Arquivo mensal: Maio 2010

Sétima Legião: “Sexto Sentido” Muda Sonoridade Do Grupo – entrevista –

19.02.1999
“Sexto Sentido” Muda Sonoridade Do Grupo
Legião Estrangeira

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Seis anos depois de “O Fogo”, os Sétima Legião voltaram a reunir-se para gravar um novo álbum, “Sexto Sentido”, um trabalho marcado pela tecnologia e pelo tratamento de samples que funde a alma da Sétima numa alface virtual. Música menos física e mais mental, nas palavras do grupo. E muito mais internacional.

Tão ou mais surpreendente do que a mudança radical nos métodos de trabalho e gravação deste novo álbum da Sétima é o facto de, passado um interregno de seis anos, os intervenientes serem os memso e, ainda por cima, estarem sintonizados na mesma onda musical. Um caso de fé inabalável num projecto e num conceito que passou a ter forma exclusiva nas máquinas e nas mentes dos músicos. “Sexto Sentido” existe apenas enquanto utopia sonora e espaço convergente de diversas sensibilidades unidas pelo propósito da descoberta e reconversão. Daquilo a que, com boa vontade, ainda poderemos chamar tradição, mas agora já transmutada num mutante abstracto que se alimenta do imaginário planetário. O PÚBLICO samplou as ideias de três dos alquimistas, Gabriel Gomes, Pedro Oliveira e Paulo Abelho.
FM – Ao escutar-se “Sexto Sentido” tem-se a impressão de que a música se esgota numa dimensão exterior, não só à anterior realidade do grupo, como à própria fisicalidade do som. Como conceitos a pairarem num mundo de imponderabilidade…
GABRIEL GOMES – Isso deve-se ao diferente método de produção que utilizámos. Nem toda a gente estava disposta a ir para uma garagem passar quatro meses a ensaiar. Foi muito mais fácil agarrar nos compositores e respectivas composições e juntá-los consoante a disponibilidade de cada um.
PAULO ABELHO – Além do facto de cada um de nós ter desenvolvido, entretanto, diferentes métodos de trabalho.
FM – As composições deixaram de ser assinadas pelo colectivo para passarem a ser assinadas pelos nomes próprios dos músicos, em diversas combinações.
GABRIEL GOMES – O que não quer dizer que não haja um intercâmbio e uma comunhão.
FM – Querem dizer que, embora tivessem seguido carreiras separadas, acabaram todos por convergir ao mesmo tempo numa estética comum?
PAULO ABELHO – O que acontece é que, desde o início, há 15 anos, que somos amigos. Continuámos todos a andar juntos, a sairmos à noite, com negócios comuns…
GABRIEL GOMES – O Pedro, sobretudo, serviu de elo entre todos. Mas o que uniu tudo foi a matéria musical. E isso é que foi o mais engraçado. Embora separados, quando nos juntámos para estúdio, estávamos todos no mesmo sítio.
FM – Como é que surgiu a ideia de erguer toda a arquitectura de “Sexto Sentido” com alicerces nos samplers? É um mundo alheio à Sétima Legião antiga…
PAULO ABELHO – É verdade que operámos com base em samples e nos sintetizadores, mas sem qualquer sentido arquivista.
PEDRO OLIVEIRA – Deixámos de respeitar as regras de um grupo pop. Este disco é um disco de vários compositores com um elo comum.
FM – Mas não acham que álbum soa um pouco a produto de laboratório?
GABRIEL GOMES – Usámos métodos diferentes para trabalhar o som. É evidente que, quando se trabalha com tecnologia, tem que se utilizar métodos laboratoriais. Mas acho que, por exemplo, nas figuras da gaita-de-foles ou do acordeão, tentámos criar “takes” o mais espontâneos possível, gravados á primeira. Inclusive, deixámos algumas coisas que não quisemos corrigir. A grande inovação deste disco é, de facto, o som.
FM – No caso das vocalizações sobre vozes sampladas, de que forma é que esta interacção modifica a interpretação em tempo real? Esta questão dirige-se, como é óbvio, ao Pedro.
PEDRO OLIVEIRA – É intuitivo. Quando sentes que alguém está a cantar ao teu lado, de uma maneira não física, isso molda a nossa maneira de cantar. Se não houvesse a voz de uma senhora do campo a cantar, eu cantaria, de certeza, e outra maneira.
FM – Até que ponto “Sexto Sentido” foi composto, não só no, mas com o próprio estúdio?
PAULO ABELHO – Sobretudo na fase final, nos últimos meses, começámos a simplificar as coisas. Sem dúvida que houve pormenores que só apareceram no estúdio.
FM – Concordam que, com este disco, a Sétima respira já alguns ares de música de dança?
GABRIEL GOMES – Há uma sonoridade mais contemporânea, mais próxima de algumas correntes actuais. Mas não se trata de um “beat” de música de dança. Mas, se reparar, todos os concertos da Sétima Legião eram de dança, as pessoas dançavam do princípio ao fim…
FM – “Sexto Sentido” é um disco de fusão. Em que sentido é que aceitam, se é que aceitam, este termo?
GABRIEL GOMES – Não se tratou de agarrar em tudo e meter numa panela, mas de fundir as sonoridades, os instrumentos acústicos com os electrónicos.
FM – Mas naõ concordam que a sonoridade global do disco se insere numa vertente internacional bastante identificável?
PEDRO OLIVEIRA – Não foi propositado. Mas o que é isso de ser ou não português? Os Gaiteiros de Lisboa, por exemplo, estão cada vez menos portugueses.
GABRIEL GOMES – Tem a ver com a produção, com a forma de tratar os om. E aí, concordo, é um som mais interbnacional do que português. Outro exemplo: ouvi no outro dia os DNA, têm um som exactamente igual aos U2… Incrível. Mas são portugueses. O som de uma banda de recolha?
PEDRO OLIVEIRA – Desde o início tivemos sempre a preocupação de não ter como objectivo estético o aproveitamento da portucalidade, da tradição, etc… Há 15 anos usávamos uma gaita-de-foles apenas porque ficava bem. Nunca quisemos fazer qualquer transposição da tradição para música pop.

Alfaces e Fractais

FM – Existem facções diferentes na Sétima, uma mais tecnológica e outra mais acústica? Referimo-nos ao Paulo Marinho…
PEDRO OLIVEIRA – Não, embora não exerça muito, também tem o fascínio pelos computadores. Aliás, o papel dele, neste disco, foi o mais ingrato, por ser o único músico cem por cento acústico. Ingrato, por não poder repetir neste caso o que sempre fez. No passado havia algumas coisas prvisíveis, sabia-se sempre onde é que entrava um solo de gaita. Neste disco ele fez um esforço de não ser previsível, no sentido de produzir um som muito menos trabalhado. É uma contradição com alguma graça, inclusive há algumas “gralhas” que optámos, ou optou ele, por aproveitar. Muitas vezes esperávamos que ele fizesse de determinada maneira e ele fazia exactamente o oposto.
FM – A capa do álbum insiste na tecla tecnológica. É um fractal?
PAULO ABELHO – Não. É uma alface. Com filtros.
GABRIEL GOMES – reflecte a dualidade da terra e da tecnologia. Ema simbisose biológica.
FM – Têm opinião sobre o actual retorno aos sintetizadores analógicos?
PAULO ABELHO – Houve uma altura em que se passou do analógico para sistemas como o “PCM”, com pequenas amostras de som pré-programados no sintetizador. Acabou por acontecer uma certa saturação disso. Eram aqueles sons e só aqueles. Agora, construir algo a partir do zero, que é o que acontece no analógico, é muito mais fascinante, em termos de criatividade.
FM – Usaram sintetizadores analógicos neste disco?
GABRIEL GOMES – Sim, como um JP 8000, dos anos 80, que recupera todos os analógicos da Roland antigos, sintetizados na mesma máquina.
FM – Nada de Moogs nem A.R.P.?
PAULO ABELHO – Eu tenho um Korg MS-10 onde é possível criar qualquer coisa de raiz. Posso partir do ruído branco e daí construir um novo som em tempo real. O que vai acontecer na próxima fase é o aparecimento de uma nova tecnologia que utiliza estes métodos de síntese, mas já em conjunto com samplersd. Todas as marcas estão a lançar analógicos, mas mesmo isso vai chegar a um limite. É preciso inventar novos métodos de síntese, como já acontece com a Yamaha, com síntese FM, que recorre a algoritmos. Mas nunca vou samplar uma gaita-de-foles (a não ser que pretenda desmontar ou manipular o seu som), se puder usar o instrumento real.

The Dead Texan – Uma Estrela Caiu Do Texas – Entrevista –

14.01.2005
The Dead Texan – Uma Estrela Caiu Do Texas

The Dead Texan é um projecto de Adam Wiltzie, elemento dos Stars of the Lid, grupo ao qual se deve a música mais ambiental que a primeira geração do pós-rock ofereceu. Anunciado como um som “mais agressivo”, o álbum “The Dead Texan” sedimenta as propostas dos Stars of the Lid, acrescentando-lhes vozes e quase, quase, a estrutura de canções. Um segundo disco apresenta em DVD as imagens vídeo criadas por Christina Vantzos, que também estará presente nas duas actuações em Portugal, hoje em Lisboa e amanhã no Porto.

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FM – O título e a capa – quase um “cartoon” – deste trabalho parecem não se adequar ao teor da música. Como foram concebidas?

Adam Wiltzie – Sem querer fazer “statement”, suponho que têm um significado especial para mim e para Christina. A capa surgiu como consequência do que tenho observado na arte gráfica de outros álbuns do género. O termo “expressionismo abstracto” continua a ser a referência principal. Mas o facto de lidar com estruturas musicais ambientais, obriga-me a fazer arte gráfica ambiental também? Talvez esteja a divagar, mas olhando para o catálogo antigo da Kranky, optei por algo mais simbólico, no sentido clássico, que é simplesmente uma representação minha e de Christina. Tenho pensado em dois artistas famosos, Peter Paul Reubens (o pintor barroco) e Pablo Picasso (o clássico expressionista abstracto). Picasso, aparentemente, criou 40 mil obras durante a sua vida, enquanto Reubens se quedou pelas 400. Quando ouço as pessoas referirem-se a Picasso como génio, não posso concordar, as pessoas usam este termo levianamente. E se ele não o fosse de fato? Picasso lembra-me Lou Reed, um idiota que apenas estava no lugar certo, na altura certa (Warhol/Factory/Nova Iorque…). Reubens era mais como Mark Hollis. São anos e anos de vida a marcar acda pintura. Quando se olha para uma delas consegue-se perceber o sofrimento mental, a angústia, é algo maciço.
Quanto ao título significa apenas que vivi antes no Texas, um sítio morto…

FM – Houve quem achasse que esta música era “demasiado agressiva” para um disco dos Stars of the Lid.

Adam Wiltzie – Quando trabalhei como engenheiro de som dos Flaming Lips, o Wayne Coyne costumava dizer-me que a minha música era “chata”, que nada acontecia. Sugeriu-me que fizesse algo mais agressivo. O álbum é um pouco uma piada privada em resposta ao Wayne.

FM – É uma música que flutua entre a ambiental pura de Eno e a ambiental industrial, em que os sons nem sempre são apelativos. De que forma tenta afectar a percepção musical dos ouvintes?

Adam Wiltzie – Não tento. Apenas faço a música que gosto de escutar. Será que deveria divagar poeticamente sobre a forma como a minha música afecta o mundo? Creio que os vossos leitores se preocupam mais com o jardineiro do [treinador do Chelsea] José Mourinho do que comigo! De facto, sou levado a pensar que a minha música é incrivelmente imperfeita. Tenho um problema com músicos com grandes egos, que pensam que a sua música é perfeita. Como é que se pode evoluir se se tem uma atitude de reverência para com o que se fez no passado?

FM – Há uma vertente de música de câmara que faz lembrar Gavin Bryars…

Adam Wiltzie – É uma grande influência. Qualquer comparação com ele, positiva ou negativa, é um elogio.

FM – “Avec Laudenum” dos Stars of the Lid foi agora reeditado pela Kranky. A versão anterior, na Sub Rosa, não estava capaz?

Adam Wiltzie – Não, apenas estava descontente com a editora. A Sub Rosa fez um trabalho horrível e devem-me uma quantidade de dinheiro. É inegável que editaram uma série de bons discos mas as suas práticas financeiras deixam muito a desejar. Trabalhar com a Kranky é um prazer. São incrivelmente organizados e recebo pagamentos duas vezes por ano.

FM – Trabalhou em estreita colaboração nos vídeos com Christina Vantzos?

Adam Wiltzie – Nalguns casos a música já estava escrita, noutros aconteceu o contrário. Embora Christina tenha feito a maior parte da montagem, fui que fiz, por exemplo, a animação das mãos a tocarem piano, em “Aegina airlines”. Funcionou melhor assim do que se fossem dois músicos ou dois artistas de vídeo, cada um tem um bom conhecimento da especialidade do outro. Foi fácil, demorámos apenas nove meses a criar todas as imagens.

The Dead Texan + Phoebius
Lisboa | Galeria Zé dos Bois, R. Da Barroca, 59. Hoje, às 23h. Tel. 213430205. Bilhetes a €7,5.
Porto | Teatro Passos Manuel, Sáb., às 24h. Bilhetes a €7,5.

Maria Ana Bobone Lança “Senhora Da Lapa” De Noite, Na Igreja – Entrevista –

29.01.1999
Maria Ana Bobone Lança “Senhora Da Lapa”
De Noite, Na Igreja

Em “Luz Destino”, Maria Ana Bobone fazia flutuar a sua voz entre o cravo e as entoações barrocas de João Paulo Esteves da Silva e a guitarra portuguesa de Ricardo Rocha, na nave de uma igreja abandonada. Os três voltaram ao mesmo local, trocaram de posições e o resultado é “Senhora da Lapa”, verdadeiramente o álbum de estreia da cantora. Clássico, ideal para meditar, assombrado pelos ecos da noite.

Maria Ana Bobone vem do fado, sente como enraizadamente portuguesa a música que canta e não esconde o desejo de, um dia, gravar um disco inteiro com reportório clássico. “Senhora da Lapa”, editado com o selo M.A. (uma espécie de variante, mais romântica, da ECM), leva mais longe o gosto pelo intimismo e pela religiosidade que já despontava em “Luz Destino”. A par da voz, brilham as palavras de Fernando Pessoa e de Sebastião da Gama. O PÚBLICO conversou com a cantora.

FM – Em “Senhora da Lapa” os intervenientes são os mesmos, mas a hierarquia mudou…
MARIA ANA BOBONE – Resolvemos, desta vez, fazer um disco meu. Era suposto ser um disco de “lullabies” [canções de embalar], mas acabaram por ir surgindo outras músicas diferentes. Tudo isto porque o Tod [director da editora] achava que a minha voz era a ideal para cantar esse tipo de canções. Podia ter alguma graça fazer um disco desses… Mesmo assim há algumas semelhanças em canções como “Jesus embala o Menino” e “Luar”, que parece uma música infantil e depois se complica, à maneira do seu autor, o João Paulo…
FM – Está a cantar cada vez mais próximo de um certo registo clássico…
MARIA ANA BOBONE – Se tivesse de catalogar o meu estilo era, sem dúvida, mais para o clássico, embora entre aspas, entre muitas aspas…
FM – O fado ficou definitivamente para trás?
MARIA ANA BOBONE – Acho que não. A música deste disco é muito portuguesa, tem algumas raízes no fado. Mas é verdade que quis sempre explorar outros caminhos. As canções deste disco não são, de todo, fados, mas sinto nelas essa portugalidade. Deve lá haver qualquer coisa na estrutura…
FM – A quem se deve a escolha dos poemas, entre os quais sobressaiem dois de Sebastião da Gama, incluindo as duas versões do título-tema?
MARIA ANA BOBONE – Andámos, o João Paulo e eu, a vasculhar em alguma material que ele já tinha feito. “Senhora da Lapa” foi feita de propósito para o disco, assim como o outro poema de Sebastião da Gama, usado em “ABC”.
FM – Sentiu particular prazer em cantar algum dos poetas que aparecem no disco?
MARIA ANA BOBONE – Talvez o Fernando Pessoa, em “Flux”, bem como a Maria Pimentel Montenegro, em “Dos teus olhos”.
FM – Como se processou a transição de uma posição secundária, em “Luz Destino”, para o protagonismo de “Senhora da Lapa”?
MARIA ANA BOBONE – O outro disco não era um disco meu! Eles já tinham feito o disco todo e chamaram-me à última hora para cantar. Fui apenas mais um instrumento. Neste disco, pelo contrário, foi tudo moldado a mim. Eles compuseram e tocaram para mim. Daí as tais canções de embalar que eles também achavam muito paropriadas para a minha voz.
FM – Quer dizer que, pelo menos nesta primeira fase da sua carreira, ainda não detém o controle sobre a orientação estética a seguir?
MARIA ANA BOBONE – Não tenho muito, não! Se fosse eu a escolher exactamente o que queria, seria eu sozinha a fazer o disco! Não tenho controle no sentido em que respeito a personalidade e opções dos outros músicos. É um bocado: ‘Olhem, eu sou isto, o que é que queres, o braço, a perna, o joelho ou o pé?’ Posso perfeitamente não escolher o pé!… Quer dizer que não canto tudo o que me puseram à frente. Aliás havia, à partida, algumas canções com que não me identificava. Daí que o disco tivesse demorado algum tempo a sair [um ano e meio]. Porque quis acrescentar-lhe mais duas ou três músicas mais mexidas: “Hortelã-mourisca”, “Ternura” e “Espelho quebrado”, que é um fado. Achava o alinhamento original todo muito igual, lento, embora, claro, este não seja um disco para dançar, mas, pelo contra´rio, um convite à reflexão, à interiorização.
FM – A presença, no disco, de um saxofonista, Peter Epstein, não deixa de fazer lembrar outra colaboração, muito antiga, entre uma fadista e um saxofonista: Amália Rodrigues e Don Byas…
MARIA ANA BOBONE – É uma mera coincidência. O saxofonista aparece porque já tinha gravado com o João Paulo num disco dele, instrumental, chamado “Mergulho”. O Tod Garfinkle, da editora, resolveu misturar no meu disco o saxofone, até porque o Peter já manifestara antes o seu apreço pela minha música. Adaptou-se lindamente ao “feeling” do disco.
FM – Prefere ouvir-se a si própria a cantar fado, acompanhada por guitarras e violas, ou neste tipo de reportório, acompanhada por piano?
MARIA ANA BOBONE – Ouço-me a mim própria de uma maneira que só eu conheço. Ninguém mais sabe. Sinto-me bem das duas maneiras. Mas, muito mais do que uma casa de fados, gosto do ambiente de uma igeja, como aquela onde gravei este disco, onde as condições acústicas são fabulosas.
FM – Em que altura e em que condições é que foi gravado o álbum?
MARIA ANA BOBONE – Foi espectacular! Já com o “Luz Destino” senti a mesma sensação, de estar numa igreja grande e vazia, à noite, à uma da manhã, com tudo fechado, silêncio lá fora, só com umas luzinhas acesas. Eu cantava mesmo de frente para o altar, com o gravador em cima do altar. É uma sensação única, poder cantar à vontade, soltar tudo! Fabulos!
FM – Ainda canta em casas de fado?
MARIA ANA BOBONE – Nunca cantei, por sistema, em casas de fado. Tenho algumas saudades, mas a verdade é que o meu actual estilo de vida – tenho aulas de canto de manhã e dou aulas de música, à tarde, num colégio particular – não mo permite. Com o tempo que me sobra, trato da minha carreira.
FM – Emancipou-se, então, em definitivo, do grupo de fadistas de que fazia parte com outros jovens fadistas, o Alma Nova?
MARIA ANA BOBONE – Isso já é, completamente, história. Claro que, se o João Braga me convidar para um espectáculo, eu vou com todo o gosto e alinho. Eu já gravei, já fiz, já andei mais do que os outros, mas há sempre uma relação.
FM – O contrato com a M.A. prevê a edição de mais discos?
MARIA ANA BOBONE – Vou dizer uma coisa fantástica: não existe nenhum contrato! [Risos.] É tudo feito na base da boa-fé. O Tod gosta da kinha música, a editora paga-nos, tem sido tudo impecável. Nunca vi isto em mais lado nenhum. E não há exclusividade. A qualquer momento posso decidir outra coisa qualquer. É um bom recado para as editoras. Acho que é a maneir amais honesta de trabalhar. Se não estiver satisfeita, ou a editora não estiver satisfeita, acabamos a relação. O que obriga ambas as partes e esforçarem-se para se aproximarem.
FM – Já pensou alguma vez em gravar um disco só com reportório clássico?
MARIA ANA BOBONE – Sim, já me passou pela cabeça. Mas ainda não estou preparada, nem conheço reportório suficiente. Era mais por achar graça, não como estilo de vida. Tenho uma personalidade um bocado instável. Gosto de fazer várias coisas, de não me prender a uma só.