado, Mafalda Arnauth afastou-se um pouco, guardando apenas uma noite por semana para esta casa de fado. “Estou com um horário mais complicado”, explica. É que as aulas não perdoam. “Depois da época dos exames poderei definir melhor os meus planos”.
João Gil foi escolhido para produtor de “Mafalda Arnauth”, um álbum que conta ainda com a composição e participação de Rui Veloso em “Vale a pena”. Em relação ao primeiro a fadista confessa que fez “uma coisa de que não estava à espera mas que resultou bem: gravar tudo na mesma sala, sem pistas separadas”. Entre os vários fados que Mafalda Arnauth compôs para o álbum, um deles, “De quem dá”, teve especial significado. “Foi feito no meio das gravações, com um gravador quando ia de carro para o estúdio. O disco está estruturado segundo uma espécie de ordem cronológica. Esse corresponde à fase ‘down’. A partir daí as coisas aclaram-se. A vida renova-se. A letra desse fado andava há tempos a bailar-me na cabeça, fala de uma forma de amor que raramente se canta no fado. Um amor bom”.
Em frente ergue-se o caminho do tal “novo fado” de que muito se fala. E que para Mafalda Arnauth “passa pela atitude”. “As pessoas estão todas a pegar nas músicas e nas letras e a fazer grandes mudanças. Mas as pessoas que cantam o fado não têm que ser boémios. A expressão ‘fadinho’ não me diz nada. Como em tudo na vida há mais do que um lado e o fado destina-se a cantar a vida, as emoções, com momentos bons e momentos maus. O que eu não aceito é que o ponham apenas na prateleira da desgraça”.
O homem canta de forma imperial. Chama-se Martin Carthy e é o maior mito da folk inglesa contemporânea. Após um interregno de seis anos, “Signs of Life”, de 1998, encontrou um sucessor. O antigo elemento dos Martin Carthy e fundador dos Brass Monkey está melhor do que nunca e aos talentos de cantor e guitarrista junta agora o de arranjador. “Waiting for Angels”, ao contrário de outras obras suas marcadas pelo despojamento, prima pela inclusão de sonoridades variadas que vão do violoncelo, oboé, trompete e trombone à “slide guitar” de Martin Simpson e ao órgão de foles e rabeca da filha e produtora do disco, Eliza Carthy. A voz traz o paraíso. Uma voz cuja amplitude torna cada canção tradicional num salmo de proporções épicas. Esse é um dos sinais do génio de Carthy, a capacidade de fazer de cada história uma narrativa intemporal onde os sentimentos de gente concreta, de cortes antigas ou do mar, mas também entidades etéreas das lendas, são ampliados de modo a ecoarem dentro de nós como uma força que se confunde com a glória.
A música e o canto de Carthy nunca são ambíguos, o seu mistério é o da revelação. Como se ainda não chegasse, há um “swing” sem igual. Logo nas primeiras notas de “The foggy dew” sente-se o balanço. Martin canta como nenhum outro, juntando a genuinidade e a técnica vocal da música tradicional a uma religiosidade que encontramos na música antiga sacra. O canto eleva-se na melodia principal – sempre judiciosamente escolhida do melhor cancioneiro, de Walter Pardon ou dos Copper Family – mas também nas subtis ornamentações ou nas ligeiras alterações tímbricas que interpõem ao veludo pedaços de um tecido mais áspero. “The foggy dew” é uma interpretação fabulosa, mas é apenas a primeira procissão, com percussão ritual e um violino tão sensual como um acto de amor. Carthy desvenda o segredo. “Existe algo em aprender uma canção de a ouvir cantar por uma pessoa, em vez de a lermos numa página impressa. Há uma diferença enorme. Refiro-me a ouvir pessoas a quem chamaria os ‘velhos cantores à moda antiga’, que estão habituados a cantar sem mais adornos do que os da sua própria imaginação, comunicando toda a espécie de variações internas, pausas, etc. e deixando o ritmo das palavras ser o ditador absoluto”.
É isso mesmo que Carthy vem fazendo e a que neste disco acrescenta “novos horizontes”. Será então esse contacto íntimo com a alma que nos faz exaltar. Lamentos de reis, navios trazendo novas do mundo, elegias, guerras e jardins, saúde aos amigos e a saudade atravessam-nos como facas de luz, ao ouvirmos esta voz que parece transportar a sabedoria de séculos sem que uma nota soe antiquada.
Em “Young Morgan” a bateria, tão funda como um poço escavado no granito, torna ainda mais pungente o gemido vocal. De novo a bateria majestosa e uma guitarra eléctrica de deuses antigos tornam “A ship to old England came” numa marcha solene que transcende tudo o que os Brass Monkey e os Albion Band fizeram neste domínio. O título-tema é um instrumental de folk de câmara de prece aos anjos enquanto outro instrumental, “The royal lament”, cria uma suave neblina entre a guitarra acústica (na qual Carthy se confirma como mestre) e a “slide” de Simpson. O terceiro instrumental, “Bloody fields of Flanders/MacGregor of Rora”, será o único obstáculo a que “Waiting for Angels” seja obra-prima. Mas o fim compensa-nos, oferecendo-nos, nos dez minutos de “Famous flower of serving men”, outra vocalização de antologia.
“Waiting for Angels” é o testemunho de um génio e uma lição de vida. São álbuns como este que nos fazem amar a “folk”.