Arquivo mensal: Junho 2010

1995 Tudo Sobre a Música dos Anos 90

31.12.1999
1995
Tudo Sobre a Música dos Anos 90
Um Óasis Na Pop
Ninguém sabe ao certo o significado do termo “britpop” – usado pela primeira vez como título de um programa de música ao vivo da BBC 2, “Britpop Now”, apresentado por Damon Albarn, dos Blur -, mas a verdade é que foi este o principal emblema da música pop deste ano em Inglaterra. Supergrass, Blur, Oasis, Pulp, The Boo Radleys e Elastica chegaram ao número um do top de vendas de álbuns, seguidos de perto pelos Echobely, surgindo Jarvis Cocker, dos Pulp, como figura carismática do movimento. Seja qual for o denominador comum de todas estas bandas, a verdade é que a pop deixou o cinzentismo “indie” para estalar como pipocas ao som de guitarras luminosas, melodias evidentes e “catchy” e números de vendas que não enganavam: a juventude inglesa encontrara um novo som com que se identificar. “Novo“ não era bem, porque a “britpop” nunca escondeu os seus heróis: os Beatles, Rolling Stones, The Kinks, Bowie… Afinal eram os gloriosos anos 60 a acenar lá de trás, projectando-se no presente no mesmo desejo de criar canções eternas que durassem, pelo menos, até ser lançado o single seguinte.

Ano de ouro para a brit pop. Os campeões de bilheteira Blur e os Oasis estiveram juntos pela última vez no estúdios de uma emissora de rádio de São Francisco, a Live 105, enquanto a banda do ex-Nirvana Dave Grohl, os Foo Fighters, andava à procura de editora. Sheryl Crow conquista três Grammies com o álbum “Tuesday Night Music Club”. Concerto apoteótico dos Blur no estádio Mile End em Londres. Os Portishead vencem a quarta edição do Mercury Music Prize, com “Dummy”, atirando Tricky para o segundo lugar. “What’s the Story Mornung Glory”, dos Oasis, torna-se o álbum com vendas mais rápidas no Reino Unido desde “Bad”, de Michael Jackson, com 350 mil cópias vendidas na primeira semana. Garth Brooks rejubila ao tornar-se o artista country que mais discos vendeu, batendo com sete milhões de discos o anterior recorde de seis milhões pertencente a Patsy Cline. Depois de Robert Wyatt, também os EMF se abalançaram numa versão de “I’m a believer”, dos Monkees. Nick Cave e Kylie Minogue fazem dueto na canção e no vídeo “Where the wild roses grow”. Os Rolling Stones recriam o passado no álbum “Stripped” e fazem um novo vídeo para o clássico de Dylan “Like a rolling stone” usando a tecnologia mais sofisticada para dar um ar “retro” à coisa, mas os Beatles vão ainda mais longe ao fazerem “ressuscitar” John Lennon para cantar no inédito “free as a bird”, incluído numa das caixas da sua há muito esperada “Anthology” com material inédito.

Tupac Shakur é condenado e preso por crime de abuso sexual de primeiro grau, sendo posto em liberdade três meses mais tarde. Van Morrison anuncia o seu noivado com uma antiga miss Irlanda, Michelle Rocca. Dolores O’Riordan, vocalista dos Cranberries, é declarad uma das mulheres mais ricas do Reino Unido, ao lado, entre outras, de Angela Lansbury e Jackie Collins, com um rendimento anual de 3,25 milhões de libras. Apesar do sucesso nos tops, a banda de rap feminino TLC declara falência. Estranhamente, o grupo dos irmãos Gallagher não é convidado para tocar na mítica emissão, em Agosto, do programa da BBC 2, Britpop Now, onde participam os Blur, Pulp, Boo Radleys, Elastica, Menswear e Echobelly.

Encerra as portas uma das catedrais “indie” de Londres, a Powerhaus”. O mítico estúdio The Manor, em pleno “countryside” inglês, onde Mike Oldfield gravou “Tubular Bells”, fecha também. Dylan editado em CD-ROM e Peter Gabriel em Cd-i. “Post”, segundo álbum de Björk, viu a sua edição adiada devido ao uso não autorizado de samples. George Michael assina contrato com a editora Dreamworks. Michael Jackson é forçado a regravar o tema “They don’t care about US”, do álbum “HIStory”, devido ao emprego das expressões “jew me” e “kike me”. Bocados de pista de dança do extinto clube Hacienda são postos à venda a 10 libras cada.

Entra para as fileiras dos The Fall a ex-mulher de Mark E. Smith, Brix. Os Stone Roses despedem o seu baterista Alan “Reni” Wren, substituído por Robbie Jay Maddix. Outro ex-Nirvana, Krist Novoselic, lança os Sweet 75 no clube RKNDY em Seattle. Shaun Ryder forma os Black Grape. Peter Green, lendário guitarrista de “blues” branco e membro da formação original dos Fleetwood Mac, é homenageado por outro guitarrista dos anos 70, Gary Moore, no álbum “Blues for Greeny”. Alan Wilder abandona os Depeche Mode ao fim de 13 anos no grupo.

Em ano de recessão, a música portuguesa sofreu as consequências do “boom” de 1994. Como a fartura não dura para sempre, artistas multiplatinados como os Madredeus, Dulce Pontes e Pedro Abrunhosa retiraram-se para manutenção e deixaram as multinacionais de mãos a abanar. Aproveitaram as independentes, que despontaram em grande número e arrancaram com vigorosas demonstrações de vitalidade. Poderá não ter sido a razão primeira para a criação destas editoras, mas todas elas se dedicaram à assinatura dos jovens talentos de que muito se falou em 1994.

Em 1995 desapareceram António Carlos Jobim, um dos pais da bossa-nova, Viv Stanshall, músico e humorista dos Bonzo Dog Doo Dah Band, Bob Stinson, dos Replacements, Melvin Franklin, dos Temptations, Eazy-E, rapper, Rory Gallagher, guitarrista, Kenny Everett e Wolfman Jack, dj, Jerry Garcia, dos Grateful Dead, Charlie Rich, lenda da música cpuntry, Biggie Tembo, dos Bundhu Boys, Sterling Morrison, baterista dos Velvet Underground, Dwayne Goettel, dos Skinny Puppy, Country Dick Montana, dos Beat Farmers, Shannon Hoon, dos Blind Melon, Alan Hull, dos Lindisfarne, e Junior Walker, lenda soul da Tamla Motown.

31.12.1999
1996
Tudo Sobre a Música dos Anos 90
“Born Slippy”, um tema dos Underworld, torna-se um hino da geração tecno, funcionando como pilha de energia para os milhares de participantes do festival Tribal Gathering, ao mesmo tempo que pôde ser ouvido nas salas de cinema, através da inclusão na banda sonora de “Trainspotting”. Se se considerar que, a par do sucesso nas “charts” britânicas deste tema (número dois no top), também “setting Sun” dos Chemical Brothers alcançou os lugares mais altos das listas, chegando ao primeiro lugar, bem se pode dizer que 1996 foi o ano da explosão da música de dança independente. Dois anos após a sua génese o “drum ‘n’ bass” atinge a (maior)idade do “mainstream”, às costas do sucesso de Goldie. Noel Gallagher, dos Oasis, gaba-se de ter comprado o seu primeiro Rolls-Royce e convida a imprensa internacional para uma conferência de imprensa em Edimburgo, na Escócia. Os Três Tenores, Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras ponderam a possibilidade de gravar uma versão de ópera de “Wonderland” dos Oasis. Björk trabalha com algumas das estrelas de música de dança, os pioneiros do “drum ‘n’ bass” Black Dog, os veteranos da tecno LFO e Talvin Singh. Os Pulp conquista o quinto prémio Mercury Music, com “Different Class”, melhor álbum do ano. Marilyn Manson lança o álbum “Antichrist Superstar” e torna-se o herege favorito da América.

Tupac Shakur, o famoso rapper da Costa Oeste americana, é baleado em Las Vegas ao volante do seu carro, quando regressava de um combate de boxe entre Mike Tyson e Bruce Sheldon, vindo a falecer a 13 de Setembro vítima de várias lesões pulmonares. Gary Stringer, vocalista dos Reef, leva 12 pontos numa mão depois de ter sido atingido por um copo num bar em Glastonbury. O baterista dos Smashing Pumpkins, Jimmy Chamberlain, foi apanhado pela polícia de Nova Iorque na posse de droga, na sequência da morte do teclista usado pela banda nas digresões ao vivo, Jonathan Melvoin. Melhor sorte teve David Gahan, vocalista dos Depeche Mode, ao ser ilibado de alegada posse de cocaína, após uma rusga realizada em Beverly Hills, na California. Já Mark Morrison, autor de “Return of the Mack”, foi multado por posse ilegal de arma. No ano de consagração do pós-rock assistiu-se à ressurreição de uma das lendas do krautrock, os Faust, pela mão de Jim O’Rourke. Os niilistas germânicos comandados por “Zappi” Diermaier, lançaram o álbum “Rien” e puseram literalmente em fogo as salas por onde passaram, com shows de pirotecnia ameaçadores. Os Urusei Yatsura foram obrigados a mudar de nome devido a problemas de direitos de autor relativamente a uma banda desenhada “manga” japonesa. O Partido Trabalhista Inglês organiza uma série de noites de música de dança com o objectivo de angariar votos.

O “artista anteriormente conhecido como Prince” rescinde com a editora Warner, para onde gravara nos últimos dez anos, assinando um novo contrato de distribuição com a EMI. Os Elastica usam um sample dos Wire no seu álbum de estreia “Elastica”. Antes, o grupo fora acusado de plagiar uma canção dos Wire (“Three girl rumba”), no seu single “Connection”, com o diferendo a ser resolvido em tribunal com o pagamento de “royalties”.

Paul McCartney juntou-se ao poeta da “beat generation” Allen Ginsberg para a gravação de “Ballad of the skeletons”, num projecto que contou igualmente com Lenny Kaye, guitarrista da banda de Patti Smith, e o compositor minimalista Philip Glass. Mani, baixista dos Stone Roses, entra para os Primal Scream, enquanto o guitarrista e principal compositor da banda, John Squire, abandona para formar os Seahorses. Reunião dos Sex Pistols, com o baixista original Glen Matlock no lugar de Sid Vicious. Ninguém ligou peva e o punk provou estar definitivamente morto e enterrado. Siouxsie Sioux pensou o mesmo extinguindo os Siouxsie and the Banshees, ao sim de 20 anos de carreira.

Os Delfins celebram dez anos de carreira pondo pela primeira vez um álbum seu, “O Caminho da Felicidade”, no primeiro lugar do top de vendas nacional. O greco-americano Darin Pappas perticipa em “So get up” dos Underground Sound of Lisbon e assina “Flowers and the Coloro f Paint” dos Ithaka, um dos álbuns do ano.

Além de Tupac Shakur desapareceram neste ano Chris Acland, baterista dos Lush, que se enforcou na sequência de uma depressão. Chas Chandler, dos Animals, morre de ataque cardíaco.

31.12.1999
1996
Tudo Sobre a Música dos Anos 90
Bloco Pós-Operatório
Chicago, nos Estados Unidos, Bristol, em Inglaterra, e Dusseldorf, na Alemanha, foram as principais sedes de um movimento iniciado no ano anterior que reivindicou de novo o adjectivo “arty” para a música popular, propondo uma reconversão e actualização da estética e da tecnologia electrónica (Moogs, A.R.P.s, Korgs e Mellotrons…) do krautrock e do Progressivo dos anos 70, em moldes que procuravam romper com os parâmetros rock mais “mainstream”. De um lote imenso de bandas com designações bizarras (Black Swan Nettwork, Stars of the Lid, The Sea and the Cake) emergiram os alemães Kreidler, To Rococo Rot e Mouse on Mars, os norte-americanos de Chicago TransAM, Tortoise e Gastr Del Sol e os ingleses Labradford e Stereolab. Todos eles, nos respectivos enunciados musicais, recuperaram uma complexidade rítmica que tanto ia beber ao tribalismo dos Can como inquietar-se nas convulsões do free jazz cósmico de Sun Ra ou do free rock dos Henry Cow e dos Faust, ou ainda, no sentido da simplificação totalitária, deslizar no asfalto e no metal embalados na batida metronómica (“motorika”) dos Neu!. A bossa-nova (Jobim, João Gilberto, Astrud Gilberto), a “kozsmisch musik” (tangerine Dream, Klaus Schulze) e o easy-listening (esquivel, Bacharach), o minimalismo (Reich, Glass) e a música industrial (Throbbing Gristle, Severed Heads, Test Dept.) foram outras das modalidades do passado que o spós-rockers reformularam, conferindo-lhe a distanciação e uma urgência própria dos anos 90. Mas o pós-rock não descurou o prazer da melodia e neste aspecto revelou-se fundamental a herança de um grupo do krautrock que veio substituir os Kraftwerk enquanto influência dominante da década que se apresta a findar: Os Cluster, de Dieter Moebius e Joachim Roedelius, cujo álbum “Zuckerzeit” (1974) cresceu até se tornar numa espécie de bíblia do movimento. O pós-rock revelou ainda dois gurus: Jim O’Rourke e John McEntire. O primeiro ajudou a ressuscitar os Faust, John Fahey e Van Dyke Parks e re-semeou as sementes das flores de Canterbury, o segundo voltou a engrenar o bólide da “motorika” quando não estava a farejar a maresia emanada da bossa-nova. Há quem lhes agradeça e quem não lhes perdoe…

Os melhores álbuns de 1999

24.12.1999
Os melhores álbuns de 1999

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Pop Rock
1
Mr. Bungle
California
Warner Bros., distri. Warner Music
“California” dos Mr. Bungle é a bíblia maldita da pop do final deste mundo e do princípio de outro. E Mike Patton o profeta e porta-voz (e que voz!) do espectáculo total. “California” ouve-se – ou será melhor dizer sente-se? – como uma vertigem. Há neste álbum, como já havia, embora numa escala menos convulsiva, no anterior “Disco Volante”, uma vontade de abraçar o universo inteiro da pop, de espremer as suas potencialidades, de corromper e estimular as suas múltiplas linguagens. Que os Mr. Bungle tenham operado o milagre a bordo de um foguetão e, mesmo assim, conseguindo escalpelizar e reconverter cada detalhe da história da pop dos últimos 32 anos (começando por 1967…) é algo de espantoso e digno de colocar “California” na lista, não só na lista dos melhores discos deste ano, como nos melhores da década.
“California” não mistura nem cola nada, atenção, como fizeram no passado Zappa, John Zorn ou os Negativland, antes sintetiza uma multiplicidade de imaginários e escolas musicais. São várias histórias, assumidas e assimiladas por inteiro, aquelas que os Mr. Bungle ensinam com o descaramento de agitadores profissionais, o nonsense de sátiros iluminados e a precisão de geómetras.
Os fantasmas dos Beatles, Beach Boys, Kim Fowley, Residents, Bowie, Sparks, Queen, Gong, Frank Zappa, Zorn, Clint Ruin, Phil Spector, Lalo Schiffrin, Presley, Yello, Zombies, surf music, easy listening, cha cha cha, folk cigano, flamenco, doo-wop, música árabe, baile musette, jazz, electrónica, contemporânea, sucedem-se a nulam-se numa sequência estonteante em que cada nota, cada palavra, cada melodia e cada conceito convergem na arte maior que consiste em transformar o tempo na transcendência e as referências que a memória retém em algo de novo nunca antes imaginado. Claro que Patton e os seus sequazes observarão de longe, com um sorriso, o circo de monstros e fantasias que eles próprios criaram. Criada a obra, cabe-nos a nós colonizá-la.
“California” perturba e desatina como um poltergeist. Queima como um vulcão. Encanta como uma caixa-de-música. Diverte como uma feira. Aterroriza como um palhaço alienígena com cara de mau. Faz-nos sentir perdidos à procura de palavras que definam o indefinível. Em última análise, aprisiona-nos na vontade de ouvir uma e outra e outra vez até passarmos a fazer parte definitivamente de um mundo sem fronteiras onde, como num desenho animado (a obra-prima “Fantasia”, de Walt Disney, será o melhor exemplo…), tudo, mas rigorosamente tudo, pode acontecer.
Como escrevemos no nosso primeiro e deslumbrado contacto com este álbum, “California” é o fantasma-clown do “Smile” que Brian Wilson jamais se atreveu a sonhar e a ironia mais lúcida e deslumbrante desde que os Mothers of Invention afirmaram que “We’re only in it for the Money”. Não se sabe que droga é que os Mr. Bungle tomaram nem isso interessa, mas “California” vai com certeza crescer na próxima década como um cogumelo destinado a fazer alucinar as gerações futuras.

24.12.1999
1999 – Tops Individuais
1 – Mr. Bungle “California”
2 – Meira Asher – “Spears into Hooks”
3 – Mouse on Mats “Niun Niggung”
4 – To Rococo Rot “The Amateur View”
5 – Tone Rec “Coucy-Pack”
6 – Fridge “Eph”
7 – Olivia Tremor Control “Black Foliage, Animation Music, Vol. 1”
8 – XTC “Apple Venus, Vol. 1”
9 – Richard Thompson “Mock Tudor”
10 – Tom Waits “Mule Variations”
11 – Trans AM “Futureworld”
12 – Pansonic “A”
13 – Edward Ka-Spel “The Blue Room”
14 – Holosud “Fijnewas Afpompen”
15 – Labradford “E Luxo So”
Do “melting pot” efervescente dos Mr. Bungle ao silêncio apaziguador dos Labradford, passando pelo diabolismo de Meira Asher e a energia em bruto dos Pansonic, 1999 mergulhou nos abismos. Colorido pelo psicadelismo de Edward Ka-Spel ou a Pop animada dos Olivia Tremor Control. E ao lado da dança digital dos Mouse on Mars ainda há quem respire classicismo. Com o optimismo dos XTC ou o pessimismo de Richard Thompson, a Pop insiste em querer aprisionar a eternidade numa canção. Enquanto o rock continua a ser pós.

Rão Kyao Lança “Junção”

19.11.1999
Rão Kyao Lança “Junção”
Como Um Farol
Quando no próximo mês se processar a transferência de poderes do território de Macau, de Portugal para a China, fará todo o sentido escutar o último álbum de Rão Kyao, “Junção”, gravado com a Orquestra Chinesa de Macau. Um sonho sobre a “integração”. Não política mas a que decorre de uma união espiritual.

“É como um gajo que tivesse tido um sonho”, assim define o seu autor a história de “Junção”, um álbum que, uma vez mais, demonstra a cumplicidade de Rão Kyao com a filosofia e a música orientais: “Um sonho sobre Macau”. O sonhador é um macaense “imaginário”. Sonha em várias etapas, correspondentes aos 12 temas de “Junção”. A viagem onírica tem início em Coloane, “uma ilha afastada que seria a parte mais selvagem, com mais impacto da natureza no seu estado bruto”. Segue-se “Taipa”, outra ilha, “já com mais movimento”, antes de se entrar em Macau, no “sítio das tendas, dos mercados”. Há um lado romântico, como acontece em todas as boas histórias, sonhadas ou não, “com a entrada de uma rapariga chinesa que simboliza a beleza”. Começa então a parte correspondente “às coisas que os homens fizeram, a parte cristã”. Há Surge o templo de S. Paulo, cuja fachada é um ex-libris de Macau. “Quis associar essa fachada mais a S. Paulo em si, um santo por quem tenho uma grande admiração”, confessa o flautista. “A-Má” é outro templo, neste caso dedicado à deusa do mesmo nome. Corresponde à “parte budista dos chineses”.
A partir daqui o sonhador entra numa fase do sonho em que “começa a haver uma integração dos portugueses e os chineses”. Aparece a guitarra portuguesa, entrelaçando-se com elementos chineses. Ele vê os “portugueses e os chineses a viverem juntos”. Nostalgia, saudade, sentimentos portugueses que, finalmente desembocam na festa, numa “espécie de um vira, mas tocado com o timbre dos instrumentos chineses”.
Chegados a esta fase do sonho convém explicar que “Junção” foi gravado em Cantão com a Orquestra Chinesa de Macau, dirigida por Wong Kin Wai, também autor dos arranjos e compositor do tema “A-Má”.
O sonho prossegue com “Farol da Guia”, outro tema de integração” (não integração política, como Rão Kyao faz questão de esclarecer -“não pensei na passagem política do território. O que me interessa é o lado mais espiritual”). “É acerca de um farol, algo que, para mim, sempre teve um simbolismo muito grande, algo de imutável que, ao mesmo tempo, indica a direcção às pessoas. As coisas passam mas o farol está sempre lá”. Há imagens de um barco chinês e de um barco português. “Com o farol no meio, a significar a existência de paz no meio disto tudo”. Segue-se a celebração chinesa e os dois elementos que se festejam em “Junção”, o amor, “tomado no seu sentido genérico e universal” e a celebração da paz, afinal o principal motivo que leva
Rão Kyao idealizou todo o guião. Antes, em 1984, Macau já surgira na sua discografia, através do álbum “Macau, o Amanhecer”. Mas o desejo de há muito acalentado era mesmo o de “usar os timbres chineses”. Rão fez uma maqueta com os temas e enviou-a, juntamente com as pautas, para o maestro chinês. As sessões de gravação decorreram “em directo, gravadas de forma clássica, sem qualquer espécie de overdubs”. “É tudo natural”, explica com orgulho o flautista.
“Junção” vai ter apresentação ao vivo, com a mesma orquestra, embora com uma formação um “bocadinho mais reduzida”, que esteve presente no disco, nos próximos dias 26 (no Coliseu do Porto), 27 (no Teatro Gil Vicente, em Coimbra) e 29 (na Aula Magna, em Lisboa).