Arquivo mensal: Março 2010

Camané Lança Segundo Álbum “Na Linha Do Fado” – Entrevista –

20.02.1998
Camané Lança Segundo Álbum
Na Linha Do Fado
“O Fado retrata a vida como ela é, de uma forma muito profunda”. Por isso, “Na Linha da Vida”, segundo álbum do fadista, é o mesmo que dizer “na linha do fado”.

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“Na Linha da Vida” sucede a “Uma Noite de Fado” na carreira de
Camané, um jovem fadista que faz do fado profissão de fé. Fados tradicionais, composições de José Mário Branco, José Luis Gordo, João Fereira-Rosa e textos de Fernando Pessoa, Antero de Quental e Manuela de Freitas contribuem para a renovação de um género, com “espírito” e “sabor” próprios que vivem da “comunicação” e da “interpretação”.

FM – O que fez no intervalo de dois anos entre o disco novo e o antigo?

CAMANÉ – Canto no Senhor Vinho. Entretanto, tenho feito espectáculos, no país e no estrangeiro, em festivais de música como o de Granada, na Holanda, em França, em Vigo…

FM – Prefere cantar numa casa de fado ou num desses espectáculos de maiores dimensões?

CAMANÉ – É muito importante cantar-se o fado numa casa de fados. Há coisas que aprendo nos espectáculos, mas continuo a preferir as casas de fado. No fado não há escola; então, nas casas de fado, como tenho oportunidade de cantar lá quase todos os dias, vou descobrindo aspectos novos na forma de cantar.

FM – À semelhança do que aconteceu com o anterior “Uma Noite de Fado”, a produção volta a estar a cargo de José Mário Branco.

CAMANÉ – Ele é uma pessoa muito musical que sabe separar muito bem as coisas. E sabe também que o fado é uma música espiritual. Uma maneira diferente de estar na música.

FM – Um dos temas, “Sopram Ventos Adversos”, da autoria de José Mário Branco e Manuela de Freitas, tem uma sonoridade diferente do todos os outros. É quase new age…

CAMANÉ – Aí gostei muito da letra, como já tinha gostado de ouvir o tema no disco do José Mário, o “Ser Solidário”. Para o meu disco o José Mário fez um arranjo diferente para guitarra, viola e contrabaixo. Não é fado mas canto como se fosse, com a inha maneira normal de entoar.

FM – E o que é ser fadista?

CAMANÉ – É uma maneira diferente de cantar a vida, a vida portuguesa. Não é uma coisa racional. Nunca me consegui sentir bem noutro tipo de música. O fado é a música que interiorizei desde miúdo, desde o s dez anos. Conheço todos os fados tradicionais que existem, às vezes não me lembro dos nomes, mas basta dizerem-me a primeira frase para me vir a música. Estão cá dentro. Não me reconheço em mais lugar nenhum a não ser no fado.

FM – Quis dizer alguma coisa quando escolheu para título do disco “Na Linha da Vida”?

CAMANÉ – Este título surge na sequência de uma série de espectáculos que tinha feito no Inatel. “Na Linha da Vida” é “nalinha do fado”.

FM – Linha da vida é também, na quiromancia, a linha do destino… Acredita na fatalidade?

CAMANÉ – Acho que o destino somos nós que o fazemos diariamente, a forma como a gente vive no dia-a-dia, que se pode reflectir no futuro.

FM – É uma pessoa triste?

CAMANÉ – Sou uma pessoa normal, nem muito triste nem muito alegre. Aliás, ou sou muito triste, ou sou muito alegre! O fado é falarmos da tristeza de uma forma que nos emociona. Aprendemos com isso: falar das coisas tristes é uma maneira de as deitar cá para fora, de exorcizá-las. É uma maneira de as pessoas crescerem.

FM – Nos tempos que correm, acha que o fado é uma música que toca nas gerações mais novas?

CAMANÉ – Nas casas de fado onde canto vai muita gente nova. Muitas vezes só para curtir… Mas são as pessoas que há. Não tenho muitas ilusões quanto a isso. É o sítio onde é necessário haver gente nova a cantar, é mesmo o único sítio onde as pessoas novas podem começar a cantar fado. Mas sinto muitas vezes é que o fado deixou de fazer parte da vida das pessoas, as pessoas já nõ crescem com essa vontade, têm outras energias e se calhar querem ouvir outro tipo de música.

FM – Acha que um fadista como o Paulo Bragança segue pelo caminho certo, no sentido de levar o fado às gerações mais novas?

CAMANÉ – O fado tem um espírito, um sabor que não se pode perder. Toda a emoção do fado é de dentro para for a. A maneira de cantar do Paulo para mim é fado. Tem a voz e a alma de um fadista.

FM – Fala-se na crise do fado. Não será melhor falar de uma crise de fadistas?

CAMANÉ – Sim, não há fado sem fadistas. O fado vive da comunicação, da interpretação, da capacidade criativa das pessoas que o cantam. Há várias opções musicais quando se quer meter um texto numa melodia de fado; interessa é escolher o melhor caminho com coerência e com alma.

FM – Qual é o seu caminho?

CAMANÉ – Escolher a partir da musicalidade das palavras, que são mais importantes do que tudo, mais importantes do que eu a cantar. É um processo que às vezes demora muito tempo. Os poemas da Manuela de Freitas, neste disco, são uma coisa complicada, dexcobrir o que é que liga e o que não liga. Interessa é que seja um processo natural. Não vou forçar as palavras numa música. Todo este disco já tinha sido cantado várias vezes nas casas de fado, embora talvez não tantas como eu gostaria, porque estive afastado delas durante algum tempo. Os fados que estão aqui gravados hoje já não os canto da mesma maneira.

“Feeling” Para A Festa – David Byrne – Entrevista –

13.02.1998
David Byrne Actua Amanhã No Porto E No Domingo Em Lisboa
“Feeling” Para A Festa

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David Byrne regressa este fim-de-semana às salas nacionais, a meio da sua digressão “Feelings”. Com uma “big band” virtual a garantir tempo de festa. Entre um novo disco de remisturas com edição privada e um próximo dueto com Caetano Veloso, prepara-se para fazer sair na sua Luaka Bop um álbum do angolano Waldemar Bastos. Paulo Bragança é que terá que esperar. O antigo mentor dos Talking Heads não gostou do novo dos Radiohead. Sobre os Tortoise diz que fica “à espera que apareça o vocalista, só que não aparece vocalista nenhum…”.

Uma banda de cinco músicos de variadas proveniências e estilos e uma quantidade apreciável de “samplers” garantem a diversidade de uma festa antecipadamente prometida. Foi, entee outras coisas, o que explicou ao PÚBLICO David Byrne, apreciador do fado, da comida portuguesa, da música de Björk e de “conversar e beber à mesa com os amigos”.

FM – O que está a fazer actualmente: cinema, fotografia, algum disco novo?

DAVID BYRNE – De momento, tudo o que existe de novo é um álbum de remisturas de canções minhas, por pessoas como DJ Food ou dois tipos de Washington D.C., dos Thievery Corporation, e que só se encontra à venda nos concertos. Também fiz um espectáculo de fotografia, na sequência da exposição que apresentei em Lisboa há dois anos. Agora essa exposição cresceu até se parecer mais com uma instalação, com som e luzes. Estou a negociar a sua apresentação em Trieste e em Munique. Depois de ter estado em Madrid, seguirá talvez para Sevilha. Em Lisboa só se houver alguém interessado…

FM – Por falar em discos, o que se passa com o álbum de Paulo Bragança, que até há bom pouco tempo era muito badalado, para a sua editora Luaka Bop?

DAVID BYRNE – Em primeiro lugar, ele foi obrigado, por razões contratuais, a gravar um álbum para a sua antiga editora, com material tradicional. Neste momento, cabe-lhe a ele decidir sobre a direcção musical que pretende seguir no próximo álbum. Tanto quanto percebi, ainda não decidiu nada. Por outro lado tem sido difícil para nós fazer chegar a sua música às pessoas, não sei bem porquê. Gosto dos seus discos mas, para dizer a verdade, tem havido problemas. Para algumas pessoas e sua música não é suficientemente tradicional. Para outras, pelo contrário, é demasiado tradicional, não é pop…

FM – Quais são, então, as próximas edições da Luaka Bop?

DAVID BYRNE – Waldemar Bastos, que também vive em Lisboa. A gravação já está completa. Também temos um disco de um grupo da Venezuela, Los Amicos Invisibles, com música de dança, “funk” e “disco” misturados com “salsa”.

FM – Depois de ter participado em “Red, Hot & Rio” irá colaborar no próximo “Red, Hot & Lisbon”…

DAVID BYRNE – Já tinha uma canção para esse disco em que utilizava um “sample” de Caetano Veloso que não havia meio de chegar a uma forma definitiva. Foi então que alguém sugeriu que trabalhássemos os dois juntos e já começámos a trabalhar nesse sentido. Já gravei algumas partes em Nova Iorque e hoje mesmo recebi um “e-mail” dele a dizer-me que vai entrar em estúdio.

FM – Também está prevista a sua colaboração na Expo-98 que abrirá em breve em Lisboa. Pode adiantar-nos pormenores sobre o que tenciona fazer?

DAVID BYRNE – Prefiro não falar nisso por enquanto. Ainda não existe nada de concreto sobre essa matéria.

FM – Escreveu o prólogo para uma biografia sua da autoria do português José Manuel Simões, a lançar em breve, onde se refere à melancolia, à comida e aos sentimentos dos portugueses. Por outro lado é conhecida a sua admiração pela cultura brasileira. Afinal o que o atrai mais na língua portuguesa e nos portugueses?

DAVID BYRNE – Em primeiro lugar, a música, o som da própria língua quando é cantada, e um tipo especial de melodias. Foi por aí que fiquei apanhado. Mas há outras coisas que me atraem em Portugal, como a comida. Durante muito tempo era impossível comer comida portuguesa em Nova Iorque. Hoje já não é assim.

FM – A sua música é, em geral, bastante rítmica. No entanto gosta de fado, não é verdade?

DAVID BYRNE – A minha música não tem necessariamente de soar como a música de que gosto. Mas é possível que o fado exerça alguma influência sobre determinadas melodias que componho…

FM – Que tipo de concerto apresentará nos próximos espectáculos de Lisboa e do Porto?

DAVID BYRNE – Vai ser tempo de festa! Com uma banda pequena, mas montes de “samplers”, por isso soará como uma “big band”, com músicos virtuais! Músicos reais, serão apenas cinco. É uma mistura estranha de músicos de discoteca e de clubes (atenção, é preciso esclarecer que a cena dos clubes em Nova Iorque não se esgota na música de dança, há muita gente a fazer coisas experimentais com electrónica ou a tentar criar determinados ambientes…), com um músico de “country” que toca “pedal steel” e um baixista da Jamaica.

FM – Nunca mais voltou a tocar com nenhum dos seus antigos companheiros dos Talking Heads?

DAVID BYRNE – Não, já não os vejoa há cerca de dois, três anos…

FM – Que tipo de música anda a ouvir neste momento? Que discos? Alguma banda nova o entusiasma particularmente?

DAVID BYRNE – Estou sempre a ouvir coisas novas, às vezes música da minha própria editora. Gosto do disco de Finley Quaye, um cantor inglês de “reggae”. Dos Radiohead não gostei nada, comprei o álbum, ouvi-o duas vezes, mas não me diz nada. Pelo contrário, gosto imenso do novo da Björk.

FM – A cena pós-rock de Chicago diz-lhe alguma coisa?

DAVID BYRNE – Refere-se aos Tortoise? Têm coisas engraçadas. Estamos sempre à espera de quando vai aparecer o vocalista só que nunca chega a aparecer vocalista nenhum! Soa como uma canção sem melodia. A edição japonesa com remisturas de temas deles pareceu-me interessante.

FM – No mundo de hoje, onde tudo é permitido, onde todas as pessoas fazem todo o género de coisas, ainda é possível ser-se original, fazer-se coisas novas?

DAVID BYRNE – Penso que as pessoas estão sempre a interrogar-se sobre essa questão. No meu caso, arranjo sempre maneira de encontra e de encontrar e de fazer coisas que me entusiasmam. Pode não ser novo para as outras pessoas, mas é-o, de certeza, para mim. Às vezes, consegue-se fazer algo que soa como novidade para toda a gente…

FM – E que é que o entusiasma, não só na música como na vida em geral?

DAVID BYRNE – Coisas simples. Como sentar-me a conversar e a beber uns copos com os amigos.

David Byrne

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Entrevista Com Tim E Zé Pedro – Xutos No Lado Escuro Da Lua

13.02.1998
Entrevista Com Tim E Zé Pedro
Xutos No Lado Escuro Da Lua

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Joa quim Leitão ofereceu a sua “Tentação” aos Xutos e Pontapés que não se fizeram rogados. Pegaram na história de amor entre um padre e uma toxicodependente e construíram sobre ela um exercício de espaço e de programações. “The Dark Side of the Moon” de uma das bandas mais rockeiras do país? Não admira, eles andaram a ouvir os Pink Floyd e tiraram daí umas ideias.

Tim e Zé Pedro, voz principal e guitarra dos Xutos e Pontapés, falaram ao PÚBLICO das suas mais recentes aventuras cinematográficas. Depois da banda sonora de “Tentação”, o som do grupo poderá nunca mais voltar a ser o mesmo.

FM – Quando e de quem partiu a ideia para fazerem a música de “Tentação”, primeira ligação dos Xutos ao cinema?

TIM – Foram eles! O produtor Tim Navarro, que se lembrou de nós na sequência do que já tinham feito antes com o Abrunhosa e os Delfins [para o filme anterior de Leitão, “Adão e Eva”]. Devem ter percebido que, colando uma banda portuguesa a um filme português, a coisa funcionava melhor.

FM – Em que base é que compuseram? Viram o filme já completo? Apenas algumas partes? Não viram?

TIM – Groos modo, contaram-nos a história do filme. Lemos o guião para ver que tuipo de história era – uma história da pesada. Meteram-se entretanto pelo meio os concertos no Coliseu. Mais tarde, começámos a receber cassetes de vídeo com excertos da obra. Eram todas fraquinhas, bocados do filme.

FM – Não tinham um aideia geral do argumento?

TIM – Era a introdução, o genérico inical, a cena dos “caldos”… Sempre com uma sensação muito frágil, apenas com base em algumas montagens do trabalho em que os diálogos ainda não estão certos.

ZÉ PEDRO – Começámos a pensar num tema base que poderia, eventualmente, ser repartido pelo filme. Esteve para se “A Voz do mal”, que acabou por ficar na cena de acção do Diogo Infante com o Joaquim de Almeida no túnel. A partir daí, com o Joaquim Leitão, que nos foi dando ideias, sugerindo para tema-base algo mais ambientalista. Por fim ficou, como a grande canção de amor, o “Para Sempre”.

TIM – Depois houve uma fase de trabalho em que preparámos uns dez pedaços de coisas que pusemos à disposição do Joaquim Leitão que colaborou mais de perto connosco até ao fim. Às cinco da manhã acabava as filmagens e começava a discutir a música, cinco segundos aqui, amis dez segundos ali,

FM – Um trabalho de laboratório?

TIM – Coisas de cinema que nós nunca poderemos tocar ao vivo. Como o genérico ou a “Ressaca”. Em que o Kalú tratou das partes rítmicas todas e eu das melodias e das partes vocais.

ZÉ PEDRO – A seguir a essa escolha de alguns segundos de música, entrámos no estúdio para fazer os temas na totalidade.

TIM – Foi um trabalho que nos deu uma outra visão de nós como músicos. Dentro do mesmo tipo de tarefas, mas com outras matérias e meios de trabalho. O Kalú, por exemplo, que stá ligado à bateria, uma coisa física, mostrou que no seu interior tem outro tipo de ritmo que não necessita de ser físico. Cada um criou uma espécie de “alter ego”. Em termos técnicos tivemos que partir de uma base de computador, para podermos fazer a smontagens.

FM – A introdução de “Tentação” exibe descaradamente o som dos Pink Floyd…

TIM – [Risos.] Mas isso foi precisamente uma das referências que eu tive sempre presente quando escolhia as sonoridades, fazer algosemelhante ao que eles fizeram em “La Valée”, esse tipo de ambientes. Como a nossa música habitual é muito directa e rápida, certas coisas não podiam ser encaradas como canções. A linguagem de que andávamos à procura era outra – um ambiente que ligasse com as imagens.

FM – Como é que ouvem agora a música, já completamente integrada nas imagens?
É muito mais forte! Fizemos coisas de que não tínhamos muito a ideia, em termos de imagem, do que iria acontecer. Só depois de vermos o filme é que percebemos algumas das ideias que o Joaquim Leitão já tinha na cabeça.

FM – A partir de “Tentação”, a música dos Xutos poderá mudar ou, pelo menos, seguir métodos de trabalho diferentes?

TIM – O som dos Xutos teve sempre uma dicotomia, por um lado os habituais sete ou oito mesmes de estrada, em que a smúsicas são trabalhadas na altura, para as pessoas ouvirem no momento, e depois os outros meses de estúdio, em que as músicas são feitas para nós próprios. Por vezes torna-se cansativo, sobretudo para mim e para o Kalú, puxarmos sozinhos a carroça, trabalharmos primeiro as bases da música e depois esperarmos pelo trabalho das guitarras. Nas gravações de “Tentação”, com a ajuda das máquinas, foi tudo muito mais interactivo. Na próxima mudança de século as coisas poderão passar a funcionar mais para este lado.

FM – O que é que vos passou pela cabeça quando gravaram a remistura tecno de “Enquanto a noite cai”?

TIM – O Kalú sempre gostou muito de ritmos dançáveis, sobretudo afro, de coisas para poderem ser tocadas em discoteca. Neste tema teve a desculpa certa.

FM – Nos quatro temas cantados, as letras são um bocado simplistas, não acham?

TIM – Minimalistas! Não me preocupei muito com isso. As mensagens que eu queria dar eram muito descritivas das personagens e das suas emoções. “A voz do mal”, por exemplo, pretende mostrar a perseguição que o mau faz à rapariga. O “Para Sempre” é sobre o juramento que eles fazem no final do filme.

FM – Consumada esta experiência, são mesmo apreciadores de cinema?

ZÉ PEDRO – Eu mais do que todos. Principalmente Quentin Tarantino, o realizador mais prá-frentex. E sou coleccionador de bandas sonoras.

TIM – Também gosto imenso de ir ao cinema, mas já não tenho muitas hipóteses de escolha. Por causa dos meus dois putos mais novos, vejo os filmes do Walt Disney todos, no cinema, e depois, outra vez, em casa. [Risos.] Filmes “fétiche”, tenho o “Blade Runner”. Tenho uma cultura cinéfila dos anos 70, o “Amarcord”, esse tipo de coisas.

FM – Aceitariam fazer música para um filme de Manoel de Oliveira?

ZÉ PEDRO – Só se fosse para animar as partes mortas do filme. [Risos.]

complemento
28.02.1998
O Lado Escuro Da Pergunta
Não me cabe a mim defender Manoel de Oliveira nem tão-pouco cerrar barreiras contra o cineasta da moda Quentin Tarantino. O tempo dirá (aliás, não se cansa de provar) quem ficará na história do cinema ou quais os filmes que permanecerão enquanto obras de arte. A qualidade cinematográfica é o sarro do capitalismo.
O que me cabe a mim contestar é a pergunta que o jornalista Fernando Magalhães fez aos dois membros dos Xutos e Pontapés Zé Pedro e Tim, no suplemento Sons do PÚBLICO de 13/2: “Aceitariam fazer música para um filme de Manoel de Oliveira?” E, como seria de esperar, a resposta foi mesmo aquela que se estava à espera: “Só se fosse para animar as partes mortas do filme [risos].”
A ideia de sucesso e a onda do vale tudo fez esquecer aos Xutos e Pontapés o tempo em que lançavam discos como o “Cerco” – provavelmente o melhor álbum da banda – e em que não vendiam mais do que mil unidades. O facto de agora fazerem discos para filmes portugueses com bastante ucesso comercial (com todo o mérito, sem dúvida) não lhes dá o direito responderem apimbalhadamente a perguntas de segunda divisão.
É que, meus caros companheiros da sociedade do espectáculo, já pensaram na resposta que Manoel de Oliveira daria se lhe perguntassem se aceitaria música dos Xutos e Pontapés para um dos seus filmes? Falamos de coisas diferentes, não é verdade? Então para quê misturá-las? O país já é demasiado pequeno para destilarmos ainda mais veneno, e qual é o interesse de conspurcá-lo ainda mais?
P.S. Como curiosidade, posso dizer que ouvi bastante a música dos Xutos e vi grande parte dos filmes de Manoel de Oliveira. Quanto aos Xutos, já não ouço e, em relação aos filmes de Manoel de Oliveira, há uns que gosto e outros não. Aliás, como as laranjas e as cerejas.
Fernando Nunes
Coimbra
N.R. De facto, não há interesse absolutamente nenhum. Não havia necessidade. Sendo assim, retiro a pergunta. As perguntas são o que são. Aliás, como as melancias e as papaias.
Fernando Magalhães

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