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Mafalda Arnauth Estreia-se A Solo

08.10.1999
Mafalda Arnauth Estreia-se A Solo
Não Foi Deus, Foi Ela Mesmo

Do grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth cedo demonstrou estar mais próxima da essência do fado. Na sua estreia discográfica a solo, porém, Mafalda Arnauth ignorou os clássicos do fado e fez um disco que é um roteiro da sua vida. Onde o fado, em definitivo, não está arrumado “na prateleira da desgraça”.

LINK (“Diário” – 2005)

Não há fados conhecidos de todos mas apenas originais compostos pela própria. Prova de auto-confiança da autora, “Mafalda Arnauth” torce um novelo que muitos adivinhavam ser a continuação de uma tradição que, desde Amália Rodrigues, não encontrara ainda representante à altura. Não era “ a nova Amália”, rótulo que, periodicamente, se tenta colar a qualquer fadista cuja voz suba mais alto do que as outras, porque Amália é única, mas quando a ouvíamos cantar o fado, sentíamos nela o mesmo fogo, a mesma dor sentida como destino.
Há quatro anos atrás, quando ainda integrava o grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth não pensava sequer em gravar um disco. “Não tinha maturidade”, confessa, “era tudo uma coisa nova que estava a acontecer, cantava meia dúzia de coisas que gostava mas não tinha ainda qualquer filosofia ou ideal”.
Quatro anos fizeram amadurecer o que então não passava de um hobby. João Braga lançou-a. Ela acabou por seguir o seu próprio caminho. “Foi uma coisa natural, essa emancipação, sou uma pessoa independente, com as minhas próprias ideias, embora ainda hoje aprenda com o João Braga, foi com ele que aprendi o gosto pelo poema”. Em paralelo com o canto, Mafalda continuou o curso de Veterinária: “falta-me uma cadeira para entrar no último ano”.
O disco, agora editado, iludiu algumas expectativas. Que foi feito de “Foi Deus?” Onde param os clássicos? “Nunca encarei a carreira de fadista como o objectivo primordial da minha vida, por isso preferi fazer uma coisa mais arriscada. É a minha história que eu conto, a minha realidade, quer as pessoas gostem ou não”. Admite que o disco poderia ter “o tal lado comercial” onde decerto caberia o tal fado de Amália que “seria um sucesso garantido”. Mafalda Arnauth não condescendeu, se o termo se pode aplicar no caso de um fado como “Foi Deus”. A cantora acaba por admitir, no entanto, que “foi um bocado a opção da editora, que já tinha um espólio enorme da Amália”. “Quase de certeza que, se gravasse um fado dela, a atenção acabaria por não recair na minha interpretação”. Mafalda Arnauth não põe, no entanto, de parte, a possibilidade de gravar um dia um álbum dos fados que a “marcaram”. Para já “isto”, os seus fados, são aquilo que mais gosta de cantar. “Tudo o resto continuo a cantar nos espectáculos, mas gravar é outra coisa”. Depois de permanecer algum tempo a cantar nas noites do Embuçado, Mafalda Arnauth afastou-se um pouco, guardando apenas uma noite por semana para esta casa de fado. “Estou com um horário mais complicado”, explica. É que as aulas não perdoam. “Depois da época dos exames poderei definir melhor os meus planos”.
João Gil foi escolhido para produtor de “Mafalda Arnauth”, um álbum que conta ainda com a composição e participação de Rui Veloso em “Vale a pena”. Em relação ao primeiro a fadista confessa que fez “uma coisa de que não estava à espera mas que resultou bem: gravar tudo na mesma sala, sem pistas separadas”. Entre os vários fados que Mafalda Arnauth compôs para o álbum, um deles, “De quem dá”, teve especial significado. “Foi feito no meio das gravações, com um gravador quando ia de carro para o estúdio. O disco está estruturado segundo uma espécie de ordem cronológica. Esse corresponde à fase ‘down’. A partir daí as coisas aclaram-se. A vida renova-se. A letra desse fado andava há tempos a bailar-me na cabeça, fala de uma forma de amor que raramente se canta no fado. Um amor bom”.
Em frente ergue-se o caminho do tal “novo fado” de que muito se fala. E que para Mafalda Arnauth “passa pela atitude”. “As pessoas estão todas a pegar nas músicas e nas letras e a fazer grandes mudanças. Mas as pessoas que cantam o fado não têm que ser boémios. A expressão ‘fadinho’ não me diz nada. Como em tudo na vida há mais do que um lado e o fado destina-se a cantar a vida, as emoções, com momentos bons e momentos maus. O que eu não aceito é que o ponham apenas na prateleira da desgraça”.

Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão

16.07.1999
Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão
O Elefante Visto De Muito Perto
Sei Miguel situa a origem da sua música nos blues. Um blues, definido como um bicho “de que não se consegue ver a totalidade por se estar mesmo em cima dele”, é a longa peça de violoncelo solo que ocupa meia hora do seu novo trabalho, um CD duplo intitulado “Token”

Contando com um naipe de colaboradores mais numeroso do que o habitual (Rodrigo Amdado, Rafael Toral, Bernardo Devlin, Luis Desirat, Manuel Mota, Pedro Chuva, Fala Miriam e Rute Praça, entre outros) e com uma diversificação de sonoridades que vão da bateria electrónica ao theremin e do trombone ao violoncelo, “Token” permite uma aproximação diferente da de álbuns anteriores. A sua estranheza é o seu principal fascínio.
Sei Miguel faz uma apresentação mais simples: “É o meu disco mais concreto.” Um disco “muito elaborado” que demorou “quatro anos ou mais” a fazer. E também bem-humorado, como atesta a referência a um “djembé temperado”. “É francamente irónico”, admite, referindo-se também ao tema que abre “Token”, uma suite estruturada segundo os andamentos clássicos do barroco, com o título “real dancer suite”. “Estou a ironizar sobre a própria noção de ‘suite’ que, neste caso, foi composta para ‘ballet’. Gravei-a praticamente sob contrato e acabou por dar em nada, daí ter assumido a suite até ao fim. É um objecto um pouco sarcástico.” No fundo “é mais um blues”, diz, desta feita a brincar.
São os blues que animam por dentro muita da música composta por Sei Miguel. “Estão na essência de ‘The ring’, tema que já me disseram ser demasiado longo.” O “demasiado longo” deste tema incluído em “Token” significa mais de meia hora de um desempenho de um violoncelo solo por Rute Praça. “E eu respondo: nem queiram saber até que ponto eu acho que é demasiado longo!”, corrobora Sei Miguel para logo acrescentar que foi de “propósito”. “Faz parte intrínseca do peso do blues. Esse peso está ali. É um blues à primeira irreconhecível, como um desenho de um elefante visto de muito perto, em que não se consegue ver com a sua presença, enquanto instrumentista, embora isso se deva, também, a ter sido feito, como acima se entende “em circunstâncias muito duras”.
Todos os paradoxos se desvanecem e todas as abstracções se iluminam se conseguirmos entrarmos nos meandros do pensamento do músico, encontrando no significado de cada palavra desvios ao que a norma lhes impôs. “Token”, insiste, “é um disco muito técnico.” Não usa o termo como um elogio. “Talvez seja o desequilíbrio dele – o Paulo [da editora Ananana] mata-me [Risos.] – em comparação com ‘Showtime’ que é um disco muito mais ‘soft’, no bom sentido”. “Showtime” é “um disco de jazz”, afirma, enquanto “Token” é “um disco de músico de jazz”. Diferença subtil onde se manifesta o sentido essencial de alguém que, contra todas as aparências, a si mesmo se define como “um músico de jazz”.
“A composição e improvisação são termos úteis à tradição ocidental, académica, mas que o jazz transcendeu.” Ser músico de jazz é “participar na forma mais inacabada e mais actual de fazer música. E mais contraditória, também, porque é a música que tende mais para o abstracto”, embora continue “longe das academias e a ser uma música de rua”. E se à improvisação é possível arranjar uma definição, então ela é “estar mais próximo do mais antigo, do mais básico, do material musical e, ao mesmo tempo, estar obrigatoriamente, como consequência, na última vertente, no que se está a fazer. Na vanguarda, para utilizar uma palavra que hoje não está muito na moda”.

Joel Xavier Grava Música Latina Com Convidados De Luxo

14.05.1999
Joel Xavier Grava Música Latina Com Convidados De Luxo
De Havana, Com Amor
Com “Latin Groove”, quarto álbum da sua discografia, Joel Xavier descobriu o que antes apenas intuíra: a identificação plena com a música latina. Gravado com um mínimo de meios, instrumental, para ser ouvido fora dos elevadores, conta com algumas das estrelas da música latina de fusão. O Verão está chegar.

Após ter gravado três álbuns que serviram, essencialmente, para depurar a sua técnica guitarrística, “18” (“muito influenciado pela editora”), “Sr. Fado” e “Palabra de Guitarra Latina”, este ao lado de grandes guitarristas conotados com as sonoridades latinas, como Larry Coryell, Bireli Lagrene e Tomatito, Joel Xavier descobriu, com o novo “Latin Groove” a sua verdadeira vocação: A música latina.
“A ideia era definir quem é o Joel Xavier, que tipo de música é que gosta mesmo de fazer”, explica, ao mesmo tempo que faz remontar as raízes deste interesse a “Palabra de Guitarra Latina”: “Foi ele que me proporcionou o contacto com uma música que desconhecia, música instrumental latina e com a qual me identificava. Gosto de “blues” mas, para mim, falta-lhe ritmo.”
Joel Xavier trabalhou antes com “um dos nomes mais conhecidos da guitarra latina em todo o mundo”, Rene Toledo, um guitarrista cubano que vive em Miami e que “grava com toda a gente, desde a Gloria Estefan À Luz Casale, ao Julio Iglesias e Enrique Iglesias, Às irmãs Azucar Moreno, até com os Gypsy Kings ele já gravou”. Xavier disse-lhe que gostava de gravar um disco de jazz latino, com a participação de alguns músicos que o influenciaram. Foi graças a ele que “Latin Groove” pôde contar com a participação de quatro convidados de luxo, em quatro duetos com Xavier: o saxofonista cubano Paquito D’Rivera, o guitarrista norte-americano Larry Coryell, o trompetista, também cubano, Artur Sandoval, e o pianista Michel Camilo, da República Dominicana.
“Latin Groove” é um disco de fusão, longe de qualquer purismo. Um tema como “Habana” evoca, de imediato, o estilo de Carlos Santana. “A minha música é, essencialmente, influenciada por toda a música que se faz em Cuba, o centro de toda a música latina”, explica o guitarrista que afirma ter sentido “a necessidade de que, pelo menos num tema, transparecesse essa influência”. “este tema faz lembrar Santana, faz lembrar salsa. A minha música tem muito a ver com o Carlos Santana, embora ele não me tenha influenciado directamente. Eu sou um português influenciado pela música cubana, ele é um mexicano influenciado pela música cubana.” Além de Carlos Santana, Joel Xavier aprecia guitarristas como Gary Moore e George Benson. Nos “blues”, destaca Stevie Ray Vaughan. Também ouve música latina “mais comercial”, Gloria Estefan, por exemplo. Ao contrário de outros guitarristas, como Steve Vai ou Joe Satriani, “que primam por evidenciar a técnica que têm”, Joel Xavier tem antes como objectivo “criar música tão agradável quanto a música cantada e tirar a música instrumental dos elevadores e dos supermercados”, estruturando as suas canções “como se fossem cantadas, inclusive com refrões”.
Joel Xavier é adepto da discrição. “Já houve um jornalista que ao ouvir este disco disse que a guitarra parecia pedir licença para entrar.” Também a produção de “Latin Groove” aponta para uma concepção de som que dispensa os truques e a espectacularidade, uma produção “minimalista” em que foi utilizado “muito pouco equipamento”. “Pretendi fazer um som diferente. Hoje, quando se liga uma estação de rádio ou de televisão, soa tudo a música de plástico, tudo à base de máquinas, de sintetizadores. Então optei neste disco por não trabalhar os instrumentos. Pus o microfone à frente deles e gravei. E não mexi mais na altura de misturar. O som que está no disco é, rigorosamente, o som dos músicos. Se as pessoas gostarem dêem os parabéns aos músicos.” Para além disto, Joel Xavier explica também “que não houve ‘overdubs’ nem ensaios. As pessoas ouviam as músicas e tocavam. Se por acaso corria mal, parava-se e recomeçava-se do início. Nunca foram precisos mais do que três ‘takes’.”
Joel Xavier usou em “99 por cento” de “Latin Groove” uma Gibson Les Paul clássica de 1960, “uma réplica”, não um modelo original. Ideal para conferir ao álbum o tom de seda e a fluidez que o caracteriza.
Para já, Joel Xavier recomenda, como cartão de visita de “Latin Groove”, os temas “Caribbean Mood” (“uma balada que de repente muda para salsa”) e “African Taste”, com o saxofone de Paquito D’Rivera, “com mais ritmo”.
“Latin Groove” terá a sua apresentação ao vivo nos próximos dias 21, na FNAC do Porto, e 23, na FNAC de Lisboa. No dia 25 de Junho, está agendado um concerto no Teatro Maria Matos, em Lisboa.