Arquivo mensal: Maio 2010

Produtor Inglês Mistura Hands On Approach

18.12.1998
Produtor Inglês Mistura Hands On Approach

Encontra-se em fase de mistura final o álbum de estreia dos portugueses Hands On Approach (HOA), estando previsto que o disco saia em fins de Fevereiro, princípios de Março, segundo anunciou um dos responsáveis da Polygram. Na mesa de misturas dos estúdios Exit, está Darren Allison, produtor inglês de renome (The Divine Comedy, Spiritualized, Skunk Anansie, The Orb, Eurythmics, Bootsy Collis, Electronic, Babybird, Propaganda, entre outros) que antes já tomara contacto com o som dos HOA, acompanhando-os durante quase uma semana de ensaios. A gravação, sempre sob a supervisão de Allison, decorreu ao longo dos últimos meses nos estúdios da Régie.
Em definitivo, está já o alinhamento, com um total de dez canções, metade em inglês, metade em português. “Saudade”, “Djembé”, “Um destino”, “tão perto, tão longe” e “Musa” são os títulos cantados em português sendo o inglês utilizado em “Blown”, “My Wonder Moon”, “Insignificance”, “Gift to none” e “Silence”. Demo do mês, com “My wonder moon”, para a FM Radical, maquete do ano para a Super FM, os Hands on Approach prometem estoirar no mercado nacional com um som que poderá tornar-se o sucessor natural dos Silence 4 na conquista dos tops. O grupo, formado em Abril de 1996, para uma actuação “un plugged” em directo na Antena 3 e cujo nome foi escolhido à entrada do estúdio, a partir de um título qualquer lido numa revista, é constituído por Rui David (voz e guitarra, Michael Stipe, dos REM, que se cuide…), João Luís (baixo), Sérgio Mendes (guitarra) e Aníbal Rosado (bateria).
Pedro Barrento, que descobriu os HOA quase por acaso, ao fim de uma noitada num bar de Setúbal, ainda não se refez do efeito que lhe provocou a música do grupo, do qual se tornou entretanto o empresário: “Achei a música genial. É tudo aquilo que as bandas portuguesas, em geral, não são, com uma pop directa, descomprometida, correspondente a um certo som “britânico”. Todos reconhecem nos HOA um “potencial comercial fabuloso”. A Darren Allison cabe neste momento a responsabilidade de transformar a gema em jóia lapidada.

Músicos Da Ronda Estreiam Novo Projecto – Uma Russa Em Santiago

10.07.1998
Músicos Da Ronda Estreiam Novo Projecto
Uma Russa Em Santiago

Quatro dos elementos da Ronda dos Quatro Caminhos juntaram-se a uma violinista clássica, mandaram às urtigas a música portuguesa e as vocalizações, inspiraram-se em Santiago de Compostela e chamaram ao novo projecto, Santiago. A violinista é Inna Rechetnikova, formada pelo Conservatório de Leninegrado e que nos últimos anos tem feito parte da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Os quatro rondas são António Prata, Carlos Barata, Vítor Costa e Pedro Fragoso.
Esqueceram-se por momentos da banda-mãe para pôr em prática novas concepções musicais. “Já há alguns anos que tínhamos a ideia de fazer um grupo só instrumental”, diz António Prata, multi-instrumentista dos Santiago, para quem “há muito pouca música instrumental em Portugal, ao contrário do que acontece nos outros países da Europa”.
A par do aspecto instrumental há ainda uma preferência pela “música de autor”. Todos os temas de “Santiago”, disco de estreia do projecto, têm a assinatura de Prata, Carlos Barata e Pedro Fragoso. Ao contrário da Ronda, que faz essencialmente recriações de música tradicional portuguesa, nos Santiago privilegia-se a composição e “a experimentação com outras sonoridades”.
Alguns dos temas de “Santiago”, foram escritos, “na solidão da casa de cada um”. Outros “contaram com a colaboração de um ou outro músico, em termos de arranjos ou de uma segunda melodia, sem ser nunca um trabalho colectivo”, explica Prata. “Havia era uma comunhão de ideias entre os três compositores principais e tentámos que cada um fizesse alguns temas de acordo com o todo do disco”. Um disco que, diz, “teria que ser forçosamente alegre”.
No centro de Santiago está o violino da russa Inna Rechetnikova. “É uma paixão minha [N.R.: o violino, não a russa] e também de todos os outros músicos”. Os portugueses conheceram-na há dois anos. E “como as conversas são como as cerejas” e ela “gostou da ideia”, não foi difícil integrá-la no projecto. “Foi um desafio grande compor para o seu violino e fazer todo o disco girar em volta dele”, garante António Prata.
Ouvindo certas batidas de “Santiago” pensa-se nos Fairport Convention. Prata assume a influência. “Comecei a ouvir música em casa aos 12 anos. Vamos assimilando tudo o que ouvimos. Por um processo natural de exclusão, ficamos cá dentro com aquilo que é bom, como é o caso dos Fairport Convention, um dos grupos que ouvi bastante”.
Serão os Santiago, à semelhança dos Fairport, uma banda de folk rock? António Prata prefere o termo “pop folk”. Porque “não há dúvida de que os ritmos do continente europeu estão bem marcados no disco”, embora “com uma sonoridade mais pop” do que na Ronda. Cita, como exemplo, a inclusão da bateria, “que não tem nada a ver com o modo como é utilizada na Ronda ou as próprias malhas da guitarra e a sequência de acordes”.
De futuro se verá como os quatro elementos que dividem a sua actividade entre os dois grupos lidarão com o facto de poder haver sobreposição. Prata é bem claro: “Não avançámos com o Santiago apenas para fazer um disco. Planeámos uma carreira, embora saibamos que é difícil um grupo impor-se com um projecto instrumental. Mas somos perseverantes e se as coisas não correrem bem com este disco esperamos que corram melhor com o próximo”. E se os Santiago tiverem êxito? ”Num Verão em que haja muitos espectáculos dos dois grupos, teremos que conviver com essa situação”.
A Santiago de Compostela, na Galiza, onde se deslocam com frequência para actuar, foram os Santiago portugueses buscar inspiração. “É uma cidade que sempre teve um universalismo que nós gostaríamos que existisse também na nossa música”.

Cristina Branco – Ulisses

21.01.2005
As Viagens de Cristina Branco
Cristina Branco
Ulisses
SACD ed. e distri. Universal
8/10

LINK

Pronto, ela decidiu, está decidido. Para Cristina Branco o fado já faz parte do passado. Ela já tinha, aliás, avisado antes. Que não era uma fadista, mas uma cantora. “Tout court”. “Ulisses” sela a transição, já encetada no anterior “Sensus”, do fado para a canção popular urbana. Não vale a pena sequer congeminar-se, ao nível do substrato emocional, esta é ainda uma música marcada pelo fado. Não é. A emoção que atravessa “Ulisses”, um álbum de viagens, não é exclusiva do fado mas a emoção que desde o início de uma carreira milimetricamente talhada, Cristina e os eu companheiro Custódio Castelo foram aos poucos e metodicamente abrindo e burilando. “Ulisses” confirma a excelência de uma voz e um ecletismo de estilo que já se adivinhavam. Num panorama de vozes femininas que já albergava nomes como o de Amélia Muge, Filipa Pais e Né Ladeiras veio agora juntar-se o de Cristina Branco, com uma música cujas raízes mergulham na tradição, seja esta tradição o da música folclórica, de cantautores como José Afonso, Vitorino, Fausto e Joni Mitchell, ou da veia modernizadora das composições originais assinadas por Castelo. Em qualquer dos casos a versatilidade e plasticidade vocal de Cristina Branco são notáveis, a par da riqueza do timbre, acentuada ainda mais nesta edição em super áudio CD.
Depois de ensaiar de início com o sotaque brasileiro e com a língua castelhana, a cantora atinge um “Redondo vocábulo” o primeiro pico de “Ulisses”, naquela que será uma das melhores versões de sempre deste tema de José Afonso. Logo a seguir, a operação de risco que é pegar numa canção de Joni Mitchell, revela-se totalmente conseguida. Cada canção da compositora canadiana é, por si só, uma viagem e “A Case of You”, do álbum “Blue”, não é excepção. Cristina Branco entra de coração aberto no coração deste novo universo. “Navio Triste”, de Vitorino, e “Porque me olhas assim”, de Fausto são outras interpretações sem falhas e “Choro (ai barco que me levasse”) exala o discreto odor da nostalgia das gerações mais antigas da música popular portuguesa. Custódio Castelo assegura até ao final que “Ulisses” continue a viajar sobre as nuvens, seja sobre os versos de Paul Éluard (com a língua francesa a exigir uma abordagem mais física e rasgada que Cristina por enquanto não lhe consegue arrancar), de David Mourão-Ferreira, em “E por vezes”, uma das mais sentidas vocalizações de “Ulisses”, ou num “Cristal” em registo “neo folk” (Pentangle à portuguesa?) onde, uma vez mais, se revela fundamental o piano de Ricardo Dias. Sobram “Gaivota”, único momento de fado num álbum que perscruta mais do que as vielas e becos da tradição, e “Fundos”, a inspirar algumas dúvidas quanto ao uso de uma batida “drum ‘n’ bass”. Tal não seria necessário para assegurar a modernidade de “Ulisses”.