Arquivo mensal: Março 2010

Rão Kyao viaja em “Navegantes” – Entrevista –

23.01.1998
Rão Kyao viaja em “Navegantes”
Bambu E Especiarias

Foi-se o fado, mas as ondas do mar continuam a empurrar Rão Kyao na direcção de uma música cada vez mais ampla e com mais espaço para respirar. Em “Navegantes”, o seu novo álbum, a flauta de bambu dança com as vozes, um saltério e uma secção de cordas. Índia, Jamaica, Arábia, Portugal olhado do Oriente. Mapa de uma viagem interior atenta ao sopro dos mestres e do mundo.

LINK (En-Cantado, 2009 – Parte 1)
LINK (En-Cantado, 2009 – Parte 2)

“Navegantes” é um álbum acústico em que Rão Kyao desenha as cores do que ele próprio chama o “uno no múltiplo”. Uma espécie de espectáculo ao vivo da alma do músico, inspirada no movimento das águas e na sabedoria de um dos mestres indianos da flauta, Hariprasad Chaurasia.

FM – “Navegantes” recorre a uma quantidade de meios técnicos e humanos pouco habitual nos seus discos. trata-se de um alargamento da sua visão musical ou de algo mais?
RÃO KYAO – Há, efectivamente uma mudança. Gravar um novo disco, só por gravar, não fazia sentido. É uma ideia que já tinha com o Luís Pedro Fonseca [produtor e arranjador do álbum], de apresentar um disco basicamente acústico, uma direcção que quero aprofundar cada vez mais, bem como uma utilização orquestral, algo que já havia feito antes, mas de uma forma ligeira.
FM – Afirma na capa que este disco é “uma viagem interior”.
RÃO KYAO – Um dos títulos que cheguei a ponderar muito para este disco, só que não consegui reduzi-lo a uma palavra, era “o uno no múltiplo”. a unidade da expressão musical manifestada através de certas experiências que me são intímas. Essa viagem interior passa por vários pontos que são, no fundo, o meu legado musical, a minha espiritualidade musical. É um tipo que está a navegar, navegação no sentido interior.
FM – Uma viagem sob o signo das águas…
RÃO KYAO – Águas, porque é, de todos os elementos, o mais associado à própria sonoridade da flauta de bambu.
FM – “Navegantes” navega explicitamente nas águas da “world music”. Na contracapa aparece mesmo o rótulo “rare things from Portugal”. Uma aposta para o estrangeiro?
RÃO KYAO – Espero que sim. Interessa-me alargar o meu mercado o mais possível. Parece-me que há um interesse, lá fora, por este tipo de música, não só por ser “world music”, mas por um tratamento natural dos sons. “Navegantes” é quase um disco de rua.
FM – “No balanço” tem por base um ritmo reggae…
RÃO KYAO – É uma coisa de rua. Um aceno a um ritmo de que gosto muito e que se tornou internacional. É um tema que temos vindo a tocar ao vivo, que confere à música uma coloração muito festiva.
FM – A música árabe aflora em “Arab”.
RÃO KYAO – Isso é mesmo, abertamente, um aceno aos nosso amigos árabes, cuja música constitui para mim uma grande influência.
FM – Depois há a música indiana. O mais interessante é que, para além dos temas em que esta música assume, de forma inequívoca, esta influência, ela está presente, de forma mais subtil, nos temas que tomam por base a tradição portuguesa. Isso nota-se, por exemplo, nas interpretações vocais. Até a convidada Filipa Pais soa algo indiana quando canta uma canção como “Na vindima”…
RÃO KYAO – Acho giro que diga isso, embora talvez não gostasse de vê-lo escrito, poderia soar a uma pretensão absurda da minha parte…
FM – não é uma crítica, antes pelo contrário…
RÃO KYAO – Pois, a nossa música, através de todas as suas formas, tem realmente esse aspecto. Digamos que eu, ao interpretá-la, vou mais para esse lado. É algo que me é íntimo. Uma música que, sendo portuguesa, tem essa costela mais desértica, no sentido daquela sonoridade que vem da Índia.
FM- “Oca” e “Ecos tribais” são exercícios solitários, respectivamente na ocarina e na flauta de bambu, onde recorre à técnica de “multitracking”. Um desejo de interiorização mais abstracta?
RÃO KYAO – São as tais viagens. Se assistir a um espectáculo meu, seria incompleto não aparecer esse aspecto… Não é só o “multitracking”, mas a maneira como se joga com a sonoridade e as possibilidades do instrumento. A flauta pode ser vista de uma forma percussiva, de uma forma cantada, de uma formaencantatória… Os “Ecos tribais” têm um aspecto ritualizado…
FM – Nunca tinha tocado ocarina antes, nos seus discos. Trata-se de experimentar diferentes tipos de respiração, no sentido mais lato deste termo?
RÃO KYAO – Sim. Tenho várias maneiras de desenvolver as técnicas de respiração. Por exemplo, estou a introduzir, lentamente, a utilização da respiração, da sua sonoridade, pelo nariz, como um ritmo alternado à flauta. Uma das cosias que a música tem que ter é uma boa respiração. Num músico de sopros essa respiração é-lhe naturalmente dada pelo facto de ter que respirar.
FM – Também toca, pela primeira vez, em “Lençóis de trigo”, um saltério, que nem sequer é um instrumento de sopro…
RÃO KYAO – Utilizo-o apenas para obter um determinado tipo de ressonância.
FM – E canta muito neste disco…
RÃO KYAO – É uma coisa que tenho andado a fazer nos espectáculos ao vivo. Pensando bem, este disco é como se fosse um espectáculo meu ao vivo. Uso a voz de uma forma onomatopaica que não pode ser escutada separada da flauta.
FM – A espiritualidade que ressalta da sua forma de tocar fez-nos lembrar o flautista indiano Hariprasad Chaurasia. Conhece a sua música?
RÃO KYAO – É um grande amigo meu! Coneci-o na Índia, onde estive muitos anos a estudar flauta, numa altura em que eu tinha arranjado emprego a tocar em filmes indianos. Tornámo-nos amigos. Sou fã dele e reconheço-o como uma influência muito grande na minha música.
FM – E Stephan Micus, outro músico que me parece cada vez mais próximo de si?
RÃO KYAO – Esse já pelo aspecto do conceito. É um músico que já chamo de “vanguarda”, no sentido de ir à frente, de ver a música com outra profundidade e de abrir novos caminhos…
FM – Trata-se de alguém cuja música está muito ligada aos elementos e que, inclusive, já tocou em pedras e em vasos. Sente também essa ligação forte com a Natureza?
RÃO KYAO – É um dos aspectos que sempre me fascinou. Nunca quis tocar uma flauta transversal, metálica. A flauta de bambu sempre representou a minha aproximação a um elemento natural.
FM – Considera-se um músico de fusão?
RÃO KYAO – O termo só me desagrada por achá-lo exagerado. Ou seja, não como frango por ananás. A fusão só faz sentido, ou concordância, ou consonância, na ligação de estilos. Se formos a ver, toda a música que tem uma raiz funa no mundo nasceu de uma fusão. O jazz, por exemplo, é uma música completamente de fusão, no entanto tem uma característica própria. E a nossa própria música tradicional – mais fusão é impossível… Há, realmente, coisas que surgem e se mantém pelo tempo, criam uma raiz e dão frutos de fusão. Mas, ao mesmo tempo, sou um músico que pensa muito emtermos de uma m´suica de raiz, há aqui uma bipolaridade. O maior músico é aquele que tem uma raiz muito profunda, mas, ao mesmo tempo, está sempre aberto a encontros.
FM – Como e quando é que vai levar “Navegantes” para a estrada?
RÃO KYAO – Vou levar os músicos todos. O início da digressão pelo país vai ser no próximo dia 3 de Fevereiro, no espaço Roma, em Lisboa. O que não quer dizer que vá fazer o mesmo nos espectáculos de província – não é para minimizar, mas não posso andar com 40 músicos atrás. Aí teremos que fazer um apleo aos “samplers”.

Ryuichi Sakamoto Grava Peça Sinfónica – Entrevista

23.01.1998
Ryuichi Sakamoto Grava Peça Sinfónica
O Pomo Da Discórdia

LINK (Parte 1)
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Ryuichi Sakamoto mudou de visual. Deixou crescer a barba e de ser louro, e trocou o ar “chic” da sua última visita a Portugal por uns ténis coçados e um novo álbum debaixo do braço, “Discord”, que irá tocar no nosso país por ocasião da Expo. Entretanto, voltou a estar por cá, para explicar um sonho que teve, sobre a fome em África. À pergunta “o que é que podemos fazer?”, e apesar de ter chamado a um dos seus espectáculos “F”, não respondeu da mesma forma que Abrunhosa. Compôs uma sinfonia.

Depois das versões para piano de câmara de “1996” e dos divertimentos pop de “Smoochy”, Ryuichi Sakamoto atirou-se à escrita de uma grande peça sinfónica em quatro andamentos sobre o tema da salvação. Ou a impossibilidade dela.
Para este japonês diletante – que nos anos 80, com os Yellow Magic Orchestra, fez sombra aos Kraftwerk como o grupo mais technopop do planeta, e nos anos 90 se tem dedicado, sobretudo, a representar e a compor para muitos filmes -, chegou a altura de se preocupar com os grandes problemas que afligem a humanidade. Notícias sobre a fome em África fizeram-no ter pesadelos. Daí que tenha sentido um impulso que o levou a escrever sobre a necessidade de salvação.
“Discord”, o álbum sinfónico resultante, traduz-se numa longa peça intitulada, paradoxalmente, “Untitled 01”, dividida em quatro andamentos. No último, podem ouvir-se mensagens gravadas e reproduzidas em simultâneo com as vozes de Patti Smith, Laurie Anderson, Bernardo Bertolucci, David Byrne, David Torn e DJ Spooky, entre outros. A todos eles Sakamoto perguntou: “O que é que a salvação representa para si?”
Para ele representou um disco cheio e melancólico, onde a inocência da magia amarela (como, antes, a do submarino amarelo) deixaram de ser possíveis. Deram lugar a uma tragédia. Imensamente elegante, como não poesia deixar de ser.

FM – É mesmo verdade que o ponto de partida para a composição de “Discord” foi um sonho?
RYUICHI SAKAMOTO – A ideia inicial, surgida durante a minha digressão de Janeiro do ano passado, genericamente designada por “F”. foi a de fazer orquestrações para as versões contidas em “1996”. Mas acabei por desistir. Tocámos essas canções tantas vezes que acabei por me fartar delas. Fiquei sem saber o que fazer.
Foi então que tive esse sonho, uma noite, que me disse para esquecer essas tais orquestrações, deixar para trás o passado e a escrever uma peça de música completamente nova. Uma peça sinfónica. Foi o que fiz. Corri para o meu estúdio e comecei ma escrever. A orquestra já tinha ido alugada. Tinha mesmo que escrever uma sinfonia. Tive um mês para o fazer. O álbum foi gravado com a orquestra, num concerto ao vivo.
FM – Foi esse sonho que lhe indicou a temática do álbum?
RYUICHI SAKAMOTO – Se tivesse um ano inteiro para pensar no assunto, talvez tivesse sido diferente. Mas só tinha um mês. Era preciso arranjar uma motivação. Como que procurei nos arquivos da minha memória algo que fosse emotivamente forte. acabei por me centrar no sentimento provocado pela leitura de várias notícias sobre o problema da fome em África. Nas minhas reacções a esse problema.
FM – “Discord” pode ser encarado, de alguma forma, como um manifesto?
RYUICHI SAKAMOTO – A base sobre a qual o fiz foi a sensação provocada pela pergunta: “há alguma coisa que eu possa fazer para salvar estas pessoas?”
FM – A música pode fazer alguma coisa?
RYUICHI SAKAMOTO – não, a música não pode fazer nada. O que a música pode fazer é tornar-se numa reacção à realidade, fazer, talvez, as pessoas tomarem consciência dela, ao mundo o que em vivem. E, em consequência, levá-las, por seu lado, a reagir. a música pode ainda ajudar-nos a partilhar os nossos problemas.
FM – E para a pergunta “o que é que a salvação representa para si?”, tem alguma resposta?
RYUICHI SAKAMOTO – Não tenho uma resposta. Não é importante eu dar uma resposta. O importante é cada um tentar responder a uma pergunta que não é simples. Em concreto, o problema passa pela compreensão, nos dias de hoje, da política, com a economia, a indústria e a história. Tudo está comprimido numa única realidade.
FM – “Discord” é um disco religioso?
RYUICHI SAKAMOTO – Talvez espiritual seja o termo mais indicado. Embora não seja praticante de qualquer religião, sou bastante sensível aos problemas colocados por elas. Pensei que as pessoas poderiam ter uma quantidade de opiniões diferentes sobre o problema da salvação. Por isso, fiz a pergunta a uma série delas…
FM – Não deixa de ser curiosa a sua evolução: de uma música materialista e robotizada, como era a dos Yellow Magic Orchestra, para as actuais preocupações humanistas…
RYUICHI SAKAMOTO – Não sigo um caminho linear, ando aos saltos daqui para ali, sou um indivíduo frenético. Provavelmente, serei hoje uma pessoa muito diferente da que era nos anos 80. Embora continue a trabalhar com máquinas, com sequenciadores, “samplers” e computadores. Mas talvez seja necessário recuar às razões que me levaram, desta vez, a compor para uma orquestra. A tal ideia de orquestrar as versões de “1996” partia do pressuposto de utilizar a tecnologia mais sofisticada para captar o elemento mais analógico de todos: o ser humano. O meu próprio corpo estava ligado a um computador que transformava os movimentos em impulsos sonoros e visuais.
No concerto que farei, com base em “Discord”, no próximo dia 11 de Fevereiro, no World Finacial Centre’s Winter Garden, em Nova Iorque [N.R. – com a colaboração de DJ Spooky, The electra String Quartet, o guitarrista David Torn e o violinista Everton Nelson], a tecnologia terá um papel determinante, mas não propriamente musical. Será transmitido em directo pela Internet e as pessoas poderão em casa “aplaudir electronicamente”, transmitindo informação para um ecrã colocado em frente aos músicos da orquestra.
Tornou-se habitual, nos últimos tempos, fazer este tipo de transmissões “cybercast”, em vez do conceito tradicional de “broadcast”. Mesmo em Dezembro do ano passado, em Tóquio, quando toquei absolutamente sozinho, estava rodeado por um enorme aparato tecnológico.
FM – = “man machine” profetizado pelos Kraftwerk?
RYUICHI SAKAMOTO – Sim “the man machine”, uma relação entre o homem e a máquina. Cada vez mais intensa e mais rápida.
FM – Continua a acompanhar as evoluções tecnológicas na área da música?
RYUICHI SAKAMOTO – Sim, mas a maneira como esta tecnologia é usada varia muito, um engenheiro e um músico usarão a mesma máquina de maneiras muito diferentes. O que é útil para um não o é para outro. Há desenvolvimentos tecnológicos que só começarão a ser plenamente aproveitados daqui a um, dois anos. Outros, provavelmente, não terão qualquer utilidade. Trata-se no fundo de uma maneira de expandir a nossa liberdade e criatividade. Como poder trabalhar a partir de músicas antigas ou tradicionais. Os músicos estão sempre “esfomeados”.
FM – Coexistem em si um Ryuichi Sakamoto “tradicional” e outro mais virado para o futuro?
RYUICHI SAKAMOTO – Não tenciono alargar a distância entre esses dois “extremos”, mas continuarei a explorá-los. O mundo não é tão simples como isso – uma simples divisão entre o “velho” e o “novo”. É mais uma coisa tridimensional. É esta tridimensionalidade que tento desenvolver, através da imaginação.
FM – Entre as pessoas que contactou para recolher as respectivas vozes, no último movimento de “Untitled 01”, “Salvation”, o nome de Patti Smith parece um pouco deslocado, entre gente como Laurie Anderson ou DJ Spooky…
RYUICHI SAKAMOTO – Na maior parte das pessoas contactadas, mandei-lhes a pergunta e eles enviaram-me a gravação com a resposta, numa cassete DAT. No caso de Patti Smith, foi diferente. Cruzei-me com ela por acaso na plataforma da estação de comboios de Tóquio, ela estava a fazer na altura, uma digressão pelo Japão. DJ Spooky conhecia-a e foi ele que ma apresentou. Mas a gravação foi obtida por acaso. Tinha comigo um computador portátil e pus o microfone à frente dela.
FM – A propósito de DJ Spooky, continua a interessar-se pela música de dança?
RYUICHI SAKAMOTO – Costumava ouvir muito “hip-hop”, mas agora interesso-me mais pelo “drum’n’bass”. Na verdade, em paralelo com “Discord”, vai ser editado um álbum de remisturas do segundo movimento de “Untitled 01”, “Anger”, na editora Ninja, por vários DJ, que aproveitaram algumas partes retiradas desta peça. Não é bem “drum’n’bass”, é difícil de definir… Mas adoro ouvir todas as remisturas. Mostram-me uma nova direcção: a possibilidade de misturar “breakbeats” com elementos de música clássica.

Ryuichi Sakamoto

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Lászlo Hortobagyi – Ritual Music Of The Formal – Hoot Al-Ganoubi (self conj.)

20.02.1998
Infecção Nas Amígdalas Do Mundo
“A Gayan Uttejak Society oferece-lhe uma viagem imaginária através do Império de Amygdala, no espírito de uma expedição etnomusicológica da mudança do século. ‘Traditional Music Of Amygdala’ é uma ficção musicológica e sociológica com raízes na cultura humana, no que diz respeito à alienação e à morte, envolvidos em rituais e mistérios. ‘Amygdala’ (‘Corpus Amygdaloideum’) deve ser procurado no nosso cérebro: escondido no seu interior encontra-se o comportamento humano, herdado geneticamente, e o sistema institivo formado pela cultura e o meio ambiente.”

A citação, retirada da capa, serve de pórtico de entrada para “Traditional Music Of Amygdala” (9), álbum de estreia (1991) do húngaro Lászlo Hortobagyi – cuja discografia completa surge agora pela primeira vez em Portugal no selo Erdenklang, com distribuição da Megamúsica -, na sequência da colectânea “The Transglobal and Magic Sounds of Lászlo Hortobagyi”, já recenseada nas páginas deste suplemento. Agora é a história completa. Um universo mágico equivalente ao “Senhor dos Anéis” de Tolkien, na literatura, ou ao épico musical/filosófico/linguístico em torno do planeta Kobaia, imaginado por Christian Vander com os Magma.
Lászlo Hortobagyi criou a Gayan Uttejak Society em 1981, em Budapeste, uma organização da qual faz parte um estúdio de gravação e um arquivo de músicas orientais, único existente no Leste europeu. O nome que lhe foi atribuído pelo músico húngaro foi retirado de uma sociedade de músicos hindo-muçulmanos, fundada por V. N. Bhatkande em 1884 e extinta em 1917.
A partir destes pressupostos, em que a teoria e a história se confundem com o sonho, e com estes meios, a viagem torna-se imprevisível. Hortobagyi encara a música étnica como os Residents encaram a música de dança ou os Biota a música electro-acústica. É uma perspectiva desfocada e deformada, um híbrido multifacetado, um mutante alucinatório, com os mesmos contornos trémulos das falsas pinturas de Max Ernst que o próprio compositor pintou algumas das suas obras.
Hortobagyi mistura ritmos tecno com “drones” indianas e cântico gregoriano da Idade Média. Percussões rituais com maquinaria industrial, danças “folk” com sequenciações electrónicas e samplagens ficcionais. “The ritual of Mahãparinirvãna”, “The marg of Excessus”, “The Inanis mantra” e “Hypotaxis” são alguns dos títulos da primeira incursão de Hortobagyi nas circunvalações do cérebro infectado de Amygdala, cuja alquimia sonora não deixa de evocar uma obra como “Zamia Lehmanni”, dos SPK. O livrete inclui a descrição de mitos e fotos (incluindo montagens de arquitecturas tradicionais unificadas num território comum) deste universo, onde os “factos” se confundem com a imaginação.

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)

Os “Anais da Sociedade Gayan Uttejak” prosseguem com “Ritual Music Of The Formal – Hoot Al-Ganoubi” (8), editado em 1994. Aberrações de pedra projectadas em holograma, contra a constelação mítica dos árabes, “Formal – Hoot Al-Ganoubi”, igualmente uma obra esotérica escrita no séc. XII. “Barocous raga”, um dos temas incluídos na colectânea “The Transglobal…”, inclui “música matemática de meditação, segundo uma oração rezada por Sâlâtu Al-Maghribi na mesquita”. A instrumentação inclui tablas digitais e “Tânpurine dream”, executado por Cyb.R.S.-77o. O Coro da Catedral de Yeb Shera Hafizullâh e a orquestra de Cibavit Eros Al-Urmawi e do rasta eléctrico Mirmengül, a par da utilização de “miseclestial metals”, juntam-se em “Geetajürk”, uma cantata turca-barroca ao estilo das tradições Ars Transoxania Rediviva. Mais acessível que “Amygdala”, “Al-Ganoubi” inclui pela primeira vez uma batida tecno em “Awrâd-î-abbá thulie2.
Não é tão confuso como parece. Em cada um dos seus trabalhos, Hortobagyi recicla músicas, técnicas, estilos e tradições reais, do Ocidente e do Oriente, de localização e proveniência explícitas, como a cantata, o “concerto”, a raga indiana, o “taqasim” árabe ou o cântico gregoriano, para chegar a algo que oscila entre o pesadelo, a hipnose e o encantamento. Imaginem os sons, todos os sons, compilados pela dupla Roberto Musci/Giovani Vennosta, concentrados numa ideia totalitária elaborada por um homem só.
Segundo a mesma lógica, o capítulo seguinte dos Anais, “The Arcadian Collection”, faz a conversão da Idade Média, plasmando-a, ainda, na Índia e nos países árabes, como são percebidos por Lászlo Hortobagyi num tema capitular como “Rex Virginium”. Uma colecção elaborada a partir do Departamento de Etnomusicologia de Computadores da Sociedade Gáyan Uttejak. Mais dançável e joagando menos com o efeito surpresa. O fantasma de Demetrio Stratos, dos Area, canta no tema de abertura. Música recomendada para “late night trips” e “trance moments” como se sugere na contracapa.
Orqeustras de gamelão indonésio fazem casamentos contranatura com o canto de monges, cromornas medievais choram em conjunto com os sintetizadores. Um órgão de igreja abre as portas do Paraíso. Ou do Inferno. A solução final para a música do mundo. É a resposta de Hortobagyi ao domínio e expansão das sociedades industriais modernas sobre as civilizações tradicionais, no seu processo de transformação do mundo, expressa nas práticas filosóficas e musicais da sociedade Gãyan Uttejak.
“todas as culturas tradicionais que são estranhas à tecnologia ocidental”, diz Hortobagyi, “estão condenadas à extinção.” O paradoxo, que se confunde xom a própria essência da arte total deste húngaro visionário, é o mesmo que, em termos civilizacionais, se traduz na exclusão das tradições ancestrais da macrocélula pancultural, dominada pela informação, na qual, a curto prazo, se transformará o planeta. A pluralidade exclui a diversidade. Ou transforma-a em modelos de consumo, imagens cutâneas de movimentos da alma e do mundo que se perderam.
Lászlo Hortobagyi devolve-nos o Apocalipse sob a forma de entretenimento, mas também de uma ironia cerrada a par de uma genuína manutenção das fórmulas tradicionais. O seu trabalho é o da preservação através da ocultação e da deformação. Subversão estética de características absolutamente idênticas Às do método paranóico-crítico seguido por Salvador Dali. Nesta medida, Lászlo Hortobagyi é um surrealista de pleno direito (não estão lá por acaso as tais pinturas ernstianas…) e toda a sua obra é uma emanação sistematizada do inconsciente.
A “6th All-India Music Conference” (8), que constitui o álbum seguinte, de 1995, nos seus híbridos – agora de conteúdo já plenamente perceptível a partir de títulos como “Russian chakra” ou “Ragamelan” -, avança um novo passo nessa renovada sistematização do realismo fantástico. Trata-se, desta feita, de uma selecção de temas de “música indo-europeia”, seleccionadas da … de uma série de apresentações ao vivo de música clássica indiana. Como seria de esperar, o disco foi inteiramente gravado nos estúdios Ayan Uttejak, soando a tudo menos a música indiana e saindo reforçada a componente electrónica. Klaus Schulze leu Rabindranath Tagore sob os efeitos de LSD ao som e uma ópera de Verdi.
“Terra Dei” (7), quinta estação dos Anais, sugere, na apresentação, um disco de música antiga, mas é o seu oposto, genuína etnotecno do fim dos tempos, ainda uma alucinação cuidadosamente contextualizada, no âmbito de uma incursão psíquica sem precedentes na música popular deste século. Música da luz, música da Idade das Trevas, “Terra Dei” mergulha-nos na dúvida, fazendo tábua-rasa das nossas percepções e deitando por terra todas as ideologias. Fuga e transcendência. “Hemis – mela”, é um “cerimónia de cogumelos dos seres de Zeta Reticulum” e os quinze minutos finais de dança de baixas frequências cerimoniais de “Trance Macabre” avançam através de vozes sintonizadas na miragem de um “acid choral”.
“Terra Dei”, para dançar nas pistas dos piores pesadelos tecnológicos, converte a lógica dos Enigma no contexto do sagrado. É o álbum de um falso deus criado pelo homem e, nesta perspectiva, um deus para quem “a coisa mais maravilhosa é a destruição. Uma arte sinónimo de alienação da espécie humana e da sua consciência postiça condicionada artificialmente”. Por isso, acrescenta Hortobagyi, a música de “Terra Dei”, “apesar de pretender ser um êxodo espiritual de um mundo que se tornou inabitável”, é também “uma reflexão cheia de esperança” sobre esse mesmo mundo, um “mundo que já não é igual ao originalmente criado mas um mundo esmagado”.
Lászlo Hortobagyi aconselha a perdermo-nos e a encontrarmo-nos “na ficção e na realidade”. O difícil é sair de lá.