Arquivo mensal: Maio 2010

Folk: Os Ossos De Todos Os Discos

08.05.1998
Folk
Os Ossos De Todos Os Discos
Torna-se cada vez mais difícil criticar todos os álbuns de qualidade, com distribuição nacional. Deixando de fora os “apenas interessantes”, fica, ainda assim, uma lista extensa de discos que foram já objecto de audição, embora ainda não aprofundada, pelo que não lhes foi atribuída, por agora, classificação. Temos então, por grupos temáticos:

Transgressões
“The Bones of all men” é o manifesto de “renaissance rock dance” de Philip Picket, especialista e executante de instrumentos de sopro de música antiga, antigo elemento dos Albion Band e que hoje integra os The New London Consort. A sua estreia a solo, “The Bones of All Men”, com produção de Joe Boyd, retoma, 25 anos depois, a mesma atitude pioneira que Ashley Hutchings veiculou nos clássicos “Morris on” e “The Complete Dancing Master”. Na guitarra está Richard Thompson, sendo a secção rítmica composta por três dos mais antigos elementos dos Fairport Convention, David Pegg, Simon Nicol e Dave Mattacks. Depois dos Burach e dos Shooglenifty, a Greentrax continua a descobrir novos caminhos para a renovação, desta feita através dos Peatbog Feereies, com “Mellowosity”, e dos Tartan Amoebas, mais rockeiros, em “Tartan Amoebas”.

Instrumentistas
“Crossing To Scotland” é uma colecção de arranjos para violoncelo de tradicionais escoceses, assinados por Abby Newton. Aly Bain & Phil Cunningham, um ex-Boys of the Lough, mestre do violino das Shetlands e o acordeonista dos Silly Wizard, ao desafio em “The Pearl”. No duelo entre violinistas notáveis, a Greentrax já encontrou resposta para a Green Linnet: Eilidh Shaw que com “Heepirumbo” pode fazer frente a Eillen Ivers. Outra recém-chegada violinista, Natalie MacMaster, perfila-se no grupo da frente com “No Boundaries”. Kevin Burke, Johnny Cunningham e Christian Lemaître são os Celtic Fiddle Festival, mais três violinistas de excepção que em “Encore” mostram o que vale o virtuosismo. Duas duplas, uma feminina, Jennifer & Hazel Wrigley, com “Huldreland”, e Ian Hardie & Andy Thorburn, com “The Spider’s Web”, fazem dialogar os violinos, respectivamente com a guitarra e os teclados. “Traditional Irish Music”, de Paddy Carty, dirige-se, em exclusivo, aos incondicionais da flauta de madeira, enquanto Fiona Davidson, com “Fonnsheen”, fala ao coração dos que não dispensam navegar nas ondas de uma harpa, instrumento que nas mãos de Savourna Stevenson, em “Calman the Dove”, corta pelas margens do jazz e da experimentação.

Vozes
Andy M. Stewart, vocalista dos Silly Wizard, regressa com “Donegal Rain”. Pausadamente, como de costume. Cathie Ryan estreia-se com “Cathie Ryan”, com inflexões em June Tabor e na folk americana. “Primary Colours” constitui a apresentação dos Chantan, um trio de delicadas fadas em polifonias vocais de renda. Gordeanna McCulloch dá-se a conhecer com “In Freenship’s Name”. Uma voz cuja potência faz lembrar a saudosa Brenda Wootton, com a vantagem de possuir um registo mais largo de “nuances”. Outra grande voz da Escócia pertence à veterana Isla St.Clair, que por fim chega ao nosso país, com “Scenes of Scottland”. Outra veterana, Sheena Wellington, dispensa quaisquer facilidades no canto “a Capella” que preenche a maior parte de “Strong Women”. Embora mais nova, Karan Casey, cantora dos Solàs, prova na sua estreia a solo, “Songlines”, que também ela é digna de figurar na galeria das eleitas. A reedição de “Foliada de Marzo”, álbum de estreia de Uxia, faz a ligação ideal com “Estou Vivindo no Céu”.

Clássicos
“Ten da Chent L’Archet che la Sunada l´`e Longa”, álbum de estreia dos La Ciapa Rusa, foi finalmente reeditado em CD. Este, obviamente, já tem nota: dez. Os Fairport Convention editaram o seu enésimo álbum, “Who Knows Where The Time Goes?”. Além de ser bom, demonstra que o grupo descobriu a eternidade, ao escolher para título um dos clássicos mais antigos de Sandy Denny. “En Concierto”, dos La Musgana, reproduz o registo ao vivo do mesmo espectáculo com convidados ilustres que foi apresentado no último Intercéltico. Acontecimento discográfico é a distribuição de uma boa parte da discografia da instituição basca Oskorri, que já tocaram numa edição dos Encontros e se preparam para regressar na Expo. Cada álbum é totalmente diferente dos outros. Destacamos o iluminado “Adio Kattalina”, mas também “Alemanian Euskaraz”, “Hi Ere Dantzari”, “Katuen Testamentua” e “25 Kantu Urte”, este último assinalando os 25 anos de carreira do grupo, com convidados como Martin Carthy, Liam O’ Flynn, Kepa Junkera, Patrick Vaillant, Gabriel Yacoub e os Gwendal.
Outro grupo-instituição, os escoceses Ossian, ressuscita com “The Carrying Stream”, tão suaves como nunca. Ainda no capítulo das instituições, os Tannahill Weavers recomendam-se, em “Leaving St. Kilda”. Um caso espantoso de longevidade que não conhece falhas de rendimento. Quem mudou bastante foram os The Wolf Stone. Em “This Strange Place”, o seu folk rock ganhou serenidade e um pendor tradicionalista que não se vislumbravam em álbuns anteriores. Com “Colours of Linchen”, os The Cast voltam a intrigar pela sua aliança mágica entre a calma, a devoção e a simplicidade de processos.

Latitudes
Da Escandinávia surge Anders Hagberg, com “Earth Songs”, rituais emulados no mesmo fogo de Mari Boine Persen. Na Itália, os Caramusa apresentam “Canti e Musica Tradiziunali di Lísula di Corsica”, polifonias e instrumentais da Córsega, com sabor medieval. “M’han Presa”, dos La Piva Dal Carner, possui a sofisticação de uns Barabàn, La Rionda ou La Cantarana. Virando para leste, chega-se aos Hradistan, clássicos e compenetrados, em “Chants et Danses de Moravie”. A música cigana da Roménia continua a ser bem representada pelos Taraf de Haidouks, no novo “Dumbala Dumba”. Na Galiza, os Cempés, que estiveram o mês passado no Intercéltico, mostram no seu segundo álbum, “Capitan Ré”, um dos temas mais belos escritos nos últimos tempos nesta região celta, “A loureana”, saído da pena de um grande compositor, Oscar Sanjurjo. Os mais tradicionalistas saberão estar atentos a “No Chao do Souto”, dos Sons do Muino, e “Adicado…”, dos Xistra de Coruxo. Ainda mais puros são “Alborada em Cotobade” do mestre gaiteiro Ricardo Portela e “Xarabal”, da banda de gaitas Xarabal. Numa vertente mais contemporânea, os Pé de Boi, embora mais acústicos, retomam o ambientalismo dos Armeguin, em “Viaxeiro de Pousada”.

Descobertas
Andy Shanks & Jim Russell recuperam a acusticidade da voz e da guitarra em “Diamonds in the Night”, em ambientes próximos de Martin Simpson. Com “Ae Spark o Nature’s Fire” e “Sinergy” os escoceses Deaf Shepherd preparam-se para rivalizar com os irlandeses Dervish, Déanta, Kila e Solas. Quem os viu no Intercéltico, sabe do que estamos a falar. Nas terras altas convém ter em conta os Highland Connection, que em “Gaining Ground” se atrvem a tocar uma longa “suite” de 23 minutos. Outro disco de estrondo é “Fhuair Mi Pog”, de Margaret Stewart & Allan MacDonald, uma grande voz e um grande “piper”. A nota da “new age” não aflora tanto como seria de esperar em “Way out to Hope Street”, dos Skyedance, atendendo a que o violinista Alasdair Fraser e o pianista Paul Machlis fazem parte do grupo.

Madredeus Grava Um Vídeo Em Sintra – O Sonho Comanda A Vida

03.04.1998
Madredeus Grava Um Vídeo Em Sintra
O Sonho Comanda A Vida
Os Madredeus estiveram em Sintra a rodar o teledisco de “O Sonho”, uma canção do seu último álbum, “O Paraíso”. muito em breve, partirão de novo em viagem, encetando uma nova digressão pelo estrangeiro. Na calha estão dois álbuns a solo e um bebé.

LINK

Serra de Sintra, o monte da lua. Lugar sagrado, coberto de verde, de água e de caminhos ocultos. A meio de uma destas veredas, na direcção dos Capuchos, o silêncio das alturas é quebrado por uma azáfama pouco usual nestas paragens. Em pleno dia, sob o sol da Primavera, a paisagem é cortada por holofotes acesos, colunas de som e monitores. Alguém espalha nuvens de fumo sobre umas figuras sentadas calmamente a tocar guitarra entre as pedras de granito. Uma mulher – envergando um longo vestido escarlate que lhe dá um aspecto medieval – sai de uma “roulotte” e dirige-se para o meio do verde e das pedras. Parece começar a cantar, mas percebe-se que a música vem de outro lugar. O ar enche-se com notas nítidas de uma canção, várias vezes repetida. Estaremos a sonhar?
A canção que se ouve é “O Sonho”, a mulher chama-se Teresa Salgueiro e toda esta agitação deve-se às filamgens do teledisco que os Madredeus estão a rodar na serra de Sintra, antes de partirem para mais uma digressão internacional, com início marcado para 1 de Abril próximo, na Galiza, e o final agendado para 12 de Junho, em Macau. Em Julho, haverá ainda algumas datas reservadas para actuações em Portugal. Depois, terão todos descanso. Teresa Salgueiro está grávida e com isso não se brinca. O rebento nascerá em Outubro.
Carlos Brandão Lucas, um apaixonado pela viagem e pela natureza, realizador de diversos documentários para a RTP, é o responsável pelo guião e pela produção deste trabalho. A tradução do sonho em imagens pertence-lhe. Para os Madredeus a sua escolha tem, segundo Pedro Ayres Magalhães, um motivo óbvio: “Já há muitos anos que faz este trabalho, uma espécie e antropologia da paisagem portuguesa.”
Para Carlos Brandão Lucas, a produção de um teledisco é algo que faz pela primeira vez e que asume como “uma experiência nova”: “Não é que eu esteja propriamente interessado em enveredar por esta área, a minha área é o documentário, é aí que me sinto realmente bem, mas achei que devia aceitar, até tendo em conta o grupo que é, de cuja música gosto muito.”
Sintra tece a sua teia de sortilégios. A voz de Teresa Salgueiro mal consegue acordar as árvores da sua sesta da tarde. Os acordes de “O Sonho” são interrompidos por directivas técnicas por parte da vasta equipa responsável pelas filmagens, nomeadamente pelos dois realizadores do “clip”, Ricardo Andreia e Pedro Canais.
“A canção pressupõe este ambiente”, diz Brandão Lucas, “este tipo de arvoredo. Há uma série de coisas que podem acontecer, no fundo, por detrás das árvores que cada um tem na sua própria vida.”
Além de Sintra, “O Sonho” contará ainda com imagens de arquivo recolhidas ao longo dos anos e “de uma longa passeata por este país”, pelo cineasta. “Há aqui uma história dupla que se conta: uma é o sonho, que é o poema e esse sonho que é povoado por imagens, como todos os sonhos o são, e sobre as quais nem sequer temos, normalmente, controlo. É um lado do nosso cérebro que não controlamos. Nos sonhos, somos capazes de voar, por exemplo, acontecem-nos coisas que não nos acontecem na vida. Este conjunto de imagens mais este fundo das árvores da vida podem contar de outra forma a história que é contada na canção.”
“E não havia mais nada… Só nós, a luz, e mais nada… Ali morou o amor…” A letra da canção dissolve-se no ar. O local confunde-se cada vez mais com amúsica. “Sintra é um lugar mítico na história portuguesa e eu sou um homem muito ligado à história. E tenho uma relação de alguma intimidade com esta canção porque sou uma pessoa que sonha sempre coisas, que desejo coisas.”
Pode parecer estranho o nevoeiro que alguém da equipa de filmagens faz continuamente espalhar sobre os músicos. Sobretudo porque, na ocasião, o dia é de sol. Mas há uma explicação para isso: “O sonho, exactamente por não ser uma coisa concreta, aparece como uma coisa enevoada e dessas nuvens que atravessam os nossos sonhos saem imagens. É esse o papel dos fumos.”
“O sonho” terá apenas imagens reais, com “algum tratamento posterior sobre as imagens de arquivo. “não vai viver do computador.”
Carlos Brandão Lucas volta a lançar alguns “bitaites”, como ele próprio diz, sobre o que se vai passando sobre o palco de relva, de guitarras e do vestido sanguíneo de Teresa Salgueiro. Fala ainda dos outros sons, imagens e geografias que preenchem o seu quotidiano: “Tenho uma ligação muito profunda a África, outra, não menos amorosa, à Índia. Uma relação de desejo com a Mauritânia. Sou um homem que gosta do mundo e das pessoas do mundo. Gosto de viver a cultura, o calor e o frio dos lugares. O mundo pertence-me e eu não pertenço a nenhum lugar. nesse sentido, todos os filmes que me contam hitórias de lugares e depessoas interessam-me. Por todas estas razões, gosto dos sons que correspondem aos lugares, da música tradicional – de música chinesa, por exemplo, lá está -, porque me revela imagens. E eu vivo de imagens.”

Peixoto e Trindade a solo
José Peixoto e Carlos Maria Trindade, respectivamente, guitarrista e teclista dos Madredeus, têm novos projectos discográficos a solo em perspectiva.
José Peixoto tem pronto “A Vida de um Dia”, nova aventura solista da guitarra acústica, na linha do anterior “A Voz dos Passos”. “Foram gravados namesma igreja e com o mesmo engenheiro, o José Fortes”, explica o músico, cujo disco, “se tudo correr bem”, sairá em Junho, quando acabar a digressão do grupo.
Carlos Maria Trindade encontra-se, por seu lado, na fase de composição do seu segundo álbum a solo, depois de “Deep Travel”, sem contar com “Mr. Wollogallu”, em que fez parceria com Nuno Canavarro. Segundo o seu autor, o novo disco não andará longe dos anteriores, embora haja a intenção “de fazer algumas experiências acústicas ou mesmo com a voz”. Ao certo está já a presença de músicos convidados, “que acrescentem alguma coisa ao que será uma espécie de fusão”. Carlos Maria desenvolve neste momento um segundo projecto discográfico, com Miguel Ângelo^, vocalista dos Delfins.

The SymphOnyx – Candelabros Para Uma Sinfonia Rock

06.02.1998
The SymphOnyx
Candelabros Para Uma Sinfonia Rock
Originários de Guimarães, The SymphOnyx são uma das poucas bandas portuguesas a abraçar a estética do rock-sinfónico dos anos 70. Das versões de Bach e Vivaldi, passaram naturalmente para composições originais que apresentam no seu disco de estreia, “Psico Fantasia”.

LINK (“Opus 1: Limbu” – 2005)

Versão portuguesa das bandas “neo prog” inglesas como Pendragon, IQ ou Twelfth Night ou continuadores, mais de 20 anos depois, dos pioneiros Tantra, os SymphOnyx têm como principal preocupação recuperar um dos capítulos perdidos e mais menosprezados dos anos 70. Para Paulo Magalhães, guitarra-ritmo dos SymphOnyx, a única preocupação é “juntar a música clássica, melodias clássicas, a um rock actual”.
nos espectáculos ao vivo, os seis elementos dos SymphOnyx, martinho (guitarra solo, voz(, Carlos (bateria, voz), Jorge (teclados), Mota (baixo), Paulo (guitarra ritmo) e Barros (voz), têm contado com a colaboração de dois violinistas (Samuel e Rui), um violoncelista (André) e Diana (voz). “Estamos a pensar, de futuro, utilizar ‘samplers’ para substituir os instrumentos clássicos”, diz o guitarrista, para quem as dificuldades de “juntar dez pessoas em palco é enorme”. Mas vão continuar a apostar num certo aparato cénico, na boa tradição de grupos como os Genesis ou, em Portugal, dos já citados Tantra, usando, nos espectáculos, “uma bailarina, roupas especiais e candelabros”. Tudo para criar “uma esfera ambiental diferente que traduza o espírito” deles: “Somos adeptos do sonho, da imaginação, do irreal.”
Dos anos 70, Paulo Magalhães guarda a recordação dos Queen e dos Police, a par, é claro, da audição intensiva de música clássica. Hoje assume-se, aliás como os restantes elementos da banda, como “fã” da clássica. “É assim que sentimos a música e é essa a nossa inspiração”, garante.
“Psico Fantasy”, em edição de autor de mil exemplares (“já há pelo menos uma editora portuguesa interessada em editar um álbum completo”), foi gravado em Agosto do ano passado e tem a forma de um mini compacto, onde estão incluídos os temas “Dream of the rainbow angels”, “Killing zone”, “Red moon” e “Letter to my love”, este último com a participação vocal da convidada Diana, a fazer lembrar Annie Haslam dos Renaissance. O primeiro destes temas faz parte do CD que acompanha a última edição da revista “Pró-Música”. Actualmente em digressão pelo país, os SymphOnyx passarão por Lisboa no final deste mês, em data e local a anunciar. Quem quiser acompanhar mais de perto a vida do grupo, ou mesmo adquirir “Psico Fantasia”, poderá fazê-lo através do endereço na Internet: www.cidadevirtual.pt/symphonyx.